Por Pe. Eugênio
Pacelli SJ
(*)
Janeiro chega como uma página em branco,
mas não como esquecimento. O recomeço cristão não apaga o que foi vivido; ele o
redime. Traz consigo a memória das dores, das perdas e das travessias, mas
também a convicção profunda de que Deus continua a agir na história concreta,
exatamente onde a vida pareceu mais frágil. Recomeçar, à luz da fé, não é negar
o cansaço da alma, mas decidir caminhar com ele, confiando que a graça precede
cada passo.
Sob a ótica inaciana, o tempo não é um
inimigo a ser vencido, mas um espaço sagrado onde Deus se revela. Santo Inácio
de Loyola nos ensina a “buscar e encontrar Deus em todas as coisas”, inclusive
nos escombros interiores que carregamos de um ano para outro. O recomeço,
portanto, não nasce da pressa por resultados nem da ansiedade por controle, mas
do discernimento espiritual: escutar o que o Espírito diz ao coração,
reconhecer limites, nomear feridas e permitir que a esperança se organize por
dentro, com realismo, paciência e profundidade.
Não é por acaso que janeiro também é o
mês dedicado à saúde mental. Cuidar da mente é um gesto profundamente
espiritual. Uma fé que ignora o sofrimento psíquico torna-se abstrata; uma
espiritualidade que não acolhe a fragilidade humana perde sua encarnação. O
cristianismo não propõe uma felicidade artificial, mas uma esperança realista,
capaz de conviver com a ansiedade, o luto, o medo e a exaustão, sem
transformá-los em culpa ou fracasso pessoal.
Para 2026, a esperança cristã não se
apresenta como promessa de facilidades, mas como certeza de companhia. Deus não
nos promete ausência de desertos, mas sua presença fiel no meio deles.
Recomeçar é aceitar que a vida segue em processo, que nem tudo se resolve de
imediato e que a saúde da alma também se constrói com pausas, silêncio, oração,
acompanhamento espiritual e ajuda concreta.
Talvez o maior recomeço deste tempo seja
aprender a viver com mais verdade, menos exigência e mais misericórdia consigo
mesmo. Onde há cuidado, há reconciliação interior. Onde há escuta, nasce a
esperança. E onde há esperança, mesmo que pequena, Deus já está trabalhando.
(*) Sacerdote
jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de
Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.
Fonte: O Povo, de 10/01/2026.
Opinião. p.18.

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