Por Evangelista Torquato (*)
A gravidez tardia deixou de ser exceção e
passou a fazer parte da realidade de muitos casais. Motivos profissionais,
estabilidade financeira e mudanças sociais levaram pessoas a postergar o
projeto de ter filhos. No entanto, é essencial compreender como a idade e o
estilo de vida impactam a fertilidade e os riscos genéticos, entre eles a
síndrome de Down, para que decisões sejam tomadas com informação e
responsabilidade.
Do ponto de vista feminino, o avanço da
idade está diretamente relacionado à diminuição da quantidade e da qualidade
dos óvulos. Após os 35 anos, e de forma mais acentuada após os 40, aumenta o
risco de alterações cromossômicas nos óvulos, elevando a probabilidade de
embriões com aneuploidias, incluindo a trissomia do cromossomo 21. Já no homem,
embora a produção de espermatozoides seja contínua, o envelhecimento também
traz impactos importantes, como maior fragmentação do DNA espermático e
alterações genéticas associadas à idade.
O estilo de vida exerce papel fundamental
nesse cenário. Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo,
estresse crônico e noites mal dormidas afetam diretamente a qualidade dos
gametas femininos e masculinos.
Felizmente, a medicina reprodutiva avançou
de forma significativa. Métodos como a fertilização in vitro permitem avaliação
criteriosa dos embriões antes da transferência ao útero. O teste genético
pré-implantacional é hoje uma ferramenta eficaz para identificar embriões
cromossomicamente normais, reduzindo riscos e aumentando as chances de uma
gestação saudável. Além disso, estratégias como o congelamento de óvulos em
idades mais jovens e o acompanhamento individualizado do casal contribuem.
Falar sobre gravidez tardia não é estimular
o medo, mas promover consciência. Informação, planejamento e acompanhamento
especializado permitem que pessoas façam escolhas alinhadas aos seus desejos e
à ciência. A tecnologia não elimina riscos, mas oferece caminhos mais seguros
para quem sonha em formar uma família, mesmo com o passar do tempo.
(*) Ginecologista com atuação em reprodução humana.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/06/2026. Opinião. p. 18.
