terça-feira, 30 de junho de 2026

LEITURAS NO CÉU DA BOCA

Por Izabel Gurgel (*)

Brincamos, entre pessoas queridas, sobre testes de vida que podem ser feitos antes de tocar nossos enterros.

No meu caso, os últimos a serem feitos são simples como dizer até logo no dia-a-dia.

Pertinho do caixão, alguém comenta sobre um livro que está lendo. Fala com o entusiasmo das criaturas doidas por livro e leitura. Vislumbra o outro fruindo da graça de ler o dito cujo citado para, de fato, saber, sentindo, o que um irmão de "A Casa" (Natércia Campos), "Yuxin" (Ana Miranda), "Um defeito de cor" (Ana Maria Gonçalves), "O infinito em um junco - A invenção dos livros no mundo antigo" (Irene Vallejo) pode fazer nas veredas de alguém em estado de leitura, vasto sertão. A pessoa falante arremata o comentário: "Será que a Izabel leu? Não lembro de ter comentado com ela...".

Outra prova pode se dar com a mesma criatura leitora, desde que tenha a fome de viver para quem a gula é promessa de paraíso, uma biblioteca a ser incorporada. Aquela criatura que, saindo da sorveteria do Juarez (a da Barão de Studart), ainda que reconhecendo as mudanças no sorvete dos sorvetes de Fortaleza (e se não mudar, não há como permanecer, sabemos), a tal criatura quer nem que seja só uma mordida do picolé rosa choque avistado nas mãos de uma passante. Não importa se acabou de tomar um ou dois sorvetes, e lembrou do Juarez, ampliando os sentidos do termo presente, abrindo um freezer depois do outro e, de colherzinha na mão, vir ensinar a fazer de cada prova de sabor uma festa no céu da boca. Cajarana, capim santo, cajá tão felizes por encerrar a vida vegetal virando sorvete do Juarez.

Cheia da fome de viver, ao pé do meu caixão, a pessoa convida outra para um café com bolo da Walma Laena, tapioca da Lalá, ou pão de chapa de rua, tão passado que afina e nos faz pensar em papel manteiga. Se for amiga da onça, a pessoa falante vai saber cutucar diretamente a finada, sem vara. Pode citar o bolo de caco cuja lembrança fez Seu Nery - cozinheiro na casa de Arneiroz que ele transformou em pousada - inventar um passeio com a hóspede até o Planalto, na zona rural. Ele dirigindo não só o carro, mas dando ao deus do acaso a vez de manobrar o passeio para chegarem à casa de uns conhecidos bem na hora de festejar o calor da tarde, na calçada alta, com café que a gente precisa soprar antes de tomar. A mãos-de-fada dona da morada na rodagem estava botando na janela a travessa de bruaca de farinha de milho. Reluzia o açúcar com canela.

O outro teste de vida é tocar ou cantarolar "Reconvexo" na voz da Maria Bethânia ou uma canção de Carnaval com letra do Fausto Nilo. Pode ser baixinho.

Nas três provas, se a finada não levantar do caixão, pode tocar o enterro. Está mortinha da silva. E talvez danada por perder a volta do cemitério, entre pessoas muito queridas. Que sabem estar ao redor de uma mesa, ao pé de um balcão, ou em alguma beirada do mundo, olhando o tempo.

Mas tem gente que não sabe brincar.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/05/26. Vida & Arte, p.2.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O legado do XV Consad: governança multinível e as transformações tecnológicas

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A governança multinível refere-se ao sistema que apoia a formulação de políticas e a tomada de decisões entre os governos nacionais, regionais e locais. Quando esses diferentes níveis de governo atuam de forma integrada, as políticas públicas têm maior probabilidade de sucesso, promovendo desenvolvimento em todos os lugares. No Brasil, a expressão é traduzida como governança interfederativa.

O avanço tecnológico tem transformado significativamente as interações entre a Administração Pública e os cidadãos, ampliando tanto a disponibilidade quanto a capacidade de gerenciamento de dados. Esse progresso possibilita decisões mais rápidas, simplifica tarefas cotidianas e viabiliza a prestação de serviços em tempo real, entre outros benefícios.

As discussões sobre governo multinível e transformações tecnológicas nortearam o XV Congresso Consad considerado o maior evento de gestão pública do Brasil e da América Latina. Pela primeira vez, o encontro foi realizado fora de Brasília.

O Ceará sediou o evento entre os dias 20 e 22 de maio, reunindo ministros, prefeitos, especialistas internacionais e mais de 3.100 participantes. Importantes instituições de pesquisa e ensino na área da administração pública estiveram presentes, entre elas, o Insper, a Fundação Getúlio Vargas, a Fundação Dom Cabral, a Universidade de São Paulo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada.

O encontro também contou com uma seção específica destinada aos projetos de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, com a apresentação de iniciativas desenvolvidas pelos estados no campo das transformações tecnológicas.

Pesquisadores de todo o país tiveram a oportunidade de apresentar trabalhos científicos voltados à gestão pública. Ao todo, foram submetidos 1.386 resumos, resultando na aprovação de 400 artigos. O congresso também promoveu palestras com 31 especialistas, entre elas a apresentação "Mulheres em posições de liderança no setor público", conduzida pela ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia.

Com poesia e emoção, a edição histórica do Congresso Consad foi encerrada pelo escritor e poeta cearense Bráulio Bessa. Em uma fala marcada pela sensibilidade, ele resgatou a força de suas origens e destacou a importância da resiliência ao afirmar que, em sua trajetória, substituiu a letra "D" de desistir, pela letra "R", de resistir. Como declamou o poeta:

"Acredite no poder da palavra desistir.

Tire o D, coloque um R, que você tem que resistir.

É uma pequena mudança

Que nos enche de esperança

E faz a gente seguir.

A vida não é tão fácil,

Viver não é sorrir.

A lagarta que rasteja,

Rasteja para evoluir.

Se transforma em borboleta

Depois voa por aí."

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 28/05/26. Opinião. p.17.


domingo, 28 de junho de 2026

ICC recebe equipamento para radioterapia de alta precisão para tratamento contra câncer

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

Equipamento foi entregue pelo Ministério da Saúde, por meio do Programa Agora Tem Especialistas, na tarde dessa terça-feira, 23

O Instituto do Câncer do Ceará (ICC) - Hospital Haroldo Juaçaba passa a contar com um acelerador linear Halcyon, um equipamento de alta tecnologia que realiza radioterapia com mais precisão e rapidez. Além do acelerador, no valor de R$ 7 milhões, outros novos equipamentos estão sendo incorporados pelo hospital.

Equipamento foi entregue pelo Ministério da Saúde, por meio do Programa Agora Tem Especialistas, na tarde dessa terça-feira, 23/06, no ICC, com a presença do secretário de Atenção Especializada à Saúde, Mozart Sales.

Ele explica que precisa ser feito um bunker — uma estrutura de concreto para a radiação — que custa mais R$ 4,5 milhões.

"Também estamos investindo na formação de radioterapeutas, físicos, médicos que são necessários para esse processo. E esse equipamento precisa ter um conjunto de outros equipamentos associados", detalha.

O acelerador linear permite a realização de tratamentos guiados por imagem com maior velocidade e precisão. Com isso, as sessões de radioterapia são mais rápidas e eficientes e o paciente permanece por menos tempo no equipamento.

O sistema permite localizar com exatidão a região a ser tratada antes de cada sessão, garantindo que a radiação seja direcionada ao tumor com máxima precisão e preservação dos tecidos saudáveis ao redor.

Ele explica que unidade também recebeu um PETscan, "que é um equipamento para fazer o rastreio com muita precocidade em relação à possibilidade do aparecimento do câncer ou para identificar o tratamento que foi satisfatório e resolutivo ou se teve uma recidiva em tempo adequado e de maneira muito precoce".

Entre os equipamentos incorporados ao ICC, estão a gama-câmara para medicina nuclear, utilizada em exames que avaliam o funcionamento de órgãos e tecidos por meio da utilização de radiofármacos, e um novo tomógrafo de alta performance.

Há um pleito de um aparelho de ressonância nuclear magnética no ICC. "São dois tomógrafos, seis aceleradores lineares e nós entendemos que uma instituição como essa é muito importante ter um aparelho de ressonância nuclear magnética", afirma Mozart Sales.

Nesta terça, outros dois aceleradores lineares foram entregues pelo ministério em São Paulo (SP) e em Sinop (MT). As entregas fazem parte do Programa Agora Tem Especialistas, que busca reduzir o tempo de espera no Sistema Único de Saúde (SUS).

Fortaleza adota sistema inovador para rastreamento de pacientes com predisposição ao câncer

Na ocasião, foi assinado um Termo de Cooperação para implantar em Fortaleza um sistema inovador voltado para rastreamento de pacientes com predisposição ao câncer. O compromisso foi firmado pelo prefeito Evandro Leitão, com o secretário do MS, Mozart Sales, e com Caio Juaçaba, CEO do Grupo Instituto do Câncer do Ceará (ICC).

O sistema Korina, desenvolvido pelo ICC, fará o cruzamento de dados com o histórico dos pacientes acompanhados na Rede de Atenção Primária à Saúde de Fortaleza.

Por meio dessa integração, será possível identificar moradores com maior risco de desenvolver doenças oncológicas, permitindo o fortalecimento de ações preventivas e o acompanhamento adequado desses pacientes.

A expectativa é rodar o sistema nos próximos meses na Capital e, posteriormente, estender para outros municípios do estado do Ceará.

"Nossa pauta estratégica é que a gente consiga detectar esse câncer mais precocemente através do rastreio junto aos pacientes do município e do estado do Ceará através de inteligência artificial", afirma Caio Juaçaba.

"A identificação desses pacientes para que a gente possa acolhê-los e tratar o quanto antes, para que a gente evite tanto a questão de um maior custo no futuro, como também uma melhor qualidade de vida para esse paciente", acrescenta Riane Azevedo, secretária de Saúde de Fortaleza.

Hospital

O ICC é referência estadual para diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos do câncer

Fonte: O Povo, de 24/06/26.Cidades. p.14.


sábado, 27 de junho de 2026

A ascensão de Jesus e a missão de comunicar a boa nova

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de maio ocupa um lugar especial na vida da Igreja e na devoção popular. Tradicionalmente, é reconhecido como o mês de Maria, tempo em que os fiéis intensificam sua oração mariana, especialmente através do Rosário, e rendem homenagens à Mãe de Deus, modelo de fé e entrega. Ao mesmo tempo, maio é também o mês das mães, ocasião em que celebramos aquelas que, à semelhança de Maria, acolhem a vida, cuidam e se doam com amor silencioso e perseverante.

Mas, neste ano, maio também é marcado pela celebração da Ascensão do Senhor.

"Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado ao céu. Eles, então, o adoraram e voltaram para Jerusalém com grande alegria" (Lc 24,51-52).

A Ascensão de Jesus não é uma despedida, mas a plenitude da sua missão. Ele sobe ao Pai levando consigo nossa humanidade, abrindo para nós o caminho da vida eterna. Ao mesmo tempo, confia aos discípulos (a todos nós), a missão de anunciar o Evangelho "até os confins da terra" (At 1,8).

A cena é marcante: os discípulos olham para o céu, mas logo são chamados a olhar para a terra, para o mundo real, onde devem testemunhar a Boa Nova. A Ascensão nos recorda que comunicar a fé é parte essencial da missão da Igreja.

Não por acaso, a Igreja em sua sabedoria guiada pelo Espírito Santo, escolheu o domingo da Ascensão para celebrar o Dia Mundial das Comunicações Sociais, instituído pelo Concílio Vaticano II. A lógica é clara: assim como os discípulos foram enviados a anunciar, também nós somos chamados a usar os meios de comunicação para irradiar Cristo vivo.

"Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15).

A comunicação é ponte entre pessoas, culturas e gerações. É missão, é serviço, é testemunho.

No mundo atual, marcado por redes sociais, inteligência artificial e algoritmos, a Igreja insiste que comunicar não é apenas transmitir dados, mas preservar a dignidade humana, por isso o Tema escolhido para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais 2026: "Preservar vozes e rostos humanos".

Vivemos em uma era de avanços tecnológicos sem precedentes. O mundo digital nos oferece ferramentas incríveis, mas também nos apresenta um risco silencioso: o de perdermos o que nos torna únicos. Como nos adverte o papa Leão XIV, em meio a tantas vozes sintéticas e rostos gerados por máquinas, a Igreja é chamada a ser a guardiã do encontro real.

Jesus, ao subir aos céus, confiou a missão a pessoas de carne e osso. Ele não enviou conceitos abstratos, Ele enviou vozes que tremiam de emoção, que tinham sentimentos e rostos que manifestavam a alegria do Ressuscitado. A Ascensão nos ensina que a comunicação cristã nunca será apenas técnica; ela é, acima de tudo, a transmissão de uma vida por meio de uma presença humana.

O rosto e a voz são sinais únicos da identidade de cada pessoa. Preservá-los significa não reduzir o ser humano a dados ou figuras sem alma.

Preservar vozes e rostos humanos significa lutar para que a tecnologia nunca substitua o calor do abraço, a verdade do olhar e a singularidade da alma de cada filho de Deus.

Preservar a Voz: Que a nossa comunicação não seja o eco frio de mensagens prontas, mas a voz que consola, que denuncia a injustiça e que anuncia a misericórdia com a ternura que só o coração humano possui.

Preservar o Rosto: Que nas nossas redes sociais e nas nossas pastorais, o rosto do irmão sofredor, do idoso e do jovem não seja ocultado por filtros ou indiferença. Devemos ver Cristo no rosto de cada pessoa que encontramos.

Jesus, o Verbo feito carne (Jo 1,14), comunicou o amor de Deus com sua voz e seu rosto humano. Ele olhou nos olhos, chamou pelo nome, tocou os corações, façamos o mesmo.

A todas as mães, meu fraterno abraço. Deus as abençoe!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


CONVITE: Celebração Eucarística da SMSL - Junho/2026

 

 A Diretoria da SOCIEDADE MÉDICA SÃO LUCAS (SMSL) convida a todos para participarem da Celebração Eucarística do mês de junho/2026, que será realizada HOJE (27/06/2026), às 19h, na Igreja de N. Sra. das Graças, do Hospital Geral do Exército, situado na Av. Des. Moreira, 1.500 – Aldeota, Fortaleza-CE.

CONTAMOS COM A PRESENÇA DE TODOS!

MUITO OBRIGADO!

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas

sexta-feira, 26 de junho de 2026

SONHO DE UM SONO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Sonhos são pajens do sono.

Eu os tenho, você também, mas este me veio de fora e não de minhas entranhas.

“Estava dormindo.

E, quando aquele sopro suave e relaxante do filho de Nix tocou-me as pálpebras, dei-me conta de que eu adentrara uma outra realidade, um mundo etéreo. E devaneios envolveram este meu sonho, que passo a relatar, segredou-me Icelo, um protetor onírico

Eu me vi saindo de casa, em direção à cidade, no mesmo percurso costumeiro, que sempre fazia.

Nesse trajeto, porém, o caminho estreitava-se, parecia-me estar atravessando um beco, em cujas paredes havia cabides e varetas com exposição de várias peças de roupa, como se estivessem à venda. O ‘beco’ não tinha claridade e, antes de passar à frente, de uma porta saiu um moço, o qual ficava a me ofertar as roupas e eu lhe dizia que não as queria.

Ao continuar a caminhar, vi que não estava mais com calça cor palha e uma bermuda verde, como saí de casa, mas vestia uma camisa mostarda e dei-me conta de que havia esquecido a calça. Nisso, percebi que, em meu braço, havia uma calça, uma bermuda e outras peças de roupa, as quais pensei que pertenciam ao moço do beco.

Continuei o meu percurso e, logo, logo, avistei uma casa de pessoas conhecidas e pensei em pedir que alguém pudesse ir devolver as roupas ao homem do corredor, para eu não ter de retroceder meus passos.

Ao aproximar-me da casa, discerni a figura de uma adolescente, que me chamou pelo nome, mas não a reconheci. Todavia, indaguei-lhe se sua mãe estava em casa e, erguendo os olhos, avistei seu pai debaixo de uma árvore, reconheci-o, mas não consegui lembrar-me de seu nome. Mesmo assim, pedi-lhe o favor de devolver as roupas ao homem que me tinha oferecido. Respondendo-me, em voz baixa, não entendi se poderia ou não e resolvi dar continuidade à minha jornada, levando as roupas comigo.

A poucos metros dali, deparei-me com uma pequena trilha, ladeada por mata bastante verde. Parei uns instantes e mirei o espaço. Vi muitas nuvens e delas saindo umas bolhas alvacentas; ao espalhar-se pela amplidão do espaço, assumiam tonalidade escura, agrupando-se entre si. Foi aí, então, onde percebi que algo de muito estranho estava acontecendo: pessoas gritando, dizendo que iam morrer e pedindo socorro, enquanto as bolhas, umas vinham com muita fumaça, e outras rubras, com labaredas e raios de fogo, que caiam também ao meu redor. Tentando livrar-me eu desse fragmentos, servindo-me das peças de roupa, passei a lembrar-me de minha mãe, que havia deixado em casa, sozinha. No entanto, querendo voltar para protegê-la e ajudá-la, como aumentavam as bolhas de fogo, eu tinha de defender-me de seus ataques, usando sempre as peças de roupa. Travei uma rigorosa autodefesa e, quando estava conseguindo desvencilhar-me de seus ataques, acordei um tanto ofegante, com os braços dormentes e doloridos.

Haja tamanha batalha.

Até que enfim, estava são e salvo.”

Uma boa quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria Santíssima!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 21/05/26.


FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 869

Abro com o repeteco de uma historinha. Sempre solicitada por alguns dos meus leitores.

Levo ou não?

A historinha é conhecida e, por ser muito boa, merece um repeteco.

Rui Barbosa, o Águia de Haia, chegava em casa, à noitinha, quando ouviu um barulho vindo do quintal. Chegando lá, viu um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o, ao tentar pular o muro com seus amados patos, passou-lhe um pito:

- Oh, bucéfalo anacrônico! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares de minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da sua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, perplexo e confuso, com um fio de voz, perguntou:

- Doutor, eu levo ou deixo os patos?

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/420579/porandubas-n-869


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Cearense fundador do ITA, Casimiro Montenegro Filho é homenageado pela Uece

A Universidade Estadual do Ceará (Uece) realizou, na tarde da última quarta-feira (24), sessão solene do Conselho Universitário (Consu) para a entrega do título honorífico de Doutor Honoris Causa ao Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho (in memoriam). A homenagem, que teve à frente o reitor da Uece e presidente do Consu, professor Hidelbrando Soares, ocorreu no Salão Nobre dos Órgãos de Deliberação Coletiva dos Conselhos Superiores (SODC), no campus Itaperi, e reuniu autoridades acadêmicas, representantes de instituições de ensino superior, pesquisadores, estudantes e familiares do homenageado.

Reconhecido como um dos mais importantes nomes da ciência, da engenharia e da inovação tecnológica do país, Casimiro Montenegro Filho foi o idealizador e fundador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), instituição que se tornou referência nacional na formação de engenheiros e pesquisadores. A honraria foi recebida por sua sobrinha e representante da família, Ana Lúcia Montenegro Bastos Mota.

Após conduzir a representante da família do homenageado à mesa solene, o professor titular do curso de Medicina da Uece e membro da Academia Cearense de Medicina, Marcelo Gurgel Carlos da Silva, relembrou a trajetória do marechal cearense, destacando sua visão de futuro e sua contribuição decisiva para a construção da ciência e da tecnologia brasileiras. Em sua fala, ressaltou que a homenagem representa o reconhecimento de um legado que transformou a história do país. “A concessão do diploma de Doutor Honoris Causa por uma universidade pública cearense é um imperativo de inegável oportunidade para prestar um tributo a quem tanto concorreu para o avanço da ciência e da tecnologia no Brasil”, afirmou.

Em nome da família, Ana Lúcia Montenegro Bastos Mota recebeu, das mãos do reitor da Uece, o diploma de Doutor Honoris Causa e agradeceu a homenagem, destacando o orgulho de ver a memória do tio celebrada em sua terra natal. Ela lembrou que a criação do ITA nasceu do desejo de formar profissionais altamente qualificados no Brasil e contribuir para o desenvolvimento nacional. “Nós, da sua família, temos muito orgulho e ficamos muito felizes diante deste reconhecimento”, declarou, acrescentando que a implantação do ITA no Ceará representa um novo ciclo para a educação do estado.

Representando o ITA, o reitor da instituição, professor Antonio Guilherme de Arruda Lorenzi, ressaltou que a homenagem reconhece um homem cuja visão ultrapassou seu tempo e ajudou a construir um projeto estratégico para o Brasil. “O ITA nasceu de um sonho, mas não de um sonho individual, pequeno ou passageiro. Nasceu de um sonho que se tornou coletivo”, afirmou. Segundo Lorenzi, Casimiro Montenegro imaginou “um Brasil capaz de formar engenheiros de altíssimo nível, de produzir ciência, de dominar tecnologia e de afirmar sua soberania pelo conhecimento”. O reitor destacou ainda que a chegada do ITA ao Ceará simboliza um reencontro com as origens desse projeto. “É mais do que uma expansão institucional. É um reencontro com a origem de um sonho”, disse.

O reitor do Centro Universitário Farias Brito, professor Tales de Sá Cavalcante, afirmou que a solenidade celebrava não apenas um homem, mas o talento e a capacidade de sonhar grande. Para ele, Casimiro Montenegro demonstrou que as maiores transformações nascem de ideias ousadas. “Ele sonhou em ter uma academia digna do Brasil. Sonhou em ter uma instituição nos moldes do MIT. E conseguiu”, destacou. O reitor também associou a chegada do ITA ao Ceará à força da educação cearense e à vocação histórica do estado para superar desafios. Citando o filósofo cearense Farias Brito, concluiu: “Nada é difícil para os corajosos”.

O reitor da Uece e presidente do Consu, professor Hidelbrando Soares, enfatizou a relevância da distinção concedida pela universidade. “O título de Doutor Honoris Causa é a maior distinção acadêmica concedida por uma universidade”, afirmou. Ele destacou que a aprovação da homenagem ocorreu por unanimidade no Conselho Universitário, evidenciando o consenso em torno da importância histórica de Casimiro Montenegro Filho. Para o reitor, o novo Doutor Honoris Causa da Uece representa valores que dialogam diretamente com a missão institucional da universidade. “Formação de excelência, produção de ciência de alta qualidade e inovação marcam profundamente a trajetória do marechal Casimiro. A universidade precisa antever o futuro, ocupar um lugar de vanguarda e ser disruptiva. Casimiro Montenegro dialogava sempre com o futuro”, declarou.

Professor Hidelbrando também ressaltou que a concessão do título engrandece a própria universidade. “Estamos muito orgulhosos com a concessão desse título honorífico ao marechal, agora doutor honoris causa da Universidade Estadual do Ceará”, concluiu.

Entre as autoridades e convidados presentes, estavam o ex-reitor da Uece, professor Cláudio Régis de Lima Quixadá; o representante da Funcap, professor Diego Rabelo; o deputado federal Inácio Arruda; o presidente da Academia Cearense de Engenharia, Fernando Nunes; o presidente do Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico, Seridião Montenegro; o presidente da Associação dos Engenheiros do ITA, Alex Pereira; o vice-presidente da Academia Cearense de Ciências Aeroespaciais, Fabiano Rocha; o comandante da Base Aérea de Fortaleza e diretor interino do Núcleo do ITA em Fortaleza, Coronel Aviador Tony Gleydson Costa; e o representante da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Paulo André de Castro Holanda.

Fonte: Uece. Assessoria de Comunicação, postado em 25/06/26.

Endividamento, inadimplência e soluções paliativas

Por Lauro Chaves Neto (*)

A recente perda de valor de mercado dos grandes bancos brasileiros não é um evento isolado — é sintoma de um problema mais profundo: o avanço do endividamento das famílias e seus efeitos sobre toda a economia. Não se trata de prejuízo direto, mas de algo talvez mais relevante: perda de confiança no futuro gerando perda no valor de mercado.

À primeira vista, os números dos balanços não justificariam esse movimento. Receitas em alta e lucros robustos indicam um presente sólido. Mas o mercado não opera olhando para o retrovisor. O que preocupa investidores são os sinais de deterioração à frente. O aumento das provisões e a piora na qualidade dos ativos revelam uma leitura clara: os bancos esperam mais inadimplência.

Esse cenário reflete uma realidade incômoda. O endividamento das famílias, especialmente das camadas de menor renda, maior parte da população brasileira, já não é apenas um problema social — tornou-se um risco sistêmico. Quando consumidores perdem capacidade de pagamento, toda a engrenagem econômica desacelera. O crédito encarece, o consumo retrai e o ciclo de crescimento perde força.

A taxa básica de juros, ainda em patamar muito elevado, agrava esse quadro. Com o Banco Central do Brasil ainda cauteloso diante das incertezas inflacionárias, o alívio monetário avança lentamente. E o cenário externo, marcado por tensões geopolíticas e volatilidade nos preços do petróleo, adiciona mais imprevisibilidade.

Programas como o Desenrola Brasil surgem como tentativa legítima de aliviar o endividamento. Mas carregam um dilema: ao mesmo tempo em que reabilitam consumidores, podem estimular novo ciclo de crédito sem a devida sustentabilidade. A dúvida não é apenas sobre a eficácia imediata, mas sobre os efeitos no médio prazo. O movimento dos bancos ao reforçar reservas contra calotes é, nesse contexto, um termômetro relevante.

O Brasil enfrenta um desafio recorrente: equilibrar crédito, consumo e estabilidade. Sem enfrentar as causas estruturais do endividamento — renda baixa, juros altos e educação financeira limitada —, qualquer solução tende a ser apenas paliativa. 

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 25/05/26. Opinião. p.20.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

Uece concede título de Doutor Honoris Causa ao fundador do ITA, Marechal Montenegro (in memoriam)

A Universidade Estadual do Ceará realizará, às 15 horas desta quarta-feira, no Salão Nobre da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Coletiva dos Conselhos Superiores (SODC), a solenidade de outorga do título honorífico de Doutor Honoris Causa (in memoriam) ao Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho. Ele foi o fundador do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA).

Natural do Ceará, Casimiro Montenegro Filho construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo e pela visão estratégica em áreas fundamentais para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Sua formação militar teve início na Escola Militar do Realengo, em 1923, culminando com a patente de Marechal do Ar da Força Aérea Brasileira. Em 1941, integrou a primeira turma de Engenharia Aeronáutica da então Escola Técnica do Exército, hoje incorporada ao Instituto Militar de Engenharia (IME).

Casimiro Montenegro também foi responsável pela criação do Centro Técnico de Aeronáutica, estrutura que deu origem ao atual complexo tecnológico da indústria aeronáutica nacional, além de ter participado da implantação do Correio Aéreo Militar. Sua atuação à frente do ITA contribuiu para transformar a instituição em uma referência internacional em ensino e tecnologia.

ITA Ceará

O vínculo histórico entre o Ceará e o ITA também está diretamente relacionado ao legado de Montenegro.

Ao longo das décadas, centenas de estudantes cearenses ingressaram na instituição, consolidando uma tradição de excelência acadêmica que resultou, recentemente, na instalação da primeira unidade do ITA fora de sua sede original, em Fortaleza.

Fonte: Postado no Blog do Eliomar de Lima em 23/06/2026.

Cearense fundador do ITA receberá título póstumo de Doutor Honoris Causa pela Uece

Marechal Casimiro Montenegro Filho (1904-2000) será homenageado por contribuições à ciência, engenharia e inovação tecnológica no Brasil.

Em uma homenagem póstuma, o fundador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e marechal cearense Casimiro Montenegro Filho (1904-2000) receberá o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual do Ceará (Uece).

A entrega da titulação in memoriam será realizada nesta quarta-feira (24), às 15 horas, no Salão Nobre da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Coletiva dos Conselhos Superiores (SODC) da instituição.

A Uece destaca a atuação do marechal em prol da transformação do ITA “em uma referência internacional em ensino e tecnologia” e credita o “vínculo histórico entre o Ceará e o ITA” como um "legado" de Montenegro.

O título de Doutor Honoris Causa é entregue a personalidades que contribuíram com a própria instituição outorgante, ao desenvolvimento regional ou nacional, ou ainda que se destacaram nas ciências, letras, artes e cultura.

QUEM FOI CASIMIRO MONTENEGRO FILHO

O homenageado é considerado um dos nomes mais importantes da ciência, engenharia e inovação tecnológica no Brasil. 

Nascido em Fortaleza no dia 29 de outubro de 1904, Casimiro Montenegro Filho teve formação militar iniciada em 1923, alcançando a patente de Marechal do Ar da Força Aérea Brasileira.

Já em 1941, ele foi aluno da primeira turma de Engenharia Aeronáutica da antiga Escola Técnica do Exército, hoje incorporada ao Instituto Militar de Engenharia (IME).

O cearense é reconhecido, ainda, como principal idealizador e fundador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), além de ter participado da implantação do Correio Aéreo Militar.

Casimiro Montenegro Filho morreu em 26 de fevereiro de 2000, aos 95 anos, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. O marechal é patrono da área de engenharia aeronáutica da Força Aérea Brasileira, da 43ª cadeira da Academia Nacional de Engenharia e foi inscrito em 2025 no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Fonte: Publicado In: Diário do Notícias, de 24/06/2026 Redação. (on-line)


Fundador do ITA receberá título de Doutor Honoris Causa pela Uece

Marechal Montenegro receberá título honorífico e póstumo de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) nesta quarta-feira, 24, às 15 horas

Fundador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Casimiro Montenegro Filho — importante nome da história da ciência, da engenharia e da inovação tecnológica do Brasil — receberá título honorífico e póstumo de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) nesta quarta-feira, 24, às 15 horas.

A solenidade de outorga será realizada no Salão Nobre da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Coletiva dos Conselhos Superiores (SODC), em Fortaleza.

Segundo a Uece, a honraria destina-se a personalidades que tenham contribuído significativamente para o progresso da instituição, para o desenvolvimento regional ou nacional, ou que tenham se destacado em favor das ciências, das letras, das artes e da cultura.

A concessão do título foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário (Consu) da Universidade, em sessão realizada em janeiro de 2026, que reconheceu os méritos de Casimiro.

Quem foi marechal Montenegro

Natural de Fortaleza, Casimiro Montenegro Filho (1904 - 2000) era descrito como dono de uma trajetória marcada pelo pioneirismo e pela visão estratégica no desenvolvimento científico e tecnológico.

Sua formação militar teve início na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, em 1923, culminando com a patente de marechal do ar da Força Aérea Brasileira.

Em 1941, integrou a primeira turma de Engenharia Aeronáutica, da então Escola Técnica do Exército, incorporada ao Instituto Militar de Engenharia (IME).

Reconhecido como o principal idealizador e fundador do ITA, Casimiro Montenegro também foi responsável pela criação do Centro Técnico de Aeronáutica, estrutura que deu origem ao atual complexo tecnológico da indústria aeronáutica nacional, além de ter participado da implantação do Correio Aéreo Militar.

"O vínculo histórico entre o Ceará e o ITA também está diretamente relacionado ao legado de Montenegro. Ao longo das décadas, centenas de estudantes cearenses ingressaram na instituição, consolidando uma tradição de excelência acadêmica que resultou, recentemente, na instalação da primeira unidade do ITA fora de sua sede original, em Fortaleza", ressaltou a Uece.

O reconhecimento da Uece soma-se ao seu quadro de homenagens já recebidas.

Montenegro é patrono da Engenharia da Aeronáutica da Força Aérea Brasileira, da cadeira nº 19 do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica e da cadeira nº 43 da Academia Nacional de Engenharia.

No Estado, foi agraciado, entre outras distinções, com a Medalha do Mérito Industrial da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), o Troféu Sereia de Ouro e o título de Patrono da Academia Cearense de Engenharia.

Morreu aos 95 anos, em Petrópolis, município serrano do Rio de Janeiro, no ano de 2000. Segundo a Folha de São Paulo, a causa do óbito foi falência múltipla de órgãos.

Fonte: Postado In: O Povo Notícias (on-line), de 23/06/2026.


ÁGUA TAMBÉM SANGRA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Eu choro fácil. De alegria, de tristeza, de emoção, de cansaço. E, por vezes, choro sem saber por quê. Certo dia, veio-me um pensamento nebuloso e persistente: chorar seria como sangrar. Guardei-o.

Na manhã seguinte, ao ver uma fotorreportagem sobre a sangria do açude Orós, no interior do Ceará, fiquei tocada com o título: água também sangra.

Na matéria, o repórter Arthur Gadelha dizia que quase todo fortalezense tem o seu "interior", uma cidade ligada à sua história, às suas raízes.

Eu sou de Fortaleza, mas já trabalhei no interior, justamente em Capistrano, a cidade do repórter. Atendia na zona rural, visitava casas de taipa distantes umas das outras, separadas por estradas de barro. Eu me impressionava com a solidão do lugar. E há algo ainda mais antigo: nas histórias ouvidas, no sotaque, na oralidade que passa de geração em geração, algo que me faz sentir a seca por dentro, mesmo sem jamais tê-la vivido.

A memória da privação me fez lembrar Vidas Secas. Corri para pegar meu exemplar. Lembrei o quanto chorei com Fabiano, com os filhos sem nome e com a inesquecível Baleia, a cachorra. Tinha começado a leitura em 2019; estava lá, anotado na contracapa.

A obra me marcou tanto que, certa vez, no Masp, parei diante de uma pintura e lembrei daquela família. Comentei: só faltou a Baleia. Fui conferir a legenda do quadro; era Cândido Portinari, e a obra se chamava Os Retirantes, que dialoga com Graciliano Ramos.

"Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E, antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava a caminho."

Cada um de nós carrega um sertão. Onde a terra racha. Onde a vegetação cresce com espinhos e aprende a guardar água para a hora da escassez.

Meu pai diz que o maduro é aquele que sabe que, quando tudo está bom, vai piorar, e que, quando tudo está ruim, vai melhorar.

A água pode tardar, mas chega. E, quando chega, jorra, sangra o passado da falta.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/05/2026. Opinião. p.18.

terça-feira, 23 de junho de 2026

CONVITE: Solenidade de Doutor Honoris Causa da UECE ao Marechal Montegro

O Magnífico Reitor da Universidade Estadual Ceará (Uece), Prof. Hildebrando dos Santos Soares, convida para a solenidade de entrega do título (in memoriam) de Doutor Honoris Causa ao Marechal Casimiro Montenegro Filho.

Local: Prédio da Reitoria da Uece – Campus do Itaperi. (Av. Silas Munguba, 1.700).

Data: Dia 24 de junho de 2026 (quarta-feira). Horário: 15h.

Traje: Veste talar às autoridades acadêmicas e esporte fino aos convidados.

Notas do Blog: O discurso de saudação ao recipiendário será proferido pelo professor titular Marcelo Gurgel Carlos da Silva, membro do Colegiado do Curso de Medicina.

O Marechal Casimiro Montenegro Filho, por indicação da família Montenegro, será representado, nesse ato, pela empresária Ana Lúcia Bastos Mota, sobrinha do homenageado, que tecerá as palavras de agradecimento.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do PPSAC-Uece


O PARADOXO DAS MÉDICAS NO BRASIL

Por Luciana Rodrigues (*)

O Brasil atravessa uma transformação histórica na medicina. Pela primeira vez, as mulheres são maioria entre os médicos em atividade no País: representam 50,9% do total, segundo a Demografia Médica 2025. Em 2010, eram 41%, e a tendência é de crescimento contínuo — até 2035, devem alcançar 56% da força de trabalho médica.

O avanço numérico reflete maior acesso a formação, ampliação de oportunidades e mudança cultural importante. No entanto, os dados revelam um descompasso: a presença feminina cresce, mas a igualdade de condições ainda não acompanha esse movimento.

Hoje, menos de 30% dos cargos de liderança na medicina são ocupados por mulheres. Em hospitais, universidades e entidades de classe, médicas ainda enfrentam barreiras para ascender profissionalmente. Relatos de assédio moral e sexual persistem, assim como dificuldades para conciliar carreira e responsabilidades familiares — desafio que continua recaindo de forma desproporcional sobre elas.

A desigualdade de gênero impacta diretamente a qualidade da medicina. Ambientes diversos são mais inovadores, produzem decisões mais equilibradas e refletem melhor a sociedade. Ignorar esse cenário é limitar o potencial do sistema de saúde.

Foi diante dessa realidade que a Associação Médica Brasileira criou a Comissão Nacional em Defesa dos Direitos do Trabalho da Mulher Médica (Conadem), voltada ao enfrentamento de questões como equidade salarial, combate ao assédio, garantia de condições adequadas durante gestação e amamentação e estímulo à presença feminina em cargos de liderança.

A mudança já era visível nas universidades. As mulheres representam a maioria entre os estudantes de medicina desde a década passada: eram 53,7% em 2010 e chegaram a 61,8% em 2023. O futuro da profissão já tem rosto majoritariamente feminino.

O desafio agora é transformar presença em protagonismo, influência e poder de decisão. Para isso, é fundamental ampliar a produção de dados, fortalecer políticas de inclusão e construir ambientes mais justos. Valorizar a mulher médica não é apenas atender a uma demanda da categoria, mas fortalecer o sistema de saúde e melhorar a assistência prestada à população.

(*) Pediatra e Vice-presidente da Associação Médica Brasileira.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Uece concede título de Doutor Honoris Causa ao fundador do ITA, Marechal Montenegro (in memoriam)

A Universidade Estadual do Ceará (Uece) realizará, na próxima quarta-feira, 24 de junho, às 15h, no Salão Nobre da Secretaria dos Órgãos de Deliberação Coletiva dos Conselhos Superiores (SODC), a solenidade de outorga do título honorífico de Doutor Honoris Causa (in memoriam) ao Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho, um dos mais importantes nomes da história da ciência, da engenharia e da inovação tecnológica brasileira.

A honraria destina-se a personalidades que tenham contribuído significativamente para o progresso da instituição, para o desenvolvimento regional ou nacional, ou que tenham se destacado em favor das ciências, das letras, das artes e da cultura.

Natural do Ceará, Casimiro Montenegro Filho construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo e pela visão estratégica em áreas fundamentais para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Sua formação militar teve início na Escola Militar do Realengo, em 1923, culminando com a patente de Marechal do Ar da Força Aérea Brasileira. Em 1941, integrou a primeira turma de Engenharia Aeronáutica da então Escola Técnica do Exército, hoje incorporada ao Instituto Militar de Engenharia (IME).

Reconhecido como o principal idealizador e fundador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Casimiro Montenegro também foi responsável pela criação do Centro Técnico de Aeronáutica, estrutura que deu origem ao atual complexo tecnológico da indústria aeronáutica nacional, além de ter participado da implantação do Correio Aéreo Militar.

Sua atuação à frente do ITA contribuiu para transformar a instituição em uma referência internacional em ensino e tecnologia. O vínculo histórico entre o Ceará e o ITA também está diretamente relacionado ao legado de Montenegro. Ao longo das décadas, centenas de estudantes cearenses ingressaram na instituição, consolidando uma tradição de excelência acadêmica que resultou, recentemente, na instalação da primeira unidade do ITA fora de sua sede original, em Fortaleza.

Ao longo de sua trajetória, Casimiro Montenegro Filho recebeu inúmeras homenagens e reconhecimentos. É patrono da Engenharia da Aeronáutica da Força Aérea Brasileira, da cadeira nº 19 do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica e da cadeira nº 43 da Academia Nacional de Engenharia. No Ceará, foi agraciado, entre outras distinções, com a Medalha do Mérito Industrial da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), o Troféu Sereia de Ouro e o título de Patrono da Academia Cearense de Engenharia.

A concessão do título foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário (Consu) da Uece, em sessão realizada em janeiro de 2026, reconhecendo os inegáveis méritos de Casimiro Montenegro Filho e sua contribuição para a formação de gerações de profissionais, para o fortalecimento da ciência nacional e para o desenvolvimento tecnológico do Brasil.

Fonte: Uece. Assessoria de Comunicação, postado em 22/06/26.


A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA QUALIFICAÇÃO

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Os debates sobre o conceito de qualificação concentram-se nas dimensões técnica e profissional, nas capacidades práticas e no conhecimento associado às técnicas do processo de trabalho, desenvolvidos por meio da formação e da experiência. No entanto, a avaliação, a identificação e o desenvolvimento das qualificações não devem ser compreendidos como processos essencialmente objetivos, mas como resultado de uma construção social.

Edgar H. Schein foi um psicólogo que uniu os universos acadêmico e pragmático da cultura e das organizações. Professor emérito da escola de negócios do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos, Schein escreveu dezenas de livros sobre temas de ciências sociais, incluindo carreira, cultura organizacional, dinâmica de grupo e interações interpessoais.

Entre as contribuições mais duradouras do teórico estão as reflexões sobre os valores pessoais e as escolhas profissionais: o que motiva alguém a trabalhar? Quais valores centrais impulsionam a trajetória de uma pessoa? Como os funcionários desejam ser gerenciados ou recompensados? As respostas a essas questões determinam os pilares de uma carreira

Para Schein, a qualificação não se resume ao diploma técnico, mas envolve também o conhecimento tácito sobre como as coisas funcionam. Esse saber é construído socialmente à medida que os membros de um grupo aprendem juntos o que funciona e o que não funciona, internalizando essas lições como verdades inquestionáveis e as transmitem.

Trata-se do nível mais profundo de construção social: aquele em que os indivíduos "aprendem a perceber, pensar e sentir" de uma forma específica. Nessa perspectiva, a verdadeira qualificação está associada ao alinhamento com essa essência. A teoria da cultura organizacional, portanto, explica como competências e formas de "ser" e "agir" - isto é, a qualificação prática - são construídas, aprendidas e socialmente transmitidas dentro de um grupo.

Desde o início da nossa atuação à frente da Secretaria do Planejamento e Gestão do Ceará (Seplag-CE), no governo Elmano de Freitas, temos fortalecido esse processo de construção social da qualificação. Na semana passada, tivemos uma demonstração concreta desse "ser" e "agir" dos competentes servidores da Seplag-CE. Seis artigos científicos foram selecionados e apresentados no Congresso do Conselho Nacional de Secretários de Planejamento (Conseplan), ocorrido em Brasília.

Todos esses trabalhos, assim como a apresentação da palestra magna realizada no encerramento do evento, podem ser acessados no site da Seplag-CE (https://www.seplag.ce.gov.br/congresso-conspelan/). O leitor do jornal O POVO também poderá acessar todas as trilhas de aprendizagem da Escola de Gestão Pública (EGPCE) no site da instituição (https://escola.egp.ce.gov.br/). Nos últimos dois anos, a EGPCE capacitou mais de 32 mil pessoas.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 14/05/26. Opinião. p.21.


 

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