domingo, 21 de junho de 2026

JOÃO MACEDO: a medicina como ciência e encontro humano

Por Lêda Maria, jornalista de O Povo

João Macedo Coelho Filho, casado com a pediatra Zilma, pai de Ênio, Iana e João Neto. Caminheiro animado da vida, boa-praça, sempre bem acolhido por onde passa e trabalha. Entusiasta da ideia de que "a beleza salvará o mundo", daí sua paixão pelas artes plásticas e pela literatura. Ama a ciência, o estudo, o contato com as pessoas e a possibilidade de ajudar alguém, sobretudo os que sofrem. Daí sua vocação para a medicina, que inspirou os três filhos, e sua devoção à docência, exercida "como quem reza", no dizer de Filgueiras Lima. Formou-se em Medicina pela UFC, em 1988, e, posteriormente, passou por São Paulo e pelo Reino Unido em sua formação acadêmica, obtendo mestrado, doutorado e especialização em geriatria, área que exerce ativamente em seu consultório. Na UFC, ingressou como docente em 1991, introduziu o ensino de geriatria e, atualmente, é diretor da Faculdade de Medicina, cargo em que cumpre a honrosa missão de contribuir para a formação de médicos de excelência.

Quando decidiu fazer Medicina?

Ainda no colégio, tive alguns professores que eram médicos e ensinavam disciplinas como Biologia e Química. Eles despertaram em mim grande interesse pelo conhecimento científico. Mais tarde, tive também aulas de análises clínicas em uma disciplina de caráter profissionalizante, experiência que igualmente me encantou. Ao mesmo tempo, a formação humanística e espiritual sempre exerceu forte atração sobre mim. Quando percebi que a Medicina reunia essas dimensões e representava um caminho privilegiado para ajudar as pessoas, não tive mais dúvidas: queria ser médico.

Quais foram as suas grandes influências na faculdade?

Foram muitos os professores, profissionais e amigos que me inspiraram ao longo da formação. Não ouso citar nomes, porque certamente cometeria a injustiça de esquecer alguns. Sempre admirei especialmente aqueles que exercem a Medicina aliando sólido conhecimento técnico à simplicidade, sem arrogância e longe da ribalta. Aqueles que estão sempre disponíveis para cuidar dos pacientes com zelo, respeito e genuína dedicação.

O que acha da medicina cada vez mais tecnológica?

Os avanços da ciência e da tecnologia melhoraram imensamente o diagnóstico, o tratamento e a prevenção das doenças. O desafio é garantir que todos tenham acesso a esses avanços e, ao mesmo tempo, que a tecnologia jamais substitua a natureza essencialmente humana da Medicina, na qual empatia, compaixão e ética permanecem insubstituíveis.

Sente-se realizado com a sua especialidade, a geriatria?

Absolutamente realizado. A geriatria é uma especialidade em que não há compartimentalização. A pessoa é vista em sua integralidade: nas dimensões clínica, funcional, social e existencial. Exercemos o cuidado em sua expressão mais ampla. Além disso, aprendemos muito com as pessoas longevas: suas histórias de vida, seus exemplos de resiliência e os desafios que enfrentaram. Refletir sobre a velhice e o envelhecimento é uma necessidade de todos no mundo contemporâneo, em que a expectativa de vida cresce continuamente.

E a literatura?

Desde o colégio, gosto de literatura, que defino como linguagem e interioridade. É um caminho que me permite encontrar leveza, contemplar a dimensão humana e refinar a forma de ver e de estar no mundo. É também uma maneira de visitar meu universo subjetivo, minhas paixões, encantamentos e memórias.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/06/2026. V&A. Lêda Maria. p.3.


Amar em Comunhão: a força dos primeiros passos

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Em um tempo marcado por relações frágeis e vínculos muitas vezes efêmeros, a proposta do movimento Amare, idealizado por mim, surge como um convite profundo à solidez do amor vivido a dois.

Há dez anos no Ceará, o movimento acolhe casais nos primeiros anos de união — até sete anos — reconhecendo nesse período um dos mais desafiadores da vida conjugal. É justamente nesse tempo inaugural que se moldam as bases do diálogo, da escuta, do perdão e da perseverança, elementos indispensáveis para que o amor não se desgaste diante das inevitáveis provas da convivência, nem se perca diante das pressões externas do mundo contemporâneo.

A inspiração encontra eco no magistério da Igreja, especialmente na Amoris Laetitia, na qual o Papa Francisco ressalta que o amor no matrimônio é um caminho de construção contínua, feito de pequenas escolhas diárias. Ele recorda que os primeiros anos exigem paciência, maturidade e, sobretudo, enraizamento espiritual — um tempo em que o casal aprende a sair de si para acolher o outro, a transformar diferenças em aprendizado e a cultivar a unidade sem anular a individualidade, construindo assim uma comunhão verdadeira.

Caminhar com a Igreja, nesse contexto, não é apenas frequentar celebrações, mas permitir que a graça divina permeie as realidades concretas da vida a dois: os conflitos silenciosos, os sonhos partilhados, as limitações humanas e as conquistas que se tornam testemunho. Ao viver em comunidade, os casais descobrem que não estão sós — há outros que também enfrentam dúvidas, crises e recomeços. E é justamente nesse espelho do outro que Deus se revela, sustentando, curando e orientando cada passo, fortalecendo o vínculo conjugal com esperança renovada.

Mais do que um movimento, o Amare se configura como um verdadeiro itinerário espiritual e humano, no qual o amor conjugal é educado, amadurecido e fortalecido. Em tempos de dispersão e imediatismo, ele resgata a beleza de permanecer, de reconstruir quantas vezes forem necessárias e de compreender que o matrimônio, quando vivido à luz do Evangelho, torna-se não apenas um compromisso, mas uma vocação viva, fiel e renovada todos os dias, sustentada pela graça e pela presença constante de Deus. 

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 2/05/2026. Opinião. p.22.


sábado, 20 de junho de 2026

A osteoporose e o Congresso de Fortaleza

Por Vandick Queiroz (*)

Fortaleza sediará hoje, no Hotel Gran Mareiro, o Congresso Norte-Nordeste de Osteoporose e casos cirúrgicos ortopédicos em idosos. Será uma iniciativa inédita da Associação Brasileira Ortopédica de Osteoporose, devendo reunir os maiores médicos especialistas nessa área científica. Como sabemos, nossa população está em processo de envelhecimento acelerado e a tendência é que possa vir a sofrer cada vez mais, infelizmente, de osteoporose, osteoartrite e sarcopenia (que é a perda de massa musculação).

A Osteoporose é uma doença silenciosa, até começarem a ocorrer fraturas pelas quedas e por traumas de baixa energia, resultando em dores e limitações crônicas que afetam a mobilidade e a qualidade de vida, além de custos sociais (pois alguém da família ficará sem trabalhar, para cuidar dessa pessoa idosa) e também para os sistemas de saúde público ou privado.

Atualmente, temos mais de 10 milhões de brasileiros com osteoporose e a carga pessoal e social só tende a aumentar. Todo um esforço está sendo feito para a adequada prevenção dessas doenças, sendo fundamental a discussão dessa problemática entre os médicos especialistas (razão maior desse congresso médico em nossa cidade) e todos os setores da sociedade envolvidos.

Na conjuntura atual, não somente no Brasil como também no mundo inteiro, após o paciente sofrer uma queda da própria altura associada a uma fratura da coluna, quadril ou outras articulações, em cerca de 80% dos casos, é feito muitas vezes somente o tratamento cirúrgico da fratura.

Devemos evoluir para uma situação em que os pacientes também devam se encaminhados para fazer o diagnóstico e tratamento da doença osteoporótica que realmente foi a causadora da fragilidade óssea. Com isso, preveniremos efetivamente mais e mais fraturas, evitando sofrimentos e gastos, possibilitando uma vida mais longa e de qualidade para as pessoas idosas.

Informação importante: fratura osteoporóticas em idosos, não somente as do fêmur, matam mais que câncer de mama, infarto agudo do miocárdio e AVC!!!

(*) Médico ortopedista. Especialista em osteoporose.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/06/2025. Opinião. p.26.

Cientistas Subestimados Que Estavam Certos III

Alfred Wegener (1880-1930)

Proponente da teoria da deriva continental

Wagener era um geofísico e meteorologista, cuja vida é tão trágica quanto excitante. Wegener estuda amostras de terra de vários continentes e notou um padrão estranho: a composição das amostras das Américas era estranhamente semelhante à da Europa Ocidental, e os fósseis e rochas australianos tinham uma estranha semelhança com os da Ásia e da Nova Zelândia.

Isso o levou a sugerir em uma série de documentos que os continentes da Terra podem se mover ao longo de milhões de anos. Mais uma vez, a teoria de Wegener também foi rejeitada por outros cientistas na época.

Em 1930, ele foi em uma expedição à Groenlândia e morreu com a idade de 50 anos. Somente anos depois, na década de 1960, a teoria da deriva continental foi estabelecida como um fato científico.

Nicolau Copérnico (1473-1543)

Descobriu o Sistema Solar Heliocêntrico

Durante a antiguidade, os cientistas estabeleceram que vivemos em um sistema solar heliocêntrico, o que significa que todos os planetas giram em torno do sol. No entanto, esse conhecimento foi perdido por centenas de anos, até que Copérnico o restabeleceu em 1543 em seu livro Das Revoluções das Esferas Celestes, que foi amplamente ignorado, e as pessoas continuaram acreditando que a Terra era o centro do universo.

O que também prejudicou foi que a igreja católica condenou seu livro e o baniu por séculos. Ainda assim, o estudo de Copérnico é considerado uma das realizações astronômicas mais notáveis da Idade Média e Copérnico é conhecido por praticamente todos.

O mesmo se aplica a outros quatro dedicados cientistas que discutimos neste artigo. Essas histórias mostram que a persistência e a devoção à verdade transcendem o tempo, ao passo que o escárnio e a malevolência não são. Portanto, seja corajoso e não tenha medo de falar sua verdade.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


Cientistas Subestimados Que Estavam Certos II

Gregor Mendel (1822-1884)

Descobriu a herança genética

Um monge por característica, Gregor Mendel era um cientista nato: ele era um matemático talentoso e um brilhante biólogo. Mendel sozinho fundou a ciência da genética quando, enquanto trabalhava no jardim do mosteiro, notou que algumas das flores de ervilha tinham uma coloração mista, enquanto outras tinham apenas uma cor.

Isso o fez pensar que existem algumas características, como a cor das flores, que devem ser passadas de geração para geração, e quando essas características são diferentes na planta “mãe” e “pai”, ela pode produzir uma característica mista. Ele então continuou cruzando plantas de ervilha com vários traços e traçou os mecanismos básicos de herança genética, que ele publicou em um artigo que foi completamente ignorado.

Mendel seguiu em frente com sua vida e se tornou o abade de seu mosteiro. Apenas 16 anos após sua morte, seu trabalho foi redescoberto e se tornou a base da genética, como a conhecemos hoje.

William B. Coley (1862-1936)

O Fundador da Imunoterapia

No final do século 19, não havia radiação, quimioterapia ou drogas contra o câncer, e o procedimento padrão para tumores cancerígenos envolvia cortar tumores ou tecidos cancerígenos. William Coley era um cirurgião de ossos que trabalhava no New York Cancer Hospital.

Ele notou que alguns pacientes que sofriam de infecções bacterianas, como infecções por estreptococos, tinham maior probabilidade de se recuperar de câncer sem cirurgias do que outros pacientes. Isso fez com que Coley injetasse vários pacientes com uma versão enfraquecida de estreptococos e outra bactéria, o que, em alguns casos, fazia o câncer do paciente diminuir drasticamente, mas em outros, os pacientes acabavam morrendo devido às infecções que ele administrava.

Esse tratamento para o câncer era chamado de toxinas de Coley, e ele e alguns outros médicos usaram a teoria de Coley para tratar o câncer. Infelizmente, a teoria de Coley não foi bem aceita na comunidade científica e foi esquecida por quase meio século.

Somente na década de 1960, muitos anos após sua morte, a ideia de imunoterapia reapareceu na pesquisa médica, e os numerosos artigos de Coley tiveram um papel importante no estabelecimento desse campo de tratamento do câncer.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


Cientistas Subestimados Que Estavam Certos I

Se você e suas ideias forem rejeitadas uma e outra vez, embora saiba que você está certo, nunca desista. As histórias de vida desses cinco cientistas provam que, às vezes, é preciso muito tempo para que as pessoas apreciem seu esforço, pois cada uma delas foi rejeitada em sua vida ou até mesmo envergonhada por suas teorias.

No final, no entanto, todos os cinco cientistas se mostraram corretos e a ciência moderna recebeu muito conhecimento e inspiração inestimáveis de suas pesquisas científicas. Vamos ser inspirados por suas vidas e aprender a perseverar, não importa o que aconteça.

Ignaz Semmelweis (1818-1865)

O pai da desinfecção

Semmelweis foi o primeiro médico a sugerir que doenças infecciosas podem se espalhar quando os médicos não lavam as mãos ou desinfetam suas ferramentas, anos antes de aprendermos sobre a teoria microbiana das doenças. Semmelweis era um obstetra em Viena, cuja observação foi que a taxa de mortalidade das mulheres pós-parto era muito maior nos partos hospitalares do que nos nascidos de parteira.

Ele acreditava que isso acontecia porque os médicos da época costumavam examinar rotineiramente cadáveres e realizar autópsias, e depois continuariam a assistir partos, os quais, como Semmelweis concluiu, devem ter espalhado a doença para as mulheres. Para neutralizar isso, ele fez os médicos e enfermeiros lavarem as mãos antes de ajudar no parto e até mesmo começarem a desinfetar as ferramentas.

sso diminuiu a taxa de mortalidade das mortes pós-parto quase imediatamente, e Semmelweis publicou vários artigos sobre esse fenômeno, mas ninguém acreditou nele. Ele foi demitido de seu trabalho em Viena e continuou sua prática em Budapeste, e lá também, as taxas de mortalidade entre as mulheres caíram em 25%.

Desmoralizado e intrigado pela ignorância da comunidade científica, Semmelweis desenvolveu depressão clínica e foi administrado em uma instalação mental, onde ele morreu inesperadamente, provavelmente devido a ferimentos que sofreu do pessoal do hospital em uma tentativa de fugir.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Qualificação de Doutorado em Saúde Coletiva (UECE) de Maria Janaína Alves de Azevedo

Flagrante da Banca Examinadora, logo apóso Exame de Qualificação da assistente social MARIA JANAINA ALVES DE AZEVEDO. A doutoranda Janaina Azevedo está ladeada pelos professores Thereza Maria Magalhaes Moreira  e Marcelo Gurgel Carlos da Silva, à esquerda, e pelo Prof. Francisco Gildemir Ferreira da Silva, à direita. (Foto cedida por Profa. Lucélia Afonso).

Aconteceu na tarde de hoje (19/06/26), na Universidade Estadual do Ceará, no NUPEINSC, mais uma Exame de Qualificação de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPSAC) da UECE.

A banca examinadora, composta pelos Profs. Drs. Marcelo Gurgel Carlos da Silva, Francisco Gildemir Ferreira da Silva, Thereza Maria Magalhaes Moreira e José Maria Ximenes Guimarães (suplente), aprovou o Projeto de TeseAvaliação econômica da municipalização do trânsito como política pública estruturante de segurança viária no Sistema Único de Saúde (SUS) do Ceará”, de Curso de Doitorado Acadêmico em Saúde Coletiva, apresentado pela doutoranda MARIA JANAINA ALVES DE AZEVEDO,

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do PPSAC-UECE


Crônica: O problema do véi... ... e outros causos

O problema do véi...

A prendada dona Juraci e o descolado "mestre Wilson", que tive o privilégio de conhecer a ambos, botaram no mundo, no longínquo 1929, o resistente homem do campo, tornado agricultor de categoria incomum, um contador de causos único - Juroilson Vieira Souza, dado à luz na aprazível Pirapora, légua e meia do Cauípe.

Nunca, enquanto somava "apenas" 92 anos, um hospital. Remédio, somente quando empanzinado e, aqui e acolá, "umas piula" pra dor articular. Até as nove décadas de vida, sete anos atrás, pois, uma rocha no tocante à saúde - nem toque retal da próstata levou. A presença diária no roçado, brocando; tangia o gado com cipó de marmeleiro em busca do açude; despescava galão com o neto aos domingos; comia feito um bicho…

- Eu era um homem!

Mas apareceram ronchas no corpo, vieram o engulho e o reumatismo, a remela excessiva e a mouquice, o esquecimento e o mijo em queda livre. A filha Judite vexada levou "pai" ao consultório do clínico geral. Uma novidade, aquilo, pra quem jamais sequer havia adentrado a um "posto". Após amenidades, o médico perguntou, singelo, qual o problema do paciente ancião. A resposta simples e direta - e perfeita:

- 97 anos...

O alto funcionário do cemitério

Buscando fazer um por fora, o coveiro oferecia caixão feito por ele pela metade do preço ao familiar enlutado à beira da cova. "É pro futuro!" E prometia ao comprador, de brinde, uma camisa oficial do Ceará com a assinatura de Magno Alves. Indagado pela reportagem sobre esse malfeito, o "alto funcionário do campo santo" explicou que "a vida tava de morte, liseira era braba - tô me virando como posso!"

Por que considerado alto funcionário? A mãe do rapaz explicava, altamente maternal:

- Acima dele só Deus! É meu fí quem faz a entrega do cristão morto ao chão que a terra há de comer. E de quem é o chão, senão dEle?

Isto dito, suspirava - a senhora orgulhosa do rebento ilustre, finalizando a defesa com detalhe imprescindível no concerto funéreo gaiato em tela:

- Ah, o rapaz que ajuda meu Zezito a enterrar é Toinho de Laura Lôra! Com a pá na mão, esse rapaz é um rei!

O santinho precoce

Era praxe na cidade, no decesso de alguém, encomendar santinhos de falecimento na gráfica do Mazinho - "Aqui, quem manda é o freguês". Pois bem. Seu Nonô passou desta aos (acreditem!) 105 anos de idade, na madrugada. Familiares e amigos avisados por portadores, casa em casa. Velório às 10h, enterro às 16h no parque "Nas Mãos de Pedro".

Homem de poucos estudos, Dico Rojão, primogênito de seu Nonô, já na gráfica - precária em equipamentos, mas robusta em gentileza. Pede celeridade na confecção dos santinhos.

- É pra missa de corpo presente! Tem aí um modelo já pronto, seu Mazinho?

- Tenho, Dico! Escolha um desses aí!

E despejou no balcão caixa abarrotada - a coleção completa de santinhos de mortos e mortas, entre velhos e novos, pobres e ricos, cujas famílias ali iam imprimir seus pequenos folhetos de luto. Um particularmente agradou o inculto Dico - de um jovem que morrera precocemente.

- Gostei desse! Troque só o nome do rapaz pelo de papai e as datas!

- Na hora! E sobre o texto?

- Deixe exatamente como está!!!

Hora da missa. Santinhos distribuídos. O padre faz a gentileza de ler o impresso:

- "Ao querido Nonato Gonçalves Serra, carinhosamente 'Nonô', falecido precocemente aos 105 anos, o nosso..."

Fonte: O POVO, de 22/05/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

ELMO: do capacete à Fundação

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Todos nós, de forma direta ou indireta, passamos por momentos de intensa preocupação com a pandemia do Sars Covid que se instalou a partir de 2019 e já em 2020 ceifou cerca de 1,8 milhão de vidas no mundo. No Ceará, as perdas beiraram as 10.000 vidas, criando um clima de insegurança a prejudicar também a saúde física e mental dos não infectados, que precisaram conviver com um mundo totalmente diferente.

Nesse ambiente de luto e extrema pressão sobre o sistema de saúde, a falta de equipamentos e de vagas de UTI, levaram à busca de novas opções, não apenas de convivência, mas sim de combate aos efeitos cruéis que a Covid-19 trouxe.

Povo inteligente e inovador por natureza, o cearense proporcionou ao mundo um dispositivo de respiração assistiva não invasiva, a que se denominou Capacete Elmo, cujo desafio principal era evitar o colapso do sistema hospitalar, que se acentuava na medida em que mais e mais pessoas precisavam ser intubadas nas fases críticas da doença.

Força-tarefa unindo Escola de Saúde Pública do Ceará, Funcap, UFC, Unifor, a FIEC/SENAI e Esmaltec, teve a missão de desenvolver, em tempo recorde, um caminho diferente. E chegou ao mecanismo de pressão positiva proporcionado pelo Elmo, o que reduziu em até 60% a necessidade de internações em UTIs e salvou milhares de vidas.

Hoje, esse símbolo de humanização, que mantinha o paciente lúcido, comunicativo e com um conforto psicológico fundamental para o momento de tanto isolamento, ressurge com ainda maior alcance, na forma de uma Fundação que é um verdadeiro hub para novas tecnologias em saúde assistiva.

Reconhecido pela CNI e Sebrae como inovação em produto; pela Abril e Dasa como tratamento; e pela OMPI como exemplo global do uso da propriedade intelectual para o bem social, o Elmo conquistou ainda o Prêmio Euro de Inovação em Saúde, em 2023.

A aplicação desse prêmio no projeto da Fundação Elmo, criada para fortalecer a pesquisa, a inovação, o ensino e a memória da saúde respiratória, consolida o legado do capacete e acentua o verdadeiro espírito de preocupação com a atenção na saúde e a preservação da vida.

Parabéns a todos os nele envolvidos.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/05/26. Opinião. p.18.

UM OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

O processo de urbanização brasileira se intensificou na segunda metade do século XX, em decorrência da formação de grandes aglomerações urbanas e da necessidade de novas formas de planejamento territorial. Nesse contexto surgiram as chamadas regiões metropolitanas, agregando municípios em torno de metrópoles, perspectiva que dá origem à Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Criada em 1973, hoje, agrega 19 municípios: Aquiraz, Cascavel, Caucaia, Chorozinho, Eusébio, Fortaleza, Guaiuba, Horizonte, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, Paracuru, Paraipaba, Pindoretama, São Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu e Trairi.

A ideia subjacente à criação da RMF foi promover maior integração administrativa e coordenação de políticas públicas em áreas urbanas que ultrapassavam os limites municipais. A solução de tais problemas, contudo, não ocorreu como previsto: os problemas urbanos se agravaram, desigualdades entre os municípios se fizeram presentes em várias dimensões da gestão pública e muitos desafios surgiram.

Embora a RMF agregue 63,6% do PIB do estado, a distribuição desigual da riqueza eleva as disparidades entre municípios. Enquanto uns concentram atividades de maior retorno econômico, a exemplo de São Gonçalo do Amarante que abriga o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP); outros, dependem fortemente de recursos da União e do Estado, incluindo programas de transferência direta de renda como o Programa Bolsa Família (PBF), do qual entre 42% e 58% da população são beneficiários.

A análise de indicadores econômicos e educacionais mostra não haver correspondência entre uns e outros. Ou seja, não necessariamente municípios com alto PIB têm equivalente desempenho educacional e vice-versa. Essas e outras questões são objeto de nossos estudos recentes que apontam para desafios a serem enfrentados, sendo a criação de um Observatório da Educação da RMF (@observa.remefor) uma iniciativa necessária e já em andamento. A Universidade é um fórum propício a este diálogo para o qual convidamos governo, sociedade civil e municípios da região.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/05/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Vorcaro e o seu crime quase perfeito

Por Raimundo Padilha (*)

Imaginar que o seu crime seria perfeito, foi um erro crasso. Ele esqueceu que a perfeição não está entre os humanos. Ela existe, mas está plano celestial e não no nosso.

Ao armar o golpe gigantesco de bilhões de reais, ele abriu portas, através da quais, encontrou caminhos para as mais diversas formas de captação de recursos de forma lícita e ilícita, comprando graúdos intermediários financeiros e encontrou caminhos escusos e aparentemente invisíveis, para escondê-los em mãos, também, sujas.

Depois de maquinar a captação dos recursos e os seus esconderijos, ele procurou se proteger através do auto poder nacional, inclusive das togas para a sua segurança pessoal. Por isso, o seu plano previa a sua prisão ou fuga. Mas, o risco de ser alcançado era iminente. Daí, ter pago, antecipadamente, e muito bem, os seus futuros defensores.

O compliance e a Auditoria Externa, foram acometidas de miopia ou cegueira absoluta, sem prestar qualquer informação aos órgãos reguladores. E, parece, que não serão apenados. O Brasil que queremos, grandioso e justo não pode, nem deve ser transformado em forno de pizza.

Até Ministros do STF tiveram alguma forma de participação, seja através de escritórios de advocacia de seus familiares ou negócios imobiliários sem visibilidade.

Como forma de alimentar o golpe do Master, que era baseado na cobertura do FGC, houve Senador, chegou a apresentar proposta ao senado para elevar o Fundo Garantidor de Crédito de 250 mil para 1 milhão de reais, o que seria uma forma de alavancar os negócios do Banco Master. Tudo adredemente projetado para cobrir o rombo, que no seu somatório vai próximo dos 60 bilhões. Este é o maior rombo já praticado no Sistema Financeiro Brasileiro.

Através dos Fundos de Pensão, que também foram envolvidos, não é fácil prever quantos investidores pessoas físicas, foram atingidas.

Também, comenta-se que houve Fundo de Pensão que aplicou recursos nos Fundos do Master por influência dos políticos.

Houve Ministro que viajou com a esposa para um Estado fora de Brasília em vôo pertencente ao Vorcaro. Se tudo que tem sido dito sobre as proezas deste cidadão, conclui-se, que se trata de homem perigoso e maquiavélico, que a tudo compra com o poder do dinheiro e absolutamente sem escrúpulos.

Até na prisão o Sr. Vorcaro teve o benefício de não ter o cabelo raspado à zero, mas, apenas rebaixado.

Depois de preso o Sr. Vorcaro, substituiu seus advogados, contratando outra banca e tomou a decisão de fazer uma delação. O assunto está tramitando no poder judiciário e o Sr. Vorcaro, possivelmente reunindo provas para dar validade à sua delação.

A dúvida é se ele nomina todos os envolvidos e qual será o tamanho da sua pena e dos seus comparsas. Um já pagou com a própria vida, sob a alegativa de suicídio com uma camisa de malha.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 13/05/26. Opinião. p.19.


terça-feira, 16 de junho de 2026

53 anos da Faculdade de Educação Ciências e Letras do Sertão Central

Por Pe. Francisco Artur Pinheiro Alves (*)

Neste dia 10 de maio, a Feclesc completa 53 anos de história. Criada por lei municipal, pela Câmara Municipal de Quixadá, em 10 de maio de 1973, a Faculdade passou por várias etapas, numa luta contínua por sua consolidação como instituição de ensino superior na região do Sertão Central.

Sua primeira denominação foi Faculdade de Filosofia de Quixadá. Nesta fase inicial tinha como mantenedora a Prefeitura do Municipal de Quixadá.

Em 1976, percebendo-se que não cabia ao município, manter uma instituição de nível superior, foi criada a fundação Educacional do Sertão Central - Funesc, para ser a mantenedora da faculdade. Na ocasião foi também mudado o seu nome, passando a denominar-se Faculdade João XVIII, em homenagem ao Papa homônimo.

Neste período conseguiu instar-se em um terreno de 10.000m², doado por um cidadão local, sr. Joaquim Gomes da Silva, conhecido carinhosamente como Sr. Quinzinho. Foi construída sua sede, com um bloco administrativo e uma Biblioteca e dois blocos de sala aula.

Em 1983, foi encampada pela Fundação Universidade Estadual do Ceará, dentro de um projeto de expansão que contemplou outros municípios, dentre os quais, Iguatu Crateús, Itapipoca, Limoeiro do Norte.

Inicia-se uma nova fase com a realização de concurso público para professores. Os primeiros cursos são criados, vestibulares foram realizados semestralmente e a foi assim, florescendo. Houve uma interrupção na oferta de vestibular, mas foi superada, com a organização e entrega dos projetos profissiográfico dos cursos, pela UECE, junto ao Conselho Federal de Educação.

Após esta fase, novos concursos aconteceram, foi feita uma reestruturação acadêmica, com a criação dos departamentos, a aprovação do Regimento interno, a criação do Curso de Letras, a construção da Residência Universitária, novos blocos de sala de aula, laboratórios de Ciências, auditório e mais concursos, agora para Mestres e doutores.

Hoje, além dos cursos iniciais, Feclesc tem novos cursos e avança na Pós- Graduação, com Mestrados e o primeiro Doutorado, consolidando-se como instituição de nível superior, na região e no interior do Estado.

Oficialmente a Feclesc está comemorando 43 anos, contagem que se inicia com sua anexação pela Uece. Como estudioso e testemunha de sua história, defendemos que esta data seja mudada, já que 10 anos antes da anexação a Feclesc já existia, conforme foi descrito no início deste texto.

Com 43 ou 53 anos, a Feclesc ainda é criança, comparada às universidades e Faculdades nacionais e internacionais. Mesmo ainda na sua infância, ela já deu um grande contributo à região na qual está inserida e dará muito mais no porvir. Viva a Universidade Pública e gratuita, viva a FECLESC, que está contribuindo, com outros centros e faculdades da Uece, com a democratização do acesso à educação superior do Ceará.

(*) Diretor da Fecelsc entre 1992 e 1996.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/05/26. Opinião. p.17.


Os nossos "Gulags" de cada dia

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O arquipélago é longe, distante dos olhos e da compreensão. Sua história, para muitos, permanece desconhecida. Atravessa o tempo como um desconforto silencioso. Não se alcança facilmente a dimensão do absurdo.

Os "Gulags" modernos já não precisam de ilhas ou campos congelados. O medo tornou-se mais eficiente do que as antigas grades. Hoje, aprisiona-se sem muros aparentes. A violência contemporânea raramente se manifesta apenas pela força física; ela se instala no medo e no constrangimento permanente, na sensação de impotência. Tem raízes nas heranças familiares, tradições políticas e sociais que se reproduzem de geração em geração.

A insistência contínua do poder cria a impressão de mudança. Promessas são repetidas até adquirirem aparência de verdade. E talvez plantar esperança também possa ser uma forma sofisticada de ilusão. Do latim illudere: ludibriar, fazer troça de alguém.

Foi assim que comecei minha reflexão de domingo. Talvez o único momento em que permito ao pensamento sem amarras, conduzido por livros, músicas, memórias e antigos textos. Uma espécie de reencontro com a infância, quando literatura, poesia e rebeldia conviviam naturalmente.

Vivo no Ceará, terra que usa a ironia contra si mesma como forma de suportar o sofrimento, que produz poesia mesmo na escassez: "Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim; um grande amor não se acaba assim". Mas também uma terra marcada por estruturas de poder persistentes, que apenas trocam de roupa ao longo do tempo, sem jamais abandonar os velhos acordos.

Aqui, o "mecanismo" frequentemente encontra aceitação na subserviência secular imposta ao nordestino. De tempos em tempos surgem novas narrativas salvadoras, novos discursos, promessas que parecem convincentes no início — tudo dentro de uma única existência humana.

Escutei atentamente cada uma delas. Ouvi justificativas pragmáticas, discursos cuidadosamente construídos para explicar a realidade. Não sou ingênuo. Não acredito em fadas. Sei que gente é gente, submetida às circunstâncias, à sobrevivência e às conveniências. Nesse processo, quase tudo se justifica.

Até a religião, por vezes, serve para anestesiar consciências e acomodar meias verdades. Ainda assim, considero-me um homem de fé. Creio no aperfeiçoamento espiritual como força capaz de construir futuros melhores para as próximas gerações. Mas isso não me impede de reconhecer a maldade, suas múltiplas formas e sua capacidade de retardar a evolução humana.

Apesar de tudo, continuo sonhando. Não no imediatismo, mas no tempo longo da natureza e da história.

Enquanto isso, que venham mais poesias, mais críticas e mais coragem. Talvez assim ainda seja possível acreditar que o nordestino continua sendo, antes de tudo, um forte.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.23.


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Mães no labirinto da Prainha do Canto Verde

Por Izabel Gurgel (*)

Aíla faz labirinto com a malha bem fina. Bordado rendado ou renda bordada, ofício de agulha e linha, o labirinto refaz um tecido previamente desfiado. O desfiado segue o risco do desenho a ser executado. E o corte correspondente, resultando na "malha, na trama". Aíla conhece todas as etapas do trabalho. "Não sou boa de risco. O corte, não é toda pessoa que faz. Corto reto, mas não corto enviesado. A Prainha do Canto Verde tem três cortadeiras". Aíla aprendeu com a mãe, Francisca. Órfã desde cedo, dona Francisca aprendeu com a avó materna, dona Júlia, que foi sua mãe.

Aíla Maria da Silva Fernandes tem 62 anos. Dona Francisca Pereira da Silva, 86, segue fazendo labirinto. O trancelim do aprender e ensinar, a transmissão, no caso das duas, nomeia-se em cinco gerações. Aíla se enche de graça ao citar a filha labirinteira. "Tem coisa que Jaíla faz até melhor do que eu". Jaíla tem 32 anos. Casada, mora na vizinha Sucatinga. Os dois lugares ficam em Beberibe, limite da região metropolitana de Fortaleza no litoral leste.

A malha bem fina resulta no labirinto mais perto das filigranas de uma joia. Quem viu peças embaladas, percebe o trabalho de minúcias, que nos fez pensar no silêncio sinônimo de acolhimento de enxovais de bebê com bordados mínimos, o gesto do cuidar e do cultivo de uma calmaria necessária, invocada, quase impossível para os dias de sobrecarga de uma mãe.

Ouvi de mulheres labirinteiras, em outras praias do Ceará: o mar tem seca. A pesca artesanal tem período de paradeiro. Faz-se labirinto o ano todo. Nosso entendimento do trabalho das mulheres como complementação da renda familiar talvez seja equivocado. É sustento não só da casa, da família. Sustenta o mundo, sabemos.

Aprendemos a dizer e ver e reproduzir vila de pescadores e, mesmo sabendo que onde tem pesca (tem rede) tem renda, nunca dizemos vila de rendeiras. Equivocado como associar o fazer renda apenas à zona de praia. Um dos registros mais antigos de ensino da renda no Ceará data de 1760 e se refere à escola em vilas indígenas, ação jesuítica, desde a atual Viçosa, na Ibiapaba.

"Aprendi com a minha mãe. Amava ver minha tia e avó fazendo, lavando, colocando no grude", conta Jaíla. Aíla se reporta às oficinas que ministrou na escola, a filha por perto. Escuto, uma vez mais, Aíla dizer das etapas do labirinto: riscar (antes com lápis, hoje usa uma caneta cuja tinta se apaga quando a peça é passada a ferro), cortar, desfiar, encher, torcer, casear, fazer o paletão, o acabamento/recortar, lavar com grude de goma para, literalmente, engomar quando passar a ferro.

Um contundente mapa dos cearás do Ceará pode ser fiado no algodão, no linho, na seda, em caminhos cruzados, entrelaçados, riscando diminutos e vastos territórios. De mãos sempre ocupadas e olhos a cuidar das crianças no terreiro, do plantio de quintal, do fogo da casa, as mulheres tratam de nascimentos e mortes e de quase tudo que acontece no intervalo entre um e outro.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/05/26. Vida & Arte, p.2.


A Fundação Elmo e o galo para Asclépio

Por Marcelo Alcântara Holanda (*)

"Críon, devemos um galo a Asclépio; não te esqueças". Essas foram as enigmáticas palavras de Sócrates, imediatamente antes de cumprir sua sentença de morte em Atenas, em 399 a.C. O galo representava um sacrifício ao herói deificado da Medicina na Grécia antiga, em "pagamento" pelas curas alcançadas. Intérpretes modernos veem aí uma crítica do filósofo à decadência daquela pólis, doente por matar quem trazia luz e sabedoria em tempos difíceis.

Maio de 2026, 25 séculos depois. Nasce a Fundação Elmo para Suporte à Saúde Respiratória. Em seu nome, carrega uma homenagem a todas as instituições e pessoas que participaram do maior "case" de inovação em saúde durante a pandemia de Covid-19: o capacete Elmo. Desenvolvido pela Funcap, UFC, Unifor, ESP/Sesa, Senai/Fiec e produzido pela empresa Esmaltec, o dispositivo salvou milhares de vidas em todo o Brasil e, em particular, onde foi criado, no nosso Ceará, um dos estados com menos recursos econômicos do País (Gomes G. et al. Helmet CPAP in 1,685 Patients with Covid-19. Chest Critical Care, 2026; 4).

Sua missão: realizar e apoiar ações em benefício da saúde respiratória por meio de quatro pilares: pesquisa, inovação, ensino e memória. Como na Atenas de Sócrates, temos nossas mazelas sociais e no setor da saúde: o negacionismo, a falta de coesão social, as fragilidades do SUS e da rede suplementar, a crise na formação de profissionais, a falta de articulação com o setor industrial, entre outras.

Ao povo cearense, oferecemos uma instituição em prol da respiração suave e saudável que nos permita a vida plena, não como um sacrifício por bens alcançados, mas como dádiva de esperança, potência, união e pacto por tempos melhores e mais resilientes diante das inevitáveis endemias de hoje e das pandemias de amanhã. Bem-vinda, Fundação.

(*) Médico pneumologista intensivista. Professor associado da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/05/2026. Opinião. p.16.


domingo, 14 de junho de 2026

MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência IV

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - E o que se esperar de um bom médico?

Margareth - O médico que eu digo não é o médico do futuro, é o médico de agora. Se exige grande qualificação técnica, exige que ele seja formado com noções muito precisas e sólidas de pesquisa, trabalhar em equipe, ninguém trabalha sozinho, ele tem que aprender a trabalhar em equipe desde que entra na escola médica, ter uma noção de gestão, ninguém pode ter de capacidade, desenvolver uma capacidade liderança. Então, ser qualificado para líder, líder de equipe, líder de grupo, líder do seu laboratório. Isso é uma exigência que se faz, ter noções de tecnologia de informação. Ninguém hoje pode ser formado sem saber lidar com o programa de computador para interpretar, para saber ler um artigo científico. Até para você ler um artigo científico, você olha um gráfico para saber interpretar aquilo, né? E hoje nós vemos que até isso é falho. Essas são qualificações que eu julgo indispensáveis na formação de um médico. E por fim, e não menos importante, ser formado e receber sólidos conhecimentos de humanidade. Isso vem muito da educação que ele recebe em casa, naturalmente. Não é a faculdade que vai ensiná-lo, mas a faculdade vai resgatar o que ele recebeu. E se ele não recebeu nada, vai ter tentar incorporar na sua formação conhecimento de humanidade. Hoje, as grandes escolas médicas do mundo — e quem começou isso foi a faculdade de medicina de Harvard, nos Estados Unidos — estabeleceram um curso de humanidades. Humanidade significa um médico ler, ver arte, visitar museus, entender que existe muito da obra de arte, muitas obras de arte que nós vemos nos museus e que são lindas. Não adianta olhar e não saber o que tá vendo. (...) Então, assim, eu acho que dar essa chance ao médico de sair um pouco daquele ambiente e pensar um pouco sobre o livro, sobre literatura, tudo isso faz parte do da formação do que eu julgo um bom médico.

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - Doutora, para finalizar, eu queria que a senhora falasse um pouquinho sobre a pesquisa sobre a qual a senhora tá se debruçando atualmente, que é a paradigma TB. Queria que a senhora explicasse um pouquinho sobre esse ensaio clínico.

Margareth - Nos últimos 30 anos, eu venho me dedicando à pesquisa na área da tuberculose, tentando responder como nós podemos humanizar o tratamento e melhorar a eficácia dos tratamentos. Isso junto com outros pesquisadores da Fiocruz e de outras instituições brasileiras, o Brasil teve chance de participar dos principais ensaios clínicos desenvolvidos nos últimos 25 anos. Eu participei da mudança de tratamento. O Brasil foi de novo pioneiro ao assumir o tratamento de curta duração para formas graves e resistentes de tuberculose. E nós participamos dos estudos que geraram essa informação que permitiram essa tomada de decisão. E, nesse momento, agora, é de novo, através de quatro instituições brasileiras, três da Fiocruz e a outra é da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nós estamos começando a participar de um novo estudo internacional cujo objetivo é responder se será ou não possível. A tuberculose ainda tem um tratamento muito longo que dura seis meses para as formas sensíveis e nós queremos responder se é possível com a adição de dois fármacos novos, ainda em fase clínica, se será possível ou não reduzir o tempo de seis para quatro meses. Tudo indica que sim, os resultados dos estudos preliminares até agora mostram resultados muito favoráveis e nós seremos protagonistas de uma resposta histórica mais uma vez e isso nos dá muita alegria.

Um fato que eu gostaria de registrar é que a comunidade acadêmica brasileira, apesar do conservadorismo de alguns, manteve uma capacidade de compromisso público muito grande. Temos vários exemplos. Com todas as adversidades, o Brasil, foi o 10º país que mais publicou em relação à Covid-19 e houve experiências brasileiras que ficam pra a história. E uma delas se deu aqui no Ceará, que foi através de pesquisadores do Ceará, a criação de um mecanismo que salvou muitas vidas. E uma das razões pelas quais eu estou aqui é a Fundação Elmo. O Elmo é um equipamento que foi criado, como eu disse, pelos pesquisadores cearenses, enquanto em São Paulo, grupos da USP participavam de estudos clínicos, enquanto nós participávamos na Fiocruz de estudos da vacina. Aqui, pesquisadores criaram um dispositivo que atendeu pacientes com grave insuficiência respiratória e que, a meu juízo, não tem um número preciso, salvou milhares de vidas, dezenas de milhares de vidas. Isso tem que ser registrado porque isso gerou uma premiação, através do professor Marcelo Alcântara, daqui do Ceará, e gerou a Fundação Elmo que hoje nós estamos aqui para prestigiar. Então, de certa maneira, eu quero dizer que a despeito de todas as dificuldades pelas quais nós conversamos, a comunidade científica e acadêmica brasileira demonstrou uma enorme capacidade de trabalho, um compromisso público absolutamente inegável e uma criatividade que propiciou algo que fica registrado pra história, não é pra história para ser esquecido, é para ser usado. Então isso faz muita diferença e eu faço questão de registrar.

LIVRO

A pesquisadora lançou o livro "Um tempo para não esquecer – A visão da ciência no enfrentamento da pandemia do coronavírus e o futuro da saúde", em 2021. A obra compila artigos que narram a batalha contra a Covid-19, analisando evidências científicas, vacinas e o cenário da saúde.

ELMO

Dalcolmo esteve em Fortaleza em maio e participou do lançamento da Fundação Elmo, instituição de suporte à saúde respiratória. Ela foi uma das homenageadas na cerimônia, junto da pneumologista Márcia Alcântara.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência III

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - Nesse período, também se acentuou a questão que o discurso de alguns profissionais se misturava com questões políticas e ficou muito evidente o caráter bem conservador da categoria médica. Como é que foi isso pra senhora? Como é que a senhora observa os impactos negativos disso durante esse período de crise?

Margareth - Olha, eu não acredito em inocência, digamos assim, como um princípio. Tudo tem um, o que eu chamaria um dolo. No sentido de que você tem que ter um propósito. Nada é inocente. Dizer que a ciência não pode ser politizada é uma ingenuidade. Ela pode ser para o mal, mas ela também pode ser para o bem. Houve uma coisa muito curiosa. Em 2020, nós não tínhamos vacina, nós tínhamos uma pandemia que crescia e se alastrava pelo Brasil de maneira muito dramática. E nós começamos a vacina sazonal pra gripe, pra influenza no meio do outono, no mês de abril, nós nunca vacinamos tanta gente porque as pessoas acorriam aos centros de saúde achando que vacinar para a gripe protegia contra Covid. Olha que coisa incrível. Isso, naquele momento, começou a ser contaminado, a partir daquele momento, por um discurso e por essa retórica nociva a qual eu me referi de que vacina não protegia. Desde as minhas primeiras entrevistas, eu disse uma frase… Qual é a arma mais preciosa que nós temos para viroses agudas de transmissão respiratória? Não é remédio. Remédio é para virose crônica. Então, hoje nós tratamos viroses crônicas como aids, infecção pelo HIV, hepatite C, para isso tem remédio. São viroses crônicas de outra evolução. Viroses de transmissão aguda respiratória, a grande arma é vacina. E nós sabíamos disso, aprendido há décadas pelo sarampo. Como é que nós conseguimos eliminar o sarampo? Porque é a virose que mais rapidamente se transmite, uma pessoa transmite para 15 outras. Nós sabíamos que a arma era essa. Mas, desde o início, médicos não necessariamente são conservadores por natureza. Mas existia naquele momento uma polarização no País que já era óbvia. Porque havia uma fratura, digamos assim, social que já se havia demarcado pelo processo eleitoral. E isso contamina. Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertence a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito conservadora, sem se abrir para uma crítica, digamos assim, mais ampla ou para o que eu chamo de uma consciência social mais ampla, baseada em fatos. Quando houve a questão que eu considero uma tragédia, que foi a questão da cloroquina, foi o pior exemplo. E não nasceu no Brasil. Na verdade, aquilo nasceu na França através de um pesquisador que hoje está no ostracismo. O seu CRM cassado, inclusive. O professor Didier Raoult que inventou isso. Naquele momento, junho, julho de 2020, estimadamente, havia no planeta mais de 3 bilhões de pessoas usando cloroquina. Não foi só no Brasil, houve uma contaminação feita pela irracionalidade. Alguém disse, todo mundo tinha medo. A Covid-19 gerava um temor imenso nas pessoas. Pessoas morriam, famílias perdiam, a dor estava estabelecida, ritos sociais estavam rompidos pelo isolamento. O isolamento social é algo que, digamos, corrompe toda a nossa cultura. Ainda mais nós, que somos latinos, somos gregários por natureza. Então, o isolamento era algo que violava muito a nossa cultura. Tudo isso gera medo e o medo nos torna muito frágeis. O medo pode nos encorajar em algumas situações muito particulares, mas o medo nos faz mais fáceis de sermos contaminados por uma informação. O exemplo da cloroquina é isso. Rapidamente alguém oportunista criou isso. Na verdade, todos os estudos, hoje, mais do que nunca, mostram que nunca houve nada que mostrasse que a cloroquina melhorasse, curasse ou impedisse alguém de morrer por Covid-19. Então, o exemplo mais paradigmático que eu acho é esse. Isso se juntou quando naquele momento todo mundo, o mundo desenvolvido todo, investia, as casas farmacêuticas investiam na produção rápida de uma vacina. Eu considero as plataformas vacinais, as novas e as recuperadas durante aquele período de 2020, 2021, talvez a descoberta mais sensacional das últimas décadas da saúde, que foi a elaboração das vacinas para Covid-19 que geraram essa coisa linda, que foi a plataforma de RNA mensageiro que deu o prêmio Nobel ao casal, a dra. Karikó. E que hoje gera a plataforma que vai fazer não apenas as novas vacinas para várias doenças, como remédios. Então, hoje na área da oncologia, por exemplo, são muitos fármacos que estão sendo fabricados sobre a plataforma de RNA mensageiro, que é algo espetacular pela sua plasticidade, pela maneira como ela permite ser adaptada para diversas produções numa mesma situação, no mesmo local. Então, eu acho que a Covid-19, a despeito desse excesso de luto, que nós não precisávamos… Eu quero deixar claro, o Brasil não precisaria ter tido esse excesso de mortes que comprovadamente teve, bem como esse excesso de cicatrizes e de luto que nós temos com 718 ou 720.000 mortes. E isso gerou uma consequência que eu considero muito grave. A Covid-19, o SARS COV 2 é um vírus que ele virou endêmico, ele vive entre nós, ele não vai nunca mais desaparecer, isso vai exigir que nós sejamos vacinados anualmente como fomos vacinados para a gripe. Hoje, o nosso desejo é que nós consigamos nos próximos anos ter uma vacina conjugada para a influenza e para Covid juntas. Isso já tem muitos locais de pesquisa nesse objetivo. Isso é o que nós desejamos nos próximos anos. Mas nós precisamos nos preparar para as próximas epidemias e esclarecer com esse propósito. Dizer a verdade, dar as boas notícias, mas, sobretudo, dar as más notícias quando necessário.

OP - Ainda falando sobre a categoria médica, a senhora é muito incisiva quando fala sobre os problemas da formação médica atual. O que mais preocupa a senhora quando a gente fala desse médico que tá se formando e tá chegando ali ao paciente?

Margareth - Eu sou membro titular da Academia Nacional de Medicina, uma das nossas grandes preocupações nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil. Eu acho que nós vivemos algo muito grave que foi a liberação desse excesso de escolas médicas de péssima qualidade. E o resultado do Enamed que nós vimos recentemente prova isso que eu tô dizendo. O rendimento muito sofrível de muitas dessas escolas, ou seja, um país da complexidade do Brasil, da diversidade do Brasil, do tamanho continental do Brasil, exige que tenha um sistema de saúde com o SUS, exige a formação de médicos que efetivamente estejam preparados para tratar pessoas numa população, sobretudo, que envelhece. (...)

Tudo isso exige uma formação médica. O médico hoje formado exige uma qualificação técnica muito alta, os desafios são muito grandes. Então, eu não admito formar um médico hoje que não esteja qualificado para diagnosticar um caso de sarampo numa UPA, num centro municipal de saúde. E que também esteja qualificado para tratar uma pneumonia grave numa terapia intensiva num hospital público ou privado. Nós temos que saber isso. O médico tem que ter necessariamente esta formação. E para que ele possa tê-la, é preciso que ele receba uma formação adequada. É preciso que ele tenha instrutores, tutores, professores, que sejam devidamente qualificados para tal e que ele tenha vivência prática. Não pode ter aula online, não pode ter aula por EAD de Medicina. Isso não existe. Essas faculdades que não obtiveram nota, a meu juízo, tinham que ser fechadas, mas essa é uma posição individual minha. Elas tinham que ser impedidas de formar mais médicos. E hoje temos um drama estabelecido no Brasil. O que é que nós vamos fazer com esses médicos que não têm diploma? Isso se soma ainda a gravidade dos que são formados fora do Brasil também em péssimas faculdades na zona de fronteira ou países aqui vizinhos e que não passam no Revalida. A taxa de aprovação do Revalida não passa de 20%. E o que nós faremos com esses 80% de jovens que não vão ter CRM, não vão ter licença? Onde eles estão? Então, a minha posição é que não se pode punir esses jovens. Nós temos que dar uma chance a eles. E eu me dei o trabalho de fazer uma verificação e essas pessoas nunca tiveram nenhuma aula sobre tuberculose ao longo de 6 anos de formação. Talvez tenham visto caso e não tenham sabido diagnosticar, entende? Uma doença que é tão prevalente no Brasil para dar apenas um exemplo, poderia dar N outros. Como cânceres e doenças cardiovasculares, mas não pode formar um médico que não seja capaz pelo menos de pensar na hipótese diagnóstica atendendo alguém, que aquela pessoa esteja tendo um infarto agudo do miocárdio. Isso não é inadmissível. Ou fazer um diagnóstico de uma apendicite aguda e tomar as providências para mandar operar, que é uma coisa simples, mas alguém tem que ensinar isso durante o curso médico. Então, eu considero que é muito grave o que aconteceu no Brasil. Considero imperdoável a liberação dessas escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que o MEC esteja conseguindo corrigir. Mas nós ainda não resolvemos o que que nós vamos fazer. Nós apenas resolvemos como nós vamos avaliar as escolas. A Academia Nacional de Medicina tem essa posição também, que o aluno tem que ser… Primeiro ele entra na escola, ao final do ciclo básico ele faz a primeira avaliação e, depois, antes de chegar ao final do curso, uma nova avaliação para saber se se ele tem condições de progredir ou se ele tem que repetir, como se repete ano na escola. (...)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


 

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