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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Gravidez tardia, estilo de vida e síndrome de Down

Por Evangelista Torquato (*)

A gravidez tardia deixou de ser exceção e passou a fazer parte da realidade de muitos casais. Motivos profissionais, estabilidade financeira e mudanças sociais levaram pessoas a postergar o projeto de ter filhos. No entanto, é essencial compreender como a idade e o estilo de vida impactam a fertilidade e os riscos genéticos, entre eles a síndrome de Down, para que decisões sejam tomadas com informação e responsabilidade.

Do ponto de vista feminino, o avanço da idade está diretamente relacionado à diminuição da quantidade e da qualidade dos óvulos. Após os 35 anos, e de forma mais acentuada após os 40, aumenta o risco de alterações cromossômicas nos óvulos, elevando a probabilidade de embriões com aneuploidias, incluindo a trissomia do cromossomo 21. Já no homem, embora a produção de espermatozoides seja contínua, o envelhecimento também traz impactos importantes, como maior fragmentação do DNA espermático e alterações genéticas associadas à idade.

O estilo de vida exerce papel fundamental nesse cenário. Tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, sedentarismo, estresse crônico e noites mal dormidas afetam diretamente a qualidade dos gametas femininos e masculinos.

Felizmente, a medicina reprodutiva avançou de forma significativa. Métodos como a fertilização in vitro permitem avaliação criteriosa dos embriões antes da transferência ao útero. O teste genético pré-implantacional é hoje uma ferramenta eficaz para identificar embriões cromossomicamente normais, reduzindo riscos e aumentando as chances de uma gestação saudável. Além disso, estratégias como o congelamento de óvulos em idades mais jovens e o acompanhamento individualizado do casal contribuem.

Falar sobre gravidez tardia não é estimular o medo, mas promover consciência. Informação, planejamento e acompanhamento especializado permitem que pessoas façam escolhas alinhadas aos seus desejos e à ciência. A tecnologia não elimina riscos, mas oferece caminhos mais seguros para quem sonha em formar uma família, mesmo com o passar do tempo.

(*) Ginecologista com atuação em reprodução humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/06/2026. Opinião. p. 18.

domingo, 12 de abril de 2026

TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM III: Luciano Silveira Pinheiro

            Luciano Silveira Pinheiro nasceu em Fortaleza-CE, em 12 de setembro de 1940.

Ingressou na Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1963, concluindo o seu curso médico em 1968. Cumpriu Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia (GO) na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC) da UFC.

Realizou, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, o Mestrado em Tocoginecologia concluído em 1979, e o Doutorado em Tocoginecologia, concluso em 1985.

Pertenceu ao staff do quadro de fundadores da Clínica Obstétrica do Hospital Geral de Fortaleza.

Foi professor colaborador de Ginecologia e Obstetrícia da UFC, de 1974 a 1976. Em 1981, foi admitido por concurso como professor assistente, assumindo suas funções docentes e prestando serviços assistenciais na MEAC.

Foi promovido a professor adjunto e coroou sua carreira como professor titular concursado em 1998. Em seu vínculo funcional com a UFC (1981-2010), se ocupou de muitos encargos, sendo dignificado como professor emérito em 2013.

Publicou o livro “Displasia mamária: abordagem atual” e foi coeditor de três livros. Sua produção científica se destaca ainda pela publicação de muitos artigos em periódicos médicos estrangeiros e em revistas brasileiras de Ginecologia e Obstetrícia.

Atualmente, mantém-se proativo no ensino e na pesquisa médica, passando também a incursionar no campo literário, como cronista e contista.

Foi empossado na ACM em 22/07/2022, assumindo a Cadeira 48, patroneada por Newton Teófilo Gonçalves.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.


TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM I: Francisco José Costa Eleutério

 

Francisco José Costa Eleutério, nascido em Fortaleza, em 5/01/1949.

Graduado em medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1973. Foi médico residente de Ginecologia e Obstetrícia (GO), no Hospital Geral Dr. César Cals.

Especialista em Ginecologia e Obstetrícia, ministra cursos preparatórios aos candidatos do Ceará ao Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia.

Exerceu medicina por mais de 40 anos, na condição de funcionário público federal concursado e professor universitário, tendo se aposentado do serviço público, após 35 anos de trabalho.

Como obstetra, foi chefe de Serviço de Obstetrícia do Hospital Geral de Fortaleza e preceptor da Residência Médica em GO desse hospital, de onde se afastou, em 2015, mercê da sua aposentadoria.

Ex-professor e coordenador da disciplina de Gineco-Obstetrícia e preceptor de Internato do Curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará, comportando salientar que diversas turmas de concluintes, sistematicamente, o homenageiam.

No campo técnico-científico, publicou os livros: “Dez Temas Básicos de Obstetrícia”, “Temas em Obstetrícia”, “Manual de Intercorrências Clínicas em Obstetrícia” e “Protocolos de Obstetrícia da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará”.

Ingressou na Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional Ceará, em 2013, tendo participação nas 13 últimas antologias. Eleutério faz incursões literárias na tessitura de ensaios e crônicas em diversas publicações literárias.

Em 31/07/2015, foi empossado na ACM, como ocupante da cadeira 16, patroneada pelo Dr. João Otávio Lobo.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nota de Pesar por Dr. Francisco Holanda Júnior

 

Lamento informar o falecimento do Dr. Francisco Holanda Júnior, médico e servidor da Secretaria de Estado da Saúde do Ceará (SESA).

Durante os quatro anos em que estivemos à frente da Secretaria — Jurandi Frutuoso, Galba Gomes e Alexandre Moreira — contamos com sua orientação técnica qualificada e o apoio de um dedicado colaborador, em especial no fortalecimento do programa Saúde Mais Perto de Você e na gestão da política hospitalar do Estado, dentre outras contribuições relevantes.

Registro meu reconhecimento e agradecimento ao Dr. Holanda por sua dedicação ao serviço público e à saúde do povo cearense.

À Ana Célia e aos filhos, Zélia e eu manifestamos nossos sentimentos, desejando-lhes conforto, serenidade e força neste momento de profunda dor.

Att.

Jurandi Frutuoso

Ex-Secretário de Saúde do Estado do Ceará

Nota do Blog: Francisco Holanda Júnior era um competente ginecologista e dedicado gestor público, além de colega muito distinto e cordial. Fui orientador de mestrado da sua esposa Ana Célia e com eles publicamos três artigos científico.

O corpo do Dr. Francisco Holanda Júnior está sendo velado no Complexo Velatório Aethernus à Rua Pe. Valdivino, Nº 1.688, em Fortaleza. A missa de corpo presente será celebrada às 14 horas de hoje (13/01/26) e o cortejo fúnebre sairá às 15 horas para o sepultamento no Parque da Paz, marcado para as 16h.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Editor do Blog


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

LICENÇA MENSTRUAL: dignidade e empatia

Por Lilian Serio (*)

O Projeto de Lei da licença menstrual, aprovado na Câmara e que agora vai para tramitação no Senado, representa um avanço em direitos trabalhistas para as mulheres, uma vez que não se trata de um privilégio, e sim de um ato de respeito à dignidade feminina e ao reconhecimento de uma condição biológica que merece atenção e compreensão.

Durante o período menstrual, muitas mulheres sentem cólicas intensas, fadiga, enxaquecas, náuseas e variações de humor causadas pela oscilação hormonal. Para algumas esses sintomas são leves e permitem a manutenção da rotina de trabalho. Para outras, no entanto, o fluxo é tão intenso e a dor tão forte que o simples ato de levantar-se da cama se torna um desafio.

Essa diferença ocorre porque cada organismo reage de forma distinta às variações hormonais, à presença de doenças como a endometriose ou a síndrome dos ovários policísticos, e até mesmo a fatores emocionais e genéticos.

A licença menstrual não é sinônimo de fragilidade, mas de humanidade. Permitir que uma mulher se ausente do trabalho nos dias em que estiver impossibilitada de exercer suas funções por conta do ciclo menstrual é reconhecer que o corpo feminino tem seus limites e que respeitá-los é um gesto de empatia.

As empresas que adotarem essa medida não estarão fazendo um favor, e sim cumprindo um dever ético e social, o de promover um ambiente de trabalho mais inclusivo, saudável e acolhedor.

O período menstrual não é apenas “mau humor” ou “exagero”, mas manifestações fisiológicas reais, é um passo essencial para desconstruir preconceitos e construir uma cultura mais justa. Quando a mulher é acolhida e respeitada em sua integralidade física, emocional e profissional, todos ganham: ela, a empresa e a sociedade.

É importante lembrar que o acompanhamento periódico com um ginecologista é essencial para que cada mulher compreenda melhor o próprio corpo e previna doenças ginecológicas. Consultas regulares ajudam a identificar condições que podem intensificar os sintomas menstruais e interferir na qualidade de vida. Cuidar da saúde é também um ato de empoderamento e de autoconhecimento.

(*) Médica ginecologista especialista em reprodução humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/11/2025. Opinião. p.16.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Gravidez precoce perpetua a pobreza e a falta de prioridade política

Por Sara Oliveira (*)

Em 2023, na sala de espera da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac), lembro de entrevistar avó e mãe. A primeira com 47 anos, cinco filhos e dez netos. A segunda com 17 anos, sendo mãe pela primeira vez, depois de cuidar dos três filhos da irmã, de 20 anos. As dificuldades que eu, na época com 40 anos e dois filhos, comecei a narrar sobre a vida materna, se perderam em meio aos relatos daquelas duas mães.

O pai do bebê da adolescente estava preso, ela não havia terminado nem o ensino fundamental e quando perguntei sobre o futuro, a resposta foi "ainda não pensei". A avó, de pronto, reagiu: "Que futuro uma mãe que não trabalha pode dar ao filho? Porque eu trabalho para dar a ela, porque não tem quem dê. O pai foi só pra fazer".

Não se trata de um caso isolado. Uma em cada 23 meninas brasileiras entre 15 e 19 anos já teve um filho. Em mais de 49 mil partos, a mãe tinha entre 10 e 14 anos. Os números, embora já conhecidos, escancaram o resultado da carência de políticas públicas que amenizem as vulnerabilidades às quais meninas são expostas no Brasil.

Dados são de pesquisa da Universidade Federal de Pelotas, de 2020 a 2022, e consideram a taxa de fecundidade em 5,5 mil municípios brasileiros. Estudo exibe um recorte sócio-econômico alarmante: 69% dos municípios apresentaram índices de fecundidade acima do que seria esperado para um país de renda média-alta, que é a classificação econômica oficial do Brasil.

Cenário que destaca as desigualdades regionais e prova a relação direta entre gravidez precoce, pobreza, evasão escolar e falta de acesso a serviços públicos. Na região Norte, o índice de grávidas é de 77,1 nascimentos por mil meninas. No Sul, essa taxa é de 35.

Antes de engravidar, durante a gestação e depois de estar com o filho nos braços, essas jovens convivem com diversos e diferentes riscos sociais. São vítimas de abusos, estupros e violências. E como em todas as estatísticas que envolvem crimes sexuais e de violência contra mulheres, é preciso fazer a ressalva da subnotificação.

Em 2025, até julho, no Ceará, dos 1.019 crimes sexuais registrados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), 80% tiveram como vítima crianças e adolescentes até 19 anos. Um total de 825 casos, dos quais, 85% foram contra crianças até 14 anos. Meninas que na grande maioria das vezes sofrem sem denunciar, engravidam sem ter direito a abortar e continuam a viver à margem dos direitos que deveriam lhes ser assistidos. Um ciclo geracional, afetado pela falta de assistência e oportunidade.

A gravidez precoce perpetua a pobreza e ratifica a falta de prioridade política. Tem impacto nos principais segmentos da sociedade: Saúde, Educação, Economia. Os números precisam incitar ações para que o futuro de meninas não seja mais violado.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/08/2025. Opinião. p.19.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Redução da mortalidade materna e a luta contra o sangramento no parto

Por Tomaz Crochemore (*)

Todos os dias, mulheres morrem no Brasil e no mundo devido a hemorragias graves durante o parto. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sangramento pós-parto é a principal causa de morte materna no planeta — mesmo sendo, na maioria das vezes, evitável.

As causas incluem falha na contração do útero, cesáreas de emergência, distúrbios da coagulação e atrasos no diagnóstico. Estima-se que, só em 2021, mais de 60 mil brasileiras enfrentaram hemorragias graves no parto. A falta de preparo das equipes e a ausência de recursos diagnósticos imediatos comprometeram muitos desfechos.

Com o reconhecimento da OMS sobre a importância do conceito PBM (Patient Blood Management — Gerenciamento do Sangue do Paciente), a medicina de precisão permite hoje individualizar o tratamento do sangramento com base em testes modernos realizados à beira do leito.

Os chamados testes viscoelásticos do sangue funcionam como um “mapa” da coagulação: mostram qual etapa está comprometida e guiam a escolha do tratamento ideal através do uso de medicamentos hemostáticos e produtos derivados do sangue — como, por exemplo, ácido tranexâmico ou concentrado de fibrinogênio. Desta forma, é possível definir o diagnóstico mais cedo, e aumentarmos a eficácia terapêutica, reduzindo, inclusive, o uso desnecessário de transfusões.

A adoção do PBM traz benefícios concretos e imediatos para a prática clínica. Para os médicos, representa maior segurança na tomada de decisão, com base em dados objetivos da coagulação, alinhados ao conceito de medicina de precisão — ou seja, conforme a necessidade de cada paciente. Com isso, é possível evitar tanto intervenções excessivas quanto atrasos no tratamento.

Para as pacientes, o impacto é ainda mais direto: menor risco de complicações, menos transfusões, menor tempo de internação e maior chance de recuperação plena. Em centros que aplicam o PBM de forma estruturada, a mortalidade materna por hemorragia vem diminuindo significativamente, evidenciando que essa abordagem é um verdadeiro divisor de águas no cuidado obstétrico.

Reduzir a mortalidade materna por sangramento exige treinamento de toda equipe multiprofissional, acesso à tecnologia diagnóstica, medicamentos hemostáticos e protocolos bem definidos. Cada minuto conta. E cada vida importa.

(*) Médico intensivista. Diretor médico na Werfen, mestre e doutor em Ciências da Saúde e pesquisador em coagulação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/08/2025. Opinião. p.18.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

(IN)FERTILIDADE EM FOCO

Por Marcelo Cavalcante (*)

Recentemente, a Organização Mundial de Saúde divulgou estatística atualizada sobre a fertilidade mundial. Desde o último levantamento, há 10 anos, a quantidade de pessoas inférteis cresceu assustadoramente. Estima-se que um em cada seis casais apresentam dificuldade para engravidar. Parentalidade tardia, obesidade, estilo de vida, contaminantes e poluição ambiental são fatores que podem justificar o crescimento desse problema de saúde.

Um casal é considerado infértil quando tenta engravidar e, depois de um período de 12 meses, não consegue. Caso a parceira tenha mais de 35 anos, esse intervalo deve ser reduzido para seis meses de tentativas. Diversas ações de saúde podem ser realizadas para informar a população sobre planejamento reprodutivo e como otimizar a fertilidade, evitando hábitos que impactam negativamente no potencial reprodutivo do homem e da mulher.

Apesar de poucos saberem, o mês de junho, em todo o mundo, é conhecido como o Mês de Conscientização da Infertilidade. As campanhas de divulgação, com informações de qualidade, são uma grande arma para o combate à infertilidade. Entretanto, não é o suficiente.

No Brasil, existe uma grande dificuldade de acesso da população a serviços especializados em reprodução assistida. Comparando com outros países da América Latina, o Brasil é o 6º país em número de tratamentos de alta complexidade para casais inférteis, realizando 231 ciclos de fertilização in vitro para cada um milhão de habitantes. Uruguai, com 558 ciclos de fertilização in vitro para cada um milhão de habitantes, é o país da América Latina com maior número proporcional de casos, seguido pela Argentina, Panamá, Chile e Peru.

Essa nova realidade reprodutiva mundial deve ser observada com extrema atenção. Países com baixas taxas de natalidade já estão promovendo mudanças inimagináveis até pouco tempo. Um exemplo é a alteração recente na política chinesa de filho único. É chegada a hora dos gestores públicos repensarem as políticas de planejamento familiar no Brasil. Precisamos estar preparados para o que virá pela frente.

(*) Médico especialista em Reprodução Humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/06/2023. Opinião. p.20.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

POBREZA MENSTRUAL, AFINAL O QUE É ISSO?

Por Ana Virgínia de Melo Fialho (*)

A pobreza menstrual ganhou destaque nos últimos anos com os debates sobre a responsabilidade do Estado em fornecer absorventes para as mulheres carentes, sendo preciso ser encarada como um problema de saúde pública vivenciado por milhares de mulheres que desempenham papéis sociais e estão inseridas na população economicamente ativa do Brasil, mas que não possuem condições financeiras para custeio de absorventes higiênicos, revelando as desigualdades sociais, vulnerabilidades social e econômica enfrentadas.

Desde 2014, a OMS já reconheceu o direito à higiene menstrual como uma questão de saúde pública e de direitos humanos, e mesmo sendo considerada uma necessidade humana básica, nem sempre a higiene corporal e a aquisição de produtos de higiene consegue ser prioridade na busca pela subsistência.

Muitas mulheres vulneráveis, sem acesso ao básico das condições de saneamento, impossibilitadas de adquirir materiais de higiene necessários para esse período, ou vivem em situação de rua, acabam utilizando materiais inadequados que encontram, como panos, jornais, papéis, papel higiênico e sacos plásticos. Essas condições precárias favorecem a ocorrência de infecções genitais e urinárias, gerando constrangimento diante de escapes de sangue menstrual nas roupas, eliminação de odor e até perda de oportunidades de convívio social ou desempenho laboral.

Muitas jovens deixam de frequentar as escolas e faculdades por não possuírem condições financeiras para aquisição dos absorventes higiênicos durante o período menstrual, impactando o processo de ensino-aprendizagem. Em algumas instituições, os próprios alunos criam projetos que contam com doações para que esses produtos sejam distribuídos, que fiquem disponíveis e de livre acesso.

Proporcionar acesso, por meio da distribuição dos absorventes higiênicos, é uma estratégia para prevenir doenças, promover a dignidade e inclusão social, gerando impacto positivo na população feminina, favorecendo o enfrentamento das vulnerabilidades e incentivando o desenvolvimento das atividades cotidianas das mulheres em todos seus ciclos de vida.

(*) Professora do Curso de Enfermagem da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/05/2023. Opinião. p.18.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

REPRODUÇÃO ASSISTIDA PARA TODOS

Por Juvenal Linhares (*)

A primeira bebê de proveta (FIV) do Brasil e da América Latina completa 39 anos em 2023. A paraense Anna Paula Caldeira nasceu em São José dos Pinhais, no ano de 1984, seis anos depois do primeiro bebê de proveta do mundo, a inglesa Louise Brown. Esses nascimentos foram um marco para a medicina.

Desde o primeiro nascimento por FIV no mundo, estima-se que mais de 10 milhões de bebês nasceram graças à técnica. Outras contribuições da reprodução assistida (RA) são novos modelos familiares, como a família monoparental, a família de casais homoafetivos e a preservação da fertilidade em famílias que adiam a gestação por causa da carreira profissional ou por doenças como o câncer.

As técnicas de RA são divididas em baixa e alta complexidades: as de baixa são coito programado, inseminação artificial e a inseminação intrauterina e as de alta complexidade, a injeção intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) e a fertilização in vitro - FIV ("bebê de proveta").

Em outubro de 1999, nasceu o primeiro bebê por FIV do Ceará. Após mais de 20 anos desse feito, as técnicas de alta complexidade no nosso Estado, assim como no Brasil, foram privilégios dos grandes centros e capitais do País, sem falar na ineficiência do SUS, em ajudar, de forma significativa, esse público.

O alto custo de deslocamento para os grandes centros fez com que casais inférteis e pessoas solteiras que sonham em ter filhos (as), não tivessem condições de acesso. Isso causou diversas repercussões psíquicas sobre a elaboração do luto decorrente da condição de infertilidade, vividas em segredo.

O sonho, até então utópico, de trazer a RA de alta complexidade (FIV) para o interior do Ceará (na cidade de Sobral), tornou-se realidade em julho de 2022. Em menos de seis meses, a Fertiliza já foi capaz de ajudar a gerar a primeira gravidez por FIV fora da capital, com previsão de nascimento do primeiro bebê para setembro deste ano.

Ainda hoje, estados como Acre, Amapá, Alagoas, Rondônia e Roraima não possuem centros de RA, mostrando a vanguarda desse passo dado no interior do Estado, trazendo esperança e acesso a um dos pilares mais importantes da saúde reprodutiva.

(*) Ginecologista e sócio da Clínica Fertiliza

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/05/2023. Opinião. p. 22.

 

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