quinta-feira, 23 de abril de 2026

O feminino na irmandade da Santa Casa

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 14 de março, ao completar seus 165 anos de existência, a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza já tinha decidido, por aclamação da Assembleia Geral Ordinária, escolher a primeira mulher para ocupar a Provedoria da instituição, no triênio 2026-2029.

Destacamos essa característica de pioneirismo da Irmandade: na radiologia, obstetrícia, tratamento da tuberculose, serviço de urgência, além do apoio à Faculdade de Medicina do Ceará e ao Curso de Enfermagem das Vicentinas.

Historicamente, as mulheres estiveram presentes nessa história, seja pela figura da Rainha Dona Leonor de Viseu que, em Portugal, criou a primeira Santa Casa, seja aqui pelas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo (Irmãs Vicentinas), esteio do atendimento humanizado direto aos pacientes da Santa Casa, desde 1861.

Em 1943, com a criação da Escola de Enfermagem São Vicente de Paulo, com as Irmãs Vicentinas responsáveis pela sua direção, a Santa Casa de Fortaleza passou a funcionar como hospital-escola oficial, o que se manteve com a criação do Curso de Enfermagem da UFC.

Mas, a presença feminina vem desde os primeiros momentos, com as Irmãs Vicentinas presentes na estruturação da Irmandade e na sua consolidação, a partir das bases de enfermagem, humanização e assistência, antes mesmo da profissionalização.

No entanto, a visão patriarcal destinava aos homens os cargos de direção, apesar de ser um serviço que exige muito mais sensibilidade do que formação técnica, com uma visão mais humanizada, o que é mais característico do universo feminino.

Uma simples pesquisa da última relação dos 36 Mordomos, a chamada Mesa Administrativa da Irmandade, mostra a presença de apenas seis mulheres, nenhuma delas entre os oito ocupantes dos cargos da Provedoria.

Para a nova Mesa, foi ampliado esse número para nove mulheres e, o que é mais relevante, quatro ocupando cargos na Provedoria, encabeçadas pela Provedora Magda Busgaib, indício de maior sensibilidade no futuro desta Instituição. Afinal, o trabalho de Magda como a Mordomo responsável pelo Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo é disto um claro exemplo.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Opinião. p.20.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Ariosto, um homem à frente do seu tempo

Por Cláudio Ricardo (*)

O Ceará perde um de seus mais extraordinários homens públicos: Ariosto Holanda. Sua partida entristece profundamente todos os que acreditam no poder transformador da educação, da ciência, da tecnologia e da vida pública exercida com dignidade. Mais do que um gestor, parlamentar ou intelectual, Ariosto foi um verdadeiro visionário, daqueles raros que enxergam antes dos outros o caminho que o futuro exige.

Muito antes de se tornar consenso falar em inovação, qualificação profissional, desenvolvimento científico e inclusão tecnológica, Ariosto já defendia, com firmeza e lucidez, que o Brasil só alcançaria um novo patamar de desenvolvimento se investisse seriamente no conhecimento e na formação de seu povo. Era, acima de tudo, um professor por essência. Tinha o dom de ensinar, inspirar, orientar e mobilizar. Sua vida foi uma permanente aula de compromisso com o futuro.

Na vida pública, destacou-se pela retidão, seriedade e coerência ética. Honrou cada função que exerceu com espírito republicano, respeito ao interesse coletivo e fidelidade aos mais nobres valores do serviço público. Em tempos tão desafiadores, sua trajetória se impõe como referência de integridade e decência.

Mas Ariosto também foi grande no plano humano. Homem de afetos sólidos, cultivou com zelo a família e os amigos, compreendendo que os vínculos humanos são parte essencial de qualquer legado verdadeiro. Sua generosidade, lealdade e sensibilidade marcaram todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele.

Entre suas contribuições permanentes, destacam-se a criação e o fortalecimento de instituições como o NUTEC e o CENTEC, a criação do Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica da Câmara dos Deputados, além de inúmeros projetos voltados à educação, ciência, tecnologia e inovação.

Ariosto parte fisicamente, mas permanece vivo em suas ideias, em suas obras e no exemplo que deixa ao Ceará e ao Brasil.

Foi, de fato, um homem à frente do seu tempo.

(*) Professor doutor e ex-reitor do IFCE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Opinião. p.20.


terça-feira, 21 de abril de 2026

TJA MAIS BONITO PRA CHOVER

Por Izabel Gurgel (*)

O espetáculo nos altos. No térreo, o público de pé olha em direção ao primeiro andar da edificação que, ao lado do Theatro José de Alencar, sediava, então, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Vizinhos, TJA e Iphan.

Ambas em movimento, cena e plateia aqui citadas se realizaram há pouco mais de dez, doze anos. Era programação do Zé de Alencar. O Theatro havia completado cem anos em 2010. Há décadas já existia com uma dimensão para além do desenho do Theatro que Fortaleza inaugurou em 1910. A peça teatral acolhida pelo vizinho Iphan foi um dos modos que o Zé de Alencar fez uso, sobretudo pós-segundo restauro, finalizado em 1991, para estar em interlocução com o pensamento, a imaginação, a necessidade dos dias atuais.

Como tudo que é vivo, que se quer vivo, o que chamamos TJA não cessa de mudar.

Até o comecinho da década de 1970, o Theatro era "só" a edificação histórica, os dois blocos mediados por um pátio. O da fachada, todo em alvenaria, e o da sala de espetáculo com estrutura metálica. Sai de cena o vizinho do outro lado, instituição pública ligada à saúde. A área recebe o que se tornou a primeira versão do jardim, já um projeto do escritório do paisagista Burle Marx.

Em janeiro de 1991, reabre restaurado, com um outro desenho de jardim, a caixa cênica tinindo de nova, com mais amplitude e equipada, bastidores com qualidade de uso para trabalhadoras, trabalhadores. O campo das artes é canteiro de obra. Chão de muito serviço. A inserção da "cortina de vidro" talvez seja uma das mudanças melhor sentidas pelo público. Tornou possível o fechamento que permite a climatização da sala de espetáculos sem comprometer a visualização do monumento.

O TJA aguarda um restauro integral. Será o seu terceiro. Quando do segundo, existia a ideia de desapropriar a quadra onde está o TJA, deixando-o abraçado por jardins, áreas livres, com passagem direta para a Casa Juvenal Galeno; contemplado com espaços de estudo, pesquisa, guarda de acervos etc., espaços passíveis de oxigenar o tanto de vida que ali pode e precisa florescer. O prédio anexo, com entrada também pela rua 24 de Maio, foi um primeiro suspiro.

Dá gosto pensar que um novo caminho se abre com a incorporação, pelo TJA, da antiga sede do Iphan. É uma conversa entre Governo do Estado e UFC, que já conversaram quando do destino da área onde está o atual "anexo". Uma instituição de ensino, pesquisa e extensão como a UFC, desde o início ela própria campo para as artes, pode tocar melhor ainda o modo singularmente bonito de expansão do TJA para abrigar e abraçar o que não pode nem deve ser contido.

Os pés de jasmim e castanhola do antigo Iphan estão em festa. E não só pela chuva. Viva São José. E Viva o Zé.

P.S.: E bora ver outro nome para o terminal de transporte ali vizinho. Antes que toque o terceiro sinal e comece o espetáculo.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/03/26. Vida & Arte, p.2.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

LIVROS ABANDONADOS

Por Saraiva Junior (*)

Como frequentador de livrarias e sebos de rua, tenho observado uma cena que vem se repetindo e me causando constrangimento: pessoas se dirigem aos vendedores, com pacotes, caixas e malas, oferecendo grandes quantidades de livros à venda. O gerente, no seu papel de comerciante, olha os livros com certo ar de desinteresse, às vezes barganha tudo por um preço irrisório ou sugere comprar no quilo e faz uma proposta humilhante.

A reação do outro é de espanto. O olhar incrédulo e o sorriso amarelo deixam transparecer um sentimento conflitante. Não me contenho e puxo conversa com empregados, gerentes e aqueles que pretendem se desfazer dos livros. Os motivos são diversos: dificuldades financeiras, separações, mudanças de casa e falecimentos.

Certa vez, uma viúva foi vender os livros e deparou-se com um preço longe do esperado. Ela disse não ter imaginado que livros tão importantes na formação do marido pudessem valer quase nada.

A situação me fez lembrar de quando resolvi doar as coleções de Jorge Amado, Hélio Silva e Moreira Campos para uma escola de ensino médio do interior do Ceará. Para minha surpresa, o diretor disse que a escola não receberia aqueles livros, pois, segundo ele, os alunos não tinham mesmo o hábito de ler e preferiam pesquisar no Google. Por fim, falou que esses autores eram comunistas.

Sabemos que, na verdade, os livros não apenas informam, mas ampliam o imaginário e transformam a experiência. Pensei em minha pequena biblioteca, com algumas joias de Machado, Dostoiévski, Tchekhov, Calvino, Saramago, García Marquez, Natalia Ginzburg, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Graciliano Ramos, Lira Neto, Pedro Salgueiro, Deodato Aquino, Raymundo Netto, dentre outras.

A expressão de espanto no rosto da viúva segue gravada na minha memória. O desrespeito ao livro pode marcar mais uma etapa do nosso retrocesso como humanidade. Então resolvi conversar com minha companheira e meus filhos. Pedi a eles que não vendessem meus livros, que os dividissem entre si de acordo com o gosto de cada um. O restante deverá ser doado à biblioteca pública do município, à espera do encontro amoroso com um futuro leitor.

(*) Escritor e ex-conselheiro do Conselho de Leitores de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/03/26. Opinião. p.19.

domingo, 19 de abril de 2026

A vida após a morte segundo algumas religiões III

6. A Religião Asteca

O povo asteca acreditava em uma série de deidades extraordinárias, e tinha muitos festivais diferentes, que eram ditados pelo calendário asteca. Eles também acreditavam que nem todos os que morreram acabariam no mesmo lugar. A maioria das pessoas acabou em um lugar chamado Mictlan, onde os mortos tiveram que enfrentar muitos desafios durante um período de cerca de 4 anos antes de poder finalmente descansar. Por outro lado, pessoas que foram mortas por afogamento ou relâmpago acabaram em Tlalocan, que era um paraíso que foi dominado por Tlaloc, a divindade da chuva. Além do mais, acreditava-se que guerreiros abatidos ou mulheres que morreram durante o parto se transformavam em beija-flores.

7. Juche

Juche é a religião mais nova desta lista e é reservada exclusivamente aos cidadãos da Coreia do Norte. Os adeptos do Juche adoram o primeiro ditador do país, Kim Il-sung, seu filho, Kim Jong-il e sua esposa, Kim Jong-soko. Esta religião foi formada em um modo muito similar ao cristianismo, com estas três pessoas representando uma santa Trindade, como o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Os seguidores do Juche acreditam que passarão a vida eterna com seu grande líder após a morte.

8. Epicurismo

O epicurismo é uma religião que antecede o cristianismo em aproximadamente 300 anos e ainda continua sendo seguida hoje. Seus fiéis acreditam na existência de vários deuses, mas afirmam que todos esses deuses ignoram inteiramente a humanidade. O seu princípio determinante é que tudo, incluindo os deuses e a alma, é composto de átomos, e é por isso que eles não acreditam em qualquer vida após a morte.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


A vida após a morte segundo algumas religiões II

3. Religião Tradicional Chinesa

Os seguidores da religião folclórica Han acreditam em uma existência tranquila após a morte, que pode ser alcançada através da participação em rituais particulares e mostrando um grande respeito aos seus antepassados. Após a morte, se um indivíduo tiver vivido uma vida virtuosa o suficiente, então o deus Ch'eng Huang permitirá que habitem com os imortais no paraíso. No entanto, se suas vidas forem consideradas decadentes, eles seriam enviados ao inferno por tempo determinado, seguido imediatamente por um renascimento.

4. Zoroastrismo

As pessoas que seguem o zoroastrismo acreditam em um deus benevolente chamado Ahura Mazda e uma divindade do mal conhecida como Angra Mainyu. Eles acreditam que, após a morte, uma pessoa pode entrar no céu ou no inferno, dependendo de quão bem eles lideraram sua vida. Para chegar ao destino final de suas vidas, eles devem primeiro atravessar a Ponte Chinvat. Para pessoas virtuosas, essa ponte será apenas um pequeno desafio. No entanto, quando um pecador tenta atravessar, a ponte balançará perigosamente, ficará tão estreita como uma navalha, e uma mulher aterrorizante as atormentará implacavelmente enquanto tentam chegar ao outro lado. A queda da Ponte Chinvat resultará em uma permanência no purgatório, antes de voltar para a ponte para outra tentativa.

5. Rastafarianismo

O rastafarianismo começou na Jamaica durante a década de 1930, mas seus seguidores se espalharam por todo o mundo desde então. Os seguidores acreditam que o imperador da Etiópia, Haile Selassie, era seu deus encarnado, e ainda continuam a acreditar mesmo depois de sua morte, em 1975. Acredita-se que os fiéis do rastafarismo experimentam a imortalidade através da reencarnação. Eles também acreditam que o céu está dentro do Jardim do Éden, que, segundo eles, está localizado na África.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


A vida após a morte segundo algumas religiões I

 Se você acredita ou não em vida após a morte, certamente há muitas pessoas que acreditam. A maioria das religiões tem formas muito diferentes de ver a vida após a morte que, por sua vez, acaba por moldar nações e culturas inteiras de maneiras muito diferentes. A seguir, você encontrará 8 (oito) das religiões menos conhecidas do mundo, e exatamente como cada uma delas percebe a vida após a morte.

1. Jainismo

Há cerca de 4 milhões de seguidores do Jainismo no mundo de hoje. Eles acreditam na existência de deuses diversos e em reencarnação contínua até alcançar um estado de libertação. A libertação pode ser conquistada por não causar dano à Terra e através do esforço para evitar o mau karma. Aqueles que não conseguem a libertação são obrigados a continuar através de ciclos de renascimento, e alguns deles podem até precisar atravessar oito infernos diferentes antes de renascerem. Uma vez liberada, a alma finalmente descansará ao lado dos deuses.

2. Xintoísmo

De acordo com antigas lendas japonesas, os mortos entram em um lugar subterrâneo escuro chamado Yomi, onde um rio separa os vivos dos mortos. Independentemente do seu comportamento durante a vida, todos os mortos acabam habitando esse reino sombrio, no entanto, pessoas menos virtuosas podem se transformar em espíritos chamados Kami depois de morrerem. É por isso que os seguidores do Xintoísmo aderem a uma série de rituais de purificação ao longo de suas vidas.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

sábado, 18 de abril de 2026

ENCONTROS COM BELCHIOR

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

1 Quando eu cursava medicina na UFC, ouvia falarem de um aluno na Faculdade de Medicina que se destacava por seu talento de compositor. Chamava-se Belchior, mas não foi por termos sido contemporâneos na Faculdade que nos conhecemos.

Fui conhecê-lo no dia em que um amigo, Osterne Brandão (irmão do poeta e letrista de música Antônio José Brandão) me convidou para um sarau. A casa do meu amigo ficava na Parquelândia e levei comigo o violonista Claudio Costa. Nesse dia, além de Antonio Carlos Belchior, conheci também o Miguel da Flauta.

Era manhã e fez-se tarde. Quando alguém sugeriu que continuássemos a reunião no Bar do Anísio, na Beira-Mar. E fomos todos a esse local no carro do anfitrião Osternes.

Além de nos apresentar as canções que vinha compondo, pelas tantas Belchior passou a mostrar outras versatilidades, tais como 1) fazer repente e 2) contar causos.

Um causo

Faziam os alunos da Medicina um semicírculo em torno do professor da disciplina de Proctologia. Interessados todos em acompanhar, da melhor forma possível, os ensinamentos do mestre naquela aula prática. E, também, em ver os detalhes da lesão que ele, com a ajuda da mão enluvada e lubrificada, estava a lhes apontar... no ânus de um paciente.

Num dado momento, em seu afã de descrever a patologia, o mestre empregou uma expressão de duplo sentido: "na entrada". No jargão proctológico, esta expressão tem um sentido próprio. Mas não para o paciente que, em posição de prece maometana, tomou por desfeita o que acabara de ouvir. A ponto de retrucar peremptoriamente:

- Alto lá, doutor, esse negócio aí nunca foi entrada. É só saída.

E saiu meio que ofendido.

[comentário]

Estimado Paulo,

Como a disciplina de Proctologia, com 4 créditos = 60 horas, foi por mim criada e implantada em 1965, para ser ofertada como "optativa", é bem provável, ou certamente (a bem da verdade, não recordo), esse causo aconteceu numa de minhas aulas. De qualquer maneira, categoricamente afirmo que, muita coisa jocosa e muitos "causos" patéticos por lá ocorreram.

José Maria Chaves

2 Em 6 de junho de 1969, botei umas cervejas para gelar e encomendei umas bandejas de salgadinhos. Reuni em minha casa Francisco Dário, Osternes Brandão, Claudio Costa e o compositor Belchior, entre outros amigos. Por volta da meia-noite, encerramos a parte doméstica da noitada e fomos ao Pombo Cheio, onde nos encontramos com o Miguel da Flauta em seu retorno de um compromisso profissional.

Naquela data, eu estava completando 21 anos. Uma fita-cassete registrou aquelas maravilhosas canções que foram tocadas e cantadas durante o encontro. Uma delas, por exemplo, era a canção "Paralelas", que Belchior originalmente cantava assim: "No Karmann-Ghia, sobre o trevo a cem por horas, meu amor". Adiante, foi que ele modificou a letra da canção para: "Dentro do carro..."

No entanto, algo aconteceu com a fita-cassete da festa. Meu irmão Marcelo usou-a para gravar a leitura das anotações que a nossa irmã Marta havia feito em caderno de uma aula de biologia do Prof. Hildemar. E, ao fazer o novo registro, o gravador (que era de fita única) apagou definitivamente o registro anterior.

3 Em 1972, com frequência eu me deslocava do centro do Rio para Copacabana, e vice-versa. Quando o ônibus passava por/sobre o viaduto do Botafogo, dava para ver que existia um pequeno teatro nas proximidades. Um belo dia, notei que aquele teatro estava com uma placa, onde se lia em letras garrafais: BELCHIOR. À noite, fui ver o show do conterrâneo. Pouca gente a prestigiá-lo. No repertório, Belchior incluía um clássico da "música de fossa" nacional, provavelmente do Lupicínio. Ao interpretá-la, foi que alguém acionou a estrondosa descarga de um vaso sanitário do teatro (risos, mas era tudo combinado). Findo o show, descemos ao aterro do Botafogo para conversar: Belchior, eu e uma terceira pessoa (Lauro Benevides? Pretestato Melo? Ah, não recordo). Quanto a Belchior, deduzi que a música o havia desencaminhado das lides acadêmicas. Como, em tempos mais remotos, aconteceu a Noel Rosa, um "monstro sagrado" da música popular brasileira.

4 Voltando a residir em Fortaleza, numa noite fui a um show do Gonzaguinha no teatro da Emcetur. Belchior chegou acompanhado do jornalista Odosvaldo Portugal Neiva, que cobria a pauta de música no Diário do Nordeste. E tivemos uma conversa rápida.

5 Em minhas andanças boêmias, uma vez resolvi baixar num restaurante novo (com algumas indicações a point). Não me recordo do nome do estabelecimento, apenas de que ele ficava próximo à Praça Portugal. Numa boca de noite, sentei-me a uma mesa e comecei a beber. Algumas horas após, já meio sonolento, paguei a conta para me retirar. Na calçada, alguém que acabava de chegar com amigos, abraçou-me e disse: "Professor, já está indo?" Era Belchior. Mudei de ideia e voltei ao bar. Como eu havia lido um texto de Belchior no Pasquim e do qual muito gostara, convidei-o para prefaciar um livro que eu vinha escrevendo. Não posso acusá-lo de haver faltado comigo, pois eu nunca concluí aquele livro.

6 Show do Belchior no Siará Hall. Fui (com Elba) ao Siará Hall, uma casa de eventos localizada na av. Washington Soares, em Fortaleza. Inaugurada em 2005, contava com uma infraestrutura que comportava mega-shows. Considerada a maior casa de espetáculos da cidade até seu fechamento em 2017, trouxe shows e espetáculos de níveis nacionais e internacionais. Visitei-o no camarim, ora pois.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 23/02/2025.

https://gurgel-carlos.blogspot.com/2025/02/encontros-com-belchior.html


sexta-feira, 17 de abril de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 864

Para começar, ligeiros causos. Da PB e do Pará.

Silêncio geral

Flávio Ribeiro, presidente da Assembleia (depois foi governador da Paraíba), estava irritado com as galerias, que aplaudiram e vaiavam durante um debate entre o deputado comunista Santa Cruz e o udenista Praxedes Pitanga. De repente, tocou a campainha, pediu silêncio e avisou, grave:

- Se as galerias continuarem a se manifestar, eu evacuo.

Felizmente, as galerias se calaram.

Socorro, socorro!

João Botelho, candidato a prefeito de Belém, passou o dia inteiro anunciando um comício, à noite, na praça Brasil. Chegou na praça, não havia ninguém. Será que estou no lugar errado? Pensou. Será que não estou enganado? Perguntou ao assessor.

- Não houve engano não, deputado, a praça é esta mesma.

Foi ao bar mais perto, pediu dois caixotes de madeira, pôs no centro da praça, subiu e passou a berrar alucinado:

- Socorro, Socooorro, Socoooooooro!

Correu gente de todo lado para ver o que era. Plateia arrumada, Botelho começou o comício:

- Socorro para um candidato...

E fez o comício.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/418115/porandubas-n-864


quinta-feira, 16 de abril de 2026

UM SABOR DE CANÇÃO E AMARGO DE VIDA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Você, por certo, conhece a música natalina “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel’, não é?

Pois bem, vamos também conhecer o seu autor, o brasileiro baiano José de Assis Valente, nascido em 19 de março de 1911, no seio de uma família humilde. Aos 6 anos de idade, um senhor Laurindo, também baiano, percebeu certo dom no garoto, roubou-o da família, com o pretexto de levá-lo para outra família com melhores condições, em Alagoínhas, no interior do mesmo estado, onde recebeu educação, massa custo de trabalho servil. Quando adolescente, esta família abandonou-o, mudando-se para o Rio de Janeiro. Para sobreviver, foi lavador de pratos e aprendeu a profissão de protético e conseguiu frequentar o Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, tornando-se exímio desenhista e escultor.

Em 1927, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde compôs seus primeiros sambas em 1932, gravados por Carmen Miranda, Orlando Silva, Carlos Galhardo e muitos outros.

Com muitos traumas existenciais e descontrole financeiro, tentou várias vezes o suicídio, cortando os pulsos, uma segunda vez pulando do Corcovado, sendo sua queda mitigada por uma árvore, mas, infelizmente, com excesso de dívidas, ingere, mortalmente, formicida, tirando sua vida.

Casado, em 13 de maio de 1941, com Nadyli da Silva Santos, separa-se no ano seguinte, quando lhe nasceu uma filha Nara Nadyli.

Assis Valente é considerado um pioneiro na música popular do Brasil, havendo composto músicas típicas, tanto juninas como Cai, cai balão, quanto natalinas, como Boas Festas), estas em 1933 e muitas outras.

Sabe-se que, no natal de 1932, na solidão de uma pensão em Niterói, sentindo a carência da felicidade, que, segundo ele, nunca lhe visitara, compôs esta belíssima canção natalina, que todos cantamos, mas não lhe degustamos o teor da dor e da decepção de José de Assis Valente.

Eis a canção:   Anoiteceu, o sino gemeu / A gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar. / Eu pensei que todo mundo / Fosse filho de Papai Noel / Bem assim felicidade / Eu pensei que fosse uma / Brincadeira de papel.  / Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem.

Fontes: Raulrufo, e https://pt.wikipedia.org/wiki/Assis_Valente

Tenhamos um bom domingo, com as bênçãos de Deus.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 15/03/26.

Mais uma cidade na corrida pela monumentalização da fé

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

Volto a um tema que discuti, aqui, 24/12/2-25: aquilo que nomeei como uma "corrida pela monumentalização da fé católica" no Ceará; ou seja: a construção de diversas imagens (gigantes) de santos católicos em cidades do interior, formatando um verdadeiro "turismo religioso", e tudo com o apoio do governo estadual (do PT, sempre acusado de "perseguir a fé") e dos governos municipais.

Citava, ali, os casos de Caridade, Crato, Campos Sales, Santana do Cariri, Chorozinho, Barbalha, Canindé, Maracanaú, Juazeiro do Norte e Caucaia.

Agora, mais uma cidade entra na "corrida": Iguatu. Na semana que passou, uma comitiva dirigiu-se ao Palácio da Abolição para demandar do governador Elmano de Freitas o apoio, inclusive orçamentário, para a construção de um complexo em homenagem à Senhora Sant'Ana, tida pela tradição católica (por causa de narrativas dos chamados "evangelhos apócrifos") como mãe de Maria; portanto, a avó de Jesus.

Estiveram presentes empresários da região, acompanhados do bispo de Iguatu, dom Geraldo Freire Soares, um arquiteto e representantes do poder público municipal. Segundo noticiou-se, a visita rendeu a promessa de auxílio do governo estadual, além de vultosos recursos advindos de emendas parlamentares - daqueles com base eleitoral na cidade, Agenor Neto e Marcos Sobreira, com todo o interesse de serem tidos como patronos do empreendimento, inscrevendo para sempre seus nomes nas placas do monumento - e, vejam só, uma doação bastante considerável de Roberto Pessoa (como empresário ou como prefeito de Maracanaú?).

A promessa, das autoridades políticas e religiosas, é de "mais um ponto de referência religioso", potencializando o turismo religioso no município e no estado. Isso porque a proposta prevê a criação de um espaço estruturado para acolher romeiros, visitantes e fiéis, impulsionando o comércio local, gerando empregos e colocando Iguatu em destaque no cenário estadual e nacional do turismo de fé.

Mais do que isso: em tempos de redução, ano a ano, do número de fiéis, o catolicismo se engaja em estratégias de visibilização pública como esta, como que expulsando-se do interior dos templos para forjar novos contornos no espaço público, em diversas cidades.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/03/26. Opinião. p.14.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

À GUISA DE ‘UMA’ REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Jeremias, profeta, que missionou entre 626 a.C. e 586 a.C., e foi testemunha da queda de Jerusalém e do exílio babilônico, transmite ao povo forte exortação de Deus, conforme a Vulgata: “Audite vocem meam, et ero vobis Deus, et vos eritis mihi populus; et ambulate in omni via, quam mandaverim vobis, ut bene sit vobis. Et non audierunt nec inclinaverunt  aurem suam” (Jr 7,23-24). E, por isso, “periit fides et ablata est de ore eorum” (Jr 7, 28).

(Tradução: “Ouvi a minha voz e serei seu Deus e vós sereis meu povo; e andai sempre no caminho que vos tenho mandado, para vosso bem. Mas, eles não ouviram nem ‘escutaram’)

Esta perícope implica muitas reflexões, mas, pretendo abrir um sucinto ponto de vista sobre o trecho “eles não ouviram, nem inclinaram seu ouvido e, por isso, morreu a fé e foi tirada de sua boca” (Jr 7, 24; 28).

Após muitas intervenções de Deus, para com o seu povo, este as esqueceu e trilhou um caminho de retrocesso da fé, deixando de ‘ouvir’ e de ‘escutar’ o que Deus lhe ordenara e, então, a fé é ejetada de sua vida, permanecendo apenas uma opinião e não um assentimento, que é característica indispensável à fé.

‘Ouvir é instância organo-biológica’ e desemboca no ‘escutar’, este levando à compreensão e motivando uma resposta ao que ouviu. ‘Ouvir’ pode criar emoções, todavia, ‘escutar’ desperta a mente, abre o coração, aprofunda convicções e ajuda a discernir razões e decisões.

E, como o povo deixou de ‘ouvir’ Deus, passou a escutar seus próprios barulhos interiores, numa celebração desenfreada de suas paixões, mistura de mediocridade, de ruptura e de volúpia: o diálogo com Deus foi bloqueado, embora Deus continuasse a exortar e a ‘ouvir’ seu povo e a ‘escutar’ suas lamentações.

Este relacionamento estabelecia comunicação com Deus, através de seus profetas do Antigo Testamento. Já, no Novo Testamento, uma entre muitas outras passagens, Jesus, o Filho de Deus realiza, presencialmente, milagres, à vista de todos. Mas, a cegueira da fé, a indignação rabínica e a inveja invertem as ações praticadas por Jesus. Tão obcecados, que estavam, não conseguem distinguir o bem, na recuperação do surdo-mudo e consideram o bem um mal e o mal, um bem (cfe. Lc 11,14-23): o milagre realizado exemplifica a possibilidade, a necessidade e a importância da comunicação da criatura humana com o seu Deus, ‘ouvir’ a Palavra e ‘escutar’ a Verdade de Deus.

A indignação e a ‘imunidade cognitiva e espiritual’ do Sinédrio, em suas próprias contradições teológicas ensinam-nos lições de nosso contexto atual. Mentiras podem ter sabor de verdade e, muitas vezes o têm, mas jamais serão a Verdade.

Mentiras visam dividir povos e civilizações, estabelecem ‘guetos’, provocam lutas fraternas, estimulam polarizações, destroem credibilidade, honra e justiça e anulam a dignidade e a liberdade da cidadania.

Todo reino dividido contra si mesmo será desolado, e cairá casa sobre casa.” (Lc 11,17).

Tenhamos uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 13/03/26.


O ataque ao Irã e a geopolítica do caos

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O planeta Terra testemunha hoje o colapso da ordem liberal internacional do Pós-Segunda Guerra Mundial, com o abandono das regras e princípios civilizacionais há muito consagrados pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) de respeito à soberania dos estados, não interferência em assuntos internos das nações e a integridade territorial dos países. Causa espanto a entrada em cena de uma truculência às claras que não se registrava há muito na história.

O mais curioso é que as ameaças e o descontrole da potência hegemônica decadente são recebidos por muitos analistas como algo normalizado e até com regozijo em certos círculos da política, das finanças e da mídia internacionais.

Os ataques em curso dos EUA e Israel contra o Irã constituem grave ameaça à paz mundial e à estabilidade da economia global. Repete-se a agressão a um país do Oriente Médio sem nenhuma justificativa cabal. Um ataque bélico sem declaração formal e sem aprovação legislativa, enquanto havia em curso conversações diplomáticas entre ambos os lados.

Um ataque covarde e cruel com vistas a eliminar fisicamente a elite dirigente iraniana e festejado como grande feito sob a promessa de promover mudança de um regime e voltar a entronizar a antiga elite monárquica iraniana subordinada aos interesses do Ocidente e capaz de abrir mão do controle nacional sobre os seus hidrocarbonetos.

Assiste-se, portanto, a uma verdadeira releitura da "Geopolítica do Caos", termo cunhado pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet em seu ensaio de 1997 em que defende que o paradigma de comunicação global aferidor da lógica de mercado, a qual tem como modelo central os mercados financeiros, valoriza a teoria dos jogos e a teoria do caos sobre a mecânica newtoniana.

É então sob a roupagem de numa nova mecânica, ou na ausência dela (a incerteza e instabilidade), em que se assenta o atual sistema de relações internacionais. As ações agressivas da atual administração norte-americana seriam justamente os instrumentos dessa nova mecânica geopolítica.

Na verdade, o ataque preventivo ao Irã faz parte de uma estratégia desesperada dos EUA de retomar o controle sobre o Oriente Médio e de seus abundantes recursos energéticos para enfraquecer a segurança da China e colocá-la mais dependente de fornecimentos de petróleo do Oriente Médio administrados por empresas americanas ou ocidentais, visto que a China importa da região cerca de 50 a 54% do petróleo que consome.

Como os EUA já controlam a Arábia, Saudita, o Iraque e os pequenos países do Golfo, onde mantém bases militares (por isso que estão sendo bombardeados pelos mísseis iranianos), falta só derrotar o atual regime do Irã para poder exercer o controle total sobre o petróleo e gás da região. É simples assim.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 15/03/26. Opinião. p.20.


terça-feira, 14 de abril de 2026

VIDA LONGA OU VIDA FELIZ?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

É comum desejarmos a outrem muitas felicidades e 'muitos anos de vida', sobretudo, em ocasiões especiais, como sói acontecer nas comemorações natalícias.

Ora, quem não quer viver muitos anos?

Antes e acima de tudo, nossas vidas estão nas mãos de Deus. Isto não implica que não possamos fazer algumas considerações sobre o estar-do-ser-no-mundo.

O dom da vida é uma dádiva inquestionável, e promissora de sobrevida, após a travessia temporo-espacial, pelo menos, para os que creem. No entanto, é desejável, bom e saudável o convívio nesta maravilhosa viagem telúrica.

O tempo urge e, muitas vezes, fazemos mau uso do tempo, com muitos minutos perdidos com ouropéis e com vazios de amor, de amizade e de empatia. E fazemo-nos vítimas(!).

Nossa importantíssima e única viagem já se inicia com um choro e, provavelmente, terminará com um lamento, quer seja de dor ou de vitória.

O tempo da infância é, deveras, curto, talvez o único que podemos chamar assim, pois, ainda não temos o bastão timoneiro de nosso périplo.

O curto tempo da infância, então, catapulta-nos à adolescência e à juventude, que, com todas as suas fantasias e (dis)sabores, vão desaguar no estirão da adultície. É, nesse espaço, que o tempo queremos esticá-lo o mais que pudermos. É também nesse espaço que o desgaste biológico impõe, forte e atrozmente, suas limitações existenciais. É, a esta altura, que a longevidade é almejada e perseguida, a vida gritando por mais tempo de viagem.

Para que esta viagem seja agradável, entram em cena elementos biológicos, mentais, psicológicos e espirituais. O corpo pode definhar, rugas podem aparecer, porém, se há maturidade psicológica e espiritual, a mente comanda os mais dias a serem vividos, cá, nesta jornada.

Nesta última fase de nossa passagem por entre flores, frutos e espinhos, almejamos mais e mais dias, buscamos proteger nossos descuidos anteriores e lutamos contra o que resta do tempo. Lutamos ou dançamos com o tempo? Achamos que o tempo não nos deu tempo para nossos sonhos? Ora, todo o tempo ficou à nossa disposição e o que dele fizemos cabe responsabilidade a nós.

A esta altura, podemos falar de longevitalidade, ao invés de apenas longevidade: aquela respira ares impregnados de suspiros cônscios e luzentes de 'felicidade', ainda que prazeres fiquem nos devaneios, enquanto esta só ganha sentido, com a lucidez de nossa mente, diante de nossas propostas, princípios e objetivos de vida. Daí que, mais do que muitos anos, são importantes os augúrios de vida feliz até o fim.

A travessia inexorável enseja a concretude do cumprimento de propósitos.

E o choro inicial, que alegrara o entorno, converter-se-á, agora, em emoções personalíssimas da surpresa do desembarque. Não haverá vozes nem palmas de aplausos, apenas o nosso bumerangue a nos reviver a nossa história construída de esperança, de fé, de amor ou de seus antípodas.

Vida longa não basta. Vida feliz basta! Vida longa e feliz se basta!

Tenhamos uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 11/03/26.


CÂNCER COLORRETAL NÃO É INEVITÁVEL

Por Alessandrino Terceiro (*)

Todos os anos, no mês de março, a comunidade médica no Brasil se reúne em uma causa que deveria estar no centro das prioridades da saúde pública: a conscientização e a prevenção do câncer colorretal. A campanha Março Azul acontece com a intenção de alertar, sobretudo, que vivemos um problema de saúde coletiva, diretamente ligado a escolhas de estilo de vida, acesso à saúde e a cultura de prevenção.

Sim, o câncer colorretal pode ser evitado e é uma das formas de câncer que estão mais susceptíveis à prevenção e à cura principalmente quando é detectado em fases iniciais. Exames como colonoscopia permitem identificar pólipos e lesões em fases iniciais e que podem ser removidos antes de se transformarem em câncer, elevando as chances de cura para até 90% dos casos.

Infelizmente, muitos casos só são diagnosticados tardiamente por falta de rastreamento adequado ou por medo ou desconhecimento do paciente sobre a importância dos exames de prevenção ou até pela realidade nos serviços de saúde pública. Um estudo baseado no Registro Hospitalar de Câncer aponta que mais de 60% dos casos são identificados em fases avançadas, o que dificulta o tratamento, tornando-o mais complexo, doloroso e com chances de cura reduzidas.

O problema é preocupante principalmente pelas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que mostra que o câncer colorretal figura entre os três tumores mais incidentes no Brasil, com mais de 45 mil novos casos esperados anualmente e cerca de 20 mil mortes por ano por câncer de cólon, reto e ânus. Essa realidade evidencia não apenas a alta incidência, mas a letalidade desta neoplasia, que permanece muitas vezes silenciosa até estágios avançados.

Nesse contexto, a campanha Março Azul assume o papel de chamar a atenção da sociedade, gestores públicos e profissionais de saúde para que se repense a estratégia de prevenção, invista em rastreamento sistemático e amplie o acesso a exames fundamentais, além de conscientizar sobre fatores de risco modificáveis, como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Nunca é demais reverberar que a prevenção salva vidas.

(*) Presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva - Ceará (SOBED-CE)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/03/26. Opinião. p.14.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

QUAL O MAIOR ROUBO?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Não há ninguém que, alguma vez, não tenha sido vítima de subtração de algum bem por um vadio. É um dos espinhos da humanidade, quando ela se satisfaz com o mergulho em poças lamacentas, ao invés de abraçar a grandeza da universalidade do mar.

Mas, existe algo bem mais grave, em nossa caminhada. Um bem patrimonial, mesmo que não se possa recuperar do delinquente, e, apesar do mal-estar do dano, é possível adquirir outro, com muito trabalho.

Então, qual o maior roubo?

Todos somos dotados da capacidade de pensar, de decidir e de escolher. Nisso, inserem-se os sonhos, os desejos, os quereres, tendo como luz indicadora a felicidade, na consecução do bem-estar. Daí que não há roubo maior do que destruir a esperança, que nos move os passos, doutrinando nossa mente, alienando nossa consciência, prostituindo nossa fé, massacrando nossa dignidade.

A essa altura, nossa humanidade está na berlinda e o 'opiáceo' nos regride, nos 'encabresta'. A miséria humana não é mais apenas uma questão econômica, senão ontológica, se pudermos assim nominar.

É a esperança que nos realiza o sonhar, como uma das necessidades fundamentais do ser racional, que fundamenta o sentido da vida e fortalece o propósito do caminhar, lutar e conquistar a felicidade, na sua perene dinâmica.

Ideologias não geram sonhos, produzem pesadelos e abrem espaço para corrupções, alienações, hipocrisias e dominações.

Dignidade é irmã gêmea da liberdade e coach da felicidade.

Tenhamos um homem sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 7/03/26.


Os impedimentos institucionais ao desenvolvimento

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Em 1981, quando da defesa de minha Tese de Professor Catedrático, na UFC, defendi que quatro são os fatores determinantes do nível de desenvolvimento econômico em qualquer época e em qualquer país. São eles, os fatores institucionais, os fatores históricos, os fatores naturais e os fatores aleatórios. E que o mais importante deles, em qualquer situação, é o fator institucional.

Em 2024 os economistas que defenderam essa tese receberam o Nobel de Economia.

Em muitos trabalhos em que analisei o sistema econômico brasileiro e nordestino, utilizei essa tese.

Hoje volto ao tema. O "leit motiv" foi uma reportagem publicada no O POVO em 6/1/2026, sobre a logística de transporte no Estado, um dos fatores mais importantes para explicar o péssimo desenvolvimento econômico do Brasil.

Apenas para tratar dos aspectos mais recentes, cito como o primeiro grande erro, no Brasil, em termos de desenvolvimento econômico, a decisão do presidente do Brasil em estabelecer, nos anos 1950 um modelo de crescimento baseado no transporte rodoviário, o tipo de transporte terrestre mais caro que existe.

O transporte marítimo é o tipo de transporte mais barato que existe, e como temos uma costa medindo entre 7.491 km a 10.900 km, dependendo da estimativa, não se compreende como até hoje essa dádiva não é bem aproveitada.

Mas poderíamos ter escolhido o transporte ferroviário, o segundo mais barato. E também não o fizemos. Por isso estamos pagando até hoje.

Dado este quadro, o que nos cabe discutir no que diz respeito à situação atual do Ceará?

O trabalho publicado no O POVO, acima citado, mostra que o desenvolvimento do Ceará é prejudicado pela falta de equipamentos adequados para o escoamento de produtos.

Os eixos, dentro deste contexto, mais importantes são: a) as rodovias federais: BR 116, 222 e 020, estradas que não são duplicadas (a BR 116 apresenta, apenas, pouca quilometragem de duplicação); elas também apresentam índices apenas razoáveis de adequação para o transporte o que é seguido pelas CEs que apresentam um percentual de 62,5% como condição regular, ruim ou péssima; b) o Anel Viário, que deveria ligar as três rodovias federais (110, 222 e 020) e as rodovias estaduais (CEs 010, 040, 060 e 065), cujo projeto começou em 2010 e com extensão prevista de 32km. Estamos em 2026 e não sabemos quando ele estará pronto; c) a Ferrovia Transnordestina.

Sobre esta já escrevi um pouco neste mesmo Jornal. Não vale aqui repetir minhas críticas.

Para terminar, lembro o trabalho do Dr. Marcos Holanda "Qualidade x Quantidade", publicado no Blog do Eliomar, no dia 6/1/2026. Ali, o autor escreve textualmente que o Estado investiu R$ 121,0 milhões para gerar um acréscimo de R$ 1,00 na renda das famílias cearenses. E para mostrar o descalabro desses investimentos, ele assegura que o VLT que vai ser expandido até o Castelão transportará em um mês apenas 60% dos passageiros que o sistema de ônibus transporta em um dia.

Será possível se imaginar investimentos mais dispendiosos, em termos per capita, do que esses?

Tendo em vista que é a ação do homem o fator que mais influencia a trajetória do desenvolvimento econômico de uma sociedade, não é de se admirar o atual estágio de subdesenvolvimento do Ceará.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 8/03/26. Opinião. p.18.


domingo, 12 de abril de 2026

TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM III: Luciano Silveira Pinheiro

            Luciano Silveira Pinheiro nasceu em Fortaleza-CE, em 12 de setembro de 1940.

Ingressou na Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1963, concluindo o seu curso médico em 1968. Cumpriu Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia (GO) na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC) da UFC.

Realizou, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, o Mestrado em Tocoginecologia concluído em 1979, e o Doutorado em Tocoginecologia, concluso em 1985.

Pertenceu ao staff do quadro de fundadores da Clínica Obstétrica do Hospital Geral de Fortaleza.

Foi professor colaborador de Ginecologia e Obstetrícia da UFC, de 1974 a 1976. Em 1981, foi admitido por concurso como professor assistente, assumindo suas funções docentes e prestando serviços assistenciais na MEAC.

Foi promovido a professor adjunto e coroou sua carreira como professor titular concursado em 1998. Em seu vínculo funcional com a UFC (1981-2010), se ocupou de muitos encargos, sendo dignificado como professor emérito em 2013.

Publicou o livro “Displasia mamária: abordagem atual” e foi coeditor de três livros. Sua produção científica se destaca ainda pela publicação de muitos artigos em periódicos médicos estrangeiros e em revistas brasileiras de Ginecologia e Obstetrícia.

Atualmente, mantém-se proativo no ensino e na pesquisa médica, passando também a incursionar no campo literário, como cronista e contista.

Foi empossado na ACM em 22/07/2022, assumindo a Cadeira 48, patroneada por Newton Teófilo Gonçalves.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.


TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM II: Ormando Rodrigues Campos

Ormando Rodrigues Campos nasceu em Camocim-CE, em 27/01/1937.

Ingressou na a Universidade Federal do Ceará (UFC)em 1958, formando-se médico em 1963. Fez Residência Médica em Clínica Obstétrica na UFC.

Em 1965, foi trabalhar no Hospital Regional de Quixeramobim, onde permaneceu por dois anos, lidando com a gente interiorana. De volta à Fortaleza, ainda conservando suas atividades em Obstetrícia, começou a atuar em Hemoterapia.

Em 1977, quando da criação do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce), foi para o Centre de Transfusion Sanguine Institut D'Hematologie, CTSIH, em Montpellier, na França, fazer Aperfeiçoamento em Transfusion Sanguine et Immuno-Hematologie.

Com a sua nova formação especializada, e lastreado nos conhecimentos auferidos no exterior, ele concorreu, efetivamente, para a implantação e consolidação da Hemoterapia no Hemoce.

Em 1987, retornou à França, para efetuar Aperfeiçoamento em Immuno-Hematologie Erythrocytaire, no Centre Regional de Transfusion Sanguine, de Lille.

Ormando Campos foi Diretor Geral do Hemocentro de Fortaleza de 1995 a 2002, um período pautado por sua proficiente gestão.

Do elenco de atividades de hemoterapeuta, no seu currículo figuram mais de trinta participações em cursos de atualização, no Brasil e no exterior, e 25 publicações técnicas e mais de uma centena de participações em seminários e congressos.

Foi empossado na Cad. 10 da ACM em 5/08/2016, patroneada por Carlos da Costa Ribeiro.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.


 

Free Blog Counter
Poker Blog