Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)
A exaustão emocional se tornou uma das
marcas mais silenciosas do nosso tempo. Vivemos cercados por cobranças, metas,
comparações e estímulos incessantes. Há uma pressa coletiva adoecendo a alma
humana. Muitos despertam cansados antes mesmo de começar o dia. Outros seguem
funcionando no automático, sorrindo por fora enquanto carregam, por dentro, um
coração sobrecarregado de angústias, medos e incertezas.
Paradoxalmente, nunca estivemos tão
conectados e, ao mesmo tempo, tão vazios. Temos acesso a quase tudo, mas
perdemos a intimidade com o essencial. Em meio a uma cultura que valoriza
produtividade acima da paz interior, a espiritualidade cristã reaparece não
como fuga da realidade, mas como caminho de reencontro com a esperança.
A esperança cristã não nasce da ausência
de problemas. Ela brota justamente no meio das dores humanas. A Ressurreição de
Cristo, celebrada neste tempo pascal pela Igreja, é o maior testemunho de que o
sofrimento não possui a última palavra. Depois da cruz, existe vida nova.
Depois da noite, existe amanhecer.
Talvez um dos grandes dramas
contemporâneos seja acreditar que precisamos suportar tudo sozinhos. O
Evangelho, porém, nos recorda continuamente: "Vinde a mim todos vós que
estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei". Cristo não promete uma
vida sem batalhas, mas oferece presença, consolo e sentido em meio às batalhas
da existência.
Em tempos de exaustão emocional,
recuperar a espiritualidade é também reaprender a silenciar, contemplar, rezar
e desacelerar. É compreender que a alma também necessita de descanso. A
esperança cristã nos devolve a capacidade de olhar para a vida sem desespero,
porque nos recorda que Deus continua presente, mesmo quando tudo parece escuro
demais.
Maria, tão celebrada neste mês de maio,
também nos ensina sobre essa esperança silenciosa. Ela permaneceu de pé
diante da dor sem perder a confiança em Deus. Sua serenidade atravessa os
séculos como um convite para que aprendamos novamente a respirar
espiritualmente, confiando que nenhuma lágrima é ignorada pelo céu.
Talvez seja exatamente isso que o
coração humano mais precise reencontrar hoje: menos ruído, menos pressa e mais
esperança.
(*) Sacerdote jesuíta e
mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do
Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.
Fonte: O Povo, de 30/05/2026. Opinião. p.22.

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