domingo, 5 de julho de 2026

A espiritualidade cura os males da contemporaneidade

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A exaustão emocional se tornou uma das marcas mais silenciosas do nosso tempo. Vivemos cercados por cobranças, metas, comparações e estímulos incessantes. Há uma pressa coletiva adoecendo a alma humana. Muitos despertam cansados antes mesmo de começar o dia. Outros seguem funcionando no automático, sorrindo por fora enquanto carregam, por dentro, um coração sobrecarregado de angústias, medos e incertezas.

Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão vazios. Temos acesso a quase tudo, mas perdemos a intimidade com o essencial. Em meio a uma cultura que valoriza produtividade acima da paz interior, a espiritualidade cristã reaparece não como fuga da realidade, mas como caminho de reencontro com a esperança.

A esperança cristã não nasce da ausência de problemas. Ela brota justamente no meio das dores humanas. A Ressurreição de Cristo, celebrada neste tempo pascal pela Igreja, é o maior testemunho de que o sofrimento não possui a última palavra. Depois da cruz, existe vida nova. Depois da noite, existe amanhecer.

Talvez um dos grandes dramas contemporâneos seja acreditar que precisamos suportar tudo sozinhos. O Evangelho, porém, nos recorda continuamente: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei". Cristo não promete uma vida sem batalhas, mas oferece presença, consolo e sentido em meio às batalhas da existência.

Em tempos de exaustão emocional, recuperar a espiritualidade é também reaprender a silenciar, contemplar, rezar e desacelerar. É compreender que a alma também necessita de descanso. A esperança cristã nos devolve a capacidade de olhar para a vida sem desespero, porque nos recorda que Deus continua presente, mesmo quando tudo parece escuro demais.

Maria, tão celebrada neste mês de maio, também nos ensina sobre essa esperança silenciosa. Ela permaneceu de pé diante da dor sem perder a confiança em Deus. Sua serenidade atravessa os séculos como um convite para que aprendamos novamente a respirar espiritualmente, confiando que nenhuma lágrima é ignorada pelo céu.

Talvez seja exatamente isso que o coração humano mais precise reencontrar hoje: menos ruído, menos pressa e mais esperança.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 30/05/2026. Opinião. p.22.

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