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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A importância geopolítica e os desafios do BRICS

Por José Nelson Bessa Maia (*)

A 18ª Cúpula do Brics foi realizada em Nova Délhi, Índia, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026. O encontro ocorreu sob a presidência rotativa da Índia. A agenda abordou temas como cooperação econômica e financeira, inovação, sustentabilidade, governança global e o fortalecimento da cooperação entre os países do Brics e do Sul Global.

Criado em 2009, o Brics consolidou-se como um dos mais importantes espaços diplomáticos de articulação entre países do chamado Sul Global. Originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o grupo ampliou progressivamente sua influência internacional, tornando-se uma expressão relevante da busca por uma ordem mundial multipolar.

Sua principal importância geopolítica está na possibilidade de ampliar a representação dos países do Sul Global nas decisões internacionais. Durante décadas, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e outros organismos multilaterais refletiram predominantemente o peso econômico e político das potências ocidentais.

O Brics procura criar mecanismos que permitam maior participação das economias emergentes na definição das regras da governança global.

Outro aspecto importante é a dimensão econômica do grupo. Os 11 países do BRICS reúnem uma parcela expressiva da população mundial, dos recursos naturais, da produção industrial e do crescimento econômico global. O PIB conjunto de US$ 70 trilhões (no conceito PPP) supera o PIB dos membros do G-7.

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) representa uma tentativa concreta de ampliar as fontes de financiamento para projetos de infraestrutura e desenvolvimento, reduzindo a dependência das instituições financeiras ocidentais.

O Brics enfrenta desafios. Seus membros têm diferentes sistemas políticos, interesses nacionais, estruturas econômicas e prioridades estratégicas. Há rivalidades e disputas geopolíticas regionais entre alguns de seus integrantes, o que dificulta o consenso.

Outro desafio é transformar o peso econômico do grupo em maior capacidade efetiva de coordenação geopolítica. A ampliação do número de membros aumenta a representatividade do Brics, mas também torna mais complexa a definição de acordos e prioridades.

A Declaração da 18ª Cúpula do Brics defendeu o multilateralismo, o crescimento econômico inclusivo e o fortalecimento do Sul Global e o consenso em torno da necessidade de "máxima contenção" nos conflitos no Oriente Médio.

Na ocasião, o Brasil colocou o seu sistema de pagamentos (o PIX), como um modelo tecnológico para discussões sobre a interligação de pagamentos e a redução da dependência do dólar, além de reiterar pleitos históricos, como a reforma do Conselho de Segurança da ONU, do FMI e da OMC. 

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 18/09/26. Opinião. p.19.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Não vou assistir ao país crescer

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Não me refiro apenas aos números — ao PIB absoluto, à renda per capita ou a qualquer indicador que nos ofereça a ilusão de progresso. Falo de um crescimento mais profundo: aquele que se revela no bom senso, na responsabilidade social, na qualidade das escolhas, no respeito ao outro e na dignidade do trabalho.

É nesse terreno que continuamos pobres. Pobres nas atitudes e na compreensão de que nenhuma sociedade se sustenta quando o interesse individual se torna a única medida das coisas. Alguns dizem que nos faltam tempo e maturidade. Outros atribuem nossas fragilidades à herança colonial, a uma cultura dilacerada ou à ausência de identidade comum. Somos, afinal, uma mistura extraordinária e contraditória de povos, raças, crenças e costumes.

Cresci acreditando no país do futuro. Acreditava no esforço, no trabalho e na força do exemplo. Imaginava que a soma de condutas dignas construiria, pouco a pouco, um mundo melhor. Mas o tempo passou depressa. E a tecnologia, que nos libertou das barreiras de acesso à informação, também nos aprisionou em novas formas de manipulação.

Os algoritmos não ampliam necessariamente nossos horizontes; amiúde apenas repetem nossas preferências, confirmam preconceitos e alimentam certezas. Cercados por versões de nós mesmos, tornamo-nos cada vez menos capazes de mudar. É um paradoxo inquietante: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e talvez nunca tenhamos sido tão resistentes à dúvida.

O que mais me preocupa, porém, é a assimilação dos maus hábitos e sua transformação em herança. Comportamentos repetidos deixam de causar estranheza, tornam-se aceitáveis e são transmitidos às novas gerações como se fossem naturais. A desonestidade vira esperteza; a grosseria, sinceridade; a irresponsabilidade, liberdade; a indiferença, mecanismo de sobrevivência.

Quando perdemos o apego à dúvida, ao questionamento, à análise crítica, à leitura e ao conhecimento, corremos o risco de formar uma sociedade de autômatos: pessoas que repetem palavras de ordem, escolhem sem refletir e obedecem sem compreender. Talvez isso explique a escassez de verdadeiros líderes. Eles não nascem do ruído, da popularidade instantânea ou da submissão às multidões. Nascem da capacidade crítica, da coragem de sustentar convicções legítimas e da disposição de se doar por algo maior do que si mesmos.

Ainda existe uma escolha. Podemos interromper a reprodução dos vícios, recuperar o valor do exemplo e reaprender a pensar. Não há crescimento verdadeiro sem responsabilidade, conhecimento e respeito. Caso contrário, restará o salve-se quem puder: uma sociedade permissiva com os maus hábitos, indulgente com escolhas imprudentes e incapaz de construir um destino comum. Nesse ritmo, talvez eu veja o país enriquecer. Crescer, temo que não.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/09/2026. Opinião. p.15.


terça-feira, 13 de outubro de 2026

Precisamos reposicionar o debate nacional para além do fiscal

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A gestão da dívida pública e da política fiscal é essencial para compreender as necessidades de financiamento de um país e avaliar os impactos das decisões governamentais. Impulsionada pela rivalidade geopolítica, a dívida global continua alcançando níveis recordes.

Nesse contexto, formuladores de políticas públicas lutam para gerenciar altos níveis de endividamento em meio a pressões fiscais, custo de empréstimo mais alto, envelhecimento da população e necessidades de refinanciamento.

Sobre o tema, o Instituto de Finanças Internacionais (IIF) publicou o estudo "Reflexões sobre duas décadas de dívida global: Evidências do Monitor de Dívida Global (GDM) do IIF", disponível em: https://www.iif.com/Products/Global-Debt-Monitor. De acordo com o IIF, a dívida global total — incluindo títulos de dívida, empréstimos, moeda e depósitos — ultrapassou US$ 350 trilhões no início de 2026, o equivalente a cerca de 305% do PIB mundial.

No Brasil, o endividamento é relativamente elevado para os padrões de uma economia emergente. Há, contudo, uma característica que reduz sua vulnerabilidade externa: grande parte do problema fiscal é de natureza doméstica.

A dívida interna representa aproximadamente 96,25% do estoque total da Dívida Pública Federal, enquanto a parcela vinculada à moeda estrangeira é relativamente pequena.

Relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, estima em cerca de 4% do PIB a parcela da dívida bruta vinculada a moedas estrangeiras. Os dados do IIF e do FMI indicam que o Brasil não se encontra diante de uma crise externa clássica.

Temos, sim, um grande problema: a rigidez orçamentária, decorrente do elevado peso das despesas obrigatórias e das vinculações. As despesas obrigatórias representam 92% das despesas primárias, restando apenas 8% para despesas discricionárias.

É justamente esse elevado grau de vinculação que o país precisa rever, sobretudo porque entramos em um ciclo de investimentos no chamado HEAD (da sigla em inglês: saúde, segurança nacional, resiliência climática e autonomia estratégica).

Como essas prioridades deverão permanecer no horizonte por muitos anos, as necessidades de financiamento tendem a assumir caráter cada vez mais estrutural.

Isso significa que a dinâmica da dívida pública vai além do ajuste fiscal de curto prazo. Ela deve integrar também estratégias fiscais, industriais e de segurança de longo prazo.

Esse "financiamento estratégico" já se reflete nos balanços governamentais, com maior participação da dívida pública no universo da dívida global.

Por isso, o debate nacional não pode se limitar à ótica do ajuste fiscal. Temos que pautar a discussão sobre o orçamento e o elevado volume de vinculações, que têm amarrado os gastos e investimentos do país, muitas vezes sem receitas correspondentes e sem uma avaliação adequada das políticas públicas.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 20/08/26. Opinião. p.19.


segunda-feira, 12 de outubro de 2026

ENIGMAS DO IDEB

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de 2025, recentemente divulgados pelo Ministério da Educação, revelam algumas surpresas instigantes. Uma primeira aproximação aos dados mostra que o Paraná foi o único estado a liderar as três etapas (anos iniciais do ensino fundamental, anos finais do ensino fundamental e ensino médio) do Ideb 2025.

Confirmando uma tendência acumulada de êxito no ensino fundamental, o Ceará ocupa o 2º lugar nas duas etapas do ensino fundamental. Goiás também expressa sua liderança, empatando com o Ceará nos anos finais do ensino fundamental. Santa Catarina ocupa a 3ª posição na primeira etapa do ensino fundamental, enquanto o Piauí e o Espírito Santo se destacam pela 2ª e 3ª posições no ensino médio.

O sucesso dos estados com liderança no Ideb não é um acaso; ao contrário, é fruto de iniciativas deliberadas e consistentes de melhoria da qualidade da educação, de que tal índice é uma expressão.

Inovador estudo realizado pela FGV, apresentado no livro "Estados Eficazes na Gestão da Aprendizagem, publicado em 2023", focalizou o Paraná e o Piauí, ao lado de São Paulo e Mato Grosso do Sul, por bons resultados em suas respectivas regiões.

O que não se explica pelos números é o desempenho dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, que juntos representam 51,1% do PIB nacional (IBGE, 2023). São Paulo ocupa a 6ª, a 5ª e a 7ª posição em relação às três etapas; Minas Gerais, por sua vez, está em 5ª, 4ª e 8ª posição; enquanto o Rio de Janeiro ocupa a 13ª, a 10ª e a 20ª posição.

Os dados dos estados mais ricos da federação parecem ensinar que a relação entre capacidade econômica não é diretamente proporcional à competência em gerenciar sistemas de ensino, como, aliás, já mostram, há décadas, países que se destacam no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA).

Se não é recomendável extrair conclusões simplistas de tais resultados, algo há a aprender com os estados que estão à frente dos indicadores nacionais, em particular o Ceará e o Piauí, como bem expressou o presidente Lula em recente entrevista.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/09/26. Opinião. p.14.


terça-feira, 6 de outubro de 2026

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Alguém me perguntou, outro dia, o que espero do futuro. Ué! Eu e meu alter ego — essa outra identidade que teima em me acompanhar — esperamos muita poesia, alguma lucidez, uma dose necessária de loucura e, sobretudo, fantasia. Meus caros amigos, sobre esses desejos arrisco aqui alguns rabiscos. Aí vão.

Da lucidez, espero que finalmente compreendamos que nenhuma transformação verdadeira começa nos palácios, gabinetes ou tribunas. Ela começa no comportamento. Na maneira como enxergamos o outro, convivemos com as diferenças e decidimos participar da construção de uma sociedade menos egoísta e mais fraterna.

Por incrível que pareça, talvez este seja justamente o tempo de romper paradigmas. Há momentos em que o desencanto pode ser fértil. Quando velhas certezas desmoronam, abre-se espaço para desconfiar das verdades prontas e inverter a lógica de um passado que tantas vezes fabricou conveniências travestidas de certezas. Quem sabe estejamos assistindo ao início do fim dos falsos profetas?

Da fantasia, espero que o mundo ouse interromper o eterno déjà-vu. A história brasileira parece, às vezes, uma peça em permanente reprise: mudam os figurinos, as falas e os cenários, mas os personagens continuam por ali. Ora irreverentes, ora indignados, noutras ocasiões bonzinhos e convenientes. E há os autoproclamados "intelectuais", sempre preparados para explicar aos outros aquilo que eles próprios pouco compreendem.

Da loucura — porque alguma loucura é indispensável à sanidade — espero que consigamos manter a uma distância razoável os convenientes, os chatos de plantão, os protagonistas da tolice e, principalmente, os hipócritas. Estes atravessam governos, ideologias e gerações com impressionante capacidade de sobrevivência. Trocam de discurso com a mesma desenvoltura com que preservam seus interesses.

E deixo para a poesia aquilo que talvez seja o mais importante.

Que ela nos devolva um samba com bossa, emoção e paixão. Que nos permita acreditar novamente na delicadeza em tempos de brutalidade, na beleza em tempos de vulgaridade e na esperança em tempos de desencanto. Que possamos olhar para este país sem ingenuidade, mas também sem desistência.

Afinal, a esperança brasileira sempre teve algo de equilibrista. Caminha sobre o fio, tropeça, quase cai, recupera-se e continua. Talvez porque tenhamos aprendido, entre quedas e recomeços, que desistir também é uma forma de perder o equilíbrio.

E quem sabe ainda possamos sonhar, como naquela canção, com o Brasil que esperava a volta do irmão do Henfil.

Porque, enquanto houver poesia, ainda haverá um país possível.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/08/2026. Opinião. p.15.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

COMPOSTURA, SENHORES!

Heládio Feitosa de Castro Filho (*)

Compostura, senhores! - repetia o velho professor de Direito Processual, batendo a régua na mesa, sempre que um aluno exagerava no tom ou na vontade. A palavra soava antiquada, quase um mimo de museu. Mas era a senha para o templo: ali, a toga não era fantasia; era reverência.

Hoje, ao acompanhar as notícias do Supremo Tribunal Federal, tenho a impressão de que o velho professor bate a régua em vão. E os alunos - agora ministros - parecem ter esquecido que a toga não lhes pertence.

Divergência jurídica é saudável. O problema começa quando o conflito deixa de ser apenas processual e passa a envolver acusações recíprocas, suspeitas sobre decisões e a impressão de que a própria Corte se tornou cenário de uma disputa interna de poder.

A crise atual do STF, com questionamentos sobre relatórios da Polícia Federal e decisões de afastamento, não pode ser tratada como simples desacordo entre colegas. Não se trata de antecipar culpa, nem de transformar suspeitas em condenações. Trata-se de reconhecer que, quando a imparcialidade é questionada, a transparência deixa de ser gentileza e passa a ser dever.

O Supremo não é a soma de onze vontades individuais. É uma instituição. E instituição se fortalece quando seus membros aceitam limites, submetem decisões controversas ao debate público e preservam a autoridade do conjunto acima da conveniência de cada gabinete.

O cidadão, porém, não acompanha apenas os votos. Acompanha também o espetáculo. Quando um ministro determina o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e outro reverte a medida, o que chega à calçada é a impressão de que o Estado fala com vozes desencontradas. E a pergunta inevitável é: quem controla quem?

É nesse ponto que a compostura deixa de ser virtude decorativa e passa a ser exigência democrática. Não significa silêncio diante do abuso. Significa que a reação ao abuso deve respeitar as formas que dão legitimidade à Justiça.

O cidadão não espera santos. Espera juízes. Não exige concordância, mas divergência dentro das regras. Não pede uma Corte infalível. Pede uma Corte capaz de reconhecer e corrigir seus erros.

- Compostura, senhores! - repetiria o professor. - Não confundam autoridade com imunidade à crítica. Não confundam independência com ausência de controle.

Se a Justiça precisa de reforma, que se faça. Reformar não é desmoralizar. Criticar não é destruir. Exigir limites não é atacar a democracia. É tentar preservá-la.

O velho professor bate a régua na mesa.

- Compostura, senhores!

Talvez a régua deva ser também uma medida: a distância entre o poder e a vaidade; entre a autoridade e o arbítrio; entre o homem que veste a toga e a instituição que ele tem o dever de honrar.

Porque, quando a Justiça perde a compostura, o cidadão perde a sensação de que existe, acima das disputas, um lugar onde a lei ainda é maior que os homens.

E esse lugar precisa continuar existindo.

Compostura, senhores. Não como favor. Como dever.

(*) Médico cirurgião e professor da UFC. Da Academia Cearense de Medicina e da Academia Cearense de Médicos Escritores.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/09/2026. Opinião. p.16.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

"A escolinha do Professor Vorcaro"

Por Raimundo Padilha (*)

Parodiando a Escolinha do Professor Raimundo, do maior humorista brasileiro, o cearense Chico Anysio, estamos assistindo à Escolinha do Professor Vorcaro. Na Escolinha do Chico, os alunos eram humoristas famosos, que interpretavam papéis que os colocaram no patamar da fama. Chico era o titular da cátedra.

Na Escolinha do Professor Vorcaro, os seus alunos são corruptos, que ocupam, com raras exceções, o cardinalato da nossa República. Todos de maneira direta ou indireta, por meio de familiares são personagens de tramas golpistas. Enquanto na Escolinha do Chico o objetivo era fazer rir, na Escolinha do Professor Vorcaro é de fazer chorar. Quanta tristeza está no rastro deste drama, onde o seu professor é um pegajoso bandido, que atrai alunos mediante fartas propinas.

No Chico, o jogo era limpo. No Vorcaro, o jogo é sujo. Em matéria de corrupção é a maior em volume e em número de participantes. Três togados se tem notícia que tiveram participações, um senador apresentou projeto ampliando vantagens para o Banco Master do Sr. Vorcaro, além de outros cardeais que intermediaram operações para aplicações de Fundos de Pensões no mesmo Master.

O banco oferecia taxas aos seus investidores bem acima das praticadas pelo mercado e não apresentando liquidez, levando os seus investidores a recorrer ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o qual chegou cobrir mais de R$ 50 milhões. Este é o maior rombo da história do Sistema Financeiro Nacional.

É vergonhosa a máscara dos seus participantes. E os seus poderes/cargos vão para lata do lixo. Uns mais, outros menos, mas de modo geral os 3 poderes foram atingidos.

A pretexto de produzir um filme de personagem que se tem dúvidas das suas virtudes, foi orçado em mais de R$ 130 milhões e abocanhados mais de R$ 60 milhões, quando o filme "O Agente Secreto", que concorreu ao Oscar, custou pouco mais de R$ 26 milhões.

E a história ainda está incompleta ou mal contada, pois se desconhece a estrada percorrida pelo dinheiro, nem o seu real orçamento e muito menos a comprovação da sua aplicação. Tudo muito obscuro e com historiadores falseando as suas narrativas.

Banquetes luxuosos na Europa, com cardápios de finíssimo trato e bebidas do mais requintado paladar foram promovidos pela Escolinha do Sr. Vorcaro.

Enquanto na Escolinha do Chico o final era o aplauso, com o Sr. Vorcaro o final será o xadrez. Aliás, o seu professor já estava vendo o sol quadrado e empulseirado. Triste fim, triste drama.

Duas escolas com objetivos bastante distintos. Vorcaro, professor esperto. Chico, professor engraçado. Grande diferença.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 8/07/26. Opinião. p.15.


domingo, 9 de agosto de 2026

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização III

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

As Novas Diretrizes da formação em Enfermagem no Brasil

O Brasil possui uma tradição importante na formação em Enfermagem, com forte conexão com as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS). O relatório “Demografia e mercado de trabalho em enfermagem no Brasil”, divulgado pelo Ministério da Saúde no fim de 2026, analisa dados do setor entre 2017 e 2022.

Documento aponta o enorme crescimento dos cursos de bacharelado na rede privada (impulsionados pelo EaD) e destaca que a grande maioria dos profissionais busca especializações lato sensu (pós-graduações e especializações tradicionais) para se diferenciar no mercado.

Os técnicos de enfermagem formam a maior força de trabalho quantitativa da enfermagem no País e sua formação ocorre massivamente em escolas técnicas e redes estaduais. No caso dos auxiliares, há uma tendência de "extinção gradual" ou declínio da categoria, já que o mercado exige cada vez mais o nível técnico, levando muitos antigos auxiliares a fazerem a complementação para se tornarem técnicos.

Em maio, houve a homologação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em Enfermagem (DCNs/Enf). Segundo Jacinta Fátima Sena da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben), a homologação "representa uma conquista histórica para a Enfermagem brasileira e para a sociedade".

Nas últimas décadas, segundo ela, "observou-se uma expansão acelerada e, muitas vezes, desordenada da oferta de cursos, especialmente no setor privado, nem sempre acompanhada das condições pedagógicas, estruturais e práticas necessárias para garantir uma formação de qualidade".

A defesa do ensino presencial é o pilar central das novas DCNs. Jacinta Sena destaca que "a formação em Enfermagem exige experiências presenciais, supervisão qualificada, vivência nos serviços de saúde e desenvolvimento de competências técnicas, científicas, éticas e relacionais complexas". O que seria dificilmente suprido por modelos totalmente remotos.

Além da técnica, a formação qualificada é considerada uma estratégia de valorização profissional a longo prazo. Para as entidades de classe, o ensino de qualidade é indissociável de uma remuneração digna e de condições de trabalho adequadas.

"Ao mesmo tempo, a homologação não encerra a luta. Será fundamental apoiar e acompanhar sua implementação e defender permanentemente a qualidade da formação frente a interesses mercadológicos que historicamente pressionam pela flexibilização dos processos formativos", acrescenta.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização II

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Categoria sente maior valorização simbólica, mas não financeira

Durante a pandemia de Covid-19, a população reconheceu de forma mais clara o papel de enfermeiras, enfermeiros, técnicas, técnicos e auxiliares de enfermagem na sustentação dos sistemas de saúde. A categoria foi elevada ao status de heroísmo por atuar sob risco constante.

Contudo, o reconhecimento social não se traduziu em estabilidade financeira. Para uma parcela da categoria, a sobrevivência exige a manutenção de múltiplos vínculos de trabalho, realidade que prejudica a qualidade de vida e a saúde mental.

De acordo com a pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil 2017 (Fiocruz/Cofen), 66% dos entrevistados relatam desgaste profissional, cansaço físico e mental. Pesquisa também aponta a multiplicidade de vínculos como um dos principais fatores para o desgaste da categoria.

O POVO conversou com três técnicos de enfermagem sobre a rotina de dedicação e sobrecarga e optou por não divulgar os nomes das fontes.

Um deles, com 26 anos, exemplifica o dilema da dupla jornada. O profissional se divide no trabalho em uma empresa privada e um organização filantrópica, além da graduação em Enfermagem. Relata que a recente conquista financeira do piso veio acompanhada de um aumento na carga horária.

“Eu abro mão da minha saúde para poder conseguir pagar minhas contas”. Para ele, o aumento das horas trabalhadas, que em alguns setores passou de 30 para 40 horas, resultou em uma sobrecarga que abala tanto o esforço físico quanto o equilíbrio emocional.

Outra técnica de enfermagem, de 32 anos, relata os "plantões exaustivos, muitas vezes, com setores com redução de funcionários". Ela conta que alguns colegas precisam de afastamento por problemas de saúde mental, como ansiedade, e burnout.

"No setor público e em organizações contratualizadas, o pagamento do piso muitas vezes é feito de forma fragmentada por meio de complementos que não atingem o valor real devido", compartilha outra técnica de enfermagem de 40 anos que atua em uma associação filantrópica.

"O principal desafio da nossa profissão é justamente ter que lidar com isso, a desvalorização profissional, porque a gente trabalha com amor, com carinho. Eu, pelo menos, amo o que eu faço, amo minha profissão. Porém, o que entristece a gente e está adoecendo — muitos profissionais que estão de licença e afastados por problemas psiquiátricos — é justamente essa desvalorização", compartilha.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização I

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Categoria hegemônica na Saúde, enfermagem ainda luta por valorização plena. Enfermeiros, técnicos e auxiliares enfrentam sobrecarga física e mental

Maior força de trabalho da Saúde no Brasil, os profissionais de enfermagem ainda lutam por valorização. O Piso Salarial Nacional da categoria, estabelecido pela Lei nº 14.434 apenas em 2022, após três décadas de mobilização, foi uma conquista importante para corrigir distorções históricas e garantir dignidade aos trabalhadores. Mas ainda não é realidade para todos.

A conquista do piso da categoria deveria ter sido o ponto de virada. No entanto, a implementação integral da lei tornou-se uma batalha judicial e administrativa.

"Observam-se tentativas de reduzir o impacto financeiro da medida com flexibilização de vínculos, da pejotização, da terceirização excessiva, da contratação intermitente ou da fragmentação das jornadas de trabalho, sobretudo no setor privado", afirma Jacinta Fátima Sena da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben).

Quintino Neto, presidente Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Ceará (Sindsaúde/CE), afirma que, após a aprovação da Lei, a decisão do STF acabou "desconfigurando" diversos aspectos da conquista. "Ao permitir condicionantes para sua implementação, abriu espaço para interpretações que vêm sendo utilizadas por parte dos empregadores para reduzir o alcance da própria lei", critica.

O Sindsaúde representa os trabalhadores e trabalhadoras de nível médio e técnico que atuam na Saúde, como os técnicos e auxiliares de enfermagem.

Nesse contexto, outro ponto crítico é a ascensão das chamadas "falsas cooperativas". Entidades que, segundo Quintino, são utilizadas para "mascarar vínculos empregatícios e retirar direitos fundamentais".

De acordo com Natana Pacheco, presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Ceará (Coren-CE), essa prática também é prejudicial quando ocorre dentro de espaços públicos por meio de contratos de terceirização, pois impede que o profissional receba a assistência financeira complementar da União.

Além dessas estratégias, a categoria enfrenta disputa jurídica no Supremo Tribunal Federal. O setor privado ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7222 que questiona a constitucionalidade da Lei do Piso Salarial Nacional da Enfermagem (Lei nº 14.434/2022).

A presidenta da Aben, Jacinta Fátima Sena da Silva, defende que "não pode haver dois pesos e duas medidas". "Trabalhadoras (es) dos setores públicos e privados realizam o mesmo trabalho e devem ter os mesmos direitos. Não é coerente que trabalhadoras (es) celetistas precisem negociar com seus patrões para ter seus direitos garantidos. A Lei deve ser cumprida", pontua. Ela considera "inaceitável" que o setor privado alegue não ter condições de pagar salários justos.

Para mudar este cenário de precarização, as entidades de classe apostam em novos avanços legislativos. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 19 surge como uma solução para corrigir distorções, garantindo que o reajuste do piso seja anual e vinculado a uma jornada de 36 horas semanais, evitando que a inflação corroa o poder de compra.

Natana Pacheco, presidente do Coren-CE, reforça que a aprovação dessa PEC, somada à histórica luta pelas 30 horas semanais, traria a segurança jurídica necessária para que o profissional possa optar por menos vínculos sem comprometer sua renda. No setor público, segundo ela, a urgência é o reajuste da assistência financeira complementar da União, que está congelada há quase quatro anos.

O POVO buscou entidades que representam hospitais e planos de saúde para resposta sobre os pontos levantados por conselhos e sindicados da enfermagem. A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) respondeu que não iria se pronunciar nesta pauta. A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) indicou buscar "representantes das redes hospitalares".

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anap) não deu retorno após tentativa de contato por e-mail e WhatsApp. A Federação Brasileira de Hospitais (FBH) e a Associação de Hospitais do Estado do Ceará (AHECE) não responderam após tentativas de contato por e-mail e ligação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como superar a persistente lacuna de produtividade no Brasil

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Tornou-se um lugar-comum afirmar que a baixa produtividade é um dos principais entraves ao crescimento econômico do Brasil, permanecendo praticamente estagnada há décadas. Por causa disso o país enfrenta uma "armadilha de baixo crescimento", com trabalhadores produzindo, em média, cerca de um quinto do que nos EUA, tido como referência nessa matéria.

A comparação internacional de produtividade costuma ser feita em PIB por trabalhador empregado em dólares internacionais ajustados por Paridade de Poder de Compra. Os dados mostram que o Brasil teve forte perda relativa entre 1980 e 2000 e depois ficou praticamente estagnado. Hoje, um trabalhador brasileiro produz 24% do que produz um trabalhador norte-americano médio.

Por outro lado, a China partiu de base extremamente baixa em 1980, mas teve o maior avanço da história econômica recente. Com isso, a produtividade chinesa passou de 4% da americana para 40% em pouco mais de quatro décadas.

O dado mais impressionante é que, em 1980, o Brasil possuía uma produtividade de oito vezes superior à da China. Hoje, a situação se inverteu: a produtividade média do trabalhador chinês já é 60% maior que a do trabalhador brasileiro. O Brasil permaneceu praticamente estagnado por quatro décadas, enquanto a China convergiu rapidamente para os níveis das economias avançadas.

Entre as principais causas estão a falta de concorrência, dificuldades de acesso a crédito, distorções tributárias e regulatórias e má alocação de recursos, que impedem empresas mais produtivas de crescer. Além disso, grande parte da força de trabalho está concentrada em setores de baixa produtividade, como agricultura e comércio.

Para resolver esse impasse e superar o desafio da baixa produtividade, diversos estudos apontam a necessidade de promover reformas estruturais, maior integração produtiva, maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), melhoria na educação básica, média e superior e maior abertura a investimentos estrangeiros. Esse pacote de medidas poderia impulsionar a produtividade do trabalho e alavancar o crescimento em bases sustentáveis. Além disso, muitos defendem a estímulos direcionados a setores intensivos em conhecimento, inserção planejada em cadeias globais de valor e modernização da agroindústria.

Em um país com tantas potencialidades, como recursos naturais abundantes, sistema financeiro sofisticado, grande mercado interno e boas universidades como o Brasil, conclui-se que, embora o problema seja estrutural, há uma janela de oportunidade para se evitar mais uma década perdida, desde que governos, empresas e universidades atuem de forma coordenada no bojo de uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento para romper o circuito da baixa produtividade e superar a armadilha da renda média.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 27/06/26. Opinião. p.25.


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Rendimento e endividamento com bets

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O rendimento médio recebido em todos os trabalhos - que corresponde à soma dos ganhos brutos, como salários, comissões e horas extras - alcançou R$ 3.560 em 2025. Esse foi o maior valor registrado desde o início da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando crescimento de 5,7% em relação a 2024 e de 11,1% quando comparado a 2019, ano que antecedeu a pandemia.

Outro indicador que mostra a melhora da renda dos brasileiros é a massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, que atingiu R$ 361,7 bilhões em 2025, também o maior valor da série histórica. O crescimento real foi de 7,5% frente a 2024 e de 23,5% em relação a 2019.

Paradoxalmente, apesar da evolução da renda, o Brasil alcançou, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), disponível em: https://portaldocomercio.org.br/publicacoes_posts/pesquisa-de-endividamento-e-inadimplencia-do-consumidor-peic-agosto-de-2025/

Entre os fatores que ajudam a explicar esse fenômeno está o endividamento com apostas online, conhecidas como bets. O crescimento das apostas vem produzindo prejuízos crescentes à saúde mental e à situação financeira das famílias, além de contribuir para o aprofundamento da desigualdade. 

Pesquisas apontam que, em 56% das vezes, o jogador perde. Parece pouco? Não. Nos 44% restantes, muitas vezes prevalece a ilusão criada pelo desconto hiperbólico. Esse conceito explica por que as pessoas tendem a preferir recompensas imediatas, como um ganho rápido nas apostas online, em vez de aguardar benefícios maiores no futuro. 

Outro conceito importante é o da contabilidade mental. Muitos jogadores passam a separar o dinheiro das apostas do restante de suas finanças, o que os impede de ver o impacto total das perdas. Soma-se a isso a ilusão de controle: a crença de que habilidades pessoais ou estratégias são capazes de influenciar resultados que, na prática, são aleatórios.

As consequências financeiras desse comportamento são evidentes. Estudos indicam que cerca de 19% dos apostadores comprometem suas reservas financeiras e, aproximadamente, 10% recorrem ao cartão de crédito para continuar jogando, o que pode resultar em endividamento com taxas de juros de 428% ao ano. O cartão de crédito, por sua vez, permanece como o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias.

Por isso, reforço a frase do meu amigo Preto Zezé: "Precisamos acreditar mais na aposta do conhecimento do que na sorte". Aos leitores interessados em aprofundar o tema, recomendo o webinário realizado pelo Programa de Educação Financeira do Ceará, disponível em: https://www.youtube.com/live/a6e1MtLGEkE?is=a0xzNZBWolXmFouM

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 25/06/26. Opinião. p.17.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

JUROS ALTOS, RISCOS PERSISTENTES

Por Lauro Chaves Neto (*)

O cenário econômico brasileiro volta a se deteriorar de forma evidente, frustrando a expectativa, ainda recente, de um ciclo mais consistente de queda da taxa Selec ao longo de 2026.   O que se desenhava como um processo gradual de afrouxamento monetário deu lugar a um ambiente de maior incerteza.

Parte dessa mudança vem do cenário externo. As tensões no Oriente Médio mantêm o petróleo em patamares elevados, pressionando custos logísticos e produtivos. Ao mesmo tempo, o El Niño já projeta impactos sobre a produção agrícola, com reflexos diretos sobre os preços dos alimentos.

Some-se a isso a resiliência da economia americana, que reduz o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve e pressiona o câmbio em países emergentes como o Brasil.

No plano doméstico a política econômica contribui para esse quadro. A ampliação de estímulos fiscais e creditícios, em um ambiente já pressionado, reforça expectativas inflacionárias. Não por acaso, as projeções para o IPCA seguem em trajetória ascendente, afastando-se do centro da meta e exigindo cautela do Banco Central.

Nesse contexto, a autoridade monetária se vê diante de um dilema clássico. Diante de uma inflação de 4,72% nos últimos 12 meses, portanto acima do teto da meta, reduzir juros prematuramente pode significar subestimar choques que se mostram persistentes. Por outro lado, manter a Selic em patamares elevados prolonga o custo financeiro para famílias, empresas e o próprio setor público.

Os sinais já são visíveis. A inadimplência cresce, os pedidos de recuperação judicial se multiplicam e o mercado financeiro reage com maior aversão ao risco. O otimismo que marcou o início do ano dá lugar a uma maior volatilidade da bolsa e do câmbio.

O risco não é apenas inflacionário, é também de um esgotamento gradual da capacidade de crescimento sustentado, caso a política econômica permaneça refém de estímulos de curto prazo. Em um ambiente global mais adverso, disciplina fiscal e previsibilidade deixam de ser opções e passam a ser condições necessárias para restaurar a confiança e abrir espaço para a redução sustentável dos juros.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 22/06/26. Opinião. p.16.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

SELEÇÃO, SAMBA E RAÇAS

 Por Raimundo Padilha (*)

Estamos entrando em clima de Copa do Mundo. O técnico da seleção brasileira já anunciou a convocação de 26 jogadores. Embora estejamos com um dos mais consagrados técnicos do mundo, não deixa de ser um momento difícil a escolha dos convocados. As torcidas vibram quando os seus ídolos são anunciados. O Brasil é penta

campeão, mas há mais de 20 anos não traz o troféu. Tivemos uma fase áurea do futebol e hoje, embora, com alguns valores individuais não temos conquistado a taça. No dia do anúncio o clima era de expectativa, principalmente, para se saber se Neymar seria ou não convocado. A sua convocação era defendida pela grande maioria dos torcedores.

Acho que um bom time precisa do binômio talento individual e espírito de equipe (entrosamento). E são 11 que precisam estar bem alinhados, Assim, não foi fácil a escolha do técnico Carlo Ancelotti. Pessoalmente, achei longo o período de observação dos jogadores e muito curto o período de treinos para ser criado o espírito de equipe.

Particularmente quanto à convocação do Neymar, talvez, tenha sido a maior dificuldade do Ancelotti. Neymar ainda é um craque, mas já não é o craque de ontem, embora o seu nome ainda pese. Historicamente, ele é muito marcado e recebe muitas faltas passando longos períodos fora de campo.

Acho que o técnico passou pelo seguinte dilema: se não convocar o Neymar e perder a copa, a culpa é dele (técnico), mas se escalar o Neymar e perder a taça a culpa será do jogador. Não desejo que Neymar assuma o peso desta responsabilidade que poderá comprometer o seu desempenho. Quero que entre em campo fazendo o que ele ainda pode fazer de melhor. Ele tem o apoio de toda a torcida brasileira e dos seus 10 companheiros, que ainda veem nele um talento.

E justiça lhe seja feita ele tem noção das quatro linhas, da bola redonda, das traves e dos seus companheiros de equipe. E isto ele vai levar para toda a sua vida, mas a idade vai limitando o seu desempenho. E isto é da natureza humana.

Mas, é bom lembrar que somos 26 e todos têm muito valor e responsabilidade pela camisa que vestem. Enfim, somos penta. E temos raça.

Aliás, a propósito de raça, no mundo temos várias raças: a branca, a negra, a parda, a amarela e a indígena.

No futebol brasileiro e na música, os melhores têm sido da raça negra. Pelo menos, esta é a minha observação pessoal. E isto se constitui num grande valor, que pode eliminar a má ideia dos preconceituosos. A nossa arte musical, principalmente, no samba, no baião, no chorinho e no rap, a predominância com talento e elegância é a raça negra que melhor nos representa.

No futebol/arte é da mesma forma. Basta lembrar de Zizinho, Didi, Pelé, Garrincha, Barbosa, Jairzinho, Djalma Santos e tantos outros, que para orgulho nosso vestiram a camisa canarinha. Sem demérito das demais, a raça negra é orgulho nacional.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 10/06/26. Opinião. p.17.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O que é preciso mudar no Brasil: políticos?

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Há tempos venho defendendo que são quatro os fatores essenciais que determinam o grau de desenvolvimento de qualquer região do planeta. São os fatores naturais, os históricos, os aleatórios e os que eu denominei de institucionais, os produzidos pelo homem. Analisemos, agora, o "fenômeno", Brasil.

- Quanto aos fatores naturais, nosso País tem abundância de terra, a maioria muito produtiva; grandes bacias hidrográficas; climas normalmente amenos; não sofremos de grandes desastres ecológicos. O fator natural não foi problema para o nosso desenvolvimento;

- O fator histórico mais importante foi ter sido descoberto por Portugal, que nunca se preocupou em desenvolver a Colônia Brasil. O importante era extrair as riquezas e levar para Portugal;

- O fator aleatório digno de nota foi a revolução no Haiti em 1791-1804. Esta revolução ganha pelos escravos que trabalhavam nos canaviais do Haiti, à época o maior produtor de açúcar do mundo, teve consequências na produção açucareira do Brasil, atuando como um catalisador para o seu crescimento. O vácuo deixado pelo Haiti permitiu que o açúcar brasileiro supervalorizasse no mercado internacional.

- Quanto aos fatores institucionais, ah, esses são os maiores males deste País:

d.1) A Corrupção - É o mais importante fator institucional que impede um desenvolvimento socioeconômico em nosso País. E começou já no Brasil-Colônia: Pero Borges, que havia sido condenado em Portugal por ladroagem, foi nomeado como Ouvidor-Geral do Brasil, em 1549. Os escândalos do INSS e do Banco Master, atuais, comprovam esta tese. Somos um País de Corruptos, essencialmente, os políticos.

d.2) A Incompetência Político-Administrativa - Essa também é uma praga que sempre contaminou a administração pública no Brasil. Vou citar alguns fatos que demonstram esta tese. O primeiro plano de industrialização do Brasil, o do Presidente Juscelino Kubitschek, criou a indústria automobilística brasileira, mas cometeu erro terrível ao determinar que o nosso sistema de transporte de carga se desse via rodoviária. Outro plano de desenvolvimento, desta vez em relação ao Nordeste, foi o Plano da Sudene. Em Monografia de 1978, "Desenvolvimento do Nordeste e Alternativas" (1º lugar em Prêmio do BNB), demonstrei que o Plano de Desenvolvimento da Sudene para o Nordeste embutia alguns erros crassos: uns na concepção; outros na execução.

Dado o caráter teórico das demonstrações não cabe aqui repeti-las.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 31/05/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 23 de junho de 2026

O PARADOXO DAS MÉDICAS NO BRASIL

Por Luciana Rodrigues (*)

O Brasil atravessa uma transformação histórica na medicina. Pela primeira vez, as mulheres são maioria entre os médicos em atividade no País: representam 50,9% do total, segundo a Demografia Médica 2025. Em 2010, eram 41%, e a tendência é de crescimento contínuo — até 2035, devem alcançar 56% da força de trabalho médica.

O avanço numérico reflete maior acesso a formação, ampliação de oportunidades e mudança cultural importante. No entanto, os dados revelam um descompasso: a presença feminina cresce, mas a igualdade de condições ainda não acompanha esse movimento.

Hoje, menos de 30% dos cargos de liderança na medicina são ocupados por mulheres. Em hospitais, universidades e entidades de classe, médicas ainda enfrentam barreiras para ascender profissionalmente. Relatos de assédio moral e sexual persistem, assim como dificuldades para conciliar carreira e responsabilidades familiares — desafio que continua recaindo de forma desproporcional sobre elas.

A desigualdade de gênero impacta diretamente a qualidade da medicina. Ambientes diversos são mais inovadores, produzem decisões mais equilibradas e refletem melhor a sociedade. Ignorar esse cenário é limitar o potencial do sistema de saúde.

Foi diante dessa realidade que a Associação Médica Brasileira criou a Comissão Nacional em Defesa dos Direitos do Trabalho da Mulher Médica (Conadem), voltada ao enfrentamento de questões como equidade salarial, combate ao assédio, garantia de condições adequadas durante gestação e amamentação e estímulo à presença feminina em cargos de liderança.

A mudança já era visível nas universidades. As mulheres representam a maioria entre os estudantes de medicina desde a década passada: eram 53,7% em 2010 e chegaram a 61,8% em 2023. O futuro da profissão já tem rosto majoritariamente feminino.

O desafio agora é transformar presença em protagonismo, influência e poder de decisão. Para isso, é fundamental ampliar a produção de dados, fortalecer políticas de inclusão e construir ambientes mais justos. Valorizar a mulher médica não é apenas atender a uma demanda da categoria, mas fortalecer o sistema de saúde e melhorar a assistência prestada à população.

(*) Pediatra e Vice-presidente da Associação Médica Brasileira.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Vorcaro e o seu crime quase perfeito

Por Raimundo Padilha (*)

Imaginar que o seu crime seria perfeito, foi um erro crasso. Ele esqueceu que a perfeição não está entre os humanos. Ela existe, mas está plano celestial e não no nosso.

Ao armar o golpe gigantesco de bilhões de reais, ele abriu portas, através da quais, encontrou caminhos para as mais diversas formas de captação de recursos de forma lícita e ilícita, comprando graúdos intermediários financeiros e encontrou caminhos escusos e aparentemente invisíveis, para escondê-los em mãos, também, sujas.

Depois de maquinar a captação dos recursos e os seus esconderijos, ele procurou se proteger através do auto poder nacional, inclusive das togas para a sua segurança pessoal. Por isso, o seu plano previa a sua prisão ou fuga. Mas, o risco de ser alcançado era iminente. Daí, ter pago, antecipadamente, e muito bem, os seus futuros defensores.

O compliance e a Auditoria Externa, foram acometidas de miopia ou cegueira absoluta, sem prestar qualquer informação aos órgãos reguladores. E, parece, que não serão apenados. O Brasil que queremos, grandioso e justo não pode, nem deve ser transformado em forno de pizza.

Até Ministros do STF tiveram alguma forma de participação, seja através de escritórios de advocacia de seus familiares ou negócios imobiliários sem visibilidade.

Como forma de alimentar o golpe do Master, que era baseado na cobertura do FGC, houve Senador, chegou a apresentar proposta ao senado para elevar o Fundo Garantidor de Crédito de 250 mil para 1 milhão de reais, o que seria uma forma de alavancar os negócios do Banco Master. Tudo adredemente projetado para cobrir o rombo, que no seu somatório vai próximo dos 60 bilhões. Este é o maior rombo já praticado no Sistema Financeiro Brasileiro.

Através dos Fundos de Pensão, que também foram envolvidos, não é fácil prever quantos investidores pessoas físicas, foram atingidas.

Também, comenta-se que houve Fundo de Pensão que aplicou recursos nos Fundos do Master por influência dos políticos.

Houve Ministro que viajou com a esposa para um Estado fora de Brasília em vôo pertencente ao Vorcaro. Se tudo que tem sido dito sobre as proezas deste cidadão, conclui-se, que se trata de homem perigoso e maquiavélico, que a tudo compra com o poder do dinheiro e absolutamente sem escrúpulos.

Até na prisão o Sr. Vorcaro teve o benefício de não ter o cabelo raspado à zero, mas, apenas rebaixado.

Depois de preso o Sr. Vorcaro, substituiu seus advogados, contratando outra banca e tomou a decisão de fazer uma delação. O assunto está tramitando no poder judiciário e o Sr. Vorcaro, possivelmente reunindo provas para dar validade à sua delação.

A dúvida é se ele nomina todos os envolvidos e qual será o tamanho da sua pena e dos seus comparsas. Um já pagou com a própria vida, sob a alegativa de suicídio com uma camisa de malha.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 13/05/26. Opinião. p.19.


 

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