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segunda-feira, 1 de junho de 2026

NOVO PNE — a renovação do esperançar

Por Cândido B.C. Neto (*)

Durante solenidade no Palácio do Planalto, neste dia 14 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o novo Plano Nacional da Educação (PNE), Lei N° 15.388, com a presença de inúmeras autoridades políticas e educacionais do país. Essa política pública visa dar continuidade ao planejamento e estratégias para a educação brasileira nos próximos dez anos, 2026-2036, com base constitucional.

O novo PNE traz muitas evoluções a começar pelos seus 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, com diretrizes claras e compromisso político com a aprendizagem, a inclusão e a equidade. Passa pela educação superior, direta ou indiretamente, diversos objetivos/metas e estratégias do PNE. O Ceará, conforme determina o cronograma, instituiu a Comissão Estadual para elaboração do seu Plano Estadual de Educação - PEE, de acordo com a política educacional estabelecida na Constituição Federal, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB, contemplando, desta também uma articulação direta com o Sistema Nacional de Educação (SNE).

As Instituições de Educação Superior (IES) com os gestores educacionais deste país assumem a responsabilidades pelos 0bjetivos 14 - Acesso, Permanência e Conclusão na Graduação com 4 (quatro) Metas e 18 Estratégias, o 15 - Qualidade da Graduação com 4 (quatro) Metas e 16 Estratégias e o 16 - Pós-graduação Stricto Sensu com 1 Meta e 14 Estratégias. Entre as propostas, as ações visam ampliar o investimento público em educação. Vale ressaltar que o PEE está sendo elaborado em consonância com o PNE, levando em conta as características específicas dos objetivos, metas e preservando as estratégias e demandas estaduais que deverão ser cumpridas no prazo definido.

O novo modelo combina metas ambiciosas com instrumentos concretos e complementares e necessários para a educação brasileira no novo PNE 2026-2036. Neste cenário, o humanismo, em seu sentido amplo, deverá estar presente em todos os objetivos, metas e estratégias como pauta permanente grandes debates educacionais.

(*) Professor da Uece e coordenador da Educação Superior da Secitece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/04/26. Opinião. p.16.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

SELECINHA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Mesmo não chegando a ser nem de longe um Sérgio Redes (também conhecido nos mundos da bola e do livro como Serginho Amizade), meu prezadíssimo amigo, gosto de dar meus pitacos quando o assunto é futebol. Não, hipócrita leitor(a), não falarei da tragédia em curso no futebol cearense, de times em baixa, lisos e abandonados pelos próprios torcedores. Reportar-me-ei a um problema muito maior: a péssima fase da nossa seleção, antes chamada carinhosamente de Canarinho e hoje por mim apelidada de selecinha, pelo péssimo futebol que ela apresenta. Fomos campeões do mundo pela última vez em 2002, já lá se vão 24 anos. De lá para cá, só fracasso e frustração. Lembro-me de que eu parava tudo o que estava fazendo para ver um jogo dela. Hoje prefiro mais ver o Chaves.

Sou do tempo em que um jogador, ao ser convocado para a seleção brasileira, levantava as mãos para o céu e agradecia a Deus pelo presente. Sua família o saudava como a um herói de guerra. Na convocação, o sorriso aberto, o peito estufado de orgulho, a postura de guerreiro. Nas copas a que assisti e que o Brasil ganhou (a primeira em 1970), os técnicos eram praticamente entregadores de camisas aos jogadores. Ora, como ensinar o esporte bretão a um Pelé, a um Tostão, a um Gérson, a um Carlos Alberto, a um Rivelino? Os caras resolviam as coisas no campo com a qualidade, a matreirice e o talento que tinham de sobra. Presentemente, parece-me que os nossos atletas veem qualquer jogo da seleção como uma partida a mais, a frio, sem tesão. Nelson Rodrigues vomitaria.

Senão, vejamos: no último prélio com a França, quando perdemos por 2 a 1, com a seleção gaulesa com um a menos, viu-se uma equipe com uma defesa fraca, um meio de campo sem qualquer criatividade e um ataque comandado por um jogador mais interessado em denunciar atos de racismo contra si (no que está certo) do que jogar futebol. O desempenho que os nossos players exibem nos seus clubes da Europa está muito distante daquele que apresentam na seleção. Quando são chamados de "jogadores de time" ficam bravos, vociferam, brigam. Mas, infelizmente, é o que acontece. Salvo uma ou duas exceções de praxe (que só confirmam a regra), são apenas atletas bonzinhos, daqueles que costumam tirar a canela de jogadas mais duras. Assim não passaremos da fase de grupos.

O morcego que mora no meu escritório, pendurado no varal da área de serviço, leu meus pensamentos e veio de lá com uma provocação: "O Brasil só ganha essa Copa se o Neymar for convocado". "Só se for a Copa de mau-caratismo, trambicagem e jogador mascarado", retruquei. Ele deu de ombros, bateu as asas e saiu voando por aí. "Ainda mais essa, aguentar praga de morcego", disse de mim para comigo. Saio do estúdio para tomar um ar sob a sombra do jasmim-manga do meu jardim, quando ouço a conversa de dois sujeitos: "O Brasil não vai ganhar essa Copa porque o treinador é italiano". Febeapá puro, o que tem a ver o traseiro com as calças? O que falta, na verdade, é futebol bem jogado, com raça, malícia e destreza, como alguém faminto que avança num prato de comida.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/03/26. Vida & Arte. p.2.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

PROPAGANDA DE GOVERNO VS. ELEITORAL

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Tenho assistido na TV a uma série de textos publicitários do Governo do Estado do Ceará, sob o slogan "O governo não para". São vídeos tratando de várias situações, com vários participantes cada um, repetidos várias vezes durante o dia e até nos horários ditos nobres. Fico me perguntando, dado que estamos em ano eleitoral se isso não seria uma propaganda sub-reptícia de cunho eleitoreiro.

Para tirar minha dúvida, fui pesquisar na Constituição Federal do Brasil. Não existe verbete sobre o tema. O que existe é a Lei nº 9.504, de 30/09/1997. Mas nada que diga respeito aos tipos de propaganda do setor público.

Porém a literatura sobre o assunto define quatro (alguns autores descrevem três) tipos de propaganda, quais são: a propaganda interpartidária; a propaganda partidária, a eleitoral, e a institucional. Pelo que pesquisei as mais discutidas são as três últimas.

Antes de discutir por que vejo as atuais propagandas do governo do Ceará como propaganda eleitoral sub-reptícia, talvez seja importante definir o conceito básico envolvido no verbete "propaganda".

Este verbete, de acordo com o Dicionário Koogan Larousse, de Antônio Houaiss, significa "ação ou efeito de propagar ou difundir ideias, princípios, teorias etc./vulgarização/promoção."

Assim, o uso da frase "O governo não para", repetido às dezenas de vezes todos os dias em rede de televisão não está fazendo a promoção dos bens públicos oferecidos, pois estes não precisam de promoção, mas, sim, do governo (leia-se, governador). No ano eleitoral, isso é propaganda eleitoral!

Não nego que o governo pode (e deve) mostrar ao povo o que está fazendo, através de informes oficiais, digamos uma vez por mês, mostrando os dados fundamentais dessas obras, como, por exemplo: o tamanho; o que foi feito de novo; sua localização; o quanto foi gasto; o benefício que trará para a população beneficiada.

Isso não seria promoção do governador, mas, uma satisfação à população sobre o que o governo está fazendo.

Na linguagem comum, quando se faz uma "promoção" é por que se está querendo "vender" algo. No presente caso, o objeto da venda é a imagem do governador, um homem que "não para". Mas, como as outras "mercadorias"(os outros candidatos), podem ser "promovidas"? Dentro deste contexto não há como. Por que, então, permitir que isso aconteça? Por que a lei não trata desse assunto?

Para os políticos "da situação", isso é muito bom. E os políticos "da oposição", por que não se posicionam? Porque eles esperam um dia ser "da situação".

O que mais dizer?

Termino este artigo com as seguintes sentenças que, estou convicto, dizem muito sobre a nossa população: "O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos, público só assiste de camarote.", de Lima Barreto; "Você tem todo o direito de não gostar de política, mas sua vida terá influência e será governada por aqueles que gostam. Portanto, o castigo dos bons que não fazem política e ser governado pelos maus que a fazem.", de Platão; "Em geral, os homens julgam mais pelos olhos do que pela inteligência, pois todos podem ver, mas poucos entendem o que veem.", de Nicolau Maquiavel; "Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem", de Bertoldt Brecht.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 5/04/26. Opinião. p.18.

terça-feira, 14 de abril de 2026

CÂNCER COLORRETAL NÃO É INEVITÁVEL

Por Alessandrino Terceiro (*)

Todos os anos, no mês de março, a comunidade médica no Brasil se reúne em uma causa que deveria estar no centro das prioridades da saúde pública: a conscientização e a prevenção do câncer colorretal. A campanha Março Azul acontece com a intenção de alertar, sobretudo, que vivemos um problema de saúde coletiva, diretamente ligado a escolhas de estilo de vida, acesso à saúde e a cultura de prevenção.

Sim, o câncer colorretal pode ser evitado e é uma das formas de câncer que estão mais susceptíveis à prevenção e à cura principalmente quando é detectado em fases iniciais. Exames como colonoscopia permitem identificar pólipos e lesões em fases iniciais e que podem ser removidos antes de se transformarem em câncer, elevando as chances de cura para até 90% dos casos.

Infelizmente, muitos casos só são diagnosticados tardiamente por falta de rastreamento adequado ou por medo ou desconhecimento do paciente sobre a importância dos exames de prevenção ou até pela realidade nos serviços de saúde pública. Um estudo baseado no Registro Hospitalar de Câncer aponta que mais de 60% dos casos são identificados em fases avançadas, o que dificulta o tratamento, tornando-o mais complexo, doloroso e com chances de cura reduzidas.

O problema é preocupante principalmente pelas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que mostra que o câncer colorretal figura entre os três tumores mais incidentes no Brasil, com mais de 45 mil novos casos esperados anualmente e cerca de 20 mil mortes por ano por câncer de cólon, reto e ânus. Essa realidade evidencia não apenas a alta incidência, mas a letalidade desta neoplasia, que permanece muitas vezes silenciosa até estágios avançados.

Nesse contexto, a campanha Março Azul assume o papel de chamar a atenção da sociedade, gestores públicos e profissionais de saúde para que se repense a estratégia de prevenção, invista em rastreamento sistemático e amplie o acesso a exames fundamentais, além de conscientizar sobre fatores de risco modificáveis, como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Nunca é demais reverberar que a prevenção salva vidas.

(*) Presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva - Ceará (SOBED-CE)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/03/26. Opinião. p.14.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: um anteparo ao protecionismo americano e à concorrência chinesa

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Após 26 anos de negociações, o Conselho da União Europeia finalmente aprovou há pouco o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia cuja assinatura ocorrerá em breve. Após aprovação parlamentar pelos membros da Comunidade Europeia e do Mercosul, o Acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de habitantes, um território de 16,8 milhões de km2 e um PIB conjunto superior a US$ 22 trilhões, sendo 13,4% do total referentes ao Mercosul. Trata-se do maior acordo de livre comércio do mundo, partindo de um intercâmbio bilateral de US$ 130 bilhões em 2024.

Embora celebrado por governos, o acordo ainda enfrenta reações de agricultores europeus e ecologistas, que criticam possíveis repercussões sobre o clima e a suposta concorrência desleal em produtos agrícolas. A implantação de seus dispositivos será gradual e os efeitos práticos só serão sentidos nos próximos anos. Mesmo assim, em um ambiente internacional assolado pelo protecionismo americano e sua truculência diplomática, esse Acordo indica que o multilateralismo ainda não acabou e que os países e blocos de nações podem negociar de forma civilizada seus interesses na busca de remover entraves ao comércio internacional e facilitar transações econômicas entre países.

O recém-anunciado acordo tem imperfeições e deixa de contemplar adequadamente as vantagens comparativas e competitivas associadas aos recursos naturais da região sul-americana. Mesmo assim, é o acordo possível nas circunstâncias que se impuseram ao longo de um quarto de século de negociação. Sua eventual aprovação final pelos parlamentos será uma vitória estratégica para ambas os lados. Os principais ganhos, contudo, não residem apenas nos dispositivos comerciais do acordo, mas especialmente em seus impactos positivos esperados sobre o ambiente econômico, os fluxos interblocos de investimento estrangeiro e o estreitamento das relações produtivas entre Mercosul e União Europeia.

Acuada pela suposta e temida ameaça da Rússia na frente oriental, a agressiva política comercial dos EUA e pela forte concorrência dos produtos chineses em seus mercados, as lideranças da União Europeia não tiveram senão a opção de buscar agilizar os trâmites para a aprovação do acordo e mostrar aos seus dois grandes concorrentes que a União Europeia tem condições de ganhar novos mercados na América do Sul e reduzir sua crônica dependência dos parceiros americanos e chineses. Uma forma de atestar sua capacidade competitiva e a relevância e atratividade de suas economias em um mundo imerso na desordem e crescentemente fragmentado, mas ainda assim marcado por cadeias globais de valor integradas e sujeito a intensas transformações tecnológicas e geopolíticas.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 18/01/26. Opinião. p.22.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Formação médica no Brasil preocupa ministérios e entidades

Por Ana Ruth Ramires, jornalista de O Povo.

Com resultado do Enamed, entidades reiteram riscos de cursos com desempenho insuficiente. Entidades particulares contestam exame.

O desempenho insatisfatório de parcela significativa dos cursos de medicina no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, especialmente em instituições privadas, preocupa Governo Federal e entidades médicas. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório, e passarão por medidas de supervisão do Ministério da Educação (MEC).

Os resultados foram divulgados na segunda-feira passada, 19. "Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse País, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas", disse Camilo Santana, ministro da Educação.

Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), argumenta que o aumento de escolas médicas no País, que supera numericamente nações muito mais populosas, compromete a formação acadêmica e exige mecanismos de avaliação mais rigorosos.

Para ele, os resultados do Enamed são reflexo de uma expansão desordenada e de um modelo de "formação em massa". Para solucionar essas deficiências, ele propõe a adoção de um modelo de avaliação por etapas, que permitiria identificar falhas específicas em diferentes ciclos da graduação.

"A formação básica de disciplina básica, de anatomia, de fisiologia tá muito boa, mas o ciclo clínico tá ruim. Aí serve para orientar o que a instituição precisa melhorar", exemplifica.

Ele acredita que, a despeito de sanções imediatas, o mercado servirá de balizador, pois as pessoas evitarão se matricular em cursos com notas mais baixas, o que pode levar ao esgotamento e fechamento natural de cursos deficientes.

Diante do resultado divulgado na segunda, o Conselho Federal de Medicina (CFM) quer impedir que os estudantes do último semestre de Medicina que não atingirem a nota mínima no exame recebam o registro profissional.

Segundo Estevam Rivello Alves, diretor de Comunicação do CFM, "o Enamed é um extrato daquilo que as entidades médicas já vêm falando há cerca de duas décadas". O médico elogia a realização do Enamed, mas considera que o exame precisa ser melhor implementado.

"Essa é uma avaliação que foi feita só de forma objetiva, uma prova de múltipla escolha, com 100 questões, é necessário que se tenha uma avaliação em estações práticas, que é o que é feito também no mundo, né, pra que a gente tenha a noção exata se esse estudante tá bem avaliado", pormenoriza.

O CFM também defende a criação de um exame de proficiência médica para regular a atuação na área (PL 2.294/2024). "No Senado Federal, nós já fomos aprovados, esse projeto já foi aprovado na Comissão de Educação, está na Comissão de Assuntos Sociais em última votação e em terminando ela pode ser remetida já diretamente para a Câmara", diz sobre o PL.

Nessa quinta-feira, 22, o ministro da Saúde Alexandre Padilha, contudo, afirmou que o Governo Federal vai propor ao Congresso Nacional que o Enamed se torne também um exame de proficiência.

"Primeiro porque ele [o exame] vai ser feito no segundo, no quarto e no sexto ano (de faculdade), ou seja, ele avalia o progresso. E ele é feito pelo Ministério da Educação, que tem como interesse principal a formação médica, e não por outra entidade que possa ter qualquer outro interesse com relação a isso", declarou o ministro em coletiva de imprensa no Rio de Janeiro.

Padilha esclareceu que a proposta só pode entrar em vigor após uma mudança na legislação brasileira, portanto, valeria para edições futuras do Enamed e não para a edição de 2025. (com Agência Brasil)

Entidades criticam metodologia e "falta de transparência"

De outro lado, associações de ensino como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) e a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) criticam a metodologia do exame, alegando falta de transparência e critérios definidos tardiamente.

Questionada sobre os resultados das universidades privadas no Enamed, a Anup responde ao O POVO que a avaliação da formação médica "não pode se apoiar em um único dado ou em um único instrumento, sobretudo quando esse instrumento ainda está em processo de consolidação". A entidade se preocupa com "a forma como esses dados foram produzidos, tratados e comunicados".

A Anup cita "inconsistências nos dados utilizados, critérios divulgados apenas após a aplicação da prova, problemas de representatividade da amostra - incluindo a participação de estudantes do 11º período - e a utilização de um exame inaugural para sanções regulatórias".

Para se consolidar como ferramenta essencial de avaliação, conforme a entidade, é necessária "definição prévia de critérios, um regime de transição adequado, integração com os demais instrumentos do sistema regulatório e engajamento efetivo dos estudantes".

A Abmes publicou nota afirmando que o Enamed "não demonstrou que a saúde da população brasileira esteja em risco, tampouco que a criação de uma prova de proficiência para egressos seja a solução para o aprimoramento da formação médica no País".

Associação cita que "os estudantes realizaram a prova sem o devido comprometimento, uma vez que não foram previamente informados de que o exame serviria como parâmetro de proficiência, nem de que haveria um corte mínimo de 60 pontos".

Ainda em nota pública, a entidade critica o que chama de "interesses corporativistas" das entidades médicas e reforça que "as instituições privadas mantêm firme compromisso com a qualidade da formação médica e apoiaram a criação do Enamed como instrumento de avaliação educacional".

"No entanto, a primeira edição do exame foi marcada por inconsistências (erros), ausência de critérios previamente definidos, falta de diálogo com a comunidade acadêmica e descumprimento do cronograma, o que comprometeu a previsibilidade, a transparência e a segurança jurídica do processo", acrescenta.

81% dos resultados insatisfatórios são de instituições privadas

Conforme o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, dos 107 cursos com resultados insatisfatórios, 81% (87) são de instituições privadas. Quase metade (49,4%) dos cursos privados registraram notas 1 e 2, resultado considerado insuficiente e passível de sanções.

César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), por meio de comunicado, defende que os dados do Exame "evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil". "Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos", analisa.

Ele cita os riscos da expansão desordenada de escolas médicas. Segundo o presidente da AMB, muitas vezes, as instituições são abertas "sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica".

"Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira", acrescenta César Eduardo Fernandes.

Conforme Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), muitas faculdades privadas não possuem hospitais próprios e utilizam a rede pública para o internato. Ele cita também a oferta de vagas para residência.

"A melhor formação de um médico é na residência. Nós tínhamos vaga para residência médica que alcançava 70% dentro dos egressos. De cada 10 formados, sete deles iam para a residência médica. E, atualmente, com a grande oferta de vagas em Medicina, nós vamos ter menos de 30% de vagas em residência para os que estão se formando", relaciona.

Ele cita também que muitas instituições aumentam a oferta de vagas sem ampliar a estrutura proporcionalmente. "Quando o curso é reconhecido e consegue um upgrade para Centro Universitário ou para Universidade, ela tem autonomia para expandir as vagas sem dar satisfação ao MEC. Então, ela tem uma autorização inicial para receber 50 alunos e quando menos espera tá com 200 alunos", afirma o médico Marcelo Gurgel.

Conforme o Ministério da Educação, os cursos que obtiveram conceito Enade nas faixas 1 e 2 — menos de 60% dos seus estudantes apresentaram desempenho considerado adequado no Enamed — e passarão por ações de supervisão da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) do MEC.

Medidas incluem a suspensão total de ingresso de novos alunos; redução do número de vagas autorizadas; restrição de acesso a programas federais, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Sobre as medidas aplicadas aos cursos que não atingiram o nível mínimo de aprendizagem, o ministro Camilo Santana destacou que o objetivo "não é aplicar sanções ou penalidades intencionais a qualquer instituição, mas assegurar a formação de médicos de qualidade no Brasil".

Os 99 cursos que não obtiveram resultado satisfatório, terão 30 dias para apresentar a defesa ao MEC após a publicação dos resultados no Diário Oficial da União, antes que as sanções entrem em vigor. Após o prazo, as medidas valerão até a próxima aplicação do Enamed, prevista para outubro de 2026.

Fonte: O Povo, 23/01/2026. Reportagem. p.4-5.


domingo, 30 de novembro de 2025

ESTUDANTES DE MEDICINA COMPOSITORES DO BRASIL

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

1 Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa (1910 - 1937). Nascido no bairro carioca de Vila Isabel, foi um dos mais importantes artistas da música no Brasil. Morto prematuramente aos 26 anos em decorrência de tuberculose, deixou um conjunto de canções que se tornaram clássicas dentro do cancioneiro popular brasileiro ("Último desejo", "Com que roupa?", "Feitiço da Vila", "Pierrô apaixonado", "Conversa de botequim", "O orvalho vem caindo" e outras).

Noel Rosa também compôs um samba e escreveu um soneto nos quais fez referências ao corpo humano e a uma enfermidade: "Coração (Samba anatômico)" e "Ao meu amigo Edgar", respectivamente.

"Coração"

"De sambista brasileiro / Quando bate no pulmão / Traz a batida do pandeiro."

http://www.youtube.com/watch?v=dZg-yexpGVw

Gravado por Noel na Odeon, em 1932, disco 10931-B, matriz 4473, foi feito um ano antes, quando ele estudava Medicina, com um erro crasso. Ao afirmar: "Coração, grande órgão propulsor / Transformador do sangue venoso em arterial". Em 1955, Nélson Gonçalves o regravaria com a letra corrigida para: "distribuidor do sangue venoso e arterial".

http://youtu.be/9-HT_JXHUVk (regravação)

"Ao meu amigo Edgar"

Em 27 de janeiro de 1935, Noel Rosa, doente (com tuberculose) em Belo Horizonte, enviou uma carta em versos a seu médico e amigo Edgar Graça Mello. Uma carta bem-humorada em que ele brincava e dizia que já estava melhor de saúde, mas que continuava com muito medo de tomar injeção. O original desta carta está nos arquivos que pertenceram ao pesquisador Almirante. Muito tempo após a morte de Noel, o sambista João Nogueira musicou-a, incluindo-a em seu LP "Vida boêmia" (EMI-Odeon, 1978).

Fonte: Songbook NOEL ROSA - Vol. 1, produzido por Almir Chediak.

 

"Já apresento melhoras pois levanto muito cedo
E deitar às nove horas pra mim já é um brinquedo
A injeção me tortura e muito medo me mete
Mas minha temperatura não passa de 37.

Nessas balanças mineiras de variados estilos
Trepei de várias maneiras e pesei 50 quilos
Deu resultado comum o meu exame de urina
Meu sangue noventa e um por cento de hemoglobina.

Creio que fiz muito mal em desprezar o cigarro
Pois não há material pro meu exame de escarro.
Até agora só isto para o bem dos meus pulmões

E nem brincando desisto de seguir as instruções.
Que o meu amigo Edgard arranque desse papel
O abraço que vai mandar o seu amigo Noel."

http://blogdopg.blogspot.com/2017/08/ao-meu-amigo-edgar.html

N. do E. "Cordiais saudações", de 1931, é outro samba-epistolar de Noel Rosa.

2 Belchior

Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (1946 - 2017), nascido em Sobral, no Ceará, foi compositor, cantor, escritor e artista plástico. Estudou Medicina na Universidade Federal do Ceará, mas abandonou o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se à carreira artística. Entre seus maiores sucessos estão "Apenas um rapaz latino-Americano", "Como nossos pais", "Paralelas", "Mucuripe" (com Fagner), "Galos, noites e quintais" e "Divina Comédia Humana".

http://gurgel-carlos.blogspot.com/2025/02/encontros-com-belchior.html

3 Zé Ramalho

José Ramalho Neto (1949 -), cantor e compositor. Nascido em Brejo da Cruz, na Paraíba, estudou Medicina na Universidade Federal da Paraíba, mas abandonou o curso no segundo ano, atraído pela carreira artística. É autor de "Avôhai", "Sinônimos", "Chão de giz", "Frevo Mulher" e outros sucessos musicais.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog EntreMentes em 23/02/2025.

https://blogdopg.blogspot.com/2025/02/medicos-compositores-do-brasil.html


MÉDICOS COMPOSITORES DO BRASIL

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

1 Zé Dantas

José de Sousa Dantas Filho (1921 - 1962), pernambucano de Carnaíba, médico obstetra e folclorista. Parceiro de Luiz Gonzaga em "Acauã", "Forró de Mané Vito", "Cintura fina", "Riacho do Navio", "A Volta da Asa Branca", "Xote das meninas", "Sabiá", entre outras canções.

2 Alberto Ribeiro

Alberto Ribeiro da Vinha (1902 - 1971), nascido no Rio de Janeiro. Compôs, em parceria com João de Barro, o "Braguinha", algumas das mais famosas marchas carnavalescas e juninas do Brasil. São de sua autoria: "Copacabana, princesinha do mar", "Yes, nós temos bananas", "Touradas em Madrid" e "Chiquita Bacana". Ele é nome de rua no Jardim Botânico, RJ.

3 Joubert de Carvalho

Joubert Gontijo de Carvalho (1900 - 1977), mineiro de Uberaba. Seu primeiro grande sucesso foi a marchinha "Taí (Pra você gostar de mim)", gravada pela jovem Carmen Miranda, em 1930. Compôs também "Minha casa", "Pierrot", com Paschoal Carlos Magno, e "Maringá", que inspirou o nome da cidade paranaense.

4 Paulo Vanzolini

Paulo Emílio Vanzolini (1924 - 2013) nasceu em São Paulo. Formado pela USP, com doutorado em Zoologia pela Universidade de Harvard, tornou-se médico em 1947. Seu primeiro LP: "11 Sambas e uma Capoeira". Foi com "Ronda", "Volta por cima", "Samba erudito e "Praça Clóvis" que este descendente de italianos firmou seu nome na MPB.

5 Aldir Blanc

Aldir Blanc Mendes (1946 - 2020), carioca do Estácio, médico psiquiatra. Com João Bosco, seu principal parceiro, compôs "O Bêbado e A Equilibrista", "Dois pra lá, dois pra cá", "Transversal do tempo", "Mestre-Sala dos Mares" etc. Foi colaborador de "O Pasquim", do jornal carioca "O Dia" e de "O Estado de São Paulo". Publicou alguns livros, dentre eles "Rua dos Artistas e arredores", “Brasil passado a sujo", "Vila Isabel" e "Inventário da infância".

6 Janduhy Finizola

Janduhy Finizola da Cunha (1931 - 2024), natural de Jardim do Seridó-RN. Publicou livros de poesia e compôs canções para grandes nomes do forró. Seu trabalho musical mais famoso é a trilha da "Missa do vaqueiro", solicitada por Luiz Gonzaga, que o apelidou de "Doutor do baião"

7 Capinan

José Carlos Capinan (1941 -) baiano de Entre Rios, é formado em artes cênicas, direito e medicina. Ligado ao Movimento Tropicalista, Capinan, escreveu as letras de "Soy louco por ti América", de Gilberto Gil, "Clarice", de Caetano Veloso, e "Gotham City", de Jards Macalé. Também compôs "Ponteio", com Edu Lobo, "Coração Imprudente", com Paulinho da Viola, "Moça Bonita", com Geraldo Azevedo, "Papel Marchê", com João Bosco e "Cidadão", com Moraes Moreira. É imortal da Academia de Letras da Bahia.

8 Geraldo Bezerra

Geraldo Bezerra da Silva (1949 -), cearense de Jaguaribe, médico obstetra, escritor e pesquisador. Foi presidente da Sobrames, regional Ceará, sucedendo-me neste cargo. Autor de "Volta, Luiz" (com José Carlos e Zé de Manu) e "Verdade absoluta" (com José Carlos), título de um LP de José Carlos Albuquerque.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog EntreMentes em 23/02/2025.

https://blogdopg.blogspot.com/2025/02/medicos-compositores-do-brasil.html


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A guerra tributária Brasil versus USA

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Estamos vivenciando no momento uma "guerra" tributária entre o Brasil e os EUA, isto porque após o "tarifaço" imposto pelo Trump sobre grande parte dos bens exportados pelo Brasil para aquele país, o governo brasileiro não se intimidou e não foi a Washington rogar ao que se acha todo poderoso Donald Trump o "favor" de minorar essa política.

O problema é que Trump associou tal medida como uma represália pela instalação do processo criminal contra o ex-presidente Bolsonaro.

Ora, isso na verdade não tem nada a ver com economia. É uma intromissão no sistema jurídico brasileiro, tendo como a ação predatória do "tarifaço", o motivo maior.

Assim, não há por que o Presidente brasileiro ir a Washington pedir as bênçãos do megalomaníaco Trump.

Por outro lado, o governo americano resolveu enquadrar alguns brasileiros na Lei Global de Responsabilidade de Direitos Humanos Magnitsky, que estende a estrutura da lei original para penalizar qualquer estrangeiro, em todo o mundo, que tenha praticado "atos de violações dos direitos humanos ou corrupção significativa", autorizando o congelamento de seus bens nos EUA e a suspensão de visto, bem como penalizando qualquer entidade econômica que mantenha negociações com tal pessoa.

Sobre este assunto assisti um vídeo de um analista brasileiro que descreveu a situação, caso o governo brasileiro não se sujeitasse a essa pressão, como catastrófica. Se isso acontecesse, no dizer de tal analista, o Brasil seria praticamente alijado do comércio internacional...

Outro analista veio a público contestar as afirmações daquele articulista, chamando-as "asneiras".

O grande problema aqui é a interpretação da Lei Magnitsky.

Entretanto, tal debate já teve seus efeitos sobre alguns empresários brasileiros que pediram às autoridades do Brasil, mais moderação no trato com os EUA.

Para entender melhor o problema li a referida peça legal (para os americanos) e fiquei cada vez mais convencido que muitos americanos, principalmente seus Presidentes, acham que têm o direito de intervir economicamente e, às vezes, militarmente, sempre que acharem que estão sendo prejudicados por ações exercidas por outros países.

O que cabe, então, ao governo brasileiro? Internamente, a adoção de medidas que contrabalancem os efeitos deletérios do tarifaço, medidas estas voltadas somente para as empresas que foram prejudicadas.

Lembro aqui que o Brasil já usou taxa cambial diferenciada como política econômica. No caso atual poder-se-ia ter o Real subvalorizado nas exportações e nas importações, no comércio com os EUA. Não precisaria, então, de política tarifária.

Vale a pena analisar a validade de se adotar tal política.

No próximo artigo voltarei a esta questão.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 19/10/25. Opinião. p.22.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

PODER CIVIL E A TUTELA DOS MILITARES

Por Heitor Férrer (*)

Fui militar, médico do Exército de 1981 a 1986. Servi no Hospital Militar, em plena ditadura, portanto, me sinto muito à vontade para falar dessa instituição pela qual tenho extremo respeito e onde tanto aprendi. Revi nossa história e a relação dos militares com o poder político no Brasil.

A monarquia, sem entrar no mérito, foi derrubada por militares em 1889. Marechal Deodoro da Fonseca liderou o golpe, tornando-se o primeiro presidente da República. Seu vice, Marechal Floriano Peixoto. Deodoro renunciou em 1891 e Floriano assumiu. Inicia-se a Velha República (1891-1930), marcada pela política do quot;café com leitequot;. São Paulo e Minas Gerais se revezavam no poder.

Em 1930, o presidente Washington Luís, paulista, indicou outro paulista, Júlio Prestes, à presidência, rompendo o acordo com os mineiros. Em resposta, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba lançaram Getúlio Vargas à presidência e João Pessoa, vice.

Júlio Prestes venceu a eleição. Os derrotados, Vargas e João Pessoa, alegaram fraude nas urnas e a alegativa se espalhou pelo país. Contestaram o mesmo sistema eleitoral que elegeu todos os presidentes anteriores até então.

Em meio à crise, João Pessoa foi assassinado por João Dantas num crime de motivação pessoal, mas explorado politicamente. Militares simpáticos aos derrotados depuseram Washington Luís, prenderam-no e o exilaram, exilando também Júlio Prestes e, no uso da força, deram a presidência a Getúlio Vargas, que se tornou ditador por 15 anos.

Esses militares que o sustentaram em 1930 foram os mesmos que o derrubaram em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial. Não havia. Foi eleito o general Gaspar Dutra, que derrotou outro militar, o brigadeiro Eduardo Gomes.

Getúlio, que alegara ter sido roubado nas urnas em 1930, foi eleito em 1950 por voto direto, presidindo o Brasil até 24 de agosto de 1954, quando, sob crise política, militares forçaram sua renúncia. Getúlio resistiu, mas suicidou-se na madrugada de 25 de agosto. Assumiu seu vice, Café Filho, que tramou com uma ala do Exército não dar posse a Juscelino Kubitschek, eleito presidente. Outra ala do Exército afastou Café Filho e o general Teixeira Lott garantiu a posse do eleito. Mais uma vez, uma tutela militar.

Em 1961, elege-se Jânio Quadros, que renuncia em seis meses. Seu vice, João Goulart, assume, mas era malvisto pelas Forças Armadas e pelos Estados Unidos. Em 1964, novo golpe militar e uma ditadura que se estendeu por 21 anos.

Agora, no julgamento do ex-presidente Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, ficou evidente a maturidade do Exército, que não tutelou mais uma ruptura institucional, quando os derrotados alegavam fraude nas urnas, a mesma estratégia de Vargas, guindado por militares a uma ditadura de 15 anos.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/09/2025. Opinião. p.19.


terça-feira, 21 de outubro de 2025

OS MEUS POR QUÊS SOBRE O BRASIL

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Dadas as notícias publicadas recentemente, me lembrei dos meus inúmeros "por quês" sobre este ente chamado governo brasileiro, ao qual eu servi por 44 anos como professor universitário. Agora vou explicitá-los. Por que não se ensina ao brasileiro, desde a infância, o respeito às leis?

Por que os governos no Brasil demoram tanto a tomar suas decisões, mesmo as mais óbvias? Há projetos de lei que estão no Congresso há mais de 20 anos. Aqui vou dar uma parada nos meus "por quês" e dar um exemplo dessa demora. Tomemos o caso do uso dos cintos de segurança.

Eu estudei nos Estados Unidos há 52 anos. Já naquela época, lá o motorista era obrigado a usá-lo.

Na realidade o Governo brasileiro instituiu a obrigatoriedade dos veículos aqui fabricados viessem com o cinto de segurança já em 1968. Mas, por que a obrigatoriedade do uso desse dispositivo só passou a ser exigida a partir de setembro de 1997?

Voltemos aos "por quês". Por que somente agora, depois que muitos países já a adotaram, o Congresso Nacional aprova lei que proíbe o uso de celulares nas salas de aula? Por que a construção de qualquer obra pública no Brasil demora muito mais para ser concluída do que está previsto? E por que os custos finais sempre são bem maiores que os custos iniciais previstos?

Veja-se o exemplo da Transnordestina. Por que as construções, no Nordeste, principalmente de edifícios, não deixam instaladas placas fotovoltaicas para uso de energia solar? Por que o Brasil não adotou o modelo universal de tomadas elétricas? Por que a lei de trânsito no Brasil não é mais rígida contra os transgressores?

Por que os governantes no Brasil (federal e estaduais) teimam em indicar para cargos diretivos de suas empresas estatais ou para Conselheiros de seus Conselhos de Conta, pessoas que, no mais das vezes, não têm capacidade técnica para assumir tais cargos? O caso do INSS é um bom exemplo.

Por que o Congresso Nacional é o segundo Congresso mais caro do mundo? Por que um Senador pode contratar até 83 assessores parlamentares? Por que o Congresso Nacional não permite a tributação de grandes fortunas? Por que os políticos brasileiros tornam os cargos eletivos como verdadeiros empregos? E até querem se perpetuar como "representantes do povo". Por que o Regimento Interno do STF (e dos tribunais) tem força de lei? Por que o STF não é formado somente pelos mais doutos na ciência jurídica?

Por que se permite que pessoas que sequer passaram em concurso para juiz de primeira instância, sejam "juiz de suprema instância"? Por que, no Brasil, um Professor Universitário paga mais IR que muitos milionários brasileiros? Por que o Brasil, na verdade, é um "paraíso fiscal"? Quem souber responder a estes "porquês", responda-me.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 21/09/25. Opinião. p.18.


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

A DESIGUALDADE, O SOCIAL E O ECONÔMICO

Por Lauro Chaves Neto (*)

A desigualdade extrema permanece como uma das maiores mazelas do Brasil, manifestando-se de forma territorial, econômica e social, com agravantes relacionados à cor e ao sexo.

Socialmente, escancaram a exclusão e a vulnerabilidade para uma parcela expressiva da sociedade brasileira. Economicamente, constituem um gargalo ao desenvolvimento, ao reduzir o potencial do mercado interno.

O Observatório Brasileiro das Desigualdades monitora a sua evolução. Seu relatório de 2025 aponta que, dos 43 indicadores acompanhados, 25 apresentaram avanços, três tiveram retrocessos e oito permaneceram estagnados.

Em 2024, o rendimento médio cresceu 2,9%, alcançando R$ 3.066. Ainda assim, as mulheres receberam apenas 73% do rendimento dos homens. O percentual de crianças de 0 a 3 anos matriculadas em creches subiu para 34,6%.

O Ensino Médio atingiu 74% de escolarização, enquanto o Ensino Superior chegou a 22,1%. A taxa de analfabetismo funcional entre pessoas de 15 a 64 anos manteve-se estagnada em 29,4% entre 2018 e 2024, o que limita a possibilidade de ganhos mais expressivos de produtividade para a economia brasileira.

As desigualdades regionais persistem. A violência letal contra jovens continua concentrada nas regiões Norte e Nordeste, que também enfrentam os maiores índices de pobreza, insegurança alimentar, mortalidade infantil, déficit de acesso à água e saneamento.

Em 2024, o 1% mais rico da população ganhou, em média, 30,5 vezes mais que os 50% mais pobres, com a maior disparidade registrada no Nordeste (32,0) e a menor no Sul (23,3). O sistema tributário aprofunda o problema da concentração de renda.

A elevada carga de tributos indiretos, com a reforma tributária estabelecendo a alíquota do IVA como uma das mais altas do mundo, tende a agravar esse quadro. A estrutura regressiva penaliza as famílias mais pobres.

Apesar de alguns avanços, os indicadores revelam que um Brasil marcado por desigualdades estruturais e regionais, que afetam diretamente áreas como saúde, educação, segurança e condições de vida, exigindo políticas públicas consistentes, integradas e de longo prazo.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 15/09/25. Opinião. p.22.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

UM VIVA AOS 35 ANOS DO SUS

O Povo, Editorial.

É a principal rede de assistência para 76% dos brasileiros e o maior sistema público, gratuito e universal de saúde do mundo. O Sistema Único de Saúde (SUS) chegou aos 35 anos na última sexta-feira, 19, realizando anualmente cerca de 2,8 bilhões de atendimentos e tendo aproximadamente 3,5 milhões de profissionais em atuação. É inegável que o SUS tenha mudado a realidade do acesso à saúde, elevando a qualidade de vida da população.

No ano de 2024, conforme o Governo Federal, o País chegou ao recorde histórico no SUS, tendo executado 30 mil procedimentos. Além disso, a rede pública realiza gratuitamente serviços de altíssima complexidade como transplantes, tem dedicação à média e à alta complexidades (internações, cirurgias, quimioterapia e radioterapia), está no atendimento em prontos-socorros e UPAs e presta assistência farmacêutica (com o fornecimento gratuito de medicamentos, inclusive imunossupressores, necessários para toda a vida dos transplantados), para citar alguns exemplos da atuação do Sistema. O cuidado com a atenção primária (como consultas, exames laboratoriais e vacinação) e a saúde mental são questões que muito têm sido debatidas nos últimos anos.

Destaca-se que o Sistema tem também o maior programa público de vacinação da América Latina, o chamado Programa Nacional de Imunizações (PNI). São disponibilizados atualmente 48 imunobiológicos - desses, são 31 vacinas, 13 soros e 4 imunoglobulinas. Essas ações contribuíram, de modo significativo, para marcos como a erradicação da poliomielite, em 1994, até resultados mais recentes como a recertificação de país livre de sarampo. É preciso ressaltar que o Brasil foi pioneiro na oferta de vacina contra a dengue.

Essa trajetória bem-sucedida de fortalecimento do SUS é marcada por políticas e programas que acumulam números e histórias positivas no atendimento universal reconhecidamente eficiente e justo. São exemplos as criações do Samu 192 (em 2003), do Brasil Sorridente (em 2004), do Farmácia Popular (em 2004), da Hemobrás (em 2004), da Rede Cegonha - atual Rede Alyne (em 2011), do Programa Mais Médicos (em 2013), do Brasil Saudável (em 2024) e do Agora Tem Especialistas (em 2025).

É certo que há muitos desafios na saúde pública a serem enfrentados. A sobrecarga do sistema, com longos períodos de espera, a escassez de recursos, a demora no atendimento e a dificuldade de acesso a especialistas são alguns pontos que merecem atenção constante e urgente dos governos. Assim, o financiamento deficitário é questão que precisa ser mais bem desenvolvida de forma que o orçamento em todas as esferas contribua para evitar longas e desiguais filas pelo Brasil adentro.

Assim, faz-se necessário louvar o reconhecimento - inclusive internacional - que tem o SUS, a partir de quem tem a oportunidade de conhecer o modelo. Ajustes, porém, são sempre necessários a fim de se busque o fortalecimento do Sistema para estender seus benefícios ao maior alcance possível, em especial com foco nos setores mais carentes da população.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/09/2025. Editorial. p.18.

Postado no Blog do Marcelo Gurgel em 21/08/2025.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Yes, nós temos presos políticos! #voltademocracia

Por Luiz Eduardo Girão (*)

Enquanto Lula destrói uma linda e longa história de apreço a liberdade da nossa diplomacia, causando prejuízos irreparáveis aos brasileiros ao se aliar a ditaduras como a China, Irã, Rússia e Venezuela- além dos terroristas do Hamas e da tirania do STF que produziu censura e perseguição com direito até presos políticos em pleno Século 21 - aqui na “Terra da Luz” temos o dever de construir uma sólida alternativa de centro direita para consertar o caos deixado por décadas de desmandos do PT.

Tanto no Senado como na Câmara, os Partidos Novo e PL continuam firmes no alinhamento de ideias em questões cruciais como a defesa da vida, da família e da livre opinião. No Congresso, destaco a liderança pró ativa do conterrâneo André Fernandes que quase foi eleito prefeito de nossa capital, Fortaleza, mesmo contra as máquinas petistas estadual e federal. Inclusive, fui o primeiro a declarar apoio a ele no segundo turno antes mesmo do término da apuração.

Está claro como o sol ser a hora de um novo ciclo no Ceará, onde a direita e os conservadores-com a “musculatura” que já conquistaram-tenham o direito de implantar boas práticas de gestão baseadas na meritocracia, desmantelamento do crime e na redução dos impostos para gerar mais emprego e renda, de modo a enfrentar com eficácia a pobreza. Sempre deixei transparente minha posição contrária à reeleição e, por isso me coloquei a disposição para disputar o governo.

O Novo também aprovou o nome do General Guilherme Theóphilo como pré-candidato a uma das duas vagas ao Senado no ano que vem. Em 2018, Theóphilo concorreu com o “cooptador-mor” Camilo Santana (PT) e, mesmo sem estrutura, conseguiu meio milhão de votos! Em função de sua expertise nesta área crítica, como Secretário Nacional de Segurança do Governo Bolsonaro colaborou para despencar o número assassinatos no País.

Mas com o regime do Lula em 2023, os números viraram uma verdadeira tragédia humanitária; segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado na semana passada, das 12 cidades mais violentas do País (todas do Nordeste), 5 são cearenses e 10 “comandadas” pelo PT! Devido à incapacidade do governo para o enfrentamento as facções criminosas, pedi desde março a intervenção federal em nosso Estado, assim como também ajudei a emplacar uma CPI, da qual serei titular.

Estamos preparados, para em 2026 assumir o desafio de fazer grandes transformações sociais e econômicas em todo o território nacional por que é pra já a libertação do Brasil e a redenção do Ceará! Mas até lá, precisamos salvar nossa democracia para que a justiça volte a ser para todos.

Neste domingo, 3/8, estaremos juntos às 15 horas na Praça Portugal para uma manifestação pacífica pela anistia aos presos políticos e impeachment do min Moraes, sancionado globalmente pela Lei Magninsky por violar direitos humanos de americanos assim como de brasileiros. Vamos que vamos pelo que é correto e urgente!

Paz & Bem.

(*) Empresário. Senador pelo Podemos/CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/08/25. Opinião, p.17.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

BNB é vital para o desenvolvimento

Por Rita Josino (*)

O Banco do Nordeste do Brasil (BNB) completa 73 anos de existência em 19 de julho e a data é motivo de celebração para toda uma Região e para o País. O BNB é um dos principais instrumentos de desenvolvimento na sua área de atuação que engloba, além dos estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo. É responsável pelo maior Programa de Microcrédito Produtivo e Orientado da América Latina, o Crediamigo e Agroamigo; por programas com foco nas mulheres, no financiamento de energia solar, inovação e mais recentemente pela parceria no Acredita no Primeiro Passo, programa do Governo Federal voltado à inclusão produtiva de empreendedores inscritos no Cadastro Único (CadÚnico).

Ao longo das mais de sete décadas tem sido um porto seguro para grupos que historicamente seriam excluídos do sistema financeiro, além de formador de gerações de profissionais qualificados para inúmeros cargos nas esferas municipal, estadual e federal.

Apesar da relevância para a economia da Região, com geração de empregos, renda, apoio a pequenos e grandes negócios no campo e na cidade, nós, da Associação dos Funcionários do BNB (AFBNB) estamos permanentemente vigilantes e prontos para intervir quando percebemos outros interesses que possam fragilizar o BNB, seja atacando sua principal fonte de recursos - o FNE, seja tratando-o como moeda de troca política.

A própria AFBNB foi criada num contexto de defesa do Banco, tendo sido protagonista durante a Assembleia Nacional Constituinte e tendo sua luta vitoriosa, junto com outras entidades, com a criação dos Fundos Constitucionais de Desenvolvimento (FNE, FNO e FCO).

Neste aniversário outras questões também devem ser motivo de atenção no Banco: as pautas que a AFBNB aponta no que se refere ao ambiente de trabalho, condições adequadas e saudáveis, compatíveis com uma instituição diferenciada como é o BNB. Vislumbrar um Banco cada vez melhor e pujante é tarefa a ser buscada diuturnamente, afinal, uma instituição só é forte se seus trabalhadores se sentirem valorizados! Vida longa ao BNB!

(*) Diretora-presidente da AFBNB.

Fonte: O Povo, de 19/07/25. Opinião. p.19.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

PARA ONDE VAI O BRASIL?

Por Cláudia Leitão (*)

Em 2008, fruto do XX Forum criado pelo Instituto Nacional de Altos Estudos (INAE) e liderado por João Paulo dos Reis Velloso, foi publicado pela Editora José Olympio um livro denominado "O Brasil e a Economia Criativa: um novo mundo nos trópicos". A publicação apresenta estudos e reflexões de grandes nomes do pensamento econômico e político brasileiro, tais como Guido Mantega, Aloizio Mercadante e Marcio Pochmann, organizados a partir de seis temas: Para onde vai o Brasil?: a Visão do Governo; Estratégia da Economia Criativa; a Consolidação das Bases Macroeconômicas; O Brasil e suas Empresas Globais; Universalizando a Inovação nas Empresas Brasileiras e o Índice de Desenvolvimento Social.

O texto de abertura é do próprio Reis Velloso, cujo título sugestivo "Eu tive um sonho" convoca o Brasil, a "deixar de ser o país das oportunidades perdidas para assumir seu lugar de liderança, sobretudo, junto aos Bric's, através da Economia Criativa". O ex-ministro do Planejamento adverte que "a verdadeira revolução brasileira está na integração de desenvolvimento e democracia", enfatizando a importância estratégica da construção de instituições políticas fortes (Congresso e partidos políticos) para que se possa evitar a multiplicação dos "circos de horrores", ou seja, dos escândalos de corrupção, fisiologismos, autoritarismos, entre outras mazelas da nossa República.

O texto seguinte - "Para onde vai o Brasil?" é da autoria do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua atualidade é impressionante. Nele estão enumerados os grandes desafios do Brasil e assinalada a necessidade da presença do Estado para garantir a proteção do meio-ambiente, os avanços da ciência & tecnologia, o enfrentamento da pobreza, da desigualdade e da violência, a urbanização de territórios vulneráveis, enfim, a educação como ativo maior da inclusão social e produtiva dos brasileiros. Em 2025, no terceiro Governo Lula, o Brasil acaba de assumir a presidência dos Bric's enquanto, no Ministério da Cultura foi (re)criada a Secretaria da Economia Criativa. O sonho "de um novo mundo nos trópicos" continua a nos instigar.

(*) Cientista Social. Professora da Uece. Diretora do Centro Internacional Celso Furtado para o Desenvolvimento.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/07/25. Opinião. p.18.

 

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