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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O CEARÁ E A DINÂMICA DA TRANSFORMAÇÃO

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O desenvolvimento consiste em mudança estrutural contínua em sistemas econômicos e sociais. Ele ocorre por meio da superação de desequilíbrios e integração entre inovação tecnológica, adaptação institucional e melhoria na qualidade de vida, exigindo ajustes coordenados entre Estado, mercado e sociedade. Uma combinação difícil de ocorrer conforme destaca a literatura econômica.

Dentre os fatores que geram esse processo virtuoso estão: i) a migração de atividades de baixa produtividade (como agricultura de subsistência e terciário informal) para setores de maior valor agregado (indústria e serviços avançados); ii) a acumulação de capital, com investimentos em infraestrutura física, máquinas e novas tecnologias produtivas e iii) a inovação, que reflete a capacidade local de gerar e absorver conhecimento para elevar a eficiência geral da economia.

Crucial para o desenvolvimento é a capacitação pela elevação dos níveis de educação, saúde e qualificação profissional da força de trabalho, além da melhoria na governança, dada pelo aprimoramento de leis, regulações e instituições que garantam segurança jurídica e transparência. De resto, mas não menos importante, a redistribuição de renda que reduz disparidades, reforça a coesão social, amplia o mercado interno e gera estabilidade política.

Em que pesem as notórias restrições ainda existentes após 40 anos de reformas modernizantes, no Ceará atual respira-se transição acelerada e protagonismo regional. O estado registra crescimento econômico acima da média nacional, impulsionado pela consolidação de uma matriz energética limpa, atração de investimentos globais de alta tecnologia e por descentralização econômica voltada para o interior, inclusive no Sertão Central.

Apesar do ciclo virtuoso atual no Ceará, a dinâmica da transformação enfrenta barreiras críticas, como o clima semiárido, que exige gestão hídrica de precisão para evitar que estiagens travem o avanço da agropecuária, da industrialização e do abastecimento urbano, e a persistente desigualdade, que impede que a riqueza gerada no Complexo do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza e nos hubs tecnológicos em formação, resulte em rápida redução da pobreza e em melhorias diretas na segurança pública e na renda de toda a população.

O desafio atual que o Ceará enfrenta em sua dinâmica de transformação, além das limitações de unidade subnacional num país de baixo crescimento, é superar a armadilha do crescimento sem mudança de patamar, o que exige converter bons indicadores fiscais, educacionais e de energia renovável em alteração profunda na renda média e no bem-estar da população, com aumento de sua participação para muito além dos parcos 2,1% na economia brasileira. Um desafio que precisa ser de vez enfrentado e superado!

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 22/08/26. Opinião. p.15.


terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONVITE: Conferência “ALFARRÁBIOS DE JOÃO MOTA”

O presidente da Academia Cearense de Medicina, dr. Ivan de Araújo Moura Fé, convida para a Conferência Acad. Edísio Tavares de História da Medicina, intitulada: ALFARRÁBIOS DE JOÃO MOTA: biografias de médicos cearenses formados ate à metade do século XX, a ser proferida pelo Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva.

A apresentação do conferencista será feita pelo Acad. Antônio Augusto Guimarães.

 Dia: 14 de outubro de 2026 (quarta-feira).

Horário: 15h.

Local: Auditório da Associação Médica Cearense, no Shopping Avenida, Av. Dom Luiz 11º Andar Sala 1.122, bairro Meireles, em Fortaleza-CE.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Mortalidade infantil cai 68% no Ceará durante os últimos 25 anos

Por Kleber Carvalho, jornalista de O Povo.

Medidas de acompanhamento gestacional e cuidados com recém-nascidos são apontados como peças-chave para redução. Estado busca reduzir taxa de mortalidade para menos de 10 óbitos a cada mil nascidos vivos

RESUMO A mortalidade infantil no Ceará caiu 68% desde o início do século. Entre 2000 e 2025, o número de óbitos entre recém-nascidos (até um ano de idade) regrediu de 3.8 mil para 1.2 mil por ano no Estado.

Os dados fazem parte do Boletim Epidemiológico Óbitos Infantis e Fetais Evitáveis no Ceará, documento divulgado pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) e que mostra a evolução da prevenção à mortalidade infantil no Estado.

No início dos anos 2000, o Ceará tinha uma média de 26,5 bebês mortos a cada mil nascidos vivos. Pouco mais de duas décadas depois, a Taxa de Mortalidade Infantil (TMI) está em 11,2 crianças mortas a cada mil nascimentos, índice 57% menor.

De acordo com a Sesa, a redução evidenciada pelo boletim é resultado de parceria com os municípios para a qualificação da atenção primária em saúde na capital e no interior cearense.

Com mais recursos de acompanhamento em saúde antes, durante e depois do nascimento, as crianças do Estado enfrentam cada vez menos com problemas que antes eram determinantes para o falecimento, como erros no pré-natal e baixa assistência ao bebê nos primeiros dias de vida.

"Quando eu fortaleço a saúde da família eu tenho expansão no pré-natal, qualifico mais essa gestante, a puérpera e a criança. Essas estratégias fazem com que haja essa redução, porque eu garanto parto seguro e humanizado, cobertura vacinal maior, acompanho o desenvolvimento dessa criança e controle de doenças crônicas", explica a orientadora da Célula de Atenção Primária e Promoção da Saúde da Sesa, Sheila Santiago.

Com mais recursos de acompanhamento em saúde antes, durante e depois do nascimento, as crianças do Estado enfrentam cada vez menos com problemas que antes eram determinantes para o falecimento, como erros no pré-natal e baixa assistência ao bebê nos primeiros dias de vida.

"Quando eu fortaleço a saúde da família eu tenho expansão no pré-natal, qualifico mais essa gestante, a puérpera e a criança. Essas estratégias fazem com que haja essa redução, porque eu garanto parto seguro e humanizado, cobertura vacinal maior, acompanho o desenvolvimento dessa criança e controle de doenças crônicas", explica a orientadora da Célula de Atenção Primária e Promoção da Saúde da Sesa, Sheila Santiago.

Essas investigações permitem determinar por exemplo se a morte ocorreu nos períodos neonatal precoce, neonatal tardio ou pós-neonatal.

Essa especificação é importante porque cada uma dessas fases do recém-nascido tem motivos recorrentes de mortalidade. Se há muitas crianças morrendo nos seis primeiros dias de vida, a causa dessas mortes pode estar relacionada ao pré-natal feito pelas gestantes.

Essa ciência permite que ações preventivas sejam intensificadas e possam e diminuam as mortes classificadas pela Secretaria de Saúde como "óbitos evitáveis", ou seja, aqueles que poderiam não ter acontecido se a atenção à gestante e à criança fosse melhor executada.

"A investigação de óbito vê justamente essas falhas e começa a trabalhar nessas falhas. Assistência ao pré-natal e ao neonatal são fundamentais para a redução desses óbitos", conclui Santiago.

Mais da metade dos óbitos infantis ocorre nos primeiros seis dias de vida

Mais de 52% dos óbitos de recém-nascidos no Ceará ocorrem ainda nos seis primeiros dias de vida. Segundo a Sesa, as principais causas desses falecimentos são problemas na formação da criança durante a gravidez, como transtornos de baixo peso e desconfortos respiratórios.

Em 2025, 104 crianças faleceram vítimas de baixo peso no Ceará, enquanto outras 67 tiveram problemas de respiração ao longo da primeira semana.

Ainda conforme o boletim, os riscos diminuem no período neonatal tardio, quando as complicações estão relacionadas especialmente à septicemias e problemas de formação do coração.

Entretanto, são as mortes do neonatal tardio que chamam a atenção das autoridades de saúde, com algumas de suas causas relacionadas à falta de vacinação dos recém-nascidos, além de septicemias e más-formações, também.

"Esse é um ponto importantíssimo e que nosso sistema de saúde tem se debruçado. O Brasil sempre foi exemplar em termos de cobertura vacinal, desde o SUS. Nos últimos anos temos observado o crescimento de um discurso antivacina, e que tem comprometido a decisão dos responsáveis em garantir os esquemas vacinais. Essa hesitação pode ter efeitos importantes para agravamento de adoecimentos e repercussão nas taxas de óbitos pós-neonatal", pontua Lima.

No Ceará, esse acompanhamento do cumprimento dos esquemas de vacinais é realizado pelas equipes da saúde primária, que fiscalizam o calendário de imunizantes da criança e realizam busca ativa e campanhas de saúde.

"É de extrema importância a gente estar acompanhando o cartão de vacina. A atenção primária é quem tem um papel primordial, com monitoramento pela Sesa e acompanhamento de todas as crianças", finaliza Santiago.

Investigação de óbitos exerce papel fundamental

O caminho adotado pelo Ceará para reduzir o número de óbitos das crianças de até um ano foi saber como essas mortes aconteciam.

Nesses 25 anos, o número de mortes de recém-nascidas investigadas saltou de 14% em 2000, para 94% em 2025. A partir desses dados foi possível transformar a realidade de locais como o Sertão Central, que detinha os maiores índices de óbito no Estado ao início do século e hoje é a região com menor TMI em todo o Ceará.

"Você olha para o passado. Quando a gente começa a investigar, a gente começa a buscar prontuário, ver as fichas, quantas vezes foi na unidade, como estava o cartão de vacina, como foi o pré-natal... Logicamente se você detectar nessa investigação uma falha de processo, isso gera um novo plano de ação. Quando vou investigando óbitos eu vou descobrindo as não conformidades e melhorando", ressalta a orientadora da Célula de Atenção Primária e Promoção da Saúde da Sesa, Sheila Santiago.

Essas investigações permitem determinar por exemplo se a morte ocorreu nos períodos neonatal precoce, neonatal tardio ou pós-neonatal.

Essa especificação é importante porque cada uma dessas fases do recém-nascido tem motivos recorrentes de mortalidade. Se há muitas crianças morrendo nos seis primeiros dias de vida, a causa dessas mortes pode estar relacionada ao pré-natal feito pelas gestantes.

Essa ciência permite que ações preventivas sejam intensificadas e possam e diminuam as mortes classificadas pela Secretaria de Saúde como "óbitos evitáveis", ou seja, aqueles que poderiam não ter acontecido se a atenção à gestante e à criança fosse melhor executada.

"A investigação de óbito vê justamente essas falhas e começa a trabalhar nessas falhas. Assistência ao pré-natal e ao neonatal são fundamentais para a redução desses óbitos", conclui Sheila.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/08/2026. Cidades. p.14.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Várzea Alegre tem memória doce

Por Izabel Gurgel (*)

Dona Beta fez tijolo de leite por mais de meio século. O doce surgia à tarde na paisagem, vendido de porta em porta, Dona Beta anunciando o que levava sob a toalhinha. A passagem dela acontecia como uma diária inscrição sonora, visual, a deixar o céu da boca tão aceso quanto o céu da cidade. Voltava para casa depois de vender toda a produção do dia. Imagine comigo o reluzir do sol na bacia de alumínio vazia e, dia após dia, cheia outra vez, por mais de cinco décadas.

Elisabete Ferreira Pinto, a Dona Beta, vai fazer 95 anos em dezembro. Agora permanece em casa, bem cuidada como a feitura do doce, que continua por outras mãos. O tijolo circula, cria novas memórias e, como um livro que não cessa de encontrar leitores, leva Dona Beta a múltiplos destinos sem que ela saia da rede que a embala na sala, de zelo conventual, feito o papel de seda embalando cada um dos doces viajantes.

No mês que finda amanhã com a Festa de Agosto, o papel de seda é vermelho, a cor do santo padroeiro da cidade, São Raimundo Nonato. Várzea Alegre usa uma medida singular ao fazer as duas coisas, a festa e o leite com açúcar se demorando no fogo. O mundo é grande, o Ceará é maior, e Várzea Alegre em estado de Festa de Agosto é imensidão.

O tijolinho de Dona Beta é um festejo portátil, um banquete de brinquedo, uma oração bem doce. Uma mordida e você fica inteiramente presente. É o auge da concretude do saber fazer. A nos lembrar de sabor e saber tão próximos quanto humano e húmus. A fertilidade da terra se celebra de tantos modos quanto possa se manifestar a vida. A cidade às portas do Cariri, no centro-sul do Ceará, louva a fertilidade da várzea onde nasceu.

O nome do santo, No-nato, tem um não-nascido dentro. É protetor dos partos, das parteiras, guarda quem faz nascer, quem ajuda a nascer, tudo o que nasce, pois. Naquela várzea, juntou-se o santo Raimundo ao ímpeto da vida, feito a poesia, de brotar sempre.

Dona Beta vem do sítio Chico, conta Eniete, como é conhecida a filha caçula do casal. Aniete, de batismo, Eliete, Elizete. O pai, Joaquim Pinto, morreu aos 69 anos. Seu Joaquim Ota tocava a casa de jogos e a roça.

Aos 79 anos, na véspera da viagem para Fortaleza para tratamento de saúde, Dona Beta fez doce pela última vez. Por anos, Eniete caçou aquele gosto. "Comprava, comia e não encontrava o sabor do doce de mãe".

Passou a fazer. "Foi muito, muito difícil acertar, mesmo tendo visto mãe a vida inteira fazendo". O ponto de doce é quando se começa a ver o fundo da panela. O de tijolo, é mais apertado. Nos dois, o borbulhar pode causar queimaduras. Aniete usa luvas, manguita de mototaxista, tecido sob o queixo, óculos e, por vezes, máscara. Marcas da feitura, só as da memória da mãe a tirar do ofício o sustento da família. E ficar para sempre nas histórias daquela várzea como uma vida inventada com sabor.

p.s.: o tijolo é uma joia do Ceará: (88) 99908.5713. Embalagens de cerca de 500g e de 1kg. Na casa da antiga rua do Capim, guarda-se a grade para tijolinhos. Tia Eniete a usou para festejar José, único neto de Dona Beta. Se perder o telefone, grave Dona Isla Mônica. Tem nome de ilha e conhece cada ponto de Várzea Alegre que vale um desembarque. São incontáveis.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/08/26. Vida & Arte, p.2.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Autores do Ceará são semifinalistas do Prêmio Oceanos 2026

Por Eloisa Maia Vidal (*)

Resumo

Dois escritores do Ceará e uma autora radicada no Estado representam a região entre os semifinalistas do Prêmio Oceanos 2026;

Na categoria prosa, Moacir Fio foi indicado pelo romance "Aranha Movediça"; na categoria poesia, concorrem Dalgo Silva com "Matriarca Cidade" e Nina Rizzi com "Diáspora não é lar";

Os três representantes integram a lista de 54 semifinalistas, que foram selecionados a partir de mais de 3 mil obras inscritas;

Considerado um dos prêmios literários mais importantes da comunidade lusófona, o Oceanos reúne títulos de países como Brasil, Portugal, Moçambique e Angola;

A lista de semifinalistas também conta com nomes consagrados da literatura, como Milton Hatoum, Aline Bei, Micheliny Verunschk e Noemi Jaffe.

Dois escritores cearenses e uma autora radicada no Ceará representam o Brasil e a Terra da Luz no Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa. O trio faz parte dos 54 semifinalistas da edição de 2026, anunciados na noite de terça-feira, 25, entre mais de 3 mil obras inscritas.

Na prosa, Moacir Fio foi indicado pelo romance “Aranha Movediça” (Editora Moinhos), enquanto “Matriarca Cidade” (Editora 7Letras), de Dalgo Silva, e “Diáspora não é lar” (Editora Pallas), de Nina Rizzi, estão na categoria poesia.

A premiação, considerada uma das mais importantes entre os países de língua portuguesa, reúne títulos do Brasil, Portugal, Moçambique e Angola, com 26 representantes na prosa e 28 na poesia. A próxima etapa, que selecionará os livros para a final, acontece em outubro.

Além dos cearenses, nomes como Aline Bei, Micheliny Verunschk, Milton Hatoum e Noemi Jaffe entraram na listagem de semifinalistas.

Semifinalistas do Ceará comentam indicação ao Prêmio Oceanos 2026

Para Moacir Fio, a indicação de “Aranha Movediça” é um “tipo particular e especial de alegria”, que oferece esperança em relação ao mercado editorial e as “fronteiras invisíveis” que ainda cercam a região Nordeste.

“Não teria como essa história existir em outro lugar, sabe? Penso muito naquela imagem do movimento manguebeat, da ‘antena parabólica enfiada na lama’, essa ideia de captar e dialogar com as linguagens do mundo sem nunca tirar os pés deste nosso chão”, relata.

Ambientar o romance no próprio Ceará — “um estranho romance de horror”, como descreve Moacir — é uma forma de entender melhor todo o processo de construção do “ser cearense”.

“A gente tende a se prender a uma imagem solar, risonha, que sim, faz parte da nossa identidade, mas existe todo um submundo, um passado de violências, de assombros, como eu gosto de falar, e de contracultura e resistência; tudo isso sendo esquecido”, ressalta.

Essa relação, descrita como “paradoxal”, é o que impulsiona a trama. Na obra, a morte misteriosa de Jota do Lixo, uma lenda do movimento punk em Fortaleza, é o fio condutor de um podcast investigativo, 40 anos depois, na tentativa de desvendar o crime.

Já Nina Rizzi, tradutora e escritora que escolheu a capital cearense como casa, chega na categoria poesia com “Diáspora não é lar”.

“Essa conquista celebra não apenas a qualidade estética e a profundidade do livro, mas também a relevância das questões que coloco no mundo através da palavra. Ver minha obra nesse lugar é motivo de muito orgulho”, diz Rizzi. “Um viva bem grande à literatura, em especial a cearense”.

Quem também compartilha o espaço poético é Dalgo Silva, com “Matriarca Cidade”. O maranguapense já chegou ao posto de finalista no Prêmio Jabuti 2024, na categoria "Escritor Estreante - Poesia".

"Talvez, a ficha não tenha caído completamente ainda por eu ter sempre acompanhado essa premiação literária e saber de sua grandeza. Por figurar na mesma lista que Adélia Prado, por exemplo. Não tem como não ficar boquiaberto", comenta Dalgo.

O autor explica que desejava escrever um livro de poesia sobre existências "aparentemente pequeninas", mas que pulsassem.

"Eu acredito nas palavras de minha mãe, na dos meus amigos e amigas, na das crianças, na dos bichos, na das plantas, nas palavras de quem olha a vida dando rasteira. A gente precisa aprender a dar as rasteiras de volta e eu aprendi a fazer isso com as palavras", relata.

Uma das maiores honras é poder dizer que sua literatura é cearense, "que ela come fruta tirada do pé e toma café só para dar dois dedinhos de prosa e, assim, consegue adiar o fim do mundo por mais um dia".

(*) Professora da Uece. Doutora em Educação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/08/26. Opinião, p.18.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EU VI!

Por Izabel Gurgel (*)

Houve um tempo em que nossa Tia Esmeralda dizia: "Caetano Veloso e Maria Bethânia são a mesma pessoa". Absoluta, Tia Esmeralda. "Uma só pessoa."

Eu não entendia. Era demais mesmo eu já tendo visto Fu Man Chu serrar uma mulher ao meio e deixá-la inteira ao final da mágica mais esperada no circo de passagem por Uruburetama. Também já havia angariado recursos para a cirurgia de recomposição da "Rose, a decapitada viva". Como? Levava mais gente para ver Rose na barraca da Feira dos Municípios, em Fortaleza. A bilheteria era para a cirurgia de recolocação da cabeça junto ao corpo, dizia o comovido senhor que apresentava cada sessão.

Depois de tanto trabalho, de mobilização de público, a produção de decapitada, a plateia pagante, vi Rose e o comovido senhor de mãos dadas na tarde do domingo, em cuja noite se daria a última apresentação. Estavam no Parque de Exposições, a caminho, talvez, da barraca-do-drama. Bem que o Dr. Prefeito havia explicado, a pedido da minha mãe, que era impossível alguém viver decapitado. Explicou como médico que era e usando um exemplo da física. O que acontecia ali era um truque de ilusionismo, com espelhos, luz, refração, eu iria ver com meus próprios olhos nos livros que ele me mostraria na volta para casa.

Ouvir eu ouvi. Valeu nada. Eu não pagava mais ingresso, pois estava a serviço. Quem pagava, via, no congelador da geladeira vazia, a cabeça ligada por mangueiras de jardinagem ao corpo na maca. E Rose falava. Falar com som, emissão de voz, não, mas abria e fechava os olhos, em diálogo com o citado comovido senhor e, por meio dele, com a plateia.

- Rose, Rose...

Em tom de dramática incerteza, parecia perguntar a si. A dúvida se Rose ainda teria forças para responder nos abalava. Silêncio de cortar corações, como cortada estava a cabeça.

Alonga-se a pausa dramática.

- Rose..., você quer viver, Rose?

Mais nove desertos de drama.

... uma sequência mais dramática ainda de abrir-e-fechar-de-olhos. Por vezes, Rose se fazia em lágrimas. Bem poucas. Havia mais lágrima na plateia.

Antes e depois da pergunta mil e uma vezes recolocada (há anos estavam em peregrinação. Via-se pelo estado da geladeira), o comovido senhor contava tudo o que havia acontecido com ela aos 19 anos. A tentativa de assassinato pelo marido, a fuga, os primeiros socorros, a esperança itinerante no combo barraca-Rose-geladeira-maca-comovido-senhor, único modo de sensibilizar as pessoas. Cada sessão urgia ser a última antes da cirurgia e restauro. O tempo de vida de Rose cada vez menor, a urgência por justo aquele tanto que faltava para cobrir o volume de gastos; os agradecimentos por estarmos ali, não só pagando ingresso, mas doando um tanto mais, o possível de cada qual para costurar a cabeça ao corpo da artista.

Não sei como, mas eu já sabia que Rose e o comovido senhor eram artistas. E duas pessoas tão separadas uma da outra quanto a cabeça e o corpo da Rose.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/08/26. Vida & Arte, p.2.


sábado, 19 de setembro de 2026

PESAR POR DR. NEY LEMOS

É com intenso pesar que aqui registro o falecimento na noite de ontem, 18 de setembro de 2026, do Dr. Ney Lemos, médico cirurgião geral e bariátrico.

Francisco Ney Lemos nasceu em Várzea Alegre, Ceará, em 15 de agosto de 1949. Era filho do médico e escritor Manoel Gonçalves de Lemos e de Francisca Mirtes Bitu Lemos.

Médico inscrito no Conselho Regional de Medicina do Ceará (CREMEC com RQE de Cirurgia Geral e de Medicina do Trabalho. Ele foi um renomado médico cirurgião cearense, com uma trajetória de grande destaque na medicina do Ceará.

Sua carreira médica foi dedicada principalmente à Cirurgia Geral, tendo realizado especialização em Cirurgia Geral na Clínica Cirúrgica do Hospital Getúlio Vargas, em Recife, no período de 10 de janeiro de 1977 a 9 de janeiro de 1979.

Atuou ativamente em entidades médicas, tendo exercido cargos de destaque como o de Vice-Presidente do Setor I do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e participação em marcos da cirurgia geral e bariátrica no estado do Ceará.

Um dos aspectos mais importantes de sua trajetória foi sua longa vinculação ao Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC), da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará.

Nessa instituição, atuou como preceptor de Cirurgia Geral e preceptor-chefe da Residência Médica, além de ter exercido funções relacionadas ao Serviço de Controle de Infecção Hospitalar. Sua atuação ganhou especial destaque com a implantação do Serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do HGCC.

Era Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

Em 2006, ele presidiu o I Congresso de Cirurgia do Setor II do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, realizado em Fortaleza, reunindo os capítulos do Ceará, Piauí e Maranhão.

No biênio 2008–09, Ney Lemos ocupou a posição de Vice-Presidente do Setor II do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, representando a região Nordeste.

Em 2012, quando o serviço alcançou a marca de 500 cirurgias bariátricas, o Governo do Ceará registrou que a unidade já funcionava havia aproximadamente dez anos. Ney Lemos era um dos médicos responsáveis pelo serviço.

Em 2015, ele aparece expressamente identificado como coordenador da Unidade de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do HGCC.

Lamento a perda do colega Francisco Ney Lemos. Pessoa muito querida e estimada na classe médica cearense. De fino trato, cordial e afável, qualidades que se agregavam à sua competência técnica como cirurgião geral.

Trabalhamos juntos na organização de congressos e em vários processos seletivos de residência médica. Foi nosso aluno em Curso de Epidemiologia Clínica.

Estive hoje cedo no velório desse nosso colega. A sua esposa Mercia Lima de Carvalho Lemos me pediu para reunir as mensagens de pesar em grupos de WhatsApp para repassar para ela.

Nossos pêsames à família enlutada.

Que Deus o acolha entre os Seus eleitos em sua nova morada.

O corpo do Dr. Ney Lemos está sendo velado, desde às 7 horas de hoje, dia 19 de setembro de 2026, no Velatório Ternura, à Rua Pe. Valdivino, Nº 2.255. A missa de corpo presente será celebrada às 15h e, em seguida, seus despojos serão levados para sepultamento, às 16h30min, no Cemitério Parque da Paz.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica Saõ Lucas

terça-feira, 15 de setembro de 2026

SETOR DE ATACAREJO IMPULSIONA A ECONOMIA CARIRIENSE

Por Rita Fabiana Arrais (*)

O ano de 2009 representa para a Região Metropolitana do Cariri (RMC) o início de uma nova relação econômica entre os ofertantes e os demandantes do setor varejista de alimentos.

O dinamismo urbano, a economia diversificada, a constante e elevada demanda, a localização estratégica e o suporte do poder público em proporcionar infraestrutura adequada foram condicionantes primordiais para que, nesse período, Juazeiro do Norte fosse a primeira cidade do Ceará a receber uma rede de atacarejo.

O modelo de larga escala de mercadorias e os preços competitivos modificaram a rotina das compras do dia a dia dos caririenses, ao mesmo tempo em que expandiu a concorrência de preços pressionando os médios e grandes varejistas, do mercado local, a redefinirem as suas margens de lucros.

É cabível de registro que esse formato utilizado na rede de atacarejo com características definidas (autosserviço, rede de distribuição local, preços distintos para o atacado e varejo, custos e preços reduzidos), impactou consideravelmente a economia local e o entorno.

Na prática ocorreram rearranjos comerciais entre os agentes econômicos (produtores locais e lojistas) impulsionando a capacidade produtiva regional do setor de hortifrúti, o que diretamente colaborou para o aumento da geração de empregos, assegurando um volume maior de vendas e encurtando a distância entre às grandes cadeias de consumo.

Informações disponíveis pela Associação Brasileira dos Atacarejos (Abaas) revelam que especialmente em Juazeiro do Norte houve uma expansão de filias de grandes redes de atacarejos (Atacadão, Mix Mateus, Brasil Atacarejo, Assaí Atacadão, R. Carvalho, entre outros). Se levarmos em consideração o período de 2009 a 2026 as redes como Atacadão, Mix Mateus e Assaí Atacadão, duplicaram suas lojas em Juazeiro, e ampliaram para outras cidades da região.

De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) no ano de 2025 as redes de atacarejos cresceram 10,5% com faturamento recorde de mais de R$ 1 trilhão de reais, e dominando a fatia de 49,3% do mercado alimentício nacional.

A relação da renda com o consumo "explica" a expansão dessas redes na região. O cenário econômico instável com a disparada da inflação desacelera o consumo das famílias ao reduzir o poder de compra, deslocando a curva da demanda para locais (atacarejos) em que há possibilidade de fazer a feira (as compras) com preços mais acessíveis.

Nesses últimos dezessete anos a economia da RMC consolidou-se como uma das maiores, e mais importantes do Nordeste. Logo, permanece atraindo investimentos públicos e grandes volumes de capital privado.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 30/07/26. Opinião. p.19.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

DJ Renatinha, Gonzagão e os livros

Por Izabel Gurgel (*)

Antes da última pandemia, a DJ Renatinha viajou com radiola e dois engradados de discos de vinil. Projeto "Long Play em Feiras e Romarias".

Em Juazeiro do Norte, radialistas subiram o Horto, levando discos para ouvir e conversar com ela. Em Canindé, cada fã de Roberto Carlos, mexendo nos discos, tinha pelo menos uma história coalhada de detalhes para contar para a DJ.

Na feira de Messejana, um adolescente se surpreendeu com Fiuk na capa de 'uma coisa tão antiga como aquela'. Era o pai do rapaz, Fábio Júnior, galã, galã na capa de um LP.

Na feira do Crato, a banca da DJ era perto da venda de farinha de mandioca dos irmãos Aniceto, da mais festejada banda cabaçal do Ceará.

Em Limoeiro do Norte, a filha do colecionador de música Osmar Onofre ficou in-vi-sí-vel por horas. Era o encontro de mestras e mestres da cultura tradicional popular e a banca da DJ parecia ter um ímã a atrair gente de todas as idades, de menos de oito a mais de oitenta. O lugar mais perto dela era depois de pencas de pessoas em rodas concêntricas, cada uma com sete vidas. Não arredaram pé. A brincadeira era pedir uma música e sair. Cadê que saía?

Quem não conhecia, queria saber como funcionava aquilo que aterrissara ali, direto de outro mundo. Lindo ver o mói de crianças de olhos arregalados, boca aberta e todo o interesse do mundo pelo que não conheciam. Conhecedores de LPs queriam fruir da presença da DJ, levá-la para outros terreiros, passear com ela mostrando o que ela mostrava, abrir velhos guarda-roupas cheios de discos doidos para serem ouvidos.

A banca-biblioteca sonora ambulante virou brinquedo. A quase dizer que valia por um parque de diversões todinho. Os discos rodando, rodando, passando de mão em mão, cada criatura contando do que lhe tocava, a bem dizer uma audiência sem ouvintes. Toda a gente dizia de si e de mundos.

No caminho, Pentecoste, Barbalha, outros lugares, e em cada parada uma cacimba de histórias parecia sair pela primeira vez para passear.

Ficou na memória a fila crescente, esticando, perto do museu-casarão-azul do Horto. Foi passando de boca em boca que, dentre os livros junto à banca da DJ, havia um que era botija desejada.

Peregrinação. Naquela manhã, todo tato do mundo se dedicou a apreciar "O Rei e o Baião", livro grande como bolo de tabuleiro. É um projeto contemplado pelo Ministério da Cultura via Fundo Nacional da Cultura e Instituto Brasileiro de Museus. Publicação da Fundação Athos Bulcão, Brasília, 2010. Organização: Bené Fonteles.

A foto da capa, do Seu (nosso) Chico Albuquerque (1917-2000), é Luiz Gonzaga (1912-1989) em preto e branco, estralando de vida, mais feliz do que sanfona chamando dança.

É livro de muitas vozes (textos, xilos, fotos, em ensaios encarte). Vou citar só duas, das professoras Elba Braga Ramalho e Sulamita Vieira, autoras também de publicações como "Luiz Gonzaga: a síntese poética e musical do sertão" e "Velhos Sanfoneiros".

Os livros cantam.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ler os cearás com água na boca

Por Izabel Gurgel (*)

Picolé de Jardim, embalado em papel Riacho. Desmancha-se no céu da boca a poesia geladinha. Jardim é um dos municípios do Cariri cearense. O picolé, uma das joias do Ceará. Cajá, castanha, tapioca, tamarindo. E mais sabores.

Wolga é refrigerante feito em Ipu. A memória registrou como Volga, o nome do rio. A etimologia, "do proto-eslavo", dá em "umidade, estado de molhado". Vi no site Origem da Palavra.

Ao ver Wolga, com "w" e não "v", pensei no café Wal-Can, de Waldemar Cavalcante, salvo um deslize outro da memória.

Em Juazeiro do Norte, a padaria Santa Liduina faz a bolacha Melindrosa, sequinha, quebra fácil à primeira mordida, com percussão. Tem uma Santa Liduina pertinho da Matriz de N. Sra. das Dores e outra na rua Santa Luzia, pertinho do mercado no Centro.

No Dicio, dicionário on line, escolhi três referências a melindre: "melindre em espanhol é o nome dado a vários tipos de doces, significando por extensão sutileza, delicadeza"; na culinária, é um "tipo de bolo de mel"; e "tendência da pessoa que se magoa com facilidade, especialmente por coisa sem muita importância". Curioso que a gente quase não usa para dizer homem melindroso. Deu nas melindrosas dos anos de 1920, virou fantasia de Carnaval. O desenho do vestir, vi em vestido, agora em 2026, na coleção Chanel. Dona Chanel dizia que buscava para as mulheres um figurino simples, digamos assim, como o dos homens.

Juazeiro do Norte consagrou a bolacha Lídia nas celebrações de entronização (e, a cada ano, renovação) do Sagrado Coração nas residências. O pesquisador Renato Dantas me contou da presença da bolacha, que levava o nome da filha do dono da panificação, nas mesas das famílias mais modestas em dias festivos em torno do sagrado coração do Filho.

Canjirão pra mim é sinônimo de tijolinho/tijolão de castanha da região do Aracati. No mercado de Aracati, soube há anos do "melhor canjirão" feito em forno a lenha. Vinha no Fortim. O cheiro do fogo na madeira preservado no sabor. Vi na semana coroada pelo jogo e torcida da Argentina um canjirão com rótulo dizendo da origem em Morada Nova.

Por falar em Argentina, Ceará é também uma delícia em doce de leite. De tantos modos quanto são as mãos que tocam o serviço. A mensal Feira da Reforma Agrária em Fortaleza, no Centro Frei Humberto, no bairro São João do Tauape, tem doce de leite de várias procedências. O último que levei pra casa não veio de lá, mas da banca de caldo de cana na estrada de Canindé, à esquerda de quem acaba de sair da estrada que vem de Maranguape. Sem rótulo, o bem cozido leite com açúcar é de Paramoti.

Volto à região do Aracati levada pelo cheiro da cozinha de Toinho Correia, do Cumbe, Toinho da Tenda do Cumbe que honrou as dunas e a paisagem de Canoa Quebrada com maravilhas como o bife da vovó (empanado) e o atolado de caranguejo, um risoto que viajava para festas sob encomenda e reinava onde quer que fosse servido. Patinhas empanadas estampam a travessa como jogadores de futebol, cheios de apetite por jogo, bordam o campo. Toinho é um craque nos doces. O de leite criou devoção. E me faz lembrar o de Dona Clarice, no Canindé do Peixe do Tião. Pra pirar, tem pirão. À beira do açude.

Sangrando corações das papilas gustativas. Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Vida & Arte, p.2.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Cearense Melissa Gurgel alçada ao cargo de professor titular da Unicamp

Ontem (18/08/2026) foi dia de alegria para a família Gurgel Adeodato. A Melissa Gurgel Adeodato Vieira, filha dos jornalistas aposentados Márcia Gurgel e Adeodato Junior, foi aprovada em primeiro lugar como professora titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Melissa já desempenha o cargo de professora desde 2010 na própria universidade.

Aos 47 anos de idade, atinge o ápice da carreira acadêmica, tendo em seu robusto currículo mestrado e doutorado em Engenharia Química e três pós-doutorados, sendo um em Stuttgart, na Alemanha.

Melissa teve uma sólida base estudantil no Colégio Christus e na Universidade Federal do Ceará (UFC), por onde se graduou em Engenharia Química com diploma de Magna Cum Lauda, tendo sido, até então, o concludente com o maior IRA (Índice de Rendimento Acadêmico) da história desse curso da UFC. Fez parte do curso de Engenharia Química na École Centrale de Paris.

Desde 2023, ela compõe a lista de pesquisadores cientistas mais influentes no Mundo segundo ranking elaborado pela editora científica Elsevier e liderado por uma equipe de especialistas da Universidade de Stanford.

Nota do Blog do Marcelo Gurgel: Melissa Gurgel é uma querida sobrinha minha que obteve o primeiro lugar, disputando esse concurso público da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, com cinco concorrentes, sendo três da própria Unicamp e dois outros de fora. Ela está seguindo os brilhantes passos da minha irmã Meuris Gurgel, professora titular atualmente aposentada da Unicamp.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Lançamento do livro "Pediatria no Ceará: História e Pediatras"

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

Realizado no dia 30 de julho de 2026, às 19h, na sede da Sociedade Cearense de Pediatria (Socep), à Rua Maria Tomásia, 701 – Aldeota, em Fortaleza-CE, o lançamento do livro "Pediatria no Ceará: História e Pediatras".

A obra é uma edição comemorativa aos 80 anos da Sociedade Cearense de Pediatria, a qual se uniu nesta iniciativa à Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará, no compromisso comum de preservar a memória daqueles que dedicaram suas vidas aos cuidados das crianças e dos adolescentes em nosso Estado.

Apresentação, por Maria Sidneuma Melo Ventura

Prefácio, por João Cândido de Souza Borges

Autores: (Maria Sidneuma, João Borges e Marcelo Gurgel) e Coautores: (15)

Parte I - História e Evolução da Pediatria no Ceará 

Parte II - A Pediatria do Ceará em Livros

Parte III - Pediatras Atuantes no Ceará

Parte IV - Entrevistas com Pediatras Cearenses, conduzidas por Clara Studart e revisadas por Mirna Gurgel

Parte V - Apêndices e Anexos

Pósfacio, por Marcelo Gurgel Carlos da Silva 

Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2026

260p. Capa dura

ISBN: 978-85-420-1973-5

Obs.: Preço: R$ 100, 00 (cem reais), à venda na Socep.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Nova’Acts em 13/08/2026.

https://airblog-pg.blogspot.com/2026/08/1480-lancamento-do-livro-pediatria-no.html


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Fiar, tecer, tramar no Ceará das rabecas

Por Izabel Gurgel (*)

"Arte da Tradição - Mestres do Povo" (Expressão Gráfica e Laboratório de Estudos da Oralidade da Uece e UFC, 2005) reúne as mais de 50 matérias publicadas no Ceará. Quatro rabequeiros estão em "Artes da Tradição - Mestres do Povo": Raimundo Veríssimo, de batismo Raimundo Bezerra do Nascimento, de Itapipoca; Zé Oliveira, do Cariri, cego e artista como o pai, o cego Oliveira; mestre Silvino, Silvino Veras D'Ávila, de Irauçuba; e Antônio Hortênsio, da Varjota, também presente no livro "Mestres da Cultura Popular Tradicional do Ceará" (Secult Ceará, 2006), que reúne 11 mulheres e 25 homens reconhecidos Tesouros Vivos do Ceará pela lei estadual instituída em 2003.

"Ora direis, ouvir rabecas...". O professor Gilmar de Carvalho (1949-2021) assim finaliza o texto de apresentação do livro "Rabecas do Ceará" (Expressão Gráfica e Editora, 2006). No município de Graça, encontrou o mais velho dentre eles: Chico Flor, Francisco João da Silva, nascido em 1916. No município de Carnaubal, o mais novo dentre os 105 rabequeiros: Pedro Fontenele Sampaio, nascido em 1954.

"Ora direis, ouvir rabecas" é como Gilmar intitula o texto introdutório do livro "Tirinete - Rabecas da Tradição", de 2018, com 184 rabequistas e uma única mulher dentre eles, Ana Soares, de Umari. As artes de fazer e tocar rabeca estão em outras publicações, como "Mestres Santeiros - Retábulos do Ceará" (Museu do Ceará, 2004). Gilmar encontra em Guaraciaba do Norte o mestre Heráclito, nascido em 1910.

Cada livro, e todos eles com fotos de Francisco Sousa, é uma espécie de botija.

Leio e releio Gilmar, prestando atenção à presença de fiandeiras, rendeiras, bordadeiras. Mãos e mães que fiam e tecem, cortam e costuram, fazem e consertam redes de dormir, roupa de vestir, roupa de cama, mesa e banho. Fazem croché e outras artes têxteis. Para uso em casa, para sustento da casa. Anoto o nome delas. Mulheres com as quais Gilmar conversa, escutando-as sobre ofícios e labores, como a rendeira Maria Daniel, do serrote da Mataquiri, em Cascavel; Vicência Antônia Barbosa, Dona Miúda das bonecas de pano feitas desde a infância no sítio Bebida Nova, no Crato; a tecelã Dona Edite da rede de travessa, Maria Edite Pereira Santos, da Varjota dos Tremembé (as três no livro "Artes da Tradição"). Mulheres cujos nomes Gilmar faz seus entrevistados anunciarem como portadoras de 'ciência própria' para ganhar a vida, como as mães, avós e esposas dos rabequeiros. Dona Hilda Trajano, mãe do mestre Antônio Hortênsio, fiava algodão e tecia redes. Cada uma a seu modo, e todas elas, a tocar o cotidiano, a cuidar da casa, das crianças, dos adultos, por vezes da roça. E da almofada de renda, do tear, da grade com o labirinto, do bastidor com o bordado, do fio da vida. E da vida por um fio.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Lugares sagrados e turismo religioso

Por Rita Fabiana Arrais (*)

No último dia 10 de junho - durante a 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - aprovou-se o registro de bem cultural aos Lugares Sagrados da cidade de Juazeiro do Norte.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (Sedetur) de Juazeiro do Norte o processo de solicitação do registro iniciou-se em 2018 com a juntada de um arcabouço documental, enfatizando a importância simbólica dos lugares às mais distintas manifestações religiosas dos fiéis que peregrinam na cidade desde 1889 quando impactados pelo milagre da hóstia e pela figura emergente do Padre Cícero Romão.

A comunidade do bem cultural demarca os seguintes lugares: a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro, a Casa dos Milagres Padre Cícero, a Casa Museu Padre Cícero, o Santuário dos Franciscanos, o Rio Salgadinho, a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto. São nestes espaços "no universo das devoções" onde o sagrado habita. O simbolismo destes lugares alcança seu ponto fulcral durante as romarias, momento em que os fiéis renovam sua fé, ao mesmo tempo em que ressignificam seus rituais.

Atualmente existem dez romarias por ano (Celebração em memória da morte da beata Maria de Araújo; Romaria de São Sebastião; Romaria de Nossa Senhora das Candeias; Romaria de nascimento do Padre Cícero; Romaria em memória da morte do Padre Cícero; Romaria de Nossa Senhora das Dores; Romaria de São Francisco; Romaria de Finados; Romaria de ordenação do Padre Cícero; Romaria do Ciclo Natalino). Estima-se que 2,5 a 3 milhões de romeiros participam destes eventos consolidando o turismo religioso como uma das principais atividades econômicas da Região Metropolitana do Cariri (RMC). Registre-se que com a lei federal nº 15.443 de 26 de junho de 2026 todas as romarias tiveram as datas inclusas no Calendário Turístico Oficial do Brasil.

É notório que estes eventos religiosos impulsionam o desenvolvimento e crescimento econômico da RMC, pois os setores do comércio, serviços e infraestrutura são positivamente impactados com a demanda constante, e consequentemente estimulam a geração de empregos, o aumento da renda e da arrecadação de tributos.

Quanto ao volume de dinheiro movimentado, estima-se que R$ 754 milhões são abarcados pela economia local e distribuídos em setores como o hoteleiro, restaurantes, mercado de artigos religiosos, transporte, entre outros. (Sedetur/2025)

Como dizia o Seu Luiz Gonzaga (1912-1989): "Olha lá no alto do horto, ele tá vivo o "padim" não tá morto!

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 3/07/26. Opinião. p.17.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Livro resgata a história da Pediatria cearense e preserva legado para futuras gerações

 


 Reportagem: Argollo de Menezes

CEO, Editor Jornal do Médico®️, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Resultado de quase 2 anos de pesquisa, Pediatria no Ceará: História e Pediatras reúne documentos raros, fotos inéditas e biografias dos ex-presidentes da Sociedade Cearense de Pediatria. Lançado pela SOCEP em parceria com a SOBRAMES-CE, o livro celebra o aniversário de 80 anos da entidade e busca preservar o legado da especialidade para as próximas gerações. Em entrevista inédita, o presidente da SOCEP, Dr. João Cândido de Sousa Borges, fala sobre os bastidores da pesquisa e a importância de preservar a memória dos profissionais que construíram a pediatria cearense.

Jornal do Médico® – Dr. João Borges, o livro começou a ser planejado em agosto de 2024, nos 80 anos da SOCEP. Como surgiu a ideia dessa parceria com a Sobrames-CE e os autores Sidneuma Ventura e Marcelo Gurgel para realizar esse resgate histórico?

Dr. João Borges: Já de um tempo eu tinha um desejo de registrar a história da Pediatria no Ceará…. A ideia da construção deste livro, ocorreu durante as comemorações dos 80 anos da Sociedade Cearense de Pediatria, em agosto de 2024, naquele momento tão significativo para a nossa instituição, percebemos que celebrar a história da SOCEP também significava preservar a memória da Pediatria cearense. Foi então que o colega Marcelo Gurgel, escritor e integrante da Sobrames-CE, propôs essa parceria, que foi prontamente acolhida pela SOCEP. Ao lado da Dra. Sidneuma Ventura, iniciamos um trabalho intenso de pesquisa, levantamento documental e reconstrução histórica. Desde o início, compreendemos que não se tratava apenas de produzir um livro, mas de deixar um legado para as futuras gerações de pediatras, registrando a trajetória daqueles que ajudaram e ajudam a construir a nossa especialidade no Ceará.

“Desde o início, compreendemos que não se tratava apenas de produzir um livro, mas de deixar um legado para as futuras gerações de pediatras…”

Jornal do Médico® – O livro traz registros biográficos, documentos e a trajetória dos ex-presidentes da SOCEP. Para o leitor que terá a obra em mãos, quais são as principais relíquias históricas ou marcos da Pediatria cearense que ele encontrará nessas páginas?

Dr. João Borges: O leitor encontrará um verdadeiro patrimônio histórico da Pediatria Cearense. A obra reúne documentos, fotografias, registros institucionais, relatos históricos e biografias de profissionais que foram fundamentais para o desenvolvimento da especialidade em nosso Estado. Também apresenta a trajetória dos ex-presidentes da SOCEP, mostrando como cada gestão contribuiu para fortalecer a assistência à criança, a formação médica e a defesa profissional do pediatra. Mais do que conhecer datas e fatos, o leitor poderá compreender como a Pediatria evoluiu no Ceará, acompanhando as transformações da medicina, da sociedade e das políticas voltadas à saúde infantil.

Jornal do Médico® – Foram quase dois anos de pesquisas e reuniões periódicas. Durante esse processo de resgate de memórias, houve algum fato esquecido ou personagem da Pediatria que surpreendeu a comissão ao ser redescoberto?

Dr. João Borges: Sem dúvida. Ao longo das pesquisas, tivemos a oportunidade de redescobrir profissionais cuja contribuição foi decisiva para a consolidação da Pediatria no Ceará, mas que, com o passar do tempo, acabaram pouco lembrados pelas novas gerações. Também encontramos documentos, registros e relatos que revelam o enorme esforço dos pioneiros para estruturar serviços, formar especialistas e fortalecer o ensino pediátrico em nosso Estado. Cada reunião trazia novas descobertas, reforçando a percepção de que preservar essa memória era uma responsabilidade coletiva e uma forma de prestar homenagem àqueles que dedicaram suas vidas ao cuidado das crianças.

“Tivemos a oportunidade de redescobrir profissionais cuja contribuição foi decisiva para a consolidação da Pediatria no Ceará, mas que acabaram pouco lembrados pelas novas gerações.”

Jornal do Médico® – No prefácio, o senhor menciona que gerações de pediatras fizeram do cuidado à infância sua missão de vida. Como o senhor enxerga a evolução do perfil do pediatra no Ceará, desde os pioneiros até os profissionais de hoje?

Dr. João Borges: Os pioneiros construíram a Pediatria cearense em um contexto de muitos desafios, com recursos limitados, mas com enorme dedicação, compromisso e espírito de serviço. Foram eles que lançaram as bases da especialidade no nosso Estado. Hoje, encontramos uma Pediatria muito mais integrada ao conhecimento científico, às novas tecnologias e ao trabalho multiprofissional. Ao mesmo tempo, permanece inalterada a essência da profissão: o compromisso com a saúde, o desenvolvimento e o bem-estar da criança e do adolescente. Vejo com satisfação uma nova geração de pediatras preparada tecnicamente, comprometida com a educação continuada e consciente da importância da humanização no cuidado.

Jornal do Médico® – Citando o filósofo Cícero, o senhor destaca que a história é a “vida da memória”. Qual é a principal lição que esta obra comemorativa deixa para inspirar os estudantes e os novos pediatras que assumirão o futuro da especialidade no nosso Estado?

Dr. João Borges: A principal mensagem é que nenhuma instituição e nenhuma especialidade se fortalecem sem conhecer sua própria história. Este livro mostra que os avanços conquistados ao longo das décadas são fruto da dedicação, da competência e do espírito coletivo de muitos profissionais que vieram antes de nós. Espero que os estudantes e os jovens pediatras encontrem nestas páginas inspiração para exercer a Medicina com excelência técnica, ética, sensibilidade e compromisso humano. Conhecer o legado dos nossos pioneiros nos ajuda a compreender que também somos responsáveis por construir os próximos capítulos da história da Pediatria Cearense, sempre colocando a criança e o adolescente no centro de nossa missão.

Fonte: Jornal do médico, 22(207): 9-10, julho de 2026.

https://jornaldomedico.com.br/2026/07/29/livro-resgata-a-historia-da-pediatria-cearense-e-preserva-legado-para-futuras-geracoes/

 

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