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terça-feira, 16 de junho de 2026

53 anos da Faculdade de Educação Ciências e Letras do Sertão Central

Por Pe. Francisco Artur Pinheiro Alves (*)

Neste dia 10 de maio, a Feclesc completa 53 anos de história. Criada por lei municipal, pela Câmara Municipal de Quixadá, em 10 de maio de 1973, a Faculdade passou por várias etapas, numa luta contínua por sua consolidação como instituição de ensino superior na região do Sertão Central.

Sua primeira denominação foi Faculdade de Filosofia de Quixadá. Nesta fase inicial tinha como mantenedora a Prefeitura do Municipal de Quixadá.

Em 1976, percebendo-se que não cabia ao município, manter uma instituição de nível superior, foi criada a fundação Educacional do Sertão Central - Funesc, para ser a mantenedora da faculdade. Na ocasião foi também mudado o seu nome, passando a denominar-se Faculdade João XVIII, em homenagem ao Papa homônimo.

Neste período conseguiu instar-se em um terreno de 10.000m², doado por um cidadão local, sr. Joaquim Gomes da Silva, conhecido carinhosamente como Sr. Quinzinho. Foi construída sua sede, com um bloco administrativo e uma Biblioteca e dois blocos de sala aula.

Em 1983, foi encampada pela Fundação Universidade Estadual do Ceará, dentro de um projeto de expansão que contemplou outros municípios, dentre os quais, Iguatu Crateús, Itapipoca, Limoeiro do Norte.

Inicia-se uma nova fase com a realização de concurso público para professores. Os primeiros cursos são criados, vestibulares foram realizados semestralmente e a foi assim, florescendo. Houve uma interrupção na oferta de vestibular, mas foi superada, com a organização e entrega dos projetos profissiográfico dos cursos, pela UECE, junto ao Conselho Federal de Educação.

Após esta fase, novos concursos aconteceram, foi feita uma reestruturação acadêmica, com a criação dos departamentos, a aprovação do Regimento interno, a criação do Curso de Letras, a construção da Residência Universitária, novos blocos de sala de aula, laboratórios de Ciências, auditório e mais concursos, agora para Mestres e doutores.

Hoje, além dos cursos iniciais, Feclesc tem novos cursos e avança na Pós- Graduação, com Mestrados e o primeiro Doutorado, consolidando-se como instituição de nível superior, na região e no interior do Estado.

Oficialmente a Feclesc está comemorando 43 anos, contagem que se inicia com sua anexação pela Uece. Como estudioso e testemunha de sua história, defendemos que esta data seja mudada, já que 10 anos antes da anexação a Feclesc já existia, conforme foi descrito no início deste texto.

Com 43 ou 53 anos, a Feclesc ainda é criança, comparada às universidades e Faculdades nacionais e internacionais. Mesmo ainda na sua infância, ela já deu um grande contributo à região na qual está inserida e dará muito mais no porvir. Viva a Universidade Pública e gratuita, viva a FECLESC, que está contribuindo, com outros centros e faculdades da Uece, com a democratização do acesso à educação superior do Ceará.

(*) Diretor da Fecelsc entre 1992 e 1996.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/05/26. Opinião. p.17.


sexta-feira, 5 de junho de 2026

NAQUELA TARDE

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Naquela tarde, o inverno tinha chovido toda a manhã e continuava um sereno inconstante.

Quando? eu não recordo, mas não havia atravessado os 7 anos de minha meninice.

Aconteceu, à tardinha, ainda com o céu plúmbeo; o cheiro de terra molhada lembrava as pancadas da manhã. Era, na verdade, o petricor, que ainda exsudava da terra molhada.

A rua estendia-se sobre o barro. Aqui e ali, algumas poças d’água, entremeadas de pequenas moitas de plantas silvestres, expandiam-se, livremente, sem a ameaça de transportes, salvo as carroças de seu Odilo, que, naquele dia, estavam recolhidas, e o livre ir e vir de transeuntes.

Foi, nesse cenário, que eu e uma querida amiga, infante como eu, resolvemos desafiar aquela tardezinha cinzenta, com uma das diversas brincadeiras, que criávamos.

Deixamos a calçada, onde estávamos a conversar e rir de nossas tagarelices, caminhamos até o meio da rua e, entre duas poças d’água, naquele pedaço de barro ainda empapado, mas não escorregadio e começamos a rodopiar, segurando-nos com uma mão – mão-com-mão – tendo como ponto de apoio um pé-com-um pé.

E rodopiamos e rodopiamos, com alegria no sorriso, contrastando com a carranca, que as nuvens se nos ofereciam.

E foi, num desses rodopios, que nos pregou um susto uma pequena cobra listrada, que atravessava nosso pequeno espaço; levantou a cabeça com a boca aberta, no que não pude evitar pisar-lhe a cabeça, pois, em nosso rodopio, aquela passada era minha.

Paramos o rodopio, incontinenti. A cobra estava morta, era uma cobra coral. Seu corpo, com as belas listras à vista, tinha também marcas de um pé, provavelmente, de minha amiga.

O pavor apresentou-se na lividez de nossos rostos, enquanto o coração disparava. Assustados, corremos para a calçada, onde, sentados, passamos a examinar, nervosa e ansiosamente, nossos pés e pernas: dobramos a perna direita sobre a coxa esquerda e, depois, a perna esquerda sobre a coxa direita. Nossos olhos varreram-nas, seguindo a palpação de nossas mãos. Então, uma onda de calmaria deu um banho em nosso medo: não havia sinais de picada em nossos pés e pernas.

Respiramos, enfim, aliviados e agradecemos a Deus.

Acabara a brincadeira e retornamos para nossas casas.

Um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 18/04/26.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Meus 53 anos nos 300 de Fortaleza

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Como funcionário do BNB em Itabuna (BA), estive em Fortaleza nos anos de 1970 e 1971 para participar de treinamentos próprios das funções então exercidas - uma prática seguida, à época, por essa exemplar instituição.

Em junho de 1973, após processo seletivo, vim participar de mais um curso do BNB, em que a aprovação significaria transferência definitiva para esta cidade. Confiei e já vim com a família.

Fortaleza contava com 950 mil habitantes, uma pequena metrópole, com raros prédios com mais de três pavimentos e comércio e serviços incipientes. As opções de lazer concentravam-se no Centro, especialmente na Cidade das Crianças, Praça do Ferreira e cines São Luiz e Diogo.

A orla contemplava os principais clubes sociais, o Náutico, o Ideal e o Líbano. A Praia do Futuro era uma esperança no próprio nome, mas o elevado índice de maresia não possibilitou a ocupação imobiliária prevista.

O BNB, como motor de desenvolvimento, contribuía para o crescimento das atividades econômicas e, pela visão de formação de pessoas, colaborava com técnicos de elevado padrão, a ocuparem postos de destaque, especialmente em instituições públicas nos três níveis de governo.

O sonho da Uece viria a se concretizar em 1975, com a visão de interiorização do ensino e formação de professores, mas já demonstrando aptidão para outras áreas. Hoje, o curso de nível internacional de Ciências Veterinárias, o elevado nível de pesquisa e a excelência em inovação são conquistas que a colocam em destaque no Brasil e no mundo.

A nova Fortaleza, dos edifícios de mais de 150 metros e 2,6 milhões de habitantes, tem hoje uma orla revitalizada e posição de destaque nacional na economia. O Estádio do Castelão de 1973, transformado na Arena Castelão (padrão Fifa), e uma cidade policêntrica com hubs de inovação e parques urbanos trazem-nos uma certa saudade daqueles tempos.

Contudo, esse saudosismo não imobiliza o presente; antes, permite-nos valorizar a fênix urbana em que Fortaleza se tornou ao completar três séculos. O crescimento acelerado, iniciado na década de 1970, não empana o seu carisma de "Loura Desposada do Sol".

Parabéns, Fortaleza!

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/04/26. Opinião. p.18.


segunda-feira, 4 de maio de 2026

A Casa Virou História e o Amor Virou Livro

Por Raymundo Netto (*)

Quando adolescente, voltando de ônibus do colégio para casa, no caminho me deparava com uma construção de arquitetura única: a "Itapuca Villa".

Deslumbrante, triste e abandonada, ela pertenceu a uma família importante da cidade. Trazia extensa varanda de madeira no andar superior, centrada com um frontão decorado em lambrequins, com mãos francesas e treliças, tudo sustentado por vigas também de madeira robusta e rodeada por muitas portas com bandeiras envidraçadas e coloridas. Não havia um dia sequer em que eu não me sentasse à janela, ansioso para revê-la.

Ao final dos anos 1980, a casa foi aos poucos desmontada, resistindo até ser demolida no início da década de 1990. Hoje, o terreno é ocupado por uma escola assombrada por insaciáveis cupins.

Alguns anos depois, em 2004 - quando já havia trocado a minha profissão pelo cinema, quadrinhos, artes gráficas, magistério e por outras fatalidades -, decidi cumprir a ingênua promessa de escrever sobre aquele absurdo: a demolição de tamanho patrimônio.

Foi quando conheci o sr. José Américo Lopes, um homem de 90 anos, portador de memória prodigiosa. Numa tarde preguiçosa em sua casa na Barão de Aratanha, no Centro, me confidenciou ter lembranças "daquela casa". Nela, dizia, vivera uma grande história de amor. "Como assim?", perguntei, incrédulo. Sorrindo, pediu à filha, Cristina, que nos trouxesse determinada pasta com papéis. Era a tal história, só que escrita por ele mesmo: "Você gostaria de ler?" Em seguida, me falou um pouco sobre o que encontraria ali. "Você já escreveu algum livro, meu filho?", perguntou-me. "Não, eu nunca", respondi, enquanto folheava com vagar algumas páginas datilografadas por Cristina. Ela, temendo por aquele material, advertiu: "Pai, nós não temos cópia..." Ele tentou tranquilizá-la: "Filha, eu confio no moço". Na pasta, também repousavam cartas antigas. Quando as toquei, ele imediatamente as pediu: "Não vai precisar delas. Deixe-as comigo". Entreguei-lhe as cartas. Ele as acolheu com sorriso afetuoso e delicado, como quem recebe uma joia, e tirou do peito um nome sussurrado: "Olívia". Com carinho, acomodou o maço no colo e arrematou: "A história toda está aqui".

Saí de sua casa tomado de curiosidade, porém nem tanto pelo original que trazia em mãos, mas pelas cartas, aquelas as quais não pude ler. Afinal, que segredos trariam?

Na época, eu morava na Vila Doutor Alencar, um conjunto de casas geminadas no Monte Castelo, onde as crianças brincavam na estreita rua e os vizinhos, ao entardecer, colocavam as cadeiras na calçada. Ali, naquela calçada, sentei-me em minha cadeira de palhinha e pus-me a ler "Um Conto no Passado", a história de Américo Lopes: "Eu era um menino como qualquer outro que crescia, até então, em pequena cidade de ruas descalçadas, a me entreter sentado no cume de frade-de-pedra, esquecido do mundo..." Incrível, a história me envolveu de tal forma que não consegui parar até a sua última página. Nela, encontrei aquele homem ainda garoto e o acompanhei pela vida afora: os dramas, conflitos, a juventude e o primeiro amor: Olívia! E o mais interessante é que, enquanto Américo narrava a sua trajetória, revelava uma outra paixão: a sua cidade. Sim, a grande personagem do livro.

Voltei a conversar com ele e decidimos publicá-lo. Assim, por meio de um edital público, a obra "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada" teve o seu primeiro lançamento em 2005, estando esgotada há bastante tempo.

Em 2026, passados 20 anos, a saga de Américo retorna em campanha de pré-venda, em edição comemorativa aos 300 anos de nossa Cidade. Você precisa conhecer esta que é a maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Vida & Arte, p.2.


segunda-feira, 20 de abril de 2026

LIVROS ABANDONADOS

Por Saraiva Junior (*)

Como frequentador de livrarias e sebos de rua, tenho observado uma cena que vem se repetindo e me causando constrangimento: pessoas se dirigem aos vendedores, com pacotes, caixas e malas, oferecendo grandes quantidades de livros à venda. O gerente, no seu papel de comerciante, olha os livros com certo ar de desinteresse, às vezes barganha tudo por um preço irrisório ou sugere comprar no quilo e faz uma proposta humilhante.

A reação do outro é de espanto. O olhar incrédulo e o sorriso amarelo deixam transparecer um sentimento conflitante. Não me contenho e puxo conversa com empregados, gerentes e aqueles que pretendem se desfazer dos livros. Os motivos são diversos: dificuldades financeiras, separações, mudanças de casa e falecimentos.

Certa vez, uma viúva foi vender os livros e deparou-se com um preço longe do esperado. Ela disse não ter imaginado que livros tão importantes na formação do marido pudessem valer quase nada.

A situação me fez lembrar de quando resolvi doar as coleções de Jorge Amado, Hélio Silva e Moreira Campos para uma escola de ensino médio do interior do Ceará. Para minha surpresa, o diretor disse que a escola não receberia aqueles livros, pois, segundo ele, os alunos não tinham mesmo o hábito de ler e preferiam pesquisar no Google. Por fim, falou que esses autores eram comunistas.

Sabemos que, na verdade, os livros não apenas informam, mas ampliam o imaginário e transformam a experiência. Pensei em minha pequena biblioteca, com algumas joias de Machado, Dostoiévski, Tchekhov, Calvino, Saramago, García Marquez, Natalia Ginzburg, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Graciliano Ramos, Lira Neto, Pedro Salgueiro, Deodato Aquino, Raymundo Netto, dentre outras.

A expressão de espanto no rosto da viúva segue gravada na minha memória. O desrespeito ao livro pode marcar mais uma etapa do nosso retrocesso como humanidade. Então resolvi conversar com minha companheira e meus filhos. Pedi a eles que não vendessem meus livros, que os dividissem entre si de acordo com o gosto de cada um. O restante deverá ser doado à biblioteca pública do município, à espera do encontro amoroso com um futuro leitor.

(*) Escritor e ex-conselheiro do Conselho de Leitores de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/03/26. Opinião. p.19.

sábado, 18 de abril de 2026

ENCONTROS COM BELCHIOR

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

1 Quando eu cursava medicina na UFC, ouvia falarem de um aluno na Faculdade de Medicina que se destacava por seu talento de compositor. Chamava-se Belchior, mas não foi por termos sido contemporâneos na Faculdade que nos conhecemos.

Fui conhecê-lo no dia em que um amigo, Osterne Brandão (irmão do poeta e letrista de música Antônio José Brandão) me convidou para um sarau. A casa do meu amigo ficava na Parquelândia e levei comigo o violonista Claudio Costa. Nesse dia, além de Antonio Carlos Belchior, conheci também o Miguel da Flauta.

Era manhã e fez-se tarde. Quando alguém sugeriu que continuássemos a reunião no Bar do Anísio, na Beira-Mar. E fomos todos a esse local no carro do anfitrião Osternes.

Além de nos apresentar as canções que vinha compondo, pelas tantas Belchior passou a mostrar outras versatilidades, tais como 1) fazer repente e 2) contar causos.

Um causo

Faziam os alunos da Medicina um semicírculo em torno do professor da disciplina de Proctologia. Interessados todos em acompanhar, da melhor forma possível, os ensinamentos do mestre naquela aula prática. E, também, em ver os detalhes da lesão que ele, com a ajuda da mão enluvada e lubrificada, estava a lhes apontar... no ânus de um paciente.

Num dado momento, em seu afã de descrever a patologia, o mestre empregou uma expressão de duplo sentido: "na entrada". No jargão proctológico, esta expressão tem um sentido próprio. Mas não para o paciente que, em posição de prece maometana, tomou por desfeita o que acabara de ouvir. A ponto de retrucar peremptoriamente:

- Alto lá, doutor, esse negócio aí nunca foi entrada. É só saída.

E saiu meio que ofendido.

[comentário]

Estimado Paulo,

Como a disciplina de Proctologia, com 4 créditos = 60 horas, foi por mim criada e implantada em 1965, para ser ofertada como "optativa", é bem provável, ou certamente (a bem da verdade, não recordo), esse causo aconteceu numa de minhas aulas. De qualquer maneira, categoricamente afirmo que, muita coisa jocosa e muitos "causos" patéticos por lá ocorreram.

José Maria Chaves

2 Em 6 de junho de 1969, botei umas cervejas para gelar e encomendei umas bandejas de salgadinhos. Reuni em minha casa Francisco Dário, Osternes Brandão, Claudio Costa e o compositor Belchior, entre outros amigos. Por volta da meia-noite, encerramos a parte doméstica da noitada e fomos ao Pombo Cheio, onde nos encontramos com o Miguel da Flauta em seu retorno de um compromisso profissional.

Naquela data, eu estava completando 21 anos. Uma fita-cassete registrou aquelas maravilhosas canções que foram tocadas e cantadas durante o encontro. Uma delas, por exemplo, era a canção "Paralelas", que Belchior originalmente cantava assim: "No Karmann-Ghia, sobre o trevo a cem por horas, meu amor". Adiante, foi que ele modificou a letra da canção para: "Dentro do carro..."

No entanto, algo aconteceu com a fita-cassete da festa. Meu irmão Marcelo usou-a para gravar a leitura das anotações que a nossa irmã Marta havia feito em caderno de uma aula de biologia do Prof. Hildemar. E, ao fazer o novo registro, o gravador (que era de fita única) apagou definitivamente o registro anterior.

3 Em 1972, com frequência eu me deslocava do centro do Rio para Copacabana, e vice-versa. Quando o ônibus passava por/sobre o viaduto do Botafogo, dava para ver que existia um pequeno teatro nas proximidades. Um belo dia, notei que aquele teatro estava com uma placa, onde se lia em letras garrafais: BELCHIOR. À noite, fui ver o show do conterrâneo. Pouca gente a prestigiá-lo. No repertório, Belchior incluía um clássico da "música de fossa" nacional, provavelmente do Lupicínio. Ao interpretá-la, foi que alguém acionou a estrondosa descarga de um vaso sanitário do teatro (risos, mas era tudo combinado). Findo o show, descemos ao aterro do Botafogo para conversar: Belchior, eu e uma terceira pessoa (Lauro Benevides? Pretestato Melo? Ah, não recordo). Quanto a Belchior, deduzi que a música o havia desencaminhado das lides acadêmicas. Como, em tempos mais remotos, aconteceu a Noel Rosa, um "monstro sagrado" da música popular brasileira.

4 Voltando a residir em Fortaleza, numa noite fui a um show do Gonzaguinha no teatro da Emcetur. Belchior chegou acompanhado do jornalista Odosvaldo Portugal Neiva, que cobria a pauta de música no Diário do Nordeste. E tivemos uma conversa rápida.

5 Em minhas andanças boêmias, uma vez resolvi baixar num restaurante novo (com algumas indicações a point). Não me recordo do nome do estabelecimento, apenas de que ele ficava próximo à Praça Portugal. Numa boca de noite, sentei-me a uma mesa e comecei a beber. Algumas horas após, já meio sonolento, paguei a conta para me retirar. Na calçada, alguém que acabava de chegar com amigos, abraçou-me e disse: "Professor, já está indo?" Era Belchior. Mudei de ideia e voltei ao bar. Como eu havia lido um texto de Belchior no Pasquim e do qual muito gostara, convidei-o para prefaciar um livro que eu vinha escrevendo. Não posso acusá-lo de haver faltado comigo, pois eu nunca concluí aquele livro.

6 Show do Belchior no Siará Hall. Fui (com Elba) ao Siará Hall, uma casa de eventos localizada na av. Washington Soares, em Fortaleza. Inaugurada em 2005, contava com uma infraestrutura que comportava mega-shows. Considerada a maior casa de espetáculos da cidade até seu fechamento em 2017, trouxe shows e espetáculos de níveis nacionais e internacionais. Visitei-o no camarim, ora pois.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 23/02/2025.

https://gurgel-carlos.blogspot.com/2025/02/encontros-com-belchior.html


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Para onde vai a memória de uma cidade?

Por Mário Mamede (*)

A identidade de um povo tem como pilares fundamentais suas características étnicas, sua língua, sua cultura e a capacidade de ser guardião de suas memórias, preservando-as e transmitindo-as às gerações vindouras. A partir destes pilares, estão firmadas as condições para nos reconhecermos e sermos reconhecidos como um grupo identitário e fortalecermos num projeto de nação com uma visão de futuro.

Essa identidade estabelece a coesão necessária para termos consciência do que somos e do que desejamos para nós e para os nossos descendentes.

E esta percepção nos impulsiona para firmarmos um sentimento de pertencimento, alimentarmos a nossa autoestima e construirmos uma cidade que seja um lugar bom de viver para todas as pessoas.

A partir dessas breves reflexões, vamos ao que julgo mais importante e urgente, do que sinto necessidade de comentar.

Em Fortaleza, temos um acervo importante da memória de nossa cidade do ponto urbanístico, fotográfico, social, e um arquivo musical organizado por um funcionário público de nome Miguel Ãngelo de Azevedo, mais conhecido por Nirez, hoje uma importante referência e fonte de pesquisa sobre a nossa Capital.

Com a felicidade de viver seus 91 em plena lucidez e uma invejável memória para fatos recentes e passados, Nirez organizou e alimentou o seu acervo, acumulado ao longo de toda uma vida, com muita dedicação. Muitas e muitas histórias de Fortaleza estão guardadas em seu computador, em documentos físicos e em fotos.

Nirez é o guardião da maior e mais bem conservada coleção de discos de cera do Brasil, desde os primeiros gravados no Rio de Janeiro, nos anos 30 do século passado. Mais do que uma coleção, um tesouro!

Ocorre que todo esse patrimônio está hoje guardado em sua própria casa, e chega a um momento de vida em que já não tem mais como dar conta de mantê-lo.

Em comum entendimento com o Nirez, procurei o diretor do Museu da Imagem e do Som, que demostrou vivo interesse, levantando a possibilidade de sua incorporação ao acervo do MIS. Avançamos animados para uma agenda com uma relevante expressão política do Governo Estadual, acontecida no mesmo local no 06 de junho do ano passado.

As ideias convergiram e, pela sua importância, o assunto seria levado para análise do Governador. Adentramos 2026 e, até hoje, a resposta tem sido o silêncio, um silêncio que incomoda. Por isso faço publicamente um apelo às nossas autoridades, instituições acadêmicas e setor empresarial para não deixarmos que esse pedaço da nossa memória vire poeira.

O que se tornou antigo não pode continuar sendo traduzido equivocadamente como obsoleto, sem valor, isso é história que forma a identidade de uma cidade e de um povo.

(*) Médico ortopedista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/01/2026. Opinião. p.15.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Natal dos descendentes de Almerinda Gurgel & Paulo Coêlho em 2025

Por Marcelo Gurgel Carlos da Silva (*)

Parte dos descendentes do casal Almerinda Gurgel Valente & Paulo Pimenta Coêlho, representados pelo filho Edmar Gurgel, por muitos netos, alguns bisnetos e até trinetos, se fez presente no encontro natalino de nossa família.

Esse encontro, liderado pelo primo Sílvio, filho do tio Edmar, aconteceu no Espaço MGM, localizado no bairro de Fátima, das 16h às 20h de ontem, dia 14/12/25, reunindo cerca de setenta pessoas.

Dos filhos de Elda, faltaram apenas o Sérgio, retido em Juazeiro do Norte, e o Paulo, que por motivos superiores não puderam se fazer presentes.

Ao som de Tiago Sampaio, um bom cantor, acompanhado de violão e de teclado, e por vezes entremeado por interpretações do Paulinho, filho do primo Paulo César, passamos uma tarde-noite muito agravável, saboreando as apetitosas guloseimas cuidadosamente feitas pela prima Solange Gurgel, gerando um tempo de encanto e de descontração dos parentes da família Gurgel.

O ponto alto da festao foi a apresentação da brochura “O LEGADO DE ELMA: uma família, uma história”, organizada por Maria Goretti e Eleazar Ribeiro, filha e genro da tia Elma, contendo mensagens dos filhos, netos e de outros familiares da homenageada, falecida em 27/08/2022, seguida da projeção de slides com fotografias selecionadas pelo casal Goretti e Eleazar.

A família da tia Elma doou vinte exemplares dessa obra aos primos do lado materno participantes do evento.

Ao final do encontro foram sorteados, entre os adultos presentes, vinte exemplares dos seguintes títulos de livros: “Cum Laude”, “Fora de Forma: contando causos da caserna”, “Selecta Literária” e “Fortaleza: de encantos e (des)encantos”, cedidos gentilmente por Marcelo Gurgel.

Não houve tempo para repetir a projeção do audiovisual, produzido pelo nosso primo Renato, com base no acervo de fotografias pertencentes aos descendentes de Elda e Edmar Gurgel, que se comprometeu de o compartilhar nos grupos de WhatsApp da família Gurgel.

Após a apresentação dos slides e a distribuição dos livros, os participantes se posicionaram para uma fotografia oficial panorâmica, para servir de registro iconográfico da confraternização do nosso clã de 2025.

A data do encontro do próximo ano não foi, previamente, agendada, mas nele se pretende render homenagens aos nossos queridos tios Edson e Edmar.

(*) Memorialista da família Gurgel-Carlos em Fortaleza


quinta-feira, 6 de novembro de 2025

AS BIBLIOTECÁRIAS DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

Foto: Inauguração da Sala de Obras Raras Cleide Ancilon.

Da esquerda para a direita, as ex-diretoras da Biblioteca de Ciências da Saúde: Gabrielita Carrah, Maria Socorro Braga, Cleide Ancilon, Norma Linhares e Sálemma Sugette. (2010).

Fonte: Biblioteca de Ciências da Saúde da UFC - 70 anos. p. 67.

A Biblioteca da Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) foi instalada em 1948, no mesmo ano da fundação da Faculdade de Medicina do Ceará (FMC), subordinada diretamente ao Diretor dessa faculdade e recebendo orientação e assistência do Assessor da Biblioteca, no caso o Prof. Newton Teófilo Gonçalves.

Desde os seus primórdios, a Biblioteca da Medicina era dirigida pela Profa. Cleide Ancilon de Alencar Pereira, então a sua única bibliotecária, e uma pioneira da Biblioteconomia no Ceará, tendo sido mantida nessa função quando da federalização da FMC.

Com a extinção do Instituto de Medicina Preventiva (IMEP), no começo da década de 1960, a Biblioteca da Faculdade de Medicina recebeu todo o acervo da biblioteca do IMEP. Nesse processo a bibliotecária Vânia de Holanda de Farias foi transferida para Biblioteca da Medicina, valiosa aquisição, que passou a dispor de duas bibliotecárias.

Com a Reforma Universitária, as Faculdades se transformaram em cursos, formando, no caso, o Centro de Ciências da Saúde, reunindo Medicina, Farmácia e Odontologia e, mais tarde, Enfermagem, curso criado pela UFC em 1975. A nossa Biblioteca passou a se denominar Biblioteca do Centro de Ciências da Saúde (BCCS), subordinada à Biblioteca Central, no Campus do Pici.

Alguns anos mais tarde, com as transferências das Faculdades de Farmácia e Odontologia para o bairro Porangabuçu, hoje denominado Rodolfo Teófilo, formando o Campus da Saúde, a Biblioteca foi enriquecida com seus acervos e o aporte das bibliotecárias Luiza Maria de Alcântara e Saraiva Leão e Maria do Socorro Melo Braga. E assim passou a contar com quatro bibliotecárias e, logo depois, passou a ter cinco bibliotecárias, com a nomeação de Sálemma Maria Lima Sugette. Nos anos 1970, outras bibliotecárias foram incorporadas ao quadro funcional da BCCS: Gabriela Carrah, Joesta Jucá e Norma Linhares.

A limitação do acervo em obras indicadas para uso das disciplinas obrigatórias, com número de exemplares insuficiente para atender à demanda estudantil, e às vezes composto por livros de edições já obsoletas, era compensada pelas competência e gentileza das zelosas bibliotecárias, que se desdobravam para prover o melhor atendimento possível aos usuários.

Parte das obras integrantes da bibliografia básica das disciplinas ficava reservada para consulta local, não sendo computadas entre as disponíveis para empréstimo regular.

A BCCS, na década de 1970, era dotada de boas instalações físicas e possuía um bom nível de organização de seus serviços. Havia um amplo espaço de leitura, com mesinhas individuais, devidamente vigiado pelas funcionárias para garantir um obsequioso silêncio, e também existia um setor específico, inclusive com cabines privativas, que podiam ser agendadas, previamente, para utilização por professores e alunos.

O corpo funcional da BCCS oferecia orientação para pesquisa bibliográfica e acesso às obras de referência, via Index Medicus, Mensal e Acumulado anual, e auxiliava na normalização bibliográfica dos trabalhos acadêmicos e das publicações de docentes e discentes. A busca de artigos publicados em periódicos não assinados pela BCCS era facilitada por meio da BIREME, com emprego do Sistema COMUT.

Naturalmente que a carência da informatização era própria e inerente à condição da época; no entanto, a carência de títulos tinha mais a ver com a insuficiência da dotação orçamentária das universidades brasileiras já prevalecentes.

Neste 8 de março, dia dedicado internacionalmente à Mulher, tem-se, ao longo deste mês, uma oportunidade muito especial para reverenciar as nossas tão queridas e prestativas bibliotecárias que tanto cooperam à formação de gerações de médicos cearenses.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18

* Publicado In: Jornal do médico digital, 3(37): 32-34, março de 2023.

Extraído de: Silva, M. G. C. da. Medicina da UFC 1977-2022. Fortaleza: Edição do autor, 2022. 160p. p.36-38.

RD-Marco-2023-app.pdf (jornaldomedico.com.br)


domingo, 5 de outubro de 2025

A INCONCLUSA IGREJA DE SÃO FRANCISCO EM FORTALEZA

Na época do Governo JK, final dos anos cinquenta do século XX, habitantes do bairro Jacarecanga e seus arrebaldes, em Fortaleza, estavam nitidamente motivados para erguer uma Casa de Deus, em substituição à pequena Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, um templo já sobejamente exíguo para comportar o considerável afluxo de devotos que a demandavam.

Existia um esforço conjunto, com larga participação de paroquianos, englobando atividades para captação de doações, afora outras ações para obter recursos financeiros, a exemplo de quermesses, leilões e vendas de brindes variados (lápis, borrachas, cadernos e outros apetrechos), que anunciavam o lema da campanha “Em prol da construção da Igreja de São Francisco de Assis”.

O trabalho coletivo de tantos não foi, porém, suficiente para soerguer a imponente construção, que findou em fincados alicerces, com um piso alto, a amparar as grossas paredes, sem a coberta, e submissa às agressões do ambiente, persistindo, há muito tempo, como uma obra inconclusa, a desafiar o indômito e impetuoso arrojo da gente cearense.

Presentemente, dessa obra de engenharia, a única estrutura acabada, e em uso, é a capela dedicada à Santa Edwirges, recepcionando, humildemente, os devedores de estratos mais pobres, que supinam por graças e migalhas, para sanar seus débitos, porquanto aqueles de maiores posses, embora “aprisionados” nas dívidas contraídas, são melhor recebidos numa igreja, em suas cercanias, do lado contrário, na mesma Avenida Leste Oeste, templo também sob a tutela da padroeira universal dos hipotecados de todas as classes sociais.

Uma conjunção de causas contribuiu para aniquilar a intenção da comunidade de dispor desse prédio sacro: o declínio social e econômico do Jacarecanga; o avanço do mar, engolindo várias ruas; a redução relativa do contingente católico da capital cearense; o aparecimento de igrejas católicas nos bairros vizinhos; a secularização pós-modernidade, com a laicização da sociedade; a carência de líderes paroquianos interessados e compromissados com o empreendimento; e a prioridade da Arquidiocese de Fortaleza em terminar a construção da catedral metropolita.

Por oportuno, cabe prantear a não-canalização do propósito comunitário, depois da inauguração da catedral, para concluir a majestosa Igreja de São Francisco de Assis, em Jacarecanga, tão acalentada pelo Padre Hélio Campos, o apóstolo do Pirambu, da Fortaleza da década de sessenta; decorridas mais de quatro décadas de paralisação, a nossa Massadah aguarda, com paciência e resignação, que as lideranças católicas, em parceria com o povo fortalezense, reativem a obra.

Avistada por terra, pelos que circulam pela Avenida Castelo Branco (a Leste-Oeste), em toda a sua extensão, até à Barra do Ceará; por mar, pelas embarcações, que tangenciam nossas belas praias; e pelos ares, quando da aterrissagem de aeroplanos, essa igreja, se retomada a sua obra, seria um bastião diferenciado, pois, em vez de canhoneiras ameaçadoras, do Forte que simboliza essa cidade, ter-se-ia São Francisco, de braços abertos e aconchegantes, espargindo, dos estigmas puntiformes de suas mãos, as graças hospitaleiras da Paz de Cristo.

Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Médico e economista em Fortaleza

 * Nota: Publicado originalmente In: SOBRAMES – CEARÁ. Inspiração. Fortaleza: Expressão, 2006. 130p. p.104-6.

Referência: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. A inconclusa Igreja de São Francisco em Fortaleza. In: SOBRAMES – CEARÁ. Inspiração. Fortaleza: Expressão, 2006. 130p. p.104-6. (Antologia da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará).


domingo, 25 de maio de 2025

Íntegra da entrevista com o Prof. José Lima, diretor do Colégio Christus – Parte IV

Entrevista conduzida por Larissa Viegas, jornalista de O Povo.

José Lima de Carvalho Rocha: o médico que se baseia na filosofia cristã e se encanta pelo poder da IA

OP - A Unichristus surgiu em 1994, como faculdade. Foi uma demanda dos alunos para darem continuidade à educação que eles já tinham no colégio ou vocês viram mais como uma oportunidade de mercado?

José - Se não tivesse possibilidade de funcionar, não teria sentido. Então, tinha essa possibilidade, como você chamou, de mercado.

Mas realmente era uma demanda das famílias que queriam que a educação dos filhos continuasse, assim como de pessoas que nunca tinham estudado no colégio, mas queriam uma educação de nível superior de qualidade.

Tanto que eu digo que o que nos diferencia é essa qualidade que a gente imprimiu no ensino superior. O meu primeiro pedido, em 1994, era que os alunos tivessem aula, só isso. Isso não tem na universidade ainda hoje.

Essa preocupação com o dia a dia da aula funcionou muito bem para que, em pouco tempo, a gente conseguisse se diferenciar das outras instituições que já existiam na cidade.

OP - O que planejam para o Colégio Christus para os próximos anos?

José - Nós firmamos uma parceria com a embaixada francesa no Brasil, onde a gente pretende fazer uma sessão francesa na escola, para ajudar o aluno a entrar no ensino superior no exterior, caso ele deseje.

Isso vai ser implantado aos poucos. Como a gente sempre fez tudo aqui, lento e tranquilo, para que a gente também prepare os professores, capacitando eles. Deverá começar no próximo ano com o infantil III, com crianças de 3 anos de idade.

E aos poucos vai progredindo, não só a língua francesa, mas a cultura francesa. E continuamos com as aulas de inglês e as experiências que eles têm em inglês, como sempre tiveram. Então isso é para 2026.

OP - E quais são os planos de sucessão? Seguem no plano, na estrutura que vocês montaram?

José - É, vez por outra querem mudar e eu sou a favor, mas não vem a mudança. Fica nessa conversa. Aí se adaptaram, se acostumaram com o plano de adolescentes, do começo dos anos 1980.

Nossa forma de trabalhar é muito próxima de um Kibutz, de Israel. É um coletivo que trabalha muito para produzir determinados serviços ou produtos. Somos muito parecidos nesse aspecto.

Em trabalhar juntos, um por todos, todos por um. Mas assim, eu não defendo que seja eternamente desse jeito, eu acho que a gente tem que se adaptar às circunstâncias, às mudanças, como as coisas funcionam e como elas são e deixam de ser.

E um dos segredos para não ter conflito foi crescer. Se a gente para de crescer, a gente vai ter dificuldade, porque não cabe tanta gente nesse kibutz com um perímetro pequeno, tem que ampliar.

Então temos que, necessariamente, crescer para abrigar todos e todos poderem trabalhar junto e se ajudar.

OP - Na sua avaliação, qual o legado que o Christus deixa para a educação cearense?

José - Eu não sei como é que vai ser a quarta geração, mas a terceira está indo muito bem. O que deixa hoje é uma formação que envolve uma construção de valores do que é certo e do que é errado, e instrução.

Instrução que eu me refiro é saber os diferentes conteúdos das disciplinas, português, matemática, geografia, história, inglês… Mas isso não é suficiente, porque alguém muito instruído nessas disciplinas pode utilizar essas informações para prejudicar a si e as outras pessoas.

Então, inspirado no que vem desde a nossa fundação, que é uma filosofia cristã, principalmente no Novo Testamento, ou seja, amar uns aos outros, ajudar os que mais precisam e outros valores, é uma lição já testada e aprovada por mais de 2000 anos.

Nessa formação, a gente pode colocar essa construção de valores onde o aluno, durante a sua vida escolar, aprende no colégio Christus que é o certo e o que é que não deve fazer, ou seja, o errado.

NOTA: Projeto Legados

Esta entrevista exclusiva com o diretor do Colégio Christus, José Rocha, para O POVO integra a quinta edição do projeto Legados: A tradição familiar como pilar dos negócios.

São cinco entrevistas com grandes empresários para contar a base que sustenta seus princípios, valores e tradições familiares que estão sendo passados para as novas gerações. E, ainda, o legado empresarial para o Ceará.

No próximo episódio, conheça a história do diretor da Flora Pura, Jonas Oliveira Neto, que a partir de receitas familiares executadas na farmácia da família, criou uma fábrica de cosméticos no Centro-Sul do Ceará que produz 25 mil itens por dia.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/05/2025. Reportagem. Legados. p.13-15.

Íntegra da entrevista com o Prof. José Lima, diretor do Colégio Christus – Parte III

Entrevista conduzida por Larissa Viegas, jornalista de O Povo.

José Lima de Carvalho Rocha: o médico que se baseia na filosofia cristã e se encanta pelo poder da IA

OP - Os esportes, as artes e até o meio ambiente sempre fizeram parte da educação do Christus. Para o senhor, o que eles representam hoje? Vê como algo que foi visionário, vanguardista do colégio?

José - Eu entendo a educação como algo que integra muitas atividades humanas. Nós não formamos matemáticos, nós não formamos especialistas na língua portuguesa. O ensino médio, o ensino fundamental, até a educação infantil, forma pessoas para um conhecimento básico de tudo, com a formação para o trabalho ou para prosseguir os seus estudos no superior.

A arte é essencial para desenvolver criatividade, saber trabalhar em equipe. E tudo isso foi utilizado dentro de um objetivo maior, para formar esse cidadão e desenvolver talentos, alguns inatos, outros não, que ele vai necessitar no ensino superior e depois na vida profissional.

O esporte é a mesma coisa. Novamente, ajuda muito a trabalhar em equipe. E não existe uma mente que funciona bem, sem o corpo funcionando muito bem. Isso que é importante, que a gente pense nas artes, pense no esporte, como atividades que integram um eixo central, que é educar.

Educar tem a ver com essa formação e envolve tudo isso. Se você ficar preso só a ciências, história, geografia, química, física, você não está formando cidadão. Você está instruindo alguém com alguma informação que poderá até usar para fazer as coisas erradas.

OP - Hoje, crianças e jovens passam muito tempo na escola. Qual é a percepção que o senhor e toda a equipe do Christus têm do papel dela hoje para as famílias?

José - Tirando essa questão da educação integral, a maior parte das crianças e adolescentes, mesmo que passem 6 horas, 8 horas por dia aqui, o resto do tempo é em casa.

Ou seja, temos que trabalhar juntos, escola e família. A nossa responsabilidade é muito grande no sentido de orientar as famílias a como educar seus filhos dentro dos seus próprios valores. Nós respeitamos e precisamos respeitar a forma como as famílias querem educar seus filhos.

As famílias já sabem como a escola funciona quando nos procuram. Explicamos mais algumas coisas para que não haja esse choque, vamos chamar, cultural, ou de objetivos. De querer que a escola seja de uma maneira, que forme de um jeito, e a escola tá formando de outro.

Se não houver essa coesão, vai existir um grande conflito na mente de uma criança ou de um adolescente. O que eu noto de diferente hoje é que nós temos que trabalhar com os valores de uma forma mais intensa e mais forte do que era trabalhado no passado.

OP - O senhor, pessoalmente, é um admirador da inteligência artificial. Como o colégio tem lidado com essas mudanças tecnológicas, o uso de IA? O senhor acha importante introduzir isso na educação?

José - Estamos vivendo uma mudança tecnológica muito intensa. E isso tem um crescimento exponencial, vai crescendo muito rapidamente. É crescimento em cima de crescimento e é como se fosse um juro composto.

Vai aumentando muito rápido. Então aumenta a produtividade em todas as profissões, desde que você saiba trabalhar com a inteligência artificial. Primeiro que você não pode brigar com ela. Tem que entender, tem que aprender a gostar, e utilizar no que você quer desenvolver.

Eu gosto muito de ler, já tive outras preferências, mas quando surgiu (a IA), é como se eu tivesse esperando há muito tempo. Quando veio, eu disse: “pronto, me alcançou. Eu estou vivo e com consciência para aproveitar isso”.

Então, estou utilizando na educação. Tanto para elaborar programas de aula, elaborar questões de prova, corrigir questões de prova. Estou estudando uma forma de corrigir redações do Enem, dos alunos, para ver se fica parecido com a nota que eles dão.

Nunca vai ser igual, porque duas pessoas diferentes corrigem duas redações diferentes, quanto mais um cérebro desse de uma inteligência artificial, que também é muito construído da forma como nós raciocinamos.

Agora, temos que preparar os alunos para isso. Em vez da gente fugir da inteligência artificial, a gente tem que ensinar os alunos a usar, porque vai ser um diferencial competitivo no trabalho deles.

Faço imagens, faço muita coisa. E como meu tempo lúcido vai diminuindo, eu tenho que correr para aprender isso com muita rapidez e tirar melhor benefício para o meu trabalho. Seja no ensino básico, seja no ensino superior.

OP - E outras mudanças na educação, Novo Ensino Médio, Enem… Como que o colégio tem lidado?

José - O Novo Ensino Médio é muito interessante, é muito bom. Nós começamos a praticá-lo ainda antes dele virar lei. A gente já está estabilizado, possibilitando que os alunos escolham o caminho que eles possam querer.

Uma das coisas que diferencia: aqueles que gostam mais de matemática e física, tem uma trilha para eles. Aqueles que gostam mais de português, geografia, história, já tem outra trilha. E assim vai.

Então, a gente criou essas trilhas, como depois foi batizado, antes mesmo de estar valendo, uns dois, três anos antes da pandemia, que aconteceu essa efetivação. E se mudar, a gente muda de novo.

OP - E como foi a aceitação dos pais?

José - Existem várias maneiras de você aplicar mudanças. Uma delas é ser lenta e gradual e explicando direitinho e mostrando os benefícios que essas mudanças vão trazer.

Na hora que o aluno que gosta mais de física e matemática vai para uma área que tem outros como ele que gostam, isso ajuda muito ele a desenvolver esse caminho. A mesma coisa na área de humanas.

Embora eu tenha começado profissionalmente depois no colégio, eu peguei muita coisa da experiência que aprendi com meus pais, com os professores que vieram antes da gente... E a gente adotando e implementando isso aos poucos, não tem dificuldade nenhuma e nem tem reação negativa.

O que os pais acham ruim são mudanças rápidas. Qualquer mudança envolve reação. Se você também age lentamente, a reação vem lenta, você vai dando para desmanchar isso devagarzinho e mostrando que é melhor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/05/2025. Reportagem. Legados. p.13-15.

Íntegra da entrevista com o Prof. José Lima, diretor do Colégio Christus – Parte II

Entrevista conduzida por Larissa Viegas, jornalista de O Povo.

José Lima de Carvalho Rocha: o médico que se baseia na filosofia cristã e se encanta pelo poder da IA

OP - Como foi a sua trajetória no colégio, da entrada e até a chegada à Direção?

José - Em 1975 eu comecei a cursar Medicina. Imediatamente, passei a trabalhar na escola. Porque tem uma coisa, um detalhe importante. Esses nove irmãos, 10 comigo, nós nunca recebemos mesada. Precisávamos trabalhar.

Tínhamos que fazer alguma coisa, como meu pai dizia, uma coisa útil, para receber. Então, podia ser leitura de um livro no qual ele nos arguia. Depois ajudava na pintura de parede na escola, limpeza de carteiras, sempre “trabalhou, ganhou. Não trabalhou, não ganha”.

E com essa necessidade de trabalhar, logo que eu entrei na universidade, eu precisei ter também de algum dinheiro para me deslocar, colocar gasolina. Comecei auxiliando professores nas aulas de ciências e assim fui avançando.

Depois de alguns anos, ainda cursando Medicina, à noite eu fazia Pedagogia. E quando eu concluí a Medicina, em 1980, e a Pedagogia, um ou dois anos depois, eu comecei a ser formalmente o diretor da escola. Trabalhei no setor pedagógico, na parte de coordenação, mas o meu sonho maior era exercer a Medicina.

Tive que alterar minha trajetória por conta de necessidades de trabalho e de necessidade econômica que meus pais viviam à época.

Foi solicitada a minha ajuda para trabalhar lá e então tentei conciliar por mais alguns anos, eu ainda era professor lá da (Universidade) Federal, que entrei em 1981, até uns oito anos depois. Conciliava essa dupla jornada, mas aí não deu mais, porque os dois lados absorviam muito.

OP - Então, até na Medicina o senhor ia para a área de educação?

José - Exatamente. Meu sonho na Medicina era ser cirurgião plástico e ser professor da Federal e, aos sábados, ajudar meu pai. Só que essa questão do sábado foi ampliando, ampliando e acabei não ficando só no sábado e não dava para conciliar as duas atividades.

Tanto que primeiro eu fiz a residência médica em cirurgia geral. Comecei essa residência, também fiz o mestrado, depois, mais recentemente, terminei o doutorado, tudo na área da saúde. E na Pedagogia eu fiz também especialização em administração escolar.

Então conciliei essas duas atividades o quanto foi possível. À medida que era mais solicitado dos dois lados, não era só de um, eu tive que fazer uma opção.

E aí a necessidade e o desejo de que minha família, principalmente meu pai e minha mãe, tivesse uma velhice mais tranquila, seguindo o sonho da escola funcionar bem, eu resolvi, pelo menos momentaneamente, abdicado meu. Na época era momentaneamente.

OP - Sobre a relação com a senhora Valéria, pode nos contar como ela começou?

José - Eu era estudante de Medicina. Uma professora e mais duas coordenadoras levavam os alunos (do Christus) para excursão em Salvador, no ônibus. Os alunos se juntavam, era término de curso, que antigamente era o oitavo ano, hoje é o nono.

E em uma dessas excursões a gente estava lá. E a gente começou a conversar, a se conhecer. São 42 anos de casados. Ela se queixa que a gente namorou por cinco, seis anos, mas eu tinha que terminar a faculdade primeiro, não é?

Me formei, passei no concurso (da Universidade Federal do Ceará) e foi aí que o pai dela autorizou a gente a casar, porque nesse tempo era assim, você tinha que ter emprego para poder casar.

No dia a dia é desse jeito que você viu. Acredito que a gente tenha uma vida boa, tem algumas vontades diferentes, ela gosta de viajar, eu não gosto tanto. Aí tem outras coisas que os gostos já se equivalem, mas a gente se entende.

OP - Parte da sua família também atua no Christus. Como foram definidas as funções? Houve um marco, onde cada um escolheu sua área de atuação ou foi algo mais orgânico?

José - As pessoas têm vocações, as pessoas têm talentos e as pessoas têm vontade de trabalhar, uns mais, outros menos. Então, não houve uma determinação para que cada um ocupasse determinadas funções.

No nosso processo de sucessão e de desenvolvimento de trabalho existem algumas regras gerais, que ainda hoje são seguidas. Isso começou em 1979, 1980. Era um acordo entre irmãos.

Eu tinha 22, 23 anos, os outros mais novos, daí para baixo. Raquel, por exemplo, é 17 anos mais nova do que eu. Essa distribuição de atividade, como aconteceu essa sucessão, é diferente de outros tipos de sucessão que acontecem com outras famílias que trabalham na mesma empresa.

Participamos, eu e outros irmãos, de vários cursos, de vários planejamentos de sucessão e a gente descobriu que nenhum desses dava certo para a gente. Então, a gente adotou o próprio modelo de trabalho. Cada um foi ocupando espaços que estavam sendo criados à medida que a escola avançava.

Não só a escola, como outras atividades também. Nós trabalhamos com construção civil, com confecção, com gráfica e outras atividades que foram se desenvolvendo e os outros foram ocupando os espaços.

Não há exclusão de quem pode entrar e quem não pode, há exclusão daqueles que não cumprem o que promete entregar. O Brasil é um país difícil de se trabalhar empresarialmente, porque as regras mudam muito, às vezes até retroativamente.

Então, temos que ter uma equipe ágil, coesa, que possa resolver dificuldades e pensar também para a frente, no futuro. Foi feito dessa maneira, não tivemos nenhuma orientação.

Posso dizer que a segunda geração ainda segue o sonho de adolescentes que deu certo e que, talvez, a gente não tenha conseguido ainda se libertar desse sonho inicial.

Eu espero que a próxima geração, que a gente chama de G3, consiga ter os próprios sonhos e segui-los, porque já, já, daqui a alguns anos, a gente não vai estar por aqui para acompanhá-los.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/05/2025. Reportagem. Legados. p.13-15.


 

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