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terça-feira, 1 de setembro de 2026

A CAVERNA DO DRAGÃO

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Na minha "Crônica da Gentilândia", do livro "Fortaleza Voadora", digo que: "…o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia".

À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta.

Sua residência mais famosa foi a da Rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito frequentada; ainda hoje muitos contam histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.

Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av. Tristão Gonçalves, bem próximo à vila onde ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casinha conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor; também avistei algumas vezes sua bela filha Alessandra, que morava com a mãe.

Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas disputas por farelos e migalhas.

Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, "Editor de Insônias" (1965), e uma miscelânea, "Reflexões, terror, sobrenatural" (1984), além de alguns inéditos datilografados em gastas folhar amarelecidas. Em 1997, o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, "Editor de Insônias e outros contos", pela Coleção Alagadiço Novo.

Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é mesmo!?". No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:

"— Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "— Quem, poeta, o Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.

A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o "Buraco da Gia", pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.

Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão, sempre contando lorotas.

E, ainda hoje, quando alguém se refere a ele, vejo algum dos seus livros ou passo em frente à Vila cordeiro, parece que estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de perfil", como bem disse, em seu "A Guerra do Fim do Mundo", Vargas Llosa), com sua gargalhada espalhafatosa mas sempre sincera, dizendo — e apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra:

"— Agora quem manda aqui é esse poeta 'Viadão Pós-Moderno'!"

"Eu sou aquele que come as flores do aniversário."

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/2008)

Fonte: O POVO, de 24/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Solenidade comemorativa dos 132 anos da Academia Cearense de Letras

Na noite de ontem, 20 de agosto de 2026, no Palácio da Luz, participei, pela quinta vez como imortal das letras cearenses, da solenidade celebrativa dos 132 anos de instalação da Academia Cearense de Letras (ACL), reconhecida por ser a primeira do gênero no Brasil, que se mantém em funcionamento, dado que foi criada em 1894, três anos antes da fundação da Casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras (ABL).

A sessão solene, iniciada às 19h, com a apresentação do maestro Adelson Viana, que a todos encantou com a execução musical, ao acordeon, de um repertório genuinamente cearense, teve a Sra. Jerietza Gurgel, como cerimonialista, e foi liderada pelo Presidente da confraria, o Acad. Tales de Sá Cavalcante, que fez o discurso de saudação de aniversário da ACL e anunciou a celebração de festejos alusivos aos 300 anos de Fortaleza, fruto de projeto sob a coordenação do Acad. Pio Rodrigues Neto.

Na sequência, o Acad. Pio Rodrigues Neto exibiu as linhas gerais do projeto e convidou a Acada. Selma Prata, para efetuar o lançamento do Edital do Prêmio Artur Eduardo Benevides, destinado a premiar e publicar poesias temáticas sobre a capital cearense.

O ponto alto da noite foi a palestra intitulada “Fortaleza Hilária”, proferida pelo Acad. Juarez Leitão que, com a sua notória e reconhecida eloquência, mesmerizou a plateia, durante mais de uma hora, narrando episódios burlescos e causos acontecidos em Fortaleza, plenos de humor, além de muito bem-contados, conferindo ao ambiente um tom de animação e de contagiante deleite.

A efeméride foi consagrada pelo grande público presente, composto principalmente de membros participantes de confrarias e entidades literárias e culturais cearenses, bem como por formadores de opinião da sociedade local.

Ao final da solenidade, acadêmicos e seus convidados se confraternizaram em um coquetel ofertado pela ACL nas aprazíveis dependências do Café Java.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Academia Cearense de Letras – Cad. 25


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Parte de vila militar é demolida para construção de nova praça em Fortaleza

Por Victor Marvo, jornalista de O Povo

Conjunto de residências da Base Aérea de Fortaleza estava desocupado há mais de uma década. Obra com investimento de R$ 3,25 milhões deve ser concluída em 2027

Resumo

“Oito residências da antiga vila militar da Força Aérea Brasileira (FAB), no bairro Aeroporto, em Fortaleza, foram demolidas como parte das intervenções para a implantação de uma praça integrada ao projeto do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Ceará. A demolição foi iniciada no fim de junho. Agora, no local restam árvores em um terreno cercado por tapumes e uma placa que indica a construção do novo pátio.”

Historicamente, as vilas militares eram construídas para abrigar militares da ativa e suas famílias nas proximidades das unidades onde serviam. Esse modelo foi adotado em praticamente todas as bases da FAB criadas entre as décadas de 1940 e 1950.

Em Fortaleza, o conjunto de residências pertencia à Base Aérea de Fortaleza (BAFZ), localizada entre as avenidas Borges de Melo e Aguanambi, e começou a ser desocupado em meados de 2013, quando o 1º Esquadrão do Quinto Grupo de Aviação foi transferido para a Base Aérea de Natal (RN).

Praça terá nome do criador do ITA

O projeto da praça foi anunciado pelo governador Elmano de Freitas (PT) em abril deste ano, durante a cerimônia de entrega da primeira etapa das obras do campus do ITA Ceará.

Com investimento de R$ 3,25 milhões, a praça será construída em frente à Base Aérea de Fortaleza e deverá ser entregue no início de 2027, conforme informou a Superintendência de Obras Públicas (SOP).

O equipamento será denominado Praça Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho, em homenagem ao cearense considerado patrono da Engenharia da Aeronáutica e idealizador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Conforme registros da FAB, Casimiro Montenegro Filho nasceu em Fortaleza em 28 de outubro de 1904 e ingressou na Escola Militar do Realengo em 1923, sendo declarado aspirante a oficial do Exército em dezembro de 1928.

Como será a nova praça?

Em resposta ao O POVO, a SOP confirmou que as próximas etapas da obra incluem serviços de pavimentação, urbanização e paisagismo, além da revitalização das áreas verdes e da instalação de um busto em homenagem ao marechal.

Com área aproximada de 4,5 mil metros quadrados, a praça contará com quadra poliesportiva, pista de skate, bicicletário, brinquedopraça, academia ao ar livre e espaços destinados ao lazer e à convivência da população, além de intervenções de urbanização e paisagismo.

A iniciativa segue a linha de outros projetos recentes do Governo do Ceará, como o Parque Dom Aloísio Lorscheider e o Polo Esportivo e Cultural do VLT Aeroporto, voltados à promoção da qualidade de vida por meio da requalificação dos espaços urbanos.

Transformação da área começou em 2020

A transformação da antiga vila militar da Força Aérea Brasileira (FAB), na avenida Borges de Melo, não é recente.

Em novembro de 2020, O POVO noticiou o início da demolição de parte do conjunto de residências de oficiais da Aeronáutica, após a cessão da área pela União ao Governo do Ceará para a implantação do Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp).

Na época, os imóveis já estavam desocupados havia cerca de oito meses em razão da redução do contingente da Base Aérea de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Cidades. p.15


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Como está a primeira rua compartilhada de Fortaleza quase 11 anos depois

Por Daniel Gifone, jornalista de O Povo

Projeto feito em colaboração entre a Prefeitura de Fortaleza e o Hospital São Carlos foi pioneiro na Cidade, mas situação de abandono é destacada por frequentadores

No dia 19 de novembro de 2015, foi inaugurada, no bairro Dionísio Torres, a primeira rua compartilhada de Fortaleza, realizada a partir da Parceria Pública e Privada (PPP) entre a Prefeitura de Fortaleza e o Hospital São Carlos.

O projeto tinha como objetivo, de acordo com a própria gestão municipal, possibilitar uma convivência harmoniosa entre pedestres e ciclistas, autorizando a apenas a passagem de ambulâncias em caso de emergências e inserindo o conceito de traffic calming nas extremidades das ruas, sem desníveis ou barreiras, facilitando o trânsito das pessoas.

A via contava, a princípio, com bancos, mobiliário urbano, paraciclo, piso drenante, painel de mosaico, jardim vertical, paisagismo, iluminação de LED e uma geladeira que servia como biblioteca pública, para quem quisesse ler no local.

Desde então, pouco se foi noticiado sobre a rua, apesar de a Prefeitura ter verbalizado, na época, sua intenção de continuar investindo em projetos voltados para a melhoria da mobilidade urbana.

A poucos meses do décimo primeiro aniversário de inauguração, o O POVO visitou a rua, a fim de observar o cenário atual e averiguar como tem sido a manutenção do equipamento.

O que foi encontrado foi uma rua em situação precária, com lixo espalhado pelo chão, vegetação crescendo desordenadamente nas beiradas dos muros que, por sua vez, estão com sua pintura desgastada, descascando e com manchas.

Outras características notáveis são um jardim vertical mal cuidado, bancos faltando, além de um poste com seu transformador exposto, com grande potencial de causar um acidente.

O comerciante Sebastião Gomes, que há dez anos possui um ponto de venda de lanches na rua, diz que chegou a notar serviços como retirada de algumas vegetações, porém, nenhuma reforma significativa.

De acordo com ele, a coleta de lixo no local teria sido interrompida, com lixeiros já não passando mais pela rua para coletar os dejetos, tornando a limpeza do local responsabilidade dele e da equipe do Hospital São Carlos.

“Não tinha lixeiro recolhendo mais, porque antes eles faziam isso, né? Tinha um rapaz que tirava o lixo que tava aí dentro e levava pro caminhão recolher, aí depois desistiram do rapaz. Aí ficou por nossa conta, aí toda vez que a gente vinha aqui tinha muito lixo aí, mas sem proteção, aí eu mesmo decidi 'emborcar', aí fica como assento”, explica.

O eletricista Leandro Barros destacou que os postes e as árvores também apresentam insegurança para quem transita no local: "As árvores estão muito velhas. O perigo delas é de cair, é mais perigoso ficar embaixo da árvore do que esperar nelas para ter proteção do sol. É muito risco”.

“Se é responsabilidade da Prefeitura, então é a responsabilidade dela de zelar, assim como é do hospital também. Mas que ela está maltratadinha ela está, de limpeza, acho que não teve a evolução dela. No começo ela parecia ser artística, mas não está mais atrativa”, avalia.

Em nota, a Coordenadoria Especial de Apoio à Governança das Regionais (Cegor) informou que tanto a rua Otoní Façanha de Sá quanto a Praça Rogério Froes, contam com projeto de manutenção elaborado pela gestão municipal.

A proposta para a rua, em particular, contempla a manutenção do piso drenante, com o objetivo de qualificar a infraestrutura local e proporcionar mais conforto e segurança aos usuários.

Quanto à previsão para a realização, a nota informa que as intervenções serão executadas de acordo com a disponibilidade orçamentária e o cronograma de investimentos da gestão municipal.

Já a Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP) comunicou que realiza a coleta domiciliar de resíduos na rua Otoní Façanha de Sá três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras, no período da noite.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 9/07/26. Cidades. p.12.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Praça Luiza Távora: um pedaço de cidade sem sorte

Por Romeu Duarte Junior (*)

Como se dizia antigamente no saudoso Pasquim, meninos, eu vi! Vi com estes olhos que a terra há de comer um dia. Foi com assombro e êxtase que dei com ele pela primeira vez. Já abandonado, esvaziado dos seus moradores, o mato crescendo à volta, os palacetes fechados, em meio a um dos locais mais belos da Aldeota onde os oitizeiros dão-se os galhos num abraço de sombra e afeto. Sim, caras e caros, estou falando do Castelo do Plácido, obra monumental que o seu dono mandara projetar pelo maior arquiteto do Ceará    de todos os tempos, João Sabóia Barbosa, para agradar sua esposa italiana. Em 1974, um grupo empresarial comprou e demoliu o edifício para no terreno construir um centro comercial. Talvez por maldição, quebrou que apartou. Os palacetes restaram lá.

Ednardo, o grande cantor de Fortaleza, nos embalou com a bela "Longarinas" logo após a perda do palácio: "E a lua viu desconfiada; a noiva do sol com mais um supermercado; era uma vez o meu castelo entre mangueiras; e jasmins florados; e o mar engolindo lindo; e o mal engolindo rindo". Algum tempo depois, alguém teve a bela ideia de implantar na praça criada um centro de exposição e comercialização do artesanato cearense. Confiou-se o projeto ao engenheiro Pedro Natale Rossi, sobrinho da proprietária original e famoso pelas casas que então projetava e construía. No projeto que elaborou, usou carnaúba, concreto, alvenaria e telha de barro. Talvez porque foi retirada a casca dos troncos da palmeira, a estrutura colapsou, o que fez com que a obra fosse demolida. Triste.

Súbito, chega-me a infausta notícia de que o Metrofor interditará a praça por dois anos e meio para a construção de uma estação metroviária subterrânea, cuja implantação importará na escavação de uma vala de 38 metros de profundidade com diâmetro de mesma dimensão, o que fará com que seja suprimida boa parte da arborização. Pergunta-se: a central de artesanato e os palacetes serão também afetados pelo impiedoso tatuzão? Mais uma indagação: Fortaleza tem um metrô ou é o metrô que manda na cidade? Será que não há alternativas para a solução do problema de engenharia? Acode-me Roberto Carlos, o Rei: "Não sou contra o progresso, mas apelo pro bom senso". Depois da tragédia de Parangaba, mais essa. Será que o Ednardo vai ter que fazer mais uma canção?

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/07/26. Vida & Arte. p.2.


quinta-feira, 18 de junho de 2026

UM OBSERVATÓRIO DA EDUCAÇÃO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

O processo de urbanização brasileira se intensificou na segunda metade do século XX, em decorrência da formação de grandes aglomerações urbanas e da necessidade de novas formas de planejamento territorial. Nesse contexto surgiram as chamadas regiões metropolitanas, agregando municípios em torno de metrópoles, perspectiva que dá origem à Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Criada em 1973, hoje, agrega 19 municípios: Aquiraz, Cascavel, Caucaia, Chorozinho, Eusébio, Fortaleza, Guaiuba, Horizonte, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, Paracuru, Paraipaba, Pindoretama, São Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu e Trairi.

A ideia subjacente à criação da RMF foi promover maior integração administrativa e coordenação de políticas públicas em áreas urbanas que ultrapassavam os limites municipais. A solução de tais problemas, contudo, não ocorreu como previsto: os problemas urbanos se agravaram, desigualdades entre os municípios se fizeram presentes em várias dimensões da gestão pública e muitos desafios surgiram.

Embora a RMF agregue 63,6% do PIB do estado, a distribuição desigual da riqueza eleva as disparidades entre municípios. Enquanto uns concentram atividades de maior retorno econômico, a exemplo de São Gonçalo do Amarante que abriga o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP); outros, dependem fortemente de recursos da União e do Estado, incluindo programas de transferência direta de renda como o Programa Bolsa Família (PBF), do qual entre 42% e 58% da população são beneficiários.

A análise de indicadores econômicos e educacionais mostra não haver correspondência entre uns e outros. Ou seja, não necessariamente municípios com alto PIB têm equivalente desempenho educacional e vice-versa. Essas e outras questões são objeto de nossos estudos recentes que apontam para desafios a serem enfrentados, sendo a criação de um Observatório da Educação da RMF (@observa.remefor) uma iniciativa necessária e já em andamento. A Universidade é um fórum propício a este diálogo para o qual convidamos governo, sociedade civil e municípios da região.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/05/26. Opinião. p.18.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

FORTALEZA: a evolução e os desafios

Por Lauro Chaves Neto (*)

Fortaleza chega aos 300 anos reafirmando uma característica central de sua trajetória: a capacidade de transformar posição geográfica em protagonismo econômico.   Hoje, responde por quase 40% do PIB estadual, esse dado revela não apenas liderança, mas uma forte concentração econômica que molda o desenvolvimento do estado.

Quando o Ceará tinha sua capital em Aquiraz, o dinamismo econômico estava em polos como Aracati. Fortaleza surgiu mais como uma escolha estratégica e administrativa do que como centro econômico. Sua ascensão veio com o tempo, consolidada pelo comércio, pelo ciclo do algodão e pela centralização política.

Hoje, é uma das principais economias urbanas do país, com destaque crescente na economia de serviços e, mais recentemente, na conectividade digital. A cidade deixou de ser apenas um entreposto para se tornar um hub estratégico, conectando o Brasil a mercados internacionais por meio de infraestrutura logística e tecnológica.

Entretanto, a estrutura econômica da cidade ainda revela fragilidades importantes. A elevada dependência do setor de serviços, muitas vezes de baixa produtividade, limita ganhos mais robustos de renda e competitividade. A indústria perdeu participação relativa nas últimas décadas, reduzindo o potencial de encadeamentos produtivos mais complexos. Soma-se a isso a informalidade persistente, a baixa qualificação de parte da força de trabalho e os gargalos em infraestrutura urbana, que impactam diretamente a eficiência econômica.

A elevada concentração econômica exige políticas que ampliem a inclusão e reduzam as desigualdades. A transição para uma economia mais sofisticada demanda investimentos em educação, inovação e produtividade. Além disso, questões urbanas e ambientais ganham centralidade.

Fortaleza precisa qualificar seu crescimento, elevar o padrão de produtividade e sofisticação da economia local. Se conseguir alinhar conectividade, capital humano e estratégia de longo prazo, poderá transformar sua posição privilegiada em desenvolvimento sustentável e inclusivo, consolidando-se como uma das cidades mais dinâmicas do país.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 27/04/26. Opinião. p.16.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Meus 53 anos nos 300 de Fortaleza

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Como funcionário do BNB em Itabuna (BA), estive em Fortaleza nos anos de 1970 e 1971 para participar de treinamentos próprios das funções então exercidas - uma prática seguida, à época, por essa exemplar instituição.

Em junho de 1973, após processo seletivo, vim participar de mais um curso do BNB, em que a aprovação significaria transferência definitiva para esta cidade. Confiei e já vim com a família.

Fortaleza contava com 950 mil habitantes, uma pequena metrópole, com raros prédios com mais de três pavimentos e comércio e serviços incipientes. As opções de lazer concentravam-se no Centro, especialmente na Cidade das Crianças, Praça do Ferreira e cines São Luiz e Diogo.

A orla contemplava os principais clubes sociais, o Náutico, o Ideal e o Líbano. A Praia do Futuro era uma esperança no próprio nome, mas o elevado índice de maresia não possibilitou a ocupação imobiliária prevista.

O BNB, como motor de desenvolvimento, contribuía para o crescimento das atividades econômicas e, pela visão de formação de pessoas, colaborava com técnicos de elevado padrão, a ocuparem postos de destaque, especialmente em instituições públicas nos três níveis de governo.

O sonho da Uece viria a se concretizar em 1975, com a visão de interiorização do ensino e formação de professores, mas já demonstrando aptidão para outras áreas. Hoje, o curso de nível internacional de Ciências Veterinárias, o elevado nível de pesquisa e a excelência em inovação são conquistas que a colocam em destaque no Brasil e no mundo.

A nova Fortaleza, dos edifícios de mais de 150 metros e 2,6 milhões de habitantes, tem hoje uma orla revitalizada e posição de destaque nacional na economia. O Estádio do Castelão de 1973, transformado na Arena Castelão (padrão Fifa), e uma cidade policêntrica com hubs de inovação e parques urbanos trazem-nos uma certa saudade daqueles tempos.

Contudo, esse saudosismo não imobiliza o presente; antes, permite-nos valorizar a fênix urbana em que Fortaleza se tornou ao completar três séculos. O crescimento acelerado, iniciado na década de 1970, não empana o seu carisma de "Loura Desposada do Sol".

Parabéns, Fortaleza!

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/04/26. Opinião. p.18.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

PARABÉNS À TRICENTENÁRIA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Acordou ainda bêbado na calçada da Rufino de Alencar, ao lado da Catedral. "Égua, tornei logo no espaço entre o Pajeú e a fortaleza, marcos da construção desta Cidade". O sol começava a dar timidamente as caras, furando as nuvens então grávidas de chuva. Centro vazio por causa do feriado, ele então se deu conta da efeméride: "Macho, tu é doido, 13 de abril de 2026, Fortaleza faz 300 anos hoje!". Levantou-se do imundo chão e foi dar início ao dia. O silêncio nos seus ouvidos foi dando lugar a um alarido cada vez mais alto à medida que se aproximava da Travessa Crato. Vislumbrou uma porção de gente aboletada nas mesas do Raimundo do Queijo. Apressou o passo, atravessou a Conde D'Eu na carreira, quase sendo atropelado por um táxi, e foi se juntar à barulhenta patota.

Para seu espanto, numa mesa o capitão-mor Manuel Francês, o padre João de Mattos Serra e Dom João V discutiam asperamente com Pero Coelho, Martim Soares Moreno e Raimundo Girão sobre a data correta da criação da Cidade. Noutra távola, Liberal de Castro, Fausto Nilo, Delberg Ponce de Leon e um certo arquiteto ligado ao patrimônio mais discordavam do que concordavam quanto ao futuro da semente que nasceu à sombra dos muros do forte. Outro grupo, formado por Juarez Leitão e Virgílio Maia pela Academia Cearense de Letras e Nirez e Clélia Lustosa pelo Instituto do Ceará debatiam sobre o melhor lugar para se comemorar o aniversário de Fort City, sendo apartados a todo instante por Abelardo Montenegro, que foi integrante das duas vetustas instituições culturais.

"Lai vai, doido, que diabo é isso?! Os mortos abandonaram seus túmulos para vir para cá bater boca com os vivos?! Arrocha, macho!", disse de si para consigo, incrédulo. Outra roda, formada por Lúcio Brasileiro, Gerard de Sangerie e Adília de Albuquerque, comentavam sobre o traje mais adequado para ser usado no evento festivo. Sentados no batente, Belchior, Ednardo e Fagner brigavam pelo título de artista que melhor cantou Fortaleza, sendo aparteados a todo momento por Marcelo Renegado e Tarcísio Sardinha. Enquanto Lira Neto, Paulo Linhares e Otacílio Colares riam da confusão, Lúcio Alcântara, Juraci Magalhães, Roberto Claudio e Álvaro Weyne disputavam o mérito de melhor alcaide local. A turma do Seu Raimundo, Erasmo Pitombeira à testa, tomava seu lauto café da manhã.

De repente, estoura um sururu dos diabos. Torcedores do Ceará, abraçados com Gildo, Tiquinho e Vina, trocavam sopapos com seus rivais leoninos que traziam Croinha, Amilton Melo e Brítez nas cacundas. A escaramuça só terminou quando alguém propôs que todos cantassem os parabéns para a feliz aniversariante e dividissem o bolo de 300 quilos que Burra Preta e Zé Tatá carregavam. Acordou aos gritos, desta vez de verdade. "Fortaleza, Loura desposada do sol, cidade insubmissa (mas que vota em político ressentido e que joga lixo na porta da prefeitura), dádiva do vento, filha do algodão, desigual, injusta, violenta, retrato fiel da Belíndia, capital da gambiarra e do improviso, mesmo assim eu te amo pois me aceitaste como filho teu", gemeu alegre e triste. "Grato por mais um dia".

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/04/26. Vida & Arte. p.2.


segunda-feira, 4 de maio de 2026

A Casa Virou História e o Amor Virou Livro

Por Raymundo Netto (*)

Quando adolescente, voltando de ônibus do colégio para casa, no caminho me deparava com uma construção de arquitetura única: a "Itapuca Villa".

Deslumbrante, triste e abandonada, ela pertenceu a uma família importante da cidade. Trazia extensa varanda de madeira no andar superior, centrada com um frontão decorado em lambrequins, com mãos francesas e treliças, tudo sustentado por vigas também de madeira robusta e rodeada por muitas portas com bandeiras envidraçadas e coloridas. Não havia um dia sequer em que eu não me sentasse à janela, ansioso para revê-la.

Ao final dos anos 1980, a casa foi aos poucos desmontada, resistindo até ser demolida no início da década de 1990. Hoje, o terreno é ocupado por uma escola assombrada por insaciáveis cupins.

Alguns anos depois, em 2004 - quando já havia trocado a minha profissão pelo cinema, quadrinhos, artes gráficas, magistério e por outras fatalidades -, decidi cumprir a ingênua promessa de escrever sobre aquele absurdo: a demolição de tamanho patrimônio.

Foi quando conheci o sr. José Américo Lopes, um homem de 90 anos, portador de memória prodigiosa. Numa tarde preguiçosa em sua casa na Barão de Aratanha, no Centro, me confidenciou ter lembranças "daquela casa". Nela, dizia, vivera uma grande história de amor. "Como assim?", perguntei, incrédulo. Sorrindo, pediu à filha, Cristina, que nos trouxesse determinada pasta com papéis. Era a tal história, só que escrita por ele mesmo: "Você gostaria de ler?" Em seguida, me falou um pouco sobre o que encontraria ali. "Você já escreveu algum livro, meu filho?", perguntou-me. "Não, eu nunca", respondi, enquanto folheava com vagar algumas páginas datilografadas por Cristina. Ela, temendo por aquele material, advertiu: "Pai, nós não temos cópia..." Ele tentou tranquilizá-la: "Filha, eu confio no moço". Na pasta, também repousavam cartas antigas. Quando as toquei, ele imediatamente as pediu: "Não vai precisar delas. Deixe-as comigo". Entreguei-lhe as cartas. Ele as acolheu com sorriso afetuoso e delicado, como quem recebe uma joia, e tirou do peito um nome sussurrado: "Olívia". Com carinho, acomodou o maço no colo e arrematou: "A história toda está aqui".

Saí de sua casa tomado de curiosidade, porém nem tanto pelo original que trazia em mãos, mas pelas cartas, aquelas as quais não pude ler. Afinal, que segredos trariam?

Na época, eu morava na Vila Doutor Alencar, um conjunto de casas geminadas no Monte Castelo, onde as crianças brincavam na estreita rua e os vizinhos, ao entardecer, colocavam as cadeiras na calçada. Ali, naquela calçada, sentei-me em minha cadeira de palhinha e pus-me a ler "Um Conto no Passado", a história de Américo Lopes: "Eu era um menino como qualquer outro que crescia, até então, em pequena cidade de ruas descalçadas, a me entreter sentado no cume de frade-de-pedra, esquecido do mundo..." Incrível, a história me envolveu de tal forma que não consegui parar até a sua última página. Nela, encontrei aquele homem ainda garoto e o acompanhei pela vida afora: os dramas, conflitos, a juventude e o primeiro amor: Olívia! E o mais interessante é que, enquanto Américo narrava a sua trajetória, revelava uma outra paixão: a sua cidade. Sim, a grande personagem do livro.

Voltei a conversar com ele e decidimos publicá-lo. Assim, por meio de um edital público, a obra "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada" teve o seu primeiro lançamento em 2005, estando esgotada há bastante tempo.

Em 2026, passados 20 anos, a saga de Américo retorna em campanha de pré-venda, em edição comemorativa aos 300 anos de nossa Cidade. Você precisa conhecer esta que é a maior história de amor a Fortaleza de todos os tempos.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Vida & Arte, p.2.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Palestra da ACEMES: “Fortaleza: 300 Anos de História”

O Presidente da Academia Cearense de Médicos Escritores (ACEMES), o médico e professor Luiz Gonzaga de Moura Jr., conduziu na noite de ontem, 30 de abril de 2026 (quinra-feira), uma sessão cultural da ACEMES, em comemoração dos 300 anos de fundação da cidade de Foraleza, por meio da Palestra “Fortaleza: 300 Anos de História”.

A palestra em homenagem ao tricentenário da capital cearense foi pronunciada pelo historiador e professor Artur Bruno, ilustre consócio do Instituto do Ceará, que brindou a seleta audiência, de modo bem didático, com uma revisita geral da história do Ceará, focando mais especificamente a Fortaleza nos seus 300 anos de fundação.

Na oportunidade, dessa comemoração alusiva aos 300 anos de Fortaleza, foi apresentada e autografada a recente edição, ampliada e revisada, do livro-Breve História de Fortaleza, de autoria de Airton Farias e Artur Bruno.

O evento aconteceu no Auditório do Núcleo do Obeso do Ceará, situado na Avenida Antônio Sales, 1.540, em Fortaleza-CE, e contou com a participação de muitos acadêmicos da ACMES e de alguns convidados.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Academia Cearense de Médicos Escritores

*Postado no Blog do Marcelo Gurgel em 1º/05/2026.


quarta-feira, 29 de abril de 2026

COMEMORAÇÃO DO INSTITUTO DO CEARÁ ALUSIVA AOS 300 ANOS DE FORTALEZA

O Presidente do Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico), SERIDIÃO CORREIA MONTENEGRO, na noite de terça-feira passada (29 de abril de 2026), conduziu a solenidade comemorativa dos 300 anos de fundação Da cidade de Fortaleza.

A Mesa Diretora dos trabalhos contou, dentre outros, com as presenças do Presidente de Honra José Augusto Bezerra, do ex-presidente Lúcio Alcântara, do associado remido Miguel Ângelo (Nirez), do convidado oriundo de Sobral, o intelectual Luís Lira, da presidente da Sociedade Amigas do Livro Sra. Bernadete Bezerra, e do atual presidente Seridião Montenegro.

O elóquio em homenagem ao tricentenário da capital cearense comportou ao consócio Artur Bruno, que premiou a audiência, de forma bastante didática, com uma vista geral da história do Ceará, enfocando a Fortaleza nos seus 300 anos de fundação.

Os consócios Juarez Leitão, Marcelo Gurgel, Romeu Duarte, Henrique Braga, José Augusto Bezerra, Glória Diógenes e Nirez, com substanciais e oportunos comentários pertinentes à História de Fortaleza, enriqueceram a majestosa exposição do consociado Artur Bruno.

Na oportunidade, nessa comemoração alusiva aos 300 anos de Fortaleza, foi apresentado e autografado um livro-síntese da História de Fortaleza, de autoria de Airton Farias e Artur Bruno.

O Auditório Thomaz Pompeu Sobrinho foi abrilhantado pela larga participação de consócios do Instituto do Ceará.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Sócio do Instituto do Ceará


quinta-feira, 23 de abril de 2026

O feminino na irmandade da Santa Casa

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 14 de março, ao completar seus 165 anos de existência, a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza já tinha decidido, por aclamação da Assembleia Geral Ordinária, escolher a primeira mulher para ocupar a Provedoria da instituição, no triênio 2026-2029.

Destacamos essa característica de pioneirismo da Irmandade: na radiologia, obstetrícia, tratamento da tuberculose, serviço de urgência, além do apoio à Faculdade de Medicina do Ceará e ao Curso de Enfermagem das Vicentinas.

Historicamente, as mulheres estiveram presentes nessa história, seja pela figura da Rainha Dona Leonor de Viseu que, em Portugal, criou a primeira Santa Casa, seja aqui pelas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo (Irmãs Vicentinas), esteio do atendimento humanizado direto aos pacientes da Santa Casa, desde 1861.

Em 1943, com a criação da Escola de Enfermagem São Vicente de Paulo, com as Irmãs Vicentinas responsáveis pela sua direção, a Santa Casa de Fortaleza passou a funcionar como hospital-escola oficial, o que se manteve com a criação do Curso de Enfermagem da UFC.

Mas, a presença feminina vem desde os primeiros momentos, com as Irmãs Vicentinas presentes na estruturação da Irmandade e na sua consolidação, a partir das bases de enfermagem, humanização e assistência, antes mesmo da profissionalização.

No entanto, a visão patriarcal destinava aos homens os cargos de direção, apesar de ser um serviço que exige muito mais sensibilidade do que formação técnica, com uma visão mais humanizada, o que é mais característico do universo feminino.

Uma simples pesquisa da última relação dos 36 Mordomos, a chamada Mesa Administrativa da Irmandade, mostra a presença de apenas seis mulheres, nenhuma delas entre os oito ocupantes dos cargos da Provedoria.

Para a nova Mesa, foi ampliado esse número para nove mulheres e, o que é mais relevante, quatro ocupando cargos na Provedoria, encabeçadas pela Provedora Magda Busgaib, indício de maior sensibilidade no futuro desta Instituição. Afinal, o trabalho de Magda como a Mordomo responsável pelo Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo é disto um claro exemplo.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Opinião. p.20.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

DAS CARNAÚBAS....

Por Mário Mamede (*)

Em primeiro de julho de 2025 foi publicado no jornal O POVO matéria com bastante destaque acerca da morte de 50 Palmeiras na Beira Mar de Fortaleza, numa extensão de aproximadamente 1,6 km. Várias opiniões foram manifestadas por curiosos leigos, turistas, moradores próximos e de administradores da Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza - Urbfor.

Dentre os vários palpites e pitacos alguns apontaram que isso ocorreu porque não foram cuidadas adequadamente; faltou adubação e aguação; o sol é muito intenso; a estiagem foi prolongada...

Um botânico da Semace comentou que as mortes pudessem estar relacionadas a Doença do Bronzeamento Letal, causada por um inseto que se alimenta de sua seiva e ocasiona uma contaminação letal para a planta. Outros ainda comentaram dificuldades de transplantar uma planta já de médio porte ou mesmo mudas cultivadas fora do seu habitat em terrenos de baixios no semiárido nordestino.

Devo dizer que já viajei muito pelo Ceará e vi muitas carnaubeiras em convívio coletivo e mesmo, aqui e acolá, isoladamente, mas sempre na região do nosso sertão. Por outro lado, nunca vi uma carnaúba nascida ou plantada por praianos nas franjas do litoral cearense. E não fazem isso simplesmente porque sabem que essas plantas não são praieiras.

Outra reportagem nesse mesmo jornal, em 13 de janeiro recente, com manchete de chamada em primeira página dizia que as finadas carnaubeiras (aquelas da reportagem de Julho do ano passado, lembram?), ainda não tiveram os seus restos mortais retirados e estão à espera do órgão de paisagismo da PMF ou da empresa contratada para que tal faça a limpeza e providencie o plantio de outras carnaúbas logo que as chuvas começarem.

A questão não é chuva de mais ou de menos nem a culpa é do calor do sol. Se assim fosse não teríamos a riqueza de exuberantes coqueirais em nossas praias e nem das colônias de carnaubeiras enfeitando nossos baixios na paisagem do semiárido cearense. A questão é que devemos respeitar a natureza das plantas e as características dos seus lugares de moradia, seus habitats. Repetir o mesmo procedimento errado para chegar a um resultado desejável não é uma boa prática.

Seguramente é mais coerente fazer acertadas escolhas de plantas com copas frondosas, exuberantes, para nos beneficiarem com suas sombras acolhedoras, dos belos ipês e mesmo de árvores frutíferas para enfeitar nossa cidade e deixar que num futuro próximo a moçada se delicie com seus saborosos frutos.

(*) Médico ortopedista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/03/2026. Opinião. p.18.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A EQUAÇÃO DA CASA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Em muito boa hora, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dedicou a Campanha da Fraternidade de 2026 ao debate sobre a habitação. Com o lema "Fraternidade e moradia" e com um cartaz que traz, além de um sem-teto dormindo num banco de praça, um trecho do evangelho de João ("Ele veio morar entre nós"), a instituição lança luz sobre um tema complexo que mexe com a minha categoria profissional desde que o mundo é mundo. Estima-se que o déficit habitacional brasileiro é da ordem de 6 milhões de residências, o que alcança, em média, entre 24 a 30 milhões de pessoas, isso sem que se fale no gasto excessivo com o aluguel urbano e as inadequações habitacionais fruto do improviso na construção das moradas. Como se vê, é um assunto oportuno e adequado a ser tratado num ano eleitoral.

Contudo, a questão habitacional não se restringe à casa, mas a um universo mais ampliado, que envolve as regiões e as cidades. Tomemos a nossa Fortaleza como estudo de caso: com mais de 2,7 milhões de habitantes, é a quarta capital do País em população e a mais populosa do semiárido no mundo. Caucaia é o município cearense que vem logo atrás, com quase 380 mil almas. Por esses números vê-se que a disparidade é flagrante. Por sua vez, a Região Metropolitana de Fortaleza conta hoje com 19 municípios e concentra 44% da população do Ceará. A isso se chama metropolização descapitalizada, um corpo com uma cabeça grande demais e membros atrofiados. Nosso grande desafio é trabalhar para reforçar as cidades médias e evitar o êxodo que nos constrange.

Fortaleza tem hoje algo em torno de 700 mil pessoas em favelas ou comunidades urbanas, sendo a terceira no Brasil, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, sem que seja preciso dizer da ação de facções e milícias nessas áreas. Projetos de urbanização para esses setores da Cidade fazem-se mais que necessários, elaborados, contudo, com índices apropriados que não aqueles produzidos para a arquitetura convencional. Aliás, é fundamental compreender que, neste tema, se o número é importante, mais ainda é a qualidade do morar. Não podemos cair novamente na esparrela do Minha Casa Minha Vida (MCMV) priorizando a quantidade e esquecendo os valores e atributos espaciais. De outra parte, a casa carece de funções correlatas para ter sentido. Como fazer mil moradas no meio do nada?

Todo domingo, no caminho para o Raimundo do Queijo, encontro uma multidão de miseráveis na fila da sopa da Praça do Ferreira. Reflito de mim para comigo: Essas pessoas querem um lugar para morar ou desejam ter um espaço para guardar suas coisas, tomar banho e fazer as suas necessidades, dormir quando cansadas? Terão elas condições de bancar a moradia, pagar água, luz, IPTU? Lembro-me da experiência do Conjunto Santa Terezinha, no Vicente Pinzón, final dos anos de 1970. Cinco favelas foram eliminadas para a construção do tal conjunto. Pouco tempo depois, inadimplentes, as famílias voltaram para os seus barracos e as casas foram ocupadas por uma classe média empobrecida. É, pois, difícil a equação da casa, algo que envolve, além da casca, a gema do ovo.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/26. Vida & Arte. p.2.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Programação da Semana Santa na Paróquia São Vicente de Paulo – 2026

Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo:

pousaste sobre mim a tua mão, tua sabedoria é admirável".

“Mais que comum dos dias,

olhei o mais que pude os rostos

dos pobres, gastos pela fome,

esmagados pelas humilhações,

e neles descobri teu rosto,

Cristo Ressuscitado!”

Dom Hélder Câmara

PROGRAMAÇÃO

29/03/2026 (domingo): Procissão do Domingo de Ramos: às 8h.

• Solene Bênção dos Ramos – Logo em seguida, Procissão e Missa na Matriz de São Vicente.

•Outras Missas: 11h30min, 17h e 19h.

Todos devem levar ramos de palmeiras para a procissão.

30/03/2026 (segunda-feira santa): Celebração Penitencial: confissões individuais das 16h às 19h.

• Missas: 6h30min e 17h30min.

31/03/2026 (terça-feira santa): Celebração Penitencial: confissões individuais das 16h às 19h.

 • Missas – 6h30min e 17h30min.

1/04/2026 (quarta-feira santa): Celebração Penitencial: confissões individuais das 16h às 19h.

• Missas – 6h30min, 11h30min e 17h30min.

2/04/2026 (quinta-feira santa): Missa da Ceia do Senhor (Lava-pés). Transladação do Santíssimo Sacramento às 19h.

• Adoração até às 22h.

3/04/2026 (sexta-feira santa): Solene Comemoração da Paixão e Morte do Senhor, às 15h.

• Via Sacra – Conjunto São Vicente – 18h30 (Unijocc).

4/04/2026 (sábado): Sábado Santo: Solene Vigília Pascal às 18h.

• Celebração da luz; Bênção do Fogo, Procissão do Círio Pascal e Proclamação da Páscoa, Liturgia da Palavra, Bênção da Água Batismal e Eucaristia.

5/04/2026 (domingo): Missa do Cristo Ressuscitado.

Missa às 6h30min). 

• Outras Missas: 9h, 11h30min (coral e orquestra), 17h e 19h.

Feliz Páscoa a todos!

Pároco: Pe. Sávio

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Paroquiano de São Vicente de Paulo


JOIAS DA FORTALEZA DE 300 ANOS

Por Izabel Gurgel (*)

Seu Miguel, minha melhor fonte de sapotis na Cidade. Tem banca à esquerda da porta da Leão do Sul, na Praça do Ferreira, de segunda a sábado.

Na praça, dar-se conta que o São Luiz não virou estacionamento, igreja ou loja de produtos cada vez mais desqualificados. Festejar o feito. Sentir a incidência de política pública sobre a vida da gente. Sentar no térreo e, antes de começar o programa da vez, voltar ao primeiro filme visto ali, nos altos: "Quando o coração bate mais forte". Cada qual guarda como pode uma caixinha de primeiras vezes.

No Centro, em direção à praça ou dela saindo, ir pelo antigo Beco, atual rua do Pocinho, só fruindo da brisa, Anarina. E apreciar o céu entre o Palácio Progresso de um lado e a coluna de cubos vermelhos do outro plantadinha pelo escultor Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). "Olha pro céu, meu amor". O térreo externo do Palácio do Progresso é um elogio ao vento. Fica à beira do Pajeú, que um dia poderá voltar como referência de vida, feito o São Luiz. O projeto do prédio (1964-1969) é do prof. Liberal de Castro (1926-2022). Anos depois, a pedido de Cláudio Pereira, então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, o professor sugere 13 de abril para data de aniversário da Cidade. Ao contar por escrito sobre a sugestão, diz: "a cidade é uma dádiva do vento".

No Centro, no alto de ruas como a Senador Pompeu ou Barão do Rio Branco, ver o mar ao tempo da surpresa do vento. Pode-se ampliar a sensação saindo da capela da Santa Casa de Misericórdia, na calçada, conspirar por um segundo sobre ter mais árvores no meio do nosso mundo, como o pedaço sobrevivente do Passeio Público. Passa em frente ao Passeio o ônibus para a Floresta. É a linha 106.

Imenso Liberal de Castro, das iniciativas, nos anos de 1960, de tombamentos da Casa de José de Alencar e do Theatro José de Alencar. Integrada à UFC, a Casa guarda o nosso mais precioso acervo de rendas. Conspiração em curso: levar rendeiras dos quatro cantos do Ceará para conhecer as coleções que elas podem ampliar com suas histórias e trabalhos. Uma escola de apreciação do fio da vida feito poesia tátil. Conhece? Já esteve lá?

O TJA, flor do algodão em renda de ferro prêt-à-porter, tem uma singularidade no desenho. Do palco dá pra ver a rua, o lugar mais importante de uma cidade (repito Leminski). Um teatro banhado de sol, desde a reabertura em janeiro de 1991, depois do segundo restauro integral, tem quase todos os espaços experimentados com uso cênico, para apresentações artísticas. À espera de um restauro, é como as mais finas joias: só têm sentido se forem usadas. São nossos usos que o mantém. Assim como não é possível hoje pensar o TJA sem o jardim de um lado e o prédio anexo do outro, não dá para separar teatro e praça. Silêda Franklin chama de ciclorama verde a cascata de thumbergia no jardim. Natureza é cultura.

A graça das joias, penso eu, é o uso público. Como faz o maracatu Rei de Paus. Esplende. Na rua.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/03/26. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Desafios da educação na Região Metropolitana de Fortaleza 2

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), instituída em 1973, agrega um conjunto de 19 municípios (Aquiraz, Cascavel, Caucaia, Chorozinho, Eusébio, Fortaleza, Guaiúba, Horizonte, Itaitinga, Maracanaú, Maranguape, Pacajus, Pacatuba, Paracuru, Paraipaba, Pindoretama, São Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu e Trairi). Sua criação coincidiu com iniciativas semelhantes voltadas à integração do planejamento e da organização de municípios espacialmente próximos das capitais. Um dos objetivos era mitigar o crescimento desordenado resultante de fatores diversos, dentre eles o êxodo rural e a industrialização.

Passados mais de 50 anos de seu surgimento, imensos desafios persistem na região, a maioria dos quais associados às desigualdades de infraestrutura e desenvolvimento entre a capital e os municípios adjacentes. Dentre esses cabe assinalar a segurança pública, a mobilidade e o transporte urbano, o saneamento básico, habitação e educação. Aprofundemos este último aspecto.

Em termos de matrículas na educação básica, a RMF responde por 42% da oferta total do Estado, com 913.559 alunos em 2024 (INEP, 2024). Das matrículas públicas, 51% situam-se nas redes municipais e 19% na rede estadual.

No que se refere ao número de estabelecimentos de ensino, a RMF possui 2.466 escolas, sendo 1.132 (46%) municipais e 284 (12%) estaduais. O quadro docente é composto de 28.781 professores, sendo 21.054 pertencentes às redes municipais e 8.067 docentes da rede estadual. Quanto ao vínculo de trabalho, 56% dos professores das redes municipais e 48% da rede estadual são concursados.

Os dados apresentados mostram a complexidade do recorte territorial, seja em termos de quantidade de municípios com contextos socioeconômicos, territoriais e educacionais diversos, como no que diz respeito as capacidades estatais para implementação de políticas educacionais.

Estudos sobre aspectos relacionados aos indicadores educacionais mais relevantes como taxas de rendimento, distorção idade-ano, organização da oferta por rede, permitirão melhor compreender os desafios educacionais dessa complexa região.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/02/26. Opinião. p.18.

 

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