Por Heitor
Férrer (*)
É muito comum, no meu consultório, ouvir de
muitos de meus pacientes que não podem mais votar. Imediatamente, pergunto
"por que?". A resposta é automática: "não posso mais votar,
doutor, porque completei 70 anos". Isso revela um equívoco disseminado
entre a nossa população, principalmente, nos que atingem a terceira idade.
Acham que perderam o direito ao voto, como se fossem anulados do processo
eleitoral, quando, na verdade, deveria ser o contrário, com mais experiência,
melhores escolhas.
Nunca é demais explicar e faço isso com
todas as pessoas que dizem não mais poder votar porque completaram70 anos, que
o voto apenas deixa de ser obrigatório, mas continua sendo voluntário,
permitido e importante. O mais grave desse sentimento comum é que muitos
cidadãos e cidadãs simplesmente deixam de votar, abrindo mão de um item
importantíssimo de sua cidadania, que é a de participar das decisões eleitorais
de sua cidade, do seu estado e do seu país.
Para fortalecer os meus argumentos e
convencimento, digo a eles que quem não pode votar são apenas os menores de 16
anos. Completados os 16 anos, até a morte, o direito ao voto é garantido pela
Constituição brasileira.
Abraço a iniciativa do Ministério Público,
em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral, a Ordem dos Advogados do Brasil
e a Prefeitura de Fortaleza, que tem intensificado campanhas de cidadania para
divulgar que o direito ao voto não se acaba aos 70 anos e que essas pessoas garantam
a sua atividade plena nos processos de eleição em todas as esferas de poder. O
objetivo, ressaltam os órgãos, é reinserir a população da terceira idade no
processo eleitoral de escolha democrática dos seus governantes.
Do ponto de vista psicológico e social,
quando o cidadão encarna a ideia de que não pode mais votar, ele acaba se
afastando ainda mais da vida pública, do destino de onde mora, caindo numa
marginalização cômoda, porque, para muitos, ir às constitui sacrifício. Não
sabem eles que estão se anulando em vida.
Devemos ser pedagógicos nesse tema, fazendo
todo o esforço de convencimento para que as pessoas a partir dos 70 anos não
deixem de votar por desinformação, diminuindo a sua cidadania. O voto continua
sendo a mais legitima, importante e poderosa ferramenta para defender posições
e influenciar os rumos da política local, regional e nacional.
Em um país que envelhece rapidamente e que,
muito em breve, terá mais idosos do que jovens em sua população, é urgente
estimular a participação das pessoas com mais de 70 anos no processo eleitoral
para que políticas públicas sejam construídas de forma a atender às suas reais
necessidades. Garantir essa participação é essencial para a efetivação dos direitos
da pessoa idosa.
A cidadania não se acaba aos 70 anos.
(*) Médico
e deputado estadual (Solidariedade).
Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/03/26. Opinião. p.19.

Nenhum comentário:
Postar um comentário