quinta-feira, 9 de abril de 2026

A cidadania não se acaba aos 70...

Por Heitor Férrer (*)

É muito comum, no meu consultório, ouvir de muitos de meus pacientes que não podem mais votar. Imediatamente, pergunto "por que?". A resposta é automática: "não posso mais votar, doutor, porque completei 70 anos". Isso revela um equívoco disseminado entre a nossa população, principalmente, nos que atingem a terceira idade. Acham que perderam o direito ao voto, como se fossem anulados do processo eleitoral, quando, na verdade, deveria ser o contrário, com mais experiência, melhores escolhas.

Nunca é demais explicar e faço isso com todas as pessoas que dizem não mais poder votar porque completaram70 anos, que o voto apenas deixa de ser obrigatório, mas continua sendo voluntário, permitido e importante. O mais grave desse sentimento comum é que muitos cidadãos e cidadãs simplesmente deixam de votar, abrindo mão de um item importantíssimo de sua cidadania, que é a de participar das decisões eleitorais de sua cidade, do seu estado e do seu país.

Para fortalecer os meus argumentos e convencimento, digo a eles que quem não pode votar são apenas os menores de 16 anos. Completados os 16 anos, até a morte, o direito ao voto é garantido pela Constituição brasileira.

Abraço a iniciativa do Ministério Público, em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Prefeitura de Fortaleza, que tem intensificado campanhas de cidadania para divulgar que o direito ao voto não se acaba aos 70 anos e que essas pessoas garantam a sua atividade plena nos processos de eleição em todas as esferas de poder. O objetivo, ressaltam os órgãos, é reinserir a população da terceira idade no processo eleitoral de escolha democrática dos seus governantes.

Do ponto de vista psicológico e social, quando o cidadão encarna a ideia de que não pode mais votar, ele acaba se afastando ainda mais da vida pública, do destino de onde mora, caindo numa marginalização cômoda, porque, para muitos, ir às constitui sacrifício. Não sabem eles que estão se anulando em vida.

Devemos ser pedagógicos nesse tema, fazendo todo o esforço de convencimento para que as pessoas a partir dos 70 anos não deixem de votar por desinformação, diminuindo a sua cidadania. O voto continua sendo a mais legitima, importante e poderosa ferramenta para defender posições e influenciar os rumos da política local, regional e nacional.

Em um país que envelhece rapidamente e que, muito em breve, terá mais idosos do que jovens em sua população, é urgente estimular a participação das pessoas com mais de 70 anos no processo eleitoral para que políticas públicas sejam construídas de forma a atender às suas reais necessidades. Garantir essa participação é essencial para a efetivação dos direitos da pessoa idosa.

A cidadania não se acaba aos 70 anos.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/03/26. Opinião. p.19.

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