Por Pe. Eugênio
Pacelli SJ
(*)
Março chega envolto em uma pedagogia
silenciosa. Não traz ainda o júbilo da Páscoa nem a densidade da Semana Santa,
mas carrega algo essencial: o convite à interioridade.
A liturgia parece sussurrar à pressa
contemporânea uma verdade antiga — não há ressurreição sem travessia, nem luz
duradoura sem que a alma atravesse suas próprias sombras.
A Quaresma, por vezes reduzida a
renúncias externas, é, em sua essência, um tempo de realinhamento interior.
Mais do que abdicar de hábitos, trata-se de reaprender a escutar: a própria
consciência, tantas vezes soterrada pelo ruído; o outro, cuja dor raramente
encontra espaço; e Deus, cuja voz não disputa volume, mas profundidade.
Vivemos sob a lógica da saturação.
Informações, estímulos e opiniões se acumulam em ritmo vertiginoso. Nunca se
falou tanto e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil cultivar silêncio. No
entanto, é no silêncio que a vida espiritual respira. É nele que emergem
verdades incômodas, que feridas pedem cuidado, que intenções se purificam. Sem
essa pausa, corre-se o risco de viver apenas na superfície de si mesmo.
Preparar-se para a Semana Santa é
acolher o movimento de descida que o Evangelho propõe. Não há atalhos para a
Páscoa. O Cristo ressuscitado é o mesmo que passou pelo deserto, pela
incompreensão e pela cruz. A lógica quaresmal não é de tristeza, mas de lucidez.
Recorda que a transformação exige coragem, que a conversão é menos emoção e
mais decisão.
Talvez o maior desafio deste tempo não
seja apenas "abrir mão", mas abrir espaço. Espaço para a oração que
não cabe entre notificações, para a reflexão que não se acomoda em respostas
rápidas, para encontros que não se medem em produtividade. A Quaresma educa
para essa reorganização invisível, onde o essencial retoma o centro.
No fim, a pergunta é inevitável: que
Páscoa pode florescer em uma alma que nunca silencia, nunca desacelera, nunca
se revê? Março oferece a resposta na forma de convite. Não ao isolamento, mas à
consciência. Não à rigidez, mas à conversão. Porque toda verdadeira
ressurreição começa, inevitavelmente, dentro.
(*) Sacerdote
jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de
Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.
Fonte: O Povo, de 7/03/2026. Opinião. p.18.

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