Por
Romeu Duarte Junior (*)
Em muito boa hora, a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) dedicou a Campanha da Fraternidade de 2026 ao
debate sobre a habitação. Com o lema "Fraternidade e moradia" e com
um cartaz que traz, além de um sem-teto dormindo num banco de praça, um trecho
do evangelho de João ("Ele veio morar entre nós"), a instituição
lança luz sobre um tema complexo que mexe com a minha categoria profissional
desde que o mundo é mundo. Estima-se que o déficit habitacional brasileiro é da
ordem de 6 milhões de residências, o que alcança, em média, entre 24 a 30
milhões de pessoas, isso sem que se fale no gasto excessivo com o aluguel
urbano e as inadequações habitacionais fruto do improviso na construção das
moradas. Como se vê, é um assunto oportuno e adequado a ser tratado num ano
eleitoral.
Contudo, a questão habitacional não se
restringe à casa, mas a um universo mais ampliado, que envolve as regiões e as cidades.
Tomemos a nossa Fortaleza como estudo de caso: com mais de 2,7 milhões de
habitantes, é a quarta capital do País em população e a mais populosa do
semiárido no mundo. Caucaia é o município cearense que vem logo atrás, com
quase 380 mil almas. Por esses números vê-se que a disparidade é flagrante. Por
sua vez, a Região Metropolitana de Fortaleza conta hoje com 19 municípios e
concentra 44% da população do Ceará. A isso se chama metropolização
descapitalizada, um corpo com uma cabeça grande demais e membros atrofiados.
Nosso grande desafio é trabalhar para reforçar as cidades médias e evitar o
êxodo que nos constrange.
Fortaleza tem hoje algo em torno de 700 mil
pessoas em favelas ou comunidades urbanas, sendo a terceira no Brasil, atrás
apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, sem que seja preciso dizer da ação de
facções e milícias nessas áreas. Projetos de urbanização para esses setores da
Cidade fazem-se mais que necessários, elaborados, contudo, com índices
apropriados que não aqueles produzidos para a arquitetura convencional. Aliás,
é fundamental compreender que, neste tema, se o número é importante, mais ainda
é a qualidade do morar. Não podemos cair novamente na esparrela do Minha Casa
Minha Vida (MCMV) priorizando a quantidade e esquecendo os valores e atributos
espaciais. De outra parte, a casa carece de funções correlatas para ter
sentido. Como fazer mil moradas no meio do nada?
Todo domingo, no caminho para o Raimundo do
Queijo, encontro uma multidão de miseráveis na fila da sopa da Praça do
Ferreira. Reflito de mim para comigo: Essas pessoas querem um lugar para morar
ou desejam ter um espaço para guardar suas coisas, tomar banho e fazer as suas
necessidades, dormir quando cansadas? Terão elas condições de bancar a moradia,
pagar água, luz, IPTU? Lembro-me da experiência do Conjunto Santa Terezinha, no
Vicente Pinzón, final dos anos de 1970. Cinco favelas foram eliminadas para a
construção do tal conjunto. Pouco tempo depois, inadimplentes, as famílias
voltaram para os seus barracos e as casas foram ocupadas por uma classe média
empobrecida. É, pois, difícil a equação da casa, algo que envolve, além da
casca, a gema do ovo.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/26. Vida & Arte. p.2.

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