segunda-feira, 6 de abril de 2026

A EQUAÇÃO DA CASA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Em muito boa hora, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dedicou a Campanha da Fraternidade de 2026 ao debate sobre a habitação. Com o lema "Fraternidade e moradia" e com um cartaz que traz, além de um sem-teto dormindo num banco de praça, um trecho do evangelho de João ("Ele veio morar entre nós"), a instituição lança luz sobre um tema complexo que mexe com a minha categoria profissional desde que o mundo é mundo. Estima-se que o déficit habitacional brasileiro é da ordem de 6 milhões de residências, o que alcança, em média, entre 24 a 30 milhões de pessoas, isso sem que se fale no gasto excessivo com o aluguel urbano e as inadequações habitacionais fruto do improviso na construção das moradas. Como se vê, é um assunto oportuno e adequado a ser tratado num ano eleitoral.

Contudo, a questão habitacional não se restringe à casa, mas a um universo mais ampliado, que envolve as regiões e as cidades. Tomemos a nossa Fortaleza como estudo de caso: com mais de 2,7 milhões de habitantes, é a quarta capital do País em população e a mais populosa do semiárido no mundo. Caucaia é o município cearense que vem logo atrás, com quase 380 mil almas. Por esses números vê-se que a disparidade é flagrante. Por sua vez, a Região Metropolitana de Fortaleza conta hoje com 19 municípios e concentra 44% da população do Ceará. A isso se chama metropolização descapitalizada, um corpo com uma cabeça grande demais e membros atrofiados. Nosso grande desafio é trabalhar para reforçar as cidades médias e evitar o êxodo que nos constrange.

Fortaleza tem hoje algo em torno de 700 mil pessoas em favelas ou comunidades urbanas, sendo a terceira no Brasil, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, sem que seja preciso dizer da ação de facções e milícias nessas áreas. Projetos de urbanização para esses setores da Cidade fazem-se mais que necessários, elaborados, contudo, com índices apropriados que não aqueles produzidos para a arquitetura convencional. Aliás, é fundamental compreender que, neste tema, se o número é importante, mais ainda é a qualidade do morar. Não podemos cair novamente na esparrela do Minha Casa Minha Vida (MCMV) priorizando a quantidade e esquecendo os valores e atributos espaciais. De outra parte, a casa carece de funções correlatas para ter sentido. Como fazer mil moradas no meio do nada?

Todo domingo, no caminho para o Raimundo do Queijo, encontro uma multidão de miseráveis na fila da sopa da Praça do Ferreira. Reflito de mim para comigo: Essas pessoas querem um lugar para morar ou desejam ter um espaço para guardar suas coisas, tomar banho e fazer as suas necessidades, dormir quando cansadas? Terão elas condições de bancar a moradia, pagar água, luz, IPTU? Lembro-me da experiência do Conjunto Santa Terezinha, no Vicente Pinzón, final dos anos de 1970. Cinco favelas foram eliminadas para a construção do tal conjunto. Pouco tempo depois, inadimplentes, as famílias voltaram para os seus barracos e as casas foram ocupadas por uma classe média empobrecida. É, pois, difícil a equação da casa, algo que envolve, além da casca, a gema do ovo.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/26. Vida & Arte. p.2.


Nenhum comentário:

 

Free Blog Counter
Poker Blog