quinta-feira, 13 de agosto de 2026

QUANDO O GLOBAL ENCONTRA O LOCAL

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Para além dos territórios nacionais, as políticas educacionais contemporâneas circulam globalmente. Neste cenário orientações de organismos internacionais com foco em direitos, inclusão, equidade e sustentabilidade convivem com políticas de avaliação externa e controle de resultados, fenômeno que alguns estudiosos têm denominado de "datificação". Essas ideias, nem sempre convergentes, atravessam fronteiras e chegam às mais diferentes realidades, incluindo as escolas.

Ao aportar no Brasil, tais iniciativas ganham relevo. O país, entretanto, nunca foi um terreno de simples reprodução de políticas. Nosso sistema federativo constitui uma realidade complexa onde União, Estados e Municípios compartilham responsabilidades e preservam margens de autonomia.

Assim, no âmbito local, as políticas globais são apropriadas, negociadas e recriadas. A homogeneidade de formulações globais perde terreno para a heterogeneidade de políticas locais em ambientes marcados por tensões e contradições.

Seus avanços educacionais resultam de políticas locais consistentes de cooperação, avaliação e fortalecimento das redes municipais. As iniciativas, contudo, não chegam a todos os municípios da mesma forma. Embora compartilhem diretrizes comuns, estes constroem caminhos próprios, definem prioridades distintas e inventam diferentes formas de governar a educação.

Em alguns casos, traços do velho clientelismo persistem e imprimem marcas a políticas supostamente novas. Pesquisa recente sobre o tema, cujos resultados estão reunidos no livro "Desafios da Educação na Região Metropolitana de Fortaleza", permitiu perceber que não existe uma única experiência metropolitana, mas múltiplas formas de traduzir orientações comuns em políticas concretas.

A heterogeneidade é, pois, incorporando sentidos tanto das políticas globais quanto da singularidade de suas invenções. A experiência do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), que o Ceará vem exportando para o mundo, é uma evidência virtuosa do encontro entre o global e o local

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


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