Por Sofia Lerche Vieira (*)
Para além dos territórios nacionais, as
políticas educacionais contemporâneas circulam globalmente. Neste cenário
orientações de organismos internacionais com foco em direitos, inclusão,
equidade e sustentabilidade convivem com políticas de avaliação externa e
controle de resultados, fenômeno que alguns estudiosos têm denominado de
"datificação". Essas ideias, nem sempre convergentes, atravessam
fronteiras e chegam às mais diferentes realidades, incluindo as escolas.
Ao aportar no Brasil, tais iniciativas
ganham relevo. O país, entretanto, nunca foi um terreno de simples reprodução
de políticas. Nosso sistema federativo constitui uma realidade complexa onde
União, Estados e Municípios compartilham responsabilidades e
preservam margens de autonomia.
Assim, no âmbito local, as políticas
globais são apropriadas, negociadas e recriadas. A homogeneidade de formulações
globais perde terreno para a heterogeneidade de políticas locais em ambientes
marcados por tensões e contradições.
Seus avanços educacionais resultam de
políticas locais consistentes de cooperação, avaliação e fortalecimento das
redes municipais. As iniciativas, contudo, não chegam a todos os municípios da
mesma forma. Embora compartilhem diretrizes comuns, estes constroem caminhos
próprios, definem prioridades distintas e inventam diferentes formas de
governar a educação.
Em alguns casos, traços do velho
clientelismo persistem e imprimem marcas a políticas supostamente novas.
Pesquisa recente sobre o tema, cujos resultados estão reunidos no livro
"Desafios da Educação na Região Metropolitana de Fortaleza", permitiu
perceber que não existe uma única experiência metropolitana, mas múltiplas
formas de traduzir orientações comuns em políticas concretas.
A heterogeneidade é, pois, incorporando
sentidos tanto das políticas globais quanto da singularidade de suas invenções.
A experiência do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), que o Ceará vem
exportando para o mundo, é uma evidência virtuosa do encontro entre o global e
o local
(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora
da FGV-RJ.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26.
Opinião. p.18.

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