Por
Romeu Duarte Junior (*)
Aos meus amigos do Colégio Cearense
O ano de 2026 é, para mim, motivo de dupla
comemoração. Em 1966, há 60 anos, fui matriculado com muita dificuldade por
meus pais no Colégio Cearense Sagrado Coração. O empecilho não era porque eu
fosse um péssimo aluno, mal educado, traquinas e respondão e sim porque, como
era à época a melhor instituição de ensino pública e privada do Ceará, cobrava
caro de quem queria lá estudar e meus pais eram de classe média rasteira. Ao
contrário: vinha de um começo de primário muito bem feito no Grupo Escolar
Visconde do Rio Branco onde fiz o jardim de infância, a alfabetização (foi a
minha mãe que lá ensinava que me alfabetizou, um charme, não?) e o primeiro ano
primário. Agora iria enfrentar o segundo ano, de farda azul e branco, todo
orgulhoso de mim mesmo.
Quase todo dia, logo cedo de manhã e antes
do início das aulas, cantávamos os hinos do Brasil e do colégio. Até hoje
ressoa em meus ouvidos aquela saudosa canção, cuja letra sei de cor:
"Mocidade do Colégio Marista, à sombra do estandarte de Maria...". A
educação era de alta qualidade e o sistema disciplinar rigoroso, às vezes
injusto. Nossas mestras eram carinhosas e colaborativas, mas sabiam torcer o
pepino na hora certa. O tempo do latim e da palmatória já havia passado, mas a
pesada carga horária de estudo, a árdua cobrança e as provas difíceis não eram
brinquedo. O primário passou bem rápido, momento em que fiz amizades para toda
uma vida. O ginásio nos aguardava, com mais desafios. Não temíamos o que viria,
pois nosso lema, como no hino, era, "lutar e vencer".
Em 1973, na 4ª série ginasial, o colégio,
que só tinha alunos, passou a operar em regime misto, razão da nossa súbita
felicidade. As meninas passavam rindo e isso nos enchia de alegria. Foi quando
conheci aquele que seria o professor que mais me marcou naquele tempo: Onélio
Porto. Além de ensinar diversas disciplinas, era o mentor do Combinado nas
Olimpíadas Champagnat e ainda tinha agenda para sair no Maracatu Ás de Ouro no
Carnaval e cuidar do zoológico que existia na Cidade das Crianças. Nossos interesses,
assim como as espinhas nas nossas caras, aumentaram: futebol, rock'n'roll e as
meninas, entre outros. Tal como o primário, o ginásio voou. Agora a tarefa
seria encarar o científico e se preparar para o vestibular. Queria ser
engenheiro, o que acabei não sendo...
Biologia, Física, Matemática, Português,
Química. Naquela época não havia prova de redação; todavia, se houvesse, não
haveria problema. No 3º ano, o cursinho, tal como era chamado, entraram vários
alunos do Colégio Militar. Em 1976, portanto há 50 anos, terminamos nossa
passagem no colégio, sabidos e aplicados, porém ingênuos. Fiz o exame para ser
aceito na Universidade Federal do Ceará (UFC). Fui aprovado para engenharia
entre os primeiros. Depois prestei vestibular mais duas vezes e entrei na
arquitetura, onde me achei. O resto é história. Minhas lembranças do colégio
são doces e amargas, aquelas em muito maior número que estas. Ficam as marcas
de uma formação bastante qualificada, e que até hoje me serve, e a da severa
disciplina. Moldou-me tal como sou, por Deus, pela pátria e por Maria...
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/26. Vida & Arte. p.2.

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