Por
Izabel Gurgel (*)
Antes da última pandemia, a DJ Renatinha
viajou com radiola e dois engradados de discos de vinil. Projeto "Long
Play em Feiras e Romarias".
Em Juazeiro do Norte, radialistas subiram o
Horto, levando discos para ouvir e conversar com ela. Em Canindé, cada fã de
Roberto Carlos, mexendo nos discos, tinha pelo menos uma história coalhada de
detalhes para contar para a DJ.
Na feira de Messejana, um adolescente se
surpreendeu com Fiuk na capa de 'uma coisa tão antiga como aquela'. Era o pai
do rapaz, Fábio Júnior, galã, galã na capa de um LP.
Na feira do Crato, a banca da DJ era perto
da venda de farinha de mandioca dos irmãos Aniceto, da mais festejada banda
cabaçal do Ceará.
Em Limoeiro do Norte, a filha do
colecionador de música Osmar Onofre ficou in-vi-sí-vel por horas. Era o
encontro de mestras e mestres da cultura tradicional popular e a banca da DJ
parecia ter um ímã a atrair gente de todas as idades, de menos de oito a mais
de oitenta. O lugar mais perto dela era depois de pencas de pessoas em rodas
concêntricas, cada uma com sete vidas. Não arredaram pé. A brincadeira era
pedir uma música e sair. Cadê que saía?
Quem não conhecia, queria saber como
funcionava aquilo que aterrissara ali, direto de outro mundo. Lindo ver o mói
de crianças de olhos arregalados, boca aberta e todo o interesse do mundo pelo
que não conheciam. Conhecedores de LPs queriam fruir da presença da DJ, levá-la
para outros terreiros, passear com ela mostrando o que ela mostrava, abrir
velhos guarda-roupas cheios de discos doidos para serem ouvidos.
A banca-biblioteca sonora ambulante virou
brinquedo. A quase dizer que valia por um parque de diversões todinho. Os
discos rodando, rodando, passando de mão em mão, cada criatura contando do que
lhe tocava, a bem dizer uma audiência sem ouvintes. Toda a gente dizia de si e
de mundos.
No caminho, Pentecoste, Barbalha, outros
lugares, e em cada parada uma cacimba de histórias parecia sair pela primeira
vez para passear.
Ficou na memória a fila crescente,
esticando, perto do museu-casarão-azul do Horto. Foi passando de boca em boca
que, dentre os livros junto à banca da DJ, havia um que era botija desejada.
Peregrinação. Naquela manhã, todo tato do
mundo se dedicou a apreciar "O Rei e o Baião", livro grande como bolo
de tabuleiro. É um projeto contemplado pelo Ministério da Cultura via Fundo
Nacional da Cultura e Instituto Brasileiro de Museus. Publicação da Fundação
Athos Bulcão, Brasília, 2010. Organização: Bené Fonteles.
A foto da capa, do Seu (nosso) Chico
Albuquerque (1917-2000), é Luiz Gonzaga (1912-1989) em preto e branco,
estralando de vida, mais feliz do que sanfona chamando dança.
É livro de muitas vozes (textos, xilos,
fotos, em ensaios encarte). Vou citar só duas, das professoras Elba Braga
Ramalho e Sulamita Vieira, autoras também de publicações como "Luiz
Gonzaga: a síntese poética e musical do sertão" e "Velhos
Sanfoneiros".
Os livros cantam.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo,
de 2/08/26. Vida & Arte, p.2.

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