Por
Romeu Duarte Junior (*)
Parece letra de canção ou nome de novela,
mas é, nada mais, nada menos, do que a pura verdade. Quem ama alguém, um bicho,
uma planta, qualquer coisa, cuida dela com afinco. Observo da janela do meu
escritório a moça, lata de coca-cola numa mão e um saco plástico na outra,
passeando na calçada com seu lulu da Pomerânia, cachorrinho peludo e afetado.
Chama-o de "docinho", toma-o nos braços, beija seu nariz e sua boca.
De repente, o animal late e fica naquela posição do Napoleão quando perdeu a guerra.
A moça se abaixa, recolhe com o saco plástico o 02 que o lulu depositou e joga
a lata de refrigerante vazia (ou melhor, seca, como dizem os cearenses) no meu
pobre jardim. "Poderia ser pior", alguém poderia dizer. Ah, Dusek,
"troque seu cachorro por uma criança pobre"...
Todavia, divago um pouco. Usei todo esse
introito para falar de uma situação que me preocupa e acabei fazendo piada de
um instantâneo do existir. Se sobra afeto na relação da moça com seu cãozinho,
falta a consideração dela para com os outros. Vivemos fechados nos nossos
universos-bolhas e não damos sequer a mínima para quem está fora desses
territórios. O chato foi o fato dela ver o meu sofrido garden como uma lixeira,
indigna de receber os dejetos do seu doguinho de estimação. Esses problemas
acontecem em escalas variadas e me têm tirado o sono. Egoístas e cheios de si,
cuidamos com antolhos do nosso mundinho e esquecemos que a vida comunitária é
toda composta por conexões e liames de todo tipo. Tudo junto e misturado, como
dizem os cantores de forró.
Falo do grave descaso com que tratamos o
planeta Terra. Um exemplo disso é que não estamos nem aí para o aquecimento
global. Continuamos queimando gasolina, cortando árvores e lançando toneladas
de gás carbônico na atmosfera. Os negacionistas da ciência parecem ter ganho a
batalha final. Nossa nave-mãe já começa a dar mostras do seu aborrecimento e
impaciência para conosco. São ou não são claros os indícios desse esgotamento
os recentes terremotos havidos na Venezuela, no Japão e nos EUA (Califórnia), todos
de elevadas magnitudes e causadores de milhares de mortes? Na semana passada,
no miúdo Nepal, na fronteira que faz com a China e o Tibete, o derretimento de
uma geleira causou uma avalanche que arrasou cidades inteiras e muitas
famílias. Ninguém vê isso?
Do nosso Cearazinho de açúcar, ou de fel,
como queiram, chegam-nos notícias, no mínimo, curiosas. Neste célere 2026, que
corre a se perder de vista, foram registradas temperaturas de 13,3º C e 18,9º
C, respectivamente, em Aiuaba e Poranga, duas urbes representantes do nosso
mais que semiárido Inhamuns. É como diria, na sua sertaneja sabedoria,
acocorado na rodagem, o nosso matuto: "É o fim das eras". E los
niños, o garoto e a garota, virão aquecendo a água do Oceano Pacífico
Equatorial a mais de mil neste ano, complicando ainda mais o quadro. Já, já
entraremos nos b-r-o bros, tempo de quentura e chuva de caju, que já era para
ter começado neste agosto/desgosto, antes da campanha política. Só me resta
pedir que Deus nos salve. Muito antes da política e da seca.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/08/26. Vida & Arte. p.2.

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