Por jornalista Cláudio Ribeiro,
de O Povo.
Religioso calou ministro da ditadura,
foi refém em rebelião, mediou conflitos, recusou comenda
Os primeiros anos de bispado de dom
Edmilson da Cruz coincidiram com o tempo inicial da ditadura militar no País. É
conhecida a história, já muitas vezes recontada por ele, quando, após uma missa
na capital maranhense em que pregou contra os abusos do regime, foi interpelado
asperamente pelo então líder do governo na Assembleia Legislativa. O entrevero
começou dentro da igreja e seguiu para a calçada.
Dom Edmilson não aceitou as ofensas e
apontou o dedo em riste para o parlamentar. "Cheguei a tocar no rosto dele", recorda-se. E devolveu o tom
rude com um fraseado potente: "Saiba que quem não é bem recebido não é líder de ninguém, porque não é
líder nem de si mesmo".
O religioso não retraiu o peito nem a voz para externar sua opinião sobre o
regime. O deputado levou o recado na sacola.
O sacerdote peitou também o então
ministro da Justiça do governo Garrastazu Médici, Alfredo Buzaid, durante uma
assembleia dos bispos brasileiros. Buzaid, que chefiou a pasta de 1969 a 1974,
era ferrenho defensor do AI nº 5, de dezembro de 1968. Foi o mais pesado dos
atos institucionais que cassaram direitos civis no período ditatorial.
O ministro fazia discursos e
declarações negando a prática da tortura contra presos políticos no Brasil. Na
frente de muitos, dom Edmilson o rebateu durante a reunião dos bispos e disse
que "a ditadura não podia ser ubíqua, que
era uma realidade",
referindo-se ao regime atacar generalizadamente quem o contestasse. Buzaid
teria deixado a sala calado, constrangidamente.
Pelas causas humanitárias, dom
Edmilson não media os riscos que corria. "Eu não vejo muita coragem, não. Eu me acho normal.
Acho um dever", dimensiona assim. Evita subir
em pódios de bravuras. Chegou a ser preso nos anos 1970, ainda em São Luís,
levado a um quartel. Não tem a data exata. Segundo seu relato, a prisão durou
pouco tempo e foi a única vez em que chegou a ser detido.
Faz a ressalva de que sofreu muitas
intimidações, "as
ameaças foram várias",
naqueles dias e ao longo de sua carreira episcopal. A atuação incansável por
justiça e direitos cobrava o preço. Sentia medo? "Nada de medo". Acreditava que o risco de se perder a
liberdade era maior. "Porque
se ela desaparece, não é só o período. É começo de desgraça".
A vez em que se tornou refém, em 15
de março de 1994, no auditório do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), já
extinto, participava de uma visita de comissões de direitos humanos às
instalações penitenciárias. Foi ele que tentou tomar a faca da mão de “Carioca”
(Antônio Carlos de Sousa Barbosa), o detento que rendeu pelo pescoço o então
arcebispo de Fortaleza, dom Aloísio Lorscheider.
Doze pessoas foram aprisionadas, mais
de 13 horas de negociações tensas com 13 presos. A fuga foi com todos num
carro-forte. Dom Aloísio e dom Edmilson estavam entre os últimos oito
libertados. Nos dias seguintes, os religiosos participaram de celebrações
dentro de unidades prisionais (no próprio IPPS e em Aracati).
Apoiador da greve de músicos em
Fortaleza, nos anos 1970; mediador da greve dos policiais militares cearenses,
em 2012; participante ativo do Grito dos Excluídos a cada setembro. Intercedeu
em paralisações de professores, artistas, mobilizações na obra do viaduto do
Cocó, em 2013; combateu “a
miséria da desapropriação na luta dos povos das terras de barragens” (do açude Castanhão). Com dom
Aloísio, várias vezes conteve ações conflituosas de despejos urbanos na
periferia da Capital.
Em 2010, quando o Senado Federal lhe
indicou para receber a comenda de Direitos Humanos Dom Helder Câmara, ele
recusou. Não concordou que os parlamentares tivessem autoconcedido um aumento
salarial de 65%. “Aí, acontece
que quando você tem um reajuste de salário mínimo, é aquela coisa de nada. O
reajuste deles é de 65%. Isso é contra os direitos humanos. Por isso eu não
aceitei e não aceito”,
justificou à época.
Dom Edmilson se recorda de uma
gravioleira "de uns 200
anos" que existia no distrito de
Aranaú, onde nasceu e viveu a infância. A planta tinha a base forte e o cuidado
para dar os bons frutos e o acolhimento na sombra. A árvore era uma metáfora.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/11/26. Reportagem
p.4-5.

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