segunda-feira, 28 de abril de 2014

PODER. QUEM TEM, TEM MEDO


Por Ricardo Alcântara (*)
A verdade, quando não agrada, dói. E quando ela surpreende, pode até acamar o surpreendido: a reclusão do governador Cid Gomes para cuidar da saúde coincidiu com o momento em que perdeu as condições de sustentar sua empáfia imperial.

Àquele que até pouco tempo se percebia com poderes para determinar quando e como seria iniciado o processo eleitoral de sua sucessão, tratou a realidade de apresentar a fatura: a disputa começou e ele não tem sequer um candidato, ainda.
Tão logo o senador Eunício Oliveira deu sinais de que iria mesmo adiante com sua candidatura ao governo estadual, familiares do governador passaram a emitir sinais públicos de preocupação, recibo assinado da incerteza que os ameaça agora.

Ivo Gomes disse: “já vencemos dificuldades maiores”. Confessou “dificuldades”, se entendi. Ciro, o mais velho, foi ainda mais previdente ao defender Cid Gomes no cargo até o fim do mandato como condição mais segura para eleger o sucessor.
No indiscreto Facebook, até a irmã Lia, mais refratária a manifestações políticas, anunciou a iminência do naufrágio: “Quando começa a fazer água, os ratos abandonam o navio”. Enfim, a linguagem nos estrutura e por isso é tão reveladora.

Se não foi bom que tenham sido surpreendidos, pois para muitos parecia previsível um quadro real de disputa, não é mal que tenham, enfim, compreendido, talvez a tempo, a extensão das dificuldades: uma vez compreendida, mais fácil mudá-la.
A bem da verdade, a coisa não está fácil para ninguém. Vejam a presidente Dilma: mesmo prestigiada com bons índices de aprovação, a espreita uma expectativa de mudanças acolhida por um percentual superior a 70 por cento dos eleitores.

É um quadro cuja complexidade põe a nu a superficialidade de leitura com que o governador Cid Gomes cogitava terem seus feitos prevalência sobre a conjuntura, que impõe uma demanda crescente por ganhos cada vez maiores. Parecia fácil?
A parte mais fácil, e mais facilmente popularizada, foi realizada: a ampliação do mercado de consumo. A mais difícil, e que poderá nos permitir um crescimento de fato sustentável, nem começamos: o fortalecimento da nossa base produtiva.

Como seria possível manter um ‘projeto’ – termo mântrico do lulismo – que aumenta o consumo em volume oito vezes maior do que o aumento da produção industrial? Essa conta não fecha. É a crônica anunciada de desajustes futuros.
No plano estadual, apesar de aspectos negativos, há boas coisas na prateleira do governo a serem defendidas em campanha. Tacanho nisso tudo é ter o governador cogitado que sua obra rivalizaria com sobras sobre as novas expectativas.

Tivesse ele feito uma leitura da realidade menos condescendente consigo mesmo, talvez não estivesse passando pelas dificuldades atuais em se posicionar de maneira segura diante de sua própria sucessão. Porque, ali, o medo é recente.
(*) Jornalista e escritor. Publicado In: Pauta Livre.
Pauta Livre é cão sem dono. Se gostou, passe adiante.

Nenhum comentário:

 

Free Blog Counter
Poker Blog