terça-feira, 7 de julho de 2026

O banho dos pássaros e a Casa Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

Fui conhecer o novo endereço do Plebeu Gabinete de Leitura. Que prospere (n)a abundância que oferece. A sofisticação do silêncio. A casa cheia de convites para prestar atenção. O trabalho do desejo, do sonho. O jardim tão pausa e pouso, perplexidade e pergunta.

Já foi lá? Tomara cada presença nossa se torne um encontro íntimo e público (tipo o que a criatura leitora pode instituir ao abrir um livro). Torcendo para a Casa Plebeu ter/ser o que vou chamar aqui de uma agenda-sem-microfone, para estar à altura do lugar que materializou. "Fala baixinho que é pra eu ouvir".

O banho dos passarinhos é por volta das quatro da tarde. Tem uma torneira na lateral da casa, que recebe toda a sombra da mangueira (sob a qual a gente só quer saber de viver). Tão perto do chão quanto as crianças, a torneira deságua nos vasilhames de barro para o banho diário, acontecimento que toda menina e todo menino precisam ver pelo menos uma vez na vida. Para que a memória, senhora movediça, vez e outra se banhe na inscrição e hidrate o cotidiano. Com frescor.

O muro da casa é um livro aberto para a rua, na rua. Preto no branco. Tem o nome de batismo, Plebeu Gabinete de Leitura. Muro-livro de página única, cada palavra conspira para o mais bonito sentido da outra. Mostraram com qual está casada a palavra biblioteca e eu pensei: "é um smart muro". O traço do muro-livre é da Luci Sacoleira.

Dá para fazer mil e uma conversas (conspiradoras, afinal um outro mundo é possível) desfrutando da qualidade da feitura dos bancos de madeira que se assembleiam junto à mesa redonda, vizinhos dos (outrora) bancos de praça. E deixar o olho passear... A lateral da casa é tão enfeitada que dá vontade de ter nascido oitão. Dami Cruz desenhou sete criaturas leitoras. Imparáveis. Vá ver logo porque acho que os temas da Família Cândido podem ser transferidos de lugar. Esplendem cor. Dona Lourdes, a mestra Maria de Lourdes Cândido Monteiro, está a rir de contente com o destino das placas de cerâmica criadas na casa da rua da Boa Vista, Juazeiro do Norte cantando a nação plebeia cujas mãos tecem mundos.

Bora tornar brinquedo a dança das cadeiras? Experimentar cada uma delas, dentro e fora da casa, na livraria loja ateliê, um fiteiro de achados. Sigo ao ar livre, à sombra. Fosse noite, esperava o Aracati passar.

Na rua Tibúrcio Frota, 504, no São João do Tauape, a Casa Plebeu é o labirinto de livros mais bonito de Fortaleza. Achar bonito é uma forma de entender, como nos disse Clarice. Ela também contou que, quando era criança, achava que os livros nasciam em árvores, como as frutas. Entendeu que eram feitos. E fez o que fez.

O Plebeu abre de terça a sábado, das 10h às 17 horas. Os pássaros têm dois dias para banho sem humanos à vista. Nos demais, ensinam a estar no mundo de tal modo que dele se possa sair cantando.

P.s.: Livros, sombra e água fresca, o Plebeu tem. Precisa é de uma geladeira. Aberta a lista de presentes para o canteiro-escola do Tauape.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/06/26. Vida & Arte, p.2.


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