Por
Izabel Gurgel (*)
Fui conhecer o novo endereço do Plebeu
Gabinete de Leitura. Que prospere (n)a abundância que oferece. A sofisticação
do silêncio. A casa cheia de convites para prestar atenção. O trabalho do
desejo, do sonho. O jardim tão pausa e pouso, perplexidade e pergunta.
Já foi lá? Tomara cada presença nossa se
torne um encontro íntimo e público (tipo o que a criatura leitora pode
instituir ao abrir um livro). Torcendo para a Casa Plebeu ter/ser o que vou
chamar aqui de uma agenda-sem-microfone, para estar à altura do lugar que
materializou. "Fala baixinho que é pra eu ouvir".
O banho dos passarinhos é por volta das
quatro da tarde. Tem uma torneira na lateral da casa, que recebe toda a sombra
da mangueira (sob a qual a gente só quer saber de viver). Tão perto do chão
quanto as crianças, a torneira deságua nos vasilhames de barro para o banho
diário, acontecimento que toda menina e todo menino precisam ver pelo menos uma
vez na vida. Para que a memória, senhora movediça, vez e outra se banhe na
inscrição e hidrate o cotidiano. Com frescor.
O muro da casa é um livro aberto para a
rua, na rua. Preto no branco. Tem o nome de batismo, Plebeu Gabinete de
Leitura. Muro-livro de página única, cada palavra conspira para o mais bonito
sentido da outra. Mostraram com qual está casada a palavra biblioteca e eu
pensei: "é um smart muro". O traço do muro-livre é da Luci Sacoleira.
Dá para fazer mil e uma conversas
(conspiradoras, afinal um outro mundo é possível) desfrutando da qualidade da
feitura dos bancos de madeira que se assembleiam junto à mesa redonda, vizinhos
dos (outrora) bancos de praça. E deixar o olho passear... A lateral da casa é
tão enfeitada que dá vontade de ter nascido oitão. Dami Cruz desenhou sete
criaturas leitoras. Imparáveis. Vá ver logo porque acho que os temas da Família
Cândido podem ser transferidos de lugar. Esplendem cor. Dona Lourdes, a mestra
Maria de Lourdes Cândido Monteiro, está a rir de contente com o destino das
placas de cerâmica criadas na casa da rua da Boa Vista, Juazeiro do Norte
cantando a nação plebeia cujas mãos tecem mundos.
Bora tornar brinquedo a dança das cadeiras?
Experimentar cada uma delas, dentro e fora da casa, na livraria loja ateliê, um
fiteiro de achados. Sigo ao ar livre, à sombra. Fosse noite, esperava o Aracati
passar.
Na rua Tibúrcio Frota, 504, no São João do
Tauape, a Casa Plebeu é o labirinto de livros mais bonito de Fortaleza. Achar
bonito é uma forma de entender, como nos disse Clarice. Ela também contou que,
quando era criança, achava que os livros nasciam em árvores, como as frutas.
Entendeu que eram feitos. E fez o que fez.
O Plebeu abre de terça a sábado, das 10h às
17 horas. Os pássaros têm dois dias para banho sem humanos à vista. Nos demais,
ensinam a estar no mundo de tal modo que dele se possa sair cantando.
P.s.: Livros, sombra e água fresca, o
Plebeu tem. Precisa é de uma geladeira. Aberta a lista de presentes para o
canteiro-escola do Tauape.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/06/26. Vida & Arte, p.2.

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