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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

DJ Renatinha, Gonzagão e os livros

Por Izabel Gurgel (*)

Antes da última pandemia, a DJ Renatinha viajou com radiola e dois engradados de discos de vinil. Projeto "Long Play em Feiras e Romarias".

Em Juazeiro do Norte, radialistas subiram o Horto, levando discos para ouvir e conversar com ela. Em Canindé, cada fã de Roberto Carlos, mexendo nos discos, tinha pelo menos uma história coalhada de detalhes para contar para a DJ.

Na feira de Messejana, um adolescente se surpreendeu com Fiuk na capa de 'uma coisa tão antiga como aquela'. Era o pai do rapaz, Fábio Júnior, galã, galã na capa de um LP.

Na feira do Crato, a banca da DJ era perto da venda de farinha de mandioca dos irmãos Aniceto, da mais festejada banda cabaçal do Ceará.

Em Limoeiro do Norte, a filha do colecionador de música Osmar Onofre ficou in-vi-sí-vel por horas. Era o encontro de mestras e mestres da cultura tradicional popular e a banca da DJ parecia ter um ímã a atrair gente de todas as idades, de menos de oito a mais de oitenta. O lugar mais perto dela era depois de pencas de pessoas em rodas concêntricas, cada uma com sete vidas. Não arredaram pé. A brincadeira era pedir uma música e sair. Cadê que saía?

Quem não conhecia, queria saber como funcionava aquilo que aterrissara ali, direto de outro mundo. Lindo ver o mói de crianças de olhos arregalados, boca aberta e todo o interesse do mundo pelo que não conheciam. Conhecedores de LPs queriam fruir da presença da DJ, levá-la para outros terreiros, passear com ela mostrando o que ela mostrava, abrir velhos guarda-roupas cheios de discos doidos para serem ouvidos.

A banca-biblioteca sonora ambulante virou brinquedo. A quase dizer que valia por um parque de diversões todinho. Os discos rodando, rodando, passando de mão em mão, cada criatura contando do que lhe tocava, a bem dizer uma audiência sem ouvintes. Toda a gente dizia de si e de mundos.

No caminho, Pentecoste, Barbalha, outros lugares, e em cada parada uma cacimba de histórias parecia sair pela primeira vez para passear.

Ficou na memória a fila crescente, esticando, perto do museu-casarão-azul do Horto. Foi passando de boca em boca que, dentre os livros junto à banca da DJ, havia um que era botija desejada.

Peregrinação. Naquela manhã, todo tato do mundo se dedicou a apreciar "O Rei e o Baião", livro grande como bolo de tabuleiro. É um projeto contemplado pelo Ministério da Cultura via Fundo Nacional da Cultura e Instituto Brasileiro de Museus. Publicação da Fundação Athos Bulcão, Brasília, 2010. Organização: Bené Fonteles.

A foto da capa, do Seu (nosso) Chico Albuquerque (1917-2000), é Luiz Gonzaga (1912-1989) em preto e branco, estralando de vida, mais feliz do que sanfona chamando dança.

É livro de muitas vozes (textos, xilos, fotos, em ensaios encarte). Vou citar só duas, das professoras Elba Braga Ramalho e Sulamita Vieira, autoras também de publicações como "Luiz Gonzaga: a síntese poética e musical do sertão" e "Velhos Sanfoneiros".

Os livros cantam.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ler os cearás com água na boca

Por Izabel Gurgel (*)

Picolé de Jardim, embalado em papel Riacho. Desmancha-se no céu da boca a poesia geladinha. Jardim é um dos municípios do Cariri cearense. O picolé, uma das joias do Ceará. Cajá, castanha, tapioca, tamarindo. E mais sabores.

Wolga é refrigerante feito em Ipu. A memória registrou como Volga, o nome do rio. A etimologia, "do proto-eslavo", dá em "umidade, estado de molhado". Vi no site Origem da Palavra.

Ao ver Wolga, com "w" e não "v", pensei no café Wal-Can, de Waldemar Cavalcante, salvo um deslize outro da memória.

Em Juazeiro do Norte, a padaria Santa Liduina faz a bolacha Melindrosa, sequinha, quebra fácil à primeira mordida, com percussão. Tem uma Santa Liduina pertinho da Matriz de N. Sra. das Dores e outra na rua Santa Luzia, pertinho do mercado no Centro.

No Dicio, dicionário on line, escolhi três referências a melindre: "melindre em espanhol é o nome dado a vários tipos de doces, significando por extensão sutileza, delicadeza"; na culinária, é um "tipo de bolo de mel"; e "tendência da pessoa que se magoa com facilidade, especialmente por coisa sem muita importância". Curioso que a gente quase não usa para dizer homem melindroso. Deu nas melindrosas dos anos de 1920, virou fantasia de Carnaval. O desenho do vestir, vi em vestido, agora em 2026, na coleção Chanel. Dona Chanel dizia que buscava para as mulheres um figurino simples, digamos assim, como o dos homens.

Juazeiro do Norte consagrou a bolacha Lídia nas celebrações de entronização (e, a cada ano, renovação) do Sagrado Coração nas residências. O pesquisador Renato Dantas me contou da presença da bolacha, que levava o nome da filha do dono da panificação, nas mesas das famílias mais modestas em dias festivos em torno do sagrado coração do Filho.

Canjirão pra mim é sinônimo de tijolinho/tijolão de castanha da região do Aracati. No mercado de Aracati, soube há anos do "melhor canjirão" feito em forno a lenha. Vinha no Fortim. O cheiro do fogo na madeira preservado no sabor. Vi na semana coroada pelo jogo e torcida da Argentina um canjirão com rótulo dizendo da origem em Morada Nova.

Por falar em Argentina, Ceará é também uma delícia em doce de leite. De tantos modos quanto são as mãos que tocam o serviço. A mensal Feira da Reforma Agrária em Fortaleza, no Centro Frei Humberto, no bairro São João do Tauape, tem doce de leite de várias procedências. O último que levei pra casa não veio de lá, mas da banca de caldo de cana na estrada de Canindé, à esquerda de quem acaba de sair da estrada que vem de Maranguape. Sem rótulo, o bem cozido leite com açúcar é de Paramoti.

Volto à região do Aracati levada pelo cheiro da cozinha de Toinho Correia, do Cumbe, Toinho da Tenda do Cumbe que honrou as dunas e a paisagem de Canoa Quebrada com maravilhas como o bife da vovó (empanado) e o atolado de caranguejo, um risoto que viajava para festas sob encomenda e reinava onde quer que fosse servido. Patinhas empanadas estampam a travessa como jogadores de futebol, cheios de apetite por jogo, bordam o campo. Toinho é um craque nos doces. O de leite criou devoção. E me faz lembrar o de Dona Clarice, no Canindé do Peixe do Tião. Pra pirar, tem pirão. À beira do açude.

Sangrando corações das papilas gustativas. Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Vida & Arte, p.2.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Fiar, tecer, tramar no Ceará das rabecas

Por Izabel Gurgel (*)

"Arte da Tradição - Mestres do Povo" (Expressão Gráfica e Laboratório de Estudos da Oralidade da Uece e UFC, 2005) reúne as mais de 50 matérias publicadas no Ceará. Quatro rabequeiros estão em "Artes da Tradição - Mestres do Povo": Raimundo Veríssimo, de batismo Raimundo Bezerra do Nascimento, de Itapipoca; Zé Oliveira, do Cariri, cego e artista como o pai, o cego Oliveira; mestre Silvino, Silvino Veras D'Ávila, de Irauçuba; e Antônio Hortênsio, da Varjota, também presente no livro "Mestres da Cultura Popular Tradicional do Ceará" (Secult Ceará, 2006), que reúne 11 mulheres e 25 homens reconhecidos Tesouros Vivos do Ceará pela lei estadual instituída em 2003.

"Ora direis, ouvir rabecas...". O professor Gilmar de Carvalho (1949-2021) assim finaliza o texto de apresentação do livro "Rabecas do Ceará" (Expressão Gráfica e Editora, 2006). No município de Graça, encontrou o mais velho dentre eles: Chico Flor, Francisco João da Silva, nascido em 1916. No município de Carnaubal, o mais novo dentre os 105 rabequeiros: Pedro Fontenele Sampaio, nascido em 1954.

"Ora direis, ouvir rabecas" é como Gilmar intitula o texto introdutório do livro "Tirinete - Rabecas da Tradição", de 2018, com 184 rabequistas e uma única mulher dentre eles, Ana Soares, de Umari. As artes de fazer e tocar rabeca estão em outras publicações, como "Mestres Santeiros - Retábulos do Ceará" (Museu do Ceará, 2004). Gilmar encontra em Guaraciaba do Norte o mestre Heráclito, nascido em 1910.

Cada livro, e todos eles com fotos de Francisco Sousa, é uma espécie de botija.

Leio e releio Gilmar, prestando atenção à presença de fiandeiras, rendeiras, bordadeiras. Mãos e mães que fiam e tecem, cortam e costuram, fazem e consertam redes de dormir, roupa de vestir, roupa de cama, mesa e banho. Fazem croché e outras artes têxteis. Para uso em casa, para sustento da casa. Anoto o nome delas. Mulheres com as quais Gilmar conversa, escutando-as sobre ofícios e labores, como a rendeira Maria Daniel, do serrote da Mataquiri, em Cascavel; Vicência Antônia Barbosa, Dona Miúda das bonecas de pano feitas desde a infância no sítio Bebida Nova, no Crato; a tecelã Dona Edite da rede de travessa, Maria Edite Pereira Santos, da Varjota dos Tremembé (as três no livro "Artes da Tradição"). Mulheres cujos nomes Gilmar faz seus entrevistados anunciarem como portadoras de 'ciência própria' para ganhar a vida, como as mães, avós e esposas dos rabequeiros. Dona Hilda Trajano, mãe do mestre Antônio Hortênsio, fiava algodão e tecia redes. Cada uma a seu modo, e todas elas, a tocar o cotidiano, a cuidar da casa, das crianças, dos adultos, por vezes da roça. E da almofada de renda, do tear, da grade com o labirinto, do bastidor com o bordado, do fio da vida. E da vida por um fio.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Vida & Arte, p.2.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

BORA BRINCAR

Por Izabel Gurgel (*)

Chegamos em Alcântara para os últimos dias da Festa do Divino. Acompanhamos o Imperador e comitiva em cortejo, indo a cada uma das casas dos nove mordomos previamente escolhidos para receber a real visita. Era o começo da despedida, o Imperador agradecia a acolhida ao longo da temporada.

O cortejo incluía as mulheres caixeiras do Divino Espírito Santo, tocadoras responsáveis pela animação da sala de baile que havia em cada casa. Em cada casa, havia também uma sala do trono e uma do banquete. Os mordomos e suas famílias, o que meus olhos de visitante queriam e podiam perceber, eram a parte mais visível da mobilização de Alcântara inteira para a festa. O todo, sabemos, pode tocar algo maior do que a soma das partes.

Depois de Alcântara, dava mais gosto ainda ver, rever o documentário de Isa Grinspum Ferraz, com argumento de Antônio Risério, feito a partir do livro "O povo brasileiro", de Darcy Ribeiro (1922-1997). E encontrar Agostinho da Silva a dizer do desejo, da utopia de uma era sem fome, onde haveria abundância para todas as pessoas, e todos os seres experimentariam a plenitude. Ouvir Agostinho da Silva (1906-1994) sobre a figura do Imperador Criança, um menino ou uma menina fazendo a real presença viver naquele pedaço do mundo, é uma fala de sustança até hoje.

Dia desses, uma contadora de histórias com origem nos Inhamuns e moradora da serra de São Pedro, Caririaçu, me enviou um vídeo da feitura de uma iguaria da Festa do Divino em, salvo engano, algum lugar do imenso Tocantins. Atriz e produtora cultural, Thailyta Feitosa sabe bem que o que quer que seja necessário para uma cena, incontornável é a aplicação ao que precisa ser feito.

Os nove banquetes da (última?) noite de festa em Alcântara vez e outra figuram na memória. Pelo imenso trabalho que torna cada um deles possível. Pela inscrição que deixam em quem viveu pelo menos um deles. Mesmo que, como se deu conosco, nada tenham saboreado, uma vez que as crianças de Alcântara, como diz a boa saúde de uma criança, vivem tal noite tocadas pelo para-sempre e adivinhando os nunca-mais.

Fizemos todo o cortejo, casa após casa, com rapapés na sala do trono, um toque de caixa na sala de baile e a passagem à sala do banquete. As crianças nos antecediam, e pareciam coladas à cada mesa mui fartamente montada. Eram a mais bonita interdição do acesso às bebidas, comidas e lembrancinhas de cada casa. Elas viam melhor o bolo confeitado - cada um único, irrepetível - não porque se tornassem, elas próprias, partes da mesa, mas pelos olhos então nunca saciados da capacidade de se encantar, de lamber o mundo. Dia já clareando, de volta à pousada, provamos no café o doce de espécie servido na festa. E haveria, na manhã iniciada, o banquete final na casa do Imperador.

Foi o colega jornalista Arthur Gadelha ligar sobre a pauta de festa junina que ele acabara de receber e eu lembrar do serviço grande que uma festa requer. Já reparou como brilham cada vez mais as pessoas que brincam quadrilha? A brincadeira é a sustentação do todo-dia.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/06/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 7 de julho de 2026

O banho dos pássaros e a Casa Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

Fui conhecer o novo endereço do Plebeu Gabinete de Leitura. Que prospere (n)a abundância que oferece. A sofisticação do silêncio. A casa cheia de convites para prestar atenção. O trabalho do desejo, do sonho. O jardim tão pausa e pouso, perplexidade e pergunta.

Já foi lá? Tomara cada presença nossa se torne um encontro íntimo e público (tipo o que a criatura leitora pode instituir ao abrir um livro). Torcendo para a Casa Plebeu ter/ser o que vou chamar aqui de uma agenda-sem-microfone, para estar à altura do lugar que materializou. "Fala baixinho que é pra eu ouvir".

O banho dos passarinhos é por volta das quatro da tarde. Tem uma torneira na lateral da casa, que recebe toda a sombra da mangueira (sob a qual a gente só quer saber de viver). Tão perto do chão quanto as crianças, a torneira deságua nos vasilhames de barro para o banho diário, acontecimento que toda menina e todo menino precisam ver pelo menos uma vez na vida. Para que a memória, senhora movediça, vez e outra se banhe na inscrição e hidrate o cotidiano. Com frescor.

O muro da casa é um livro aberto para a rua, na rua. Preto no branco. Tem o nome de batismo, Plebeu Gabinete de Leitura. Muro-livro de página única, cada palavra conspira para o mais bonito sentido da outra. Mostraram com qual está casada a palavra biblioteca e eu pensei: "é um smart muro". O traço do muro-livre é da Luci Sacoleira.

Dá para fazer mil e uma conversas (conspiradoras, afinal um outro mundo é possível) desfrutando da qualidade da feitura dos bancos de madeira que se assembleiam junto à mesa redonda, vizinhos dos (outrora) bancos de praça. E deixar o olho passear... A lateral da casa é tão enfeitada que dá vontade de ter nascido oitão. Dami Cruz desenhou sete criaturas leitoras. Imparáveis. Vá ver logo porque acho que os temas da Família Cândido podem ser transferidos de lugar. Esplendem cor. Dona Lourdes, a mestra Maria de Lourdes Cândido Monteiro, está a rir de contente com o destino das placas de cerâmica criadas na casa da rua da Boa Vista, Juazeiro do Norte cantando a nação plebeia cujas mãos tecem mundos.

Bora tornar brinquedo a dança das cadeiras? Experimentar cada uma delas, dentro e fora da casa, na livraria loja ateliê, um fiteiro de achados. Sigo ao ar livre, à sombra. Fosse noite, esperava o Aracati passar.

Na rua Tibúrcio Frota, 504, no São João do Tauape, a Casa Plebeu é o labirinto de livros mais bonito de Fortaleza. Achar bonito é uma forma de entender, como nos disse Clarice. Ela também contou que, quando era criança, achava que os livros nasciam em árvores, como as frutas. Entendeu que eram feitos. E fez o que fez.

O Plebeu abre de terça a sábado, das 10h às 17 horas. Os pássaros têm dois dias para banho sem humanos à vista. Nos demais, ensinam a estar no mundo de tal modo que dele se possa sair cantando.

P.s.: Livros, sombra e água fresca, o Plebeu tem. Precisa é de uma geladeira. Aberta a lista de presentes para o canteiro-escola do Tauape.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/06/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 30 de junho de 2026

LEITURAS NO CÉU DA BOCA

Por Izabel Gurgel (*)

Brincamos, entre pessoas queridas, sobre testes de vida que podem ser feitos antes de tocar nossos enterros.

No meu caso, os últimos a serem feitos são simples como dizer até logo no dia-a-dia.

Pertinho do caixão, alguém comenta sobre um livro que está lendo. Fala com o entusiasmo das criaturas doidas por livro e leitura. Vislumbra o outro fruindo da graça de ler o dito cujo citado para, de fato, saber, sentindo, o que um irmão de "A Casa" (Natércia Campos), "Yuxin" (Ana Miranda), "Um defeito de cor" (Ana Maria Gonçalves), "O infinito em um junco - A invenção dos livros no mundo antigo" (Irene Vallejo) pode fazer nas veredas de alguém em estado de leitura, vasto sertão. A pessoa falante arremata o comentário: "Será que a Izabel leu? Não lembro de ter comentado com ela...".

Outra prova pode se dar com a mesma criatura leitora, desde que tenha a fome de viver para quem a gula é promessa de paraíso, uma biblioteca a ser incorporada. Aquela criatura que, saindo da sorveteria do Juarez (a da Barão de Studart), ainda que reconhecendo as mudanças no sorvete dos sorvetes de Fortaleza (e se não mudar, não há como permanecer, sabemos), a tal criatura quer nem que seja só uma mordida do picolé rosa choque avistado nas mãos de uma passante. Não importa se acabou de tomar um ou dois sorvetes, e lembrou do Juarez, ampliando os sentidos do termo presente, abrindo um freezer depois do outro e, de colherzinha na mão, vir ensinar a fazer de cada prova de sabor uma festa no céu da boca. Cajarana, capim santo, cajá tão felizes por encerrar a vida vegetal virando sorvete do Juarez.

Cheia da fome de viver, ao pé do meu caixão, a pessoa convida outra para um café com bolo da Walma Laena, tapioca da Lalá, ou pão de chapa de rua, tão passado que afina e nos faz pensar em papel manteiga. Se for amiga da onça, a pessoa falante vai saber cutucar diretamente a finada, sem vara. Pode citar o bolo de caco cuja lembrança fez Seu Nery - cozinheiro na casa de Arneiroz que ele transformou em pousada - inventar um passeio com a hóspede até o Planalto, na zona rural. Ele dirigindo não só o carro, mas dando ao deus do acaso a vez de manobrar o passeio para chegarem à casa de uns conhecidos bem na hora de festejar o calor da tarde, na calçada alta, com café que a gente precisa soprar antes de tomar. A mãos-de-fada dona da morada na rodagem estava botando na janela a travessa de bruaca de farinha de milho. Reluzia o açúcar com canela.

O outro teste de vida é tocar ou cantarolar "Reconvexo" na voz da Maria Bethânia ou uma canção de Carnaval com letra do Fausto Nilo. Pode ser baixinho.

Nas três provas, se a finada não levantar do caixão, pode tocar o enterro. Está mortinha da silva. E talvez danada por perder a volta do cemitério, entre pessoas muito queridas. Que sabem estar ao redor de uma mesa, ao pé de um balcão, ou em alguma beirada do mundo, olhando o tempo.

Mas tem gente que não sabe brincar.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/05/26. Vida & Arte, p.2.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Mães no labirinto da Prainha do Canto Verde

Por Izabel Gurgel (*)

Aíla faz labirinto com a malha bem fina. Bordado rendado ou renda bordada, ofício de agulha e linha, o labirinto refaz um tecido previamente desfiado. O desfiado segue o risco do desenho a ser executado. E o corte correspondente, resultando na "malha, na trama". Aíla conhece todas as etapas do trabalho. "Não sou boa de risco. O corte, não é toda pessoa que faz. Corto reto, mas não corto enviesado. A Prainha do Canto Verde tem três cortadeiras". Aíla aprendeu com a mãe, Francisca. Órfã desde cedo, dona Francisca aprendeu com a avó materna, dona Júlia, que foi sua mãe.

Aíla Maria da Silva Fernandes tem 62 anos. Dona Francisca Pereira da Silva, 86, segue fazendo labirinto. O trancelim do aprender e ensinar, a transmissão, no caso das duas, nomeia-se em cinco gerações. Aíla se enche de graça ao citar a filha labirinteira. "Tem coisa que Jaíla faz até melhor do que eu". Jaíla tem 32 anos. Casada, mora na vizinha Sucatinga. Os dois lugares ficam em Beberibe, limite da região metropolitana de Fortaleza no litoral leste.

A malha bem fina resulta no labirinto mais perto das filigranas de uma joia. Quem viu peças embaladas, percebe o trabalho de minúcias, que nos fez pensar no silêncio sinônimo de acolhimento de enxovais de bebê com bordados mínimos, o gesto do cuidar e do cultivo de uma calmaria necessária, invocada, quase impossível para os dias de sobrecarga de uma mãe.

Ouvi de mulheres labirinteiras, em outras praias do Ceará: o mar tem seca. A pesca artesanal tem período de paradeiro. Faz-se labirinto o ano todo. Nosso entendimento do trabalho das mulheres como complementação da renda familiar talvez seja equivocado. É sustento não só da casa, da família. Sustenta o mundo, sabemos.

Aprendemos a dizer e ver e reproduzir vila de pescadores e, mesmo sabendo que onde tem pesca (tem rede) tem renda, nunca dizemos vila de rendeiras. Equivocado como associar o fazer renda apenas à zona de praia. Um dos registros mais antigos de ensino da renda no Ceará data de 1760 e se refere à escola em vilas indígenas, ação jesuítica, desde a atual Viçosa, na Ibiapaba.

"Aprendi com a minha mãe. Amava ver minha tia e avó fazendo, lavando, colocando no grude", conta Jaíla. Aíla se reporta às oficinas que ministrou na escola, a filha por perto. Escuto, uma vez mais, Aíla dizer das etapas do labirinto: riscar (antes com lápis, hoje usa uma caneta cuja tinta se apaga quando a peça é passada a ferro), cortar, desfiar, encher, torcer, casear, fazer o paletão, o acabamento/recortar, lavar com grude de goma para, literalmente, engomar quando passar a ferro.

Um contundente mapa dos cearás do Ceará pode ser fiado no algodão, no linho, na seda, em caminhos cruzados, entrelaçados, riscando diminutos e vastos territórios. De mãos sempre ocupadas e olhos a cuidar das crianças no terreiro, do plantio de quintal, do fogo da casa, as mulheres tratam de nascimentos e mortes e de quase tudo que acontece no intervalo entre um e outro.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/05/26. Vida & Arte, p.2.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Comida, louvor e festa e a Casa Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

Maria Socorro Alves Bezerra faz o bolo de milho com rapadura servido no café-da-manhã dos dias 6 de janeiro no sítio Aroeiras, em Guassussê, Orós. Abre-se com uma mesa longa feito estrada reta o encontro sobre experiências de chuva realizado há mais de 20 anos na casa da família do poeta, compositor, cantor Zé Vicente. O bolo leva cravo, erva doce, canela em pau e gergelim. Na finalização, já na forma, Socorro coloca amendoim e castanha.

Os dias 6 no sítio Aroeiras têm cortejo de Santos Reis depois do café. A manhã inteira é cantada. Tem poeta repentista, tem coro livre na partilha das sementes, improviso na roda de conversa e sanfoneiro depois do almoço, outro banquete, de renovada comunhão.

Ricardo Bernardo Silva faz os sequilhos para a Renovação na casa de Dona Teresinha e do finado Seu Manoel, no sítio Baixa do Quaresma, em Missão Velha. É a casa junto à qual a filha loiceira Corrinha construiu a olaria, com forno no quintal. Tornou-se museu e manteve a placa "Mão na Massa Artesanato".

Renovação, a palavra anuncia, é como se diz da confirmação, a cada ano, da entrega da casa e da família ao Sagrado Coração de Jesus. O Cariri cearense cultua e cultiva a prática. A entronização do Sagrado Coração quase sempre se dá relacionada à data das núpcias do casal. O casamento de Dona Teresinha e Seu Manoel se deu em um mês de novembro. Seu Manoel manteve a data da Renovação que trazia da casa dos pais, Josefa Joaquina do Espírito Santo e Vicente José do Nascimento, o dia 6 de janeiro. Corrinha conta que a avó paterna levou o Sagrado Coração para Padre Cícero benzer e ele recomendou o dia de Santos Reis. Ricardo, na casa dos 30 anos, mora no sítio Passagem de Pedra. É "tirador" de Renovação, como se nomeia o encarregado das rezas e cânticos.

Cuscuz de milho com galinha cozida foi o prato de sustança servido na manhã de 6 de janeiro último, quando da saída do Reisado dos Irmãos, na casa-sede no bairro João Cabral, em Juazeiro do Norte. O grupo dançaria o dia inteiro conduzido por Mestre Antônio, subindo e descendo as ruas do bairro, com encontro final à noite no terreiro da casa de onde havia saído depois da comida de sustentação.

Sexta-feira agora, como todo primeiro de maio, acontece a Renovação do Reisado São Miguel, na casa-sede do grupo do Mestre Tarcísio, no citado João Cabral. A louvação, a brincadeira e o comer junto se dão com fartura, abundância, na batida da casa aberta, terreiro aceso e, como sabemos sobre as festas, muito trabalho e investimento nos bastidores para que se realize.

Em Fortaleza, estaremos assim no primeiro de maio, nos festejos de abertura da Casa Plebeu, nova sede do Plebeu Gabinete de Leitura, no São João do Tauape. Escrevo Tauape e me dou conta que contém Tauá, o lugar de nascença da leitora Adelaide Gonçalves, que nos daria a biblioteca. Plebeu é uma casa-sementeira, de força e fé na produção da alegria. Louvação da leitura, livros pra comer com os olhos, mesa farta. Tem açude sangrando na Fortaleza.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/04/26. Vida & Arte, p.2.


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Finim é um risco na imensidão do mar

Por Izabel Gurgel (*)

Por volta das cinco da tarde, Francisco Finim sai de casa, no Moura Brasil, no Centro de Fortaleza, apetrechado para pescar no mar à vista. Leva a tiracolo a balsa artesanal, feita por ele com pranchas de isopor, sacos de ráfia e pedaços de madeira. Um primor de desenho, de corte e costura manual, de reuso e aproveitamento de materiais. Fino designer, fino design.

O acervo de gestos, cultivados em uma vida de práticas de invenção, integra desde a feitura quanto o transporte da balsa e remos, o manejo nas águas e na terra, na descida do morro até o mar, na subida de volta à casa, com frutos do trabalho. Leva junto o galão, a rede sintética que é uma operação entre vazio e cheio, leveza e peso. A rede é adornada com chumbo para tanto submergir (a trama geométrica) quanto deixar a borda visível e firme para lançamento e arrasto. A balsa, a pesca, a vida cotidiana constituem uma rede quase invisível de agenciamentos para existir.

Dos altos do Moura Brasil, Finim faz o caminho-serpentina descendo para a praia, cruzando a avenida Leste-Oeste, cuja construção mudou os contornos de onde vive, desde a retirada de ruas e casas e moradores ao barulho de grande circulação de veículos, constituindo um outro espaço e um outro tempo.

Finim realiza o apelido incorporado quando, ele ao mar, nosso ponto de vista partindo da sede do Nupac, vemos o pescador como um risco na imensidão. O Nupac é o Núcleo de Patrimônio Cultural do Moura Brasil, conduzido por Ismael Gutemberg e Débora Soares, na casa da família, na 'rua de frente' do morro. Finim é um risco na imensidão. No alto, eu o vejo porque Ismael me ajuda a olhar.

Quando começa a remar, de costas para o mar, de frente para a praia e a Cidade, Finim é um músico solista em concerto sinfônico. Com seus instrumentos, e a orquestração para o encontro com o mar, Finim toca o que tem de melhor. Eu o vi partir um dia, depois de fazer com ele o caminho da casa à praia, Finim tão íntimo dos materiais de trabalho e do chão onde pisa quanto aberto ao que pode ser que pensamos em quando um bailarino dança.

Finim se lança ao mar dando as coordenadas para Ismael melhor se posicionar e fotografá-lo. Que Ismael fosse pelo pontão da marina do hotel de mesmo nome. Fazemos pelo pontão o percurso que Finim faz nas águas. Finim músico, orquestra, maestro e música. Na plateia, Ismael e eu nos deslocamos em paralelo até Finim nos ultrapassar, remando sem parar, indo, seguindo, avançando rumo ao "endereço" onde quer chegar.

Ao longo do pontão, conversa com a gente, da água para a terra, querendo me fazer ver como lhe é perfeita, na adequação ao corpo exíguo, a balsa várias vezes revestida de sacos de farinha de trigo, oriundos da padaria da família da Débora, nos altos do Moura. Com a proa feito noiva do vento, Finim se distancia e nos acena com os remos: "Dona Izabel, agora só oito horas". É o horário de retorno. À imagem de São Francisco e os pássaros, acrescentamos a movente paisagem Finim e os peixes.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/04/26. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Escutar o vento, ler e bordar

Por Izabel Gurgel (*)

Leitora de Horácio Dídimo, levo o poeta comigo. Releio, cito, invoco. Ano passado, levei "A palavra e a Palavra", editado pela UFC em 2002, para o curso que elaborei e ministramos com a bordadeira Alba Alves. Tornou-se nosso poeta-guia.

Leia comigo: "Vede como dentro e fora antemão entrementes e outrora estão aqui agora". Você não vê o poema espacializado como no livro, com pausa, respiro, ritmo que o desenho sugere na página. Digito o poema em linha contínua e me ocorre o "Galáxias", de Haroldo de Campos, a terceira edição revista da editora 34, realizada em 2004.

A conversa entre poetas, feito constelação, é movente.

Alba descobriu nosso poeta. E bordou Horácio Dídimo para vestir. O tecido, guardado desde 2002, ano da edição do livro, foi tingido com jucá. Cortado para vestido, ganhou, nas costas, o poema citado, e, na frente, um jardim com croché de Vilani Moreira Barbosa. Galhos se bifurcam com micro botões bordados. Botões de flor em um ponto tão presente em enxoval de bebê que nos faz pensar nos nascimentos da inteligência das mãos. Tem linha tracejada, tem folha com o desenho que nossas rendeiras de bilro chamam de traça e se vê direitinho tanto no papelão riscado e pinicado, o "molde" da renda, quanto na renda pronta. Traças-pétalas, compondo flor.

Tem mais Horácio Dídimo por Alba. Em pequenos formatos, uma vez abertos e folheados, os três livros-arte remetem a borboleta batendo asa e desenhando no ar. Pouco maiores que caixas de fósforo convencional, os horacinhos voadores (nos) acendem. São corte e costura, caligrafia, apliques de bordado, um reuso de material que se vê com mais gosto ainda andando com Alba pelas bordas da Chapada do Araripe, onde ela mora.

Prestar atenção é prática. Torna-se incontornável para sempre, como achar grande o mar. Os horacinhos têm papel de sabonete com cerejeiras em flor, de catálogo botânico; de pacotes de chá, de café, de chocolate (você também gosta da expressão "pra comer com os olhos"?) e um etc. que inclui pedaço de artigo com nota de rodapé sobre "O apanhador no campo de centeio".

Horácio Dídimo (1935-1918), seu livro é fonte de mel, colmeia.

Estão lá outros livros dele. Cito "Tijolo de Barro" e "Tempo de Chuva" para ir terminando junto com março saudando as águas e São José, padroeiro do Ceará e protetor de mulheres e homens das artesanias.

A aranha tece puxando o fio da teia.

Citei uma linha da canção "Na asa do vento", de João do Valle e Luiz Vieira. Escuto Caetano. E me ocorre Liberal de Castro inscrevendo, e escrevendo Fortaleza como uma dádiva do vento. Refere-se o professor aos ventos bravios que dificultavam a travessia pela costa.

Feliz aniversário, Fortaleza.

Vou começar abril relendo "Yuxin". Outra vez na floresta, nas águas e seres que Ana Miranda nos convida a escutar ao tempo que seguimos com Yuxin. Yuxin borda, borda.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/03/26. Vida & Arte, p.2.

domingo, 3 de maio de 2026

MEMORIAL CULTURAL EM ANDAMENTO

Com o artigo LAUDATE: homenagens a confrades das academias médicas do Ceará”, inserido no Jornal do Médico, 22(204): 19-20, abril de 2026, alcançamos a marca de 800 (oitocentos) trabalhos publicados em revistas, jornais e informativos.

Essa cifra, que não contempla livros e premiações culturais, corresponde a mais da metade (53,1%) da nossa produção no âmbito da cultura, que, por sua vez, já soma 1.508 títulos do nosso curriculum vitae (CV), os quais representam cerca de 25% do total de itens desse CV.

Com vistas a integrar um futuro Memorial Cultural, tais títulos observam, presentemente, em 3/05/2026, a seguinte distribuição quantificada: Artigos em Periódicos Culturais (33), Textos em Revistas, Jornais e Informativos (800), Textos em Livros (252), Apresentações, Prefácios e Posfácios de Livros (88), Discursos Proferidos ou Apenas Preparados (230), Memoriais (6), Plaquetas (20), Organização e Editoração de Livros (47) e. Participações em Eventos Literários e/ou Culturais (32).

Em tempo: esse memorial, ora em construção, enfeixará os feitos mais vinculados às instituições literárias e culturais a que pertencemos.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Editor do Blog


terça-feira, 21 de abril de 2026

TJA MAIS BONITO PRA CHOVER

Por Izabel Gurgel (*)

O espetáculo nos altos. No térreo, o público de pé olha em direção ao primeiro andar da edificação que, ao lado do Theatro José de Alencar, sediava, então, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Vizinhos, TJA e Iphan.

Ambas em movimento, cena e plateia aqui citadas se realizaram há pouco mais de dez, doze anos. Era programação do Zé de Alencar. O Theatro havia completado cem anos em 2010. Há décadas já existia com uma dimensão para além do desenho do Theatro que Fortaleza inaugurou em 1910. A peça teatral acolhida pelo vizinho Iphan foi um dos modos que o Zé de Alencar fez uso, sobretudo pós-segundo restauro, finalizado em 1991, para estar em interlocução com o pensamento, a imaginação, a necessidade dos dias atuais.

Como tudo que é vivo, que se quer vivo, o que chamamos TJA não cessa de mudar.

Até o comecinho da década de 1970, o Theatro era "só" a edificação histórica, os dois blocos mediados por um pátio. O da fachada, todo em alvenaria, e o da sala de espetáculo com estrutura metálica. Sai de cena o vizinho do outro lado, instituição pública ligada à saúde. A área recebe o que se tornou a primeira versão do jardim, já um projeto do escritório do paisagista Burle Marx.

Em janeiro de 1991, reabre restaurado, com um outro desenho de jardim, a caixa cênica tinindo de nova, com mais amplitude e equipada, bastidores com qualidade de uso para trabalhadoras, trabalhadores. O campo das artes é canteiro de obra. Chão de muito serviço. A inserção da "cortina de vidro" talvez seja uma das mudanças melhor sentidas pelo público. Tornou possível o fechamento que permite a climatização da sala de espetáculos sem comprometer a visualização do monumento.

O TJA aguarda um restauro integral. Será o seu terceiro. Quando do segundo, existia a ideia de desapropriar a quadra onde está o TJA, deixando-o abraçado por jardins, áreas livres, com passagem direta para a Casa Juvenal Galeno; contemplado com espaços de estudo, pesquisa, guarda de acervos etc., espaços passíveis de oxigenar o tanto de vida que ali pode e precisa florescer. O prédio anexo, com entrada também pela rua 24 de Maio, foi um primeiro suspiro.

Dá gosto pensar que um novo caminho se abre com a incorporação, pelo TJA, da antiga sede do Iphan. É uma conversa entre Governo do Estado e UFC, que já conversaram quando do destino da área onde está o atual "anexo". Uma instituição de ensino, pesquisa e extensão como a UFC, desde o início ela própria campo para as artes, pode tocar melhor ainda o modo singularmente bonito de expansão do TJA para abrigar e abraçar o que não pode nem deve ser contido.

Os pés de jasmim e castanhola do antigo Iphan estão em festa. E não só pela chuva. Viva São José. E Viva o Zé.

P.S.: E bora ver outro nome para o terminal de transporte ali vizinho. Antes que toque o terceiro sinal e comece o espetáculo.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/03/26. Vida & Arte, p.2.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

JOIAS DA FORTALEZA DE 300 ANOS

Por Izabel Gurgel (*)

Seu Miguel, minha melhor fonte de sapotis na Cidade. Tem banca à esquerda da porta da Leão do Sul, na Praça do Ferreira, de segunda a sábado.

Na praça, dar-se conta que o São Luiz não virou estacionamento, igreja ou loja de produtos cada vez mais desqualificados. Festejar o feito. Sentir a incidência de política pública sobre a vida da gente. Sentar no térreo e, antes de começar o programa da vez, voltar ao primeiro filme visto ali, nos altos: "Quando o coração bate mais forte". Cada qual guarda como pode uma caixinha de primeiras vezes.

No Centro, em direção à praça ou dela saindo, ir pelo antigo Beco, atual rua do Pocinho, só fruindo da brisa, Anarina. E apreciar o céu entre o Palácio Progresso de um lado e a coluna de cubos vermelhos do outro plantadinha pelo escultor Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). "Olha pro céu, meu amor". O térreo externo do Palácio do Progresso é um elogio ao vento. Fica à beira do Pajeú, que um dia poderá voltar como referência de vida, feito o São Luiz. O projeto do prédio (1964-1969) é do prof. Liberal de Castro (1926-2022). Anos depois, a pedido de Cláudio Pereira, então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, o professor sugere 13 de abril para data de aniversário da Cidade. Ao contar por escrito sobre a sugestão, diz: "a cidade é uma dádiva do vento".

No Centro, no alto de ruas como a Senador Pompeu ou Barão do Rio Branco, ver o mar ao tempo da surpresa do vento. Pode-se ampliar a sensação saindo da capela da Santa Casa de Misericórdia, na calçada, conspirar por um segundo sobre ter mais árvores no meio do nosso mundo, como o pedaço sobrevivente do Passeio Público. Passa em frente ao Passeio o ônibus para a Floresta. É a linha 106.

Imenso Liberal de Castro, das iniciativas, nos anos de 1960, de tombamentos da Casa de José de Alencar e do Theatro José de Alencar. Integrada à UFC, a Casa guarda o nosso mais precioso acervo de rendas. Conspiração em curso: levar rendeiras dos quatro cantos do Ceará para conhecer as coleções que elas podem ampliar com suas histórias e trabalhos. Uma escola de apreciação do fio da vida feito poesia tátil. Conhece? Já esteve lá?

O TJA, flor do algodão em renda de ferro prêt-à-porter, tem uma singularidade no desenho. Do palco dá pra ver a rua, o lugar mais importante de uma cidade (repito Leminski). Um teatro banhado de sol, desde a reabertura em janeiro de 1991, depois do segundo restauro integral, tem quase todos os espaços experimentados com uso cênico, para apresentações artísticas. À espera de um restauro, é como as mais finas joias: só têm sentido se forem usadas. São nossos usos que o mantém. Assim como não é possível hoje pensar o TJA sem o jardim de um lado e o prédio anexo do outro, não dá para separar teatro e praça. Silêda Franklin chama de ciclorama verde a cascata de thumbergia no jardim. Natureza é cultura.

A graça das joias, penso eu, é o uso público. Como faz o maracatu Rei de Paus. Esplende. Na rua.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/03/26. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Carnaval e café com bolo da Walma

Por Izabel Gurgel (*)

O melhor bolo do nosso mundo é o da Walma, a primeira Laena da família e a herdeira da forma de bolo da tia Meralda. Tia Esmeralda fez durante anos nossos melhores bolos. O de cobertura de maracujá, cortado em losangos, surgia feito um painel Athos Bulcão, daqueles que a gente vê em Brasília e reconhece o jogo, a brincadeira com a geometria, e lambe com os olhos, ao tempo que a obra nos olha, como a paisagem.

No caso do simples bolo fofo da Walma, dá pra saber bonito, sentindo, por que chamamos de céu da boca um dos portais de alegrias que levamos em nós.

Depois da Flora - que tem dois anos, dois meses e três dias e já tem chão de apreciadora praticante do bolo da vó -, o bolo da Walma é o ímã mais eficaz para nos aglutinar. Mal aparece no zap a mensagem "tem bolo da Walma" e chega todo mundo antes que o bolo esfrie. Velozes? Kms de distância parecem ficção.

Dobramos o espaço, e a mesa realiza seu destino de encruzilhada. É o nosso simpósio. E cada bolo, a nos lembrar de que nadica de nada sabemos sobre o milagre que é a vida, cada bolo atualiza a cantada perfeição do anterior. E nos absurda. Como pode estar melhor que aquele?

O cheiro do bolo é banda de bloco dobrando a rua. O corpo escuta logo. Células no modo confete, coluna se desenrola feito serpentina e os pés ensaiam rotas de cura. É tipo anúncio da farra, e me faz pensar n'A Turma do Mamão, nascida e criada no Centro de Fortaleza.

A Turma do Mamão desfila amanhã, segunda, na Domingos Olímpio, onde a vi passar anos atrás com aquela alegria em bando que a rua amplia de um jeito que só é possível na rua. E a rua cresce com ela.

Não há Carnaval que não me ocorra Clarice, adulta, recriando o Recife da infância em tempo de folia. Ela afirma que foi quando se deu conta do destino para o qual as ruas da cidade haviam sido feitas.

Um pedacinho do texto "Restos do Carnaval" nos dá as boas-vindas, a nós visitantes, ao Paço do Frevo, museu no Centro de Recife. Se der vontade de ler na íntegra, dá um google e vc acha fácil. Prefere ler no papel? Está no livro "Felicidade Clandestina".

Tão nosso isso da escritora "complexa e difícil" de abre-alas no velho prédio restaurado que abriga uma fonte sobre um dos ímãs da vida em Pernambuco. Pernambuco do bolo de rolo e do bolo de noiva, tão apreciada a parte comida na festa quanto a guardável para se comer no ano seguinte.

Feito brincantes do Rei de Paus hoje, depois do desfile na Domingos Olímpio, escutando, no gosto do recém-vivido à flor da pele, os sinais do Carnaval que virá.

Pele de brincante é tipo casca de bolo: está tudo ali. Tem mais maracatu na avenida. Mas eu sou tão fã do que Seu Geraldo (Barbosa) fazia no Rei de Paus quanto da oferenda da Laena-Mãe.

O bolo da Walma é nosso Carnaval, nunca fora de época, porque festa que é festa nos
instala no agora.

E quem não vai querer?

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/02/26. Vida & Arte, p.2.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Uma casa para o Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

O Plebeu Gabinete de Leitura é a biblioteca que a leitora Adelaide Gonçalves vem construindo ao longo de uma vida cheia de vidas.

O amor aos livros e à leitura é um modo singularmente alegre de estar no mundo. Aprendizado iniciado na infância com a mãe, o pai e professores, no interior do Ceará. Torna-se pesquisadora a menina auxiliar de biblioteca na escola em Tauá, no sertão dos Inhamuns.

Professora de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), nossa Adelaide imensidão fez do Plebeu, de vários modos, um nascedouro de livros. Com gente amiga e colaboradores, o Plebeu faz e acontece, publica, tem banca itinerante e um sebo do qual podemos fruir todo segundo sábado do mês no Centro Frei Humberto, no bairro São João do Tauape, em Fortaleza, quando da Feira da Reforma Agrária (dia 7 de fevereiro, a próxima edição da feira). O MST também é doido por livro e leitura.

Jardim das veredas que se bifurcam, o Plebeu não para de dar cria. Aqui, mais uma estante nova, bem sortida, sobre a história do livro e da leitura. Ali, mesas com tu-do (tudo mesmo!) de um autor, o que fez o tradutor de Garcia Márquez para a língua portuguesa, escritor Eric Nepomuceno, dizer "Nem eu tenho todas as edições dos meus livros" quando da visita ao gabinete de leitura.

O mobiliário do Plebeu, ele próprio, conta o contínuo (re)desenhar de nossas casas e espaços públicos. Velhos gaveteiros e ficheiros encontram um bom destino lá. Cristaleiras, escrivaninhas e birôs, carteiras escolares, mesas, bancos e cadeiras de lugares e feituras tão diferentes nos ensinam o co-habitar, a incidência dos passados, a sábia acumulação, a desejada sedimentação em nome da fertilidade da terra, na Terra. O Plebeu é um sim à vida.

Adelaide segue ampliando a biblioteca que sempre teve uso para além do privado, pessoal. Na casa da professora, foi partilhada por estudantes, aprendizes e mestres do pesquisar, criaturas leitoras que receberam delas (biblioteca e Adelaide) sombra e água fresca para florescerem.

Em 2012, Adelaide tornou a biblioteca de casa mais social ao levá-la para o Centro de Fortaleza. Surge o Plebeu Gabinete de Leitura. Tem imagens lindas das duas primeiras sedes, ambas no edifício-sede da Associação Cearense de Imprensa.

Encaixotado, o Plebeu está mais perto de ter uma morada pra gente chamar de nossa. Uma legião cultivada pela Adelaide conspira para realizar o sonho, brasileiríssimo, que pulsa no coração da gente trabalhadora do país tão rico quanto desigual, o da casa própria.

Vai ser a rua mais bonita da cidade. Biblioteca é canteiro, jardim de calçada, pomar e horta, parque, mata, floresta. Enrama feito melão-de-são-caetano. Só existe se enlaça, entrelaça, tece, feito renda, bordado.

Quer saber mais? @plebeulivros no Instagram.

"Uma casa para o Plebeu".

Bora?

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/02/26. Vida & Arte, p.2.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Barbalha, Ni de Souza, Mateu Babaçu

Por Izabel Gurgel (*)

- Niii, repete o i ao modo Cariri, habituada à surpresa que o nome suscita e a criatura já fisgada pelo riso dela. Você vai ver Ni quarta-feira? O ímã do riso está ligado desde o domingo.

Mateu Babaçu, a atriz Ni de Souza guarda mais do que o próprio trajeto no nome de batismo da figura cômica que performa como solista ou em grupo. Maria Irani é "a filha do meio" de Maria Nilza Silva de Sousa e Francisco Valdivino de Sousa, dentre quatro homens e duas mulheres. Nasceu a 26 de abril de 1968. O registro é datado de 1967. Não falei? Nega Ni chega antes.

Dos possíveis sentidos de Irani, sugestão de uma amiga dos pais, criadora de abelhas, ficamos com o de abelha furiosa, enfurecida, em língua de povos originários.

O palhaço do reisado que Ni nos oferece é uma realização de eras e almas de corpos dedicados a fazer do mundo um lugar melhor. Nem que seja por um instante. Virado pelo avesso. Tomado pela brincadeira, pelo gosto de ser besta, zelar e velar a bobagem. Rir não abre só as vias respiratórias. Desenha passagens no tempo.

Digo para Ni que cruzei com Pinga Fogo, ele a contar de si: "setenta e quatro anos de nascido, sessenta e nove de Mateu e vinte e cinco temperando rapadura", o tempo de serviço em engenho de cana. Pedi e Ni me contou outra vez a história dela, que virou a aula-espetáculo "De onde vem o meu Mateu".

Das fontes da Chapada do Araripe, Seu Epitácio e o rosário de festas, folias, folguedos são águas bentas para Ni. Compadre dos pais, "é o primeiro Mateu com quem tive contato". Tão presente quanto respeitado na família dela, reconhecido em sua sabedoria-modo de estar no mundo, o mestre octogenário segue atraindo a abelha. Tornam possível a polinização.

Ouvindo Seu Epitácio, ela se deu conta do compromisso dele com os futuros do brinquedo coletivo. Ele sentia escassear a aparição de novos Mateu.

Foi a bem dizer fogo tocando pólvora. A prática de iniciação teatral que Ni fazia em escola pública virou oficina para (re)descobrir o palhaço de rosto pintado de preto, língua solta, chapéu em forma de cone adornado de espelhos e fitas, a cafuringa que se alonga rumo ao céu feito babaçu em busca de sol.

Em 2000, na festa de carregamento do pau da bandeira de Santo Antônio, Ni cuidou da primeira ninhada de Mateu nas ruas. Em 2025, "quase cinquenta". Em Barbalha, o Grupo Mateu de Teatro dá cria todo ano.

Feito por homens no reisado, o ofício da abelha abriu passagem à consagração das mulheres brincando de Mateu.

Pandeirista, o pai temia pelos desafios que ela, como ele, teria como artista. Nascido no dia da criança, Seu Chico se encantou no Carnaval de 2023, aos 84 anos. A mãe vai fazer 81 dia 13 de maio. Como sempre nos dias de festa, desde quando era quebradeira de babaçu no sítio Brito, Dona Nilza faz em casa a comida de sustança antes da brincadeira.

Fraaaaaaaaaaaaaaaa...

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/01/26. Vida & Arte, p.2.


Para onde vai a memória de uma cidade?

Por Mário Mamede (*)

A identidade de um povo tem como pilares fundamentais suas características étnicas, sua língua, sua cultura e a capacidade de ser guardião de suas memórias, preservando-as e transmitindo-as às gerações vindouras. A partir destes pilares, estão firmadas as condições para nos reconhecermos e sermos reconhecidos como um grupo identitário e fortalecermos num projeto de nação com uma visão de futuro.

Essa identidade estabelece a coesão necessária para termos consciência do que somos e do que desejamos para nós e para os nossos descendentes.

E esta percepção nos impulsiona para firmarmos um sentimento de pertencimento, alimentarmos a nossa autoestima e construirmos uma cidade que seja um lugar bom de viver para todas as pessoas.

A partir dessas breves reflexões, vamos ao que julgo mais importante e urgente, do que sinto necessidade de comentar.

Em Fortaleza, temos um acervo importante da memória de nossa cidade do ponto urbanístico, fotográfico, social, e um arquivo musical organizado por um funcionário público de nome Miguel Ãngelo de Azevedo, mais conhecido por Nirez, hoje uma importante referência e fonte de pesquisa sobre a nossa Capital.

Com a felicidade de viver seus 91 em plena lucidez e uma invejável memória para fatos recentes e passados, Nirez organizou e alimentou o seu acervo, acumulado ao longo de toda uma vida, com muita dedicação. Muitas e muitas histórias de Fortaleza estão guardadas em seu computador, em documentos físicos e em fotos.

Nirez é o guardião da maior e mais bem conservada coleção de discos de cera do Brasil, desde os primeiros gravados no Rio de Janeiro, nos anos 30 do século passado. Mais do que uma coleção, um tesouro!

Ocorre que todo esse patrimônio está hoje guardado em sua própria casa, e chega a um momento de vida em que já não tem mais como dar conta de mantê-lo.

Em comum entendimento com o Nirez, procurei o diretor do Museu da Imagem e do Som, que demostrou vivo interesse, levantando a possibilidade de sua incorporação ao acervo do MIS. Avançamos animados para uma agenda com uma relevante expressão política do Governo Estadual, acontecida no mesmo local no 06 de junho do ano passado.

As ideias convergiram e, pela sua importância, o assunto seria levado para análise do Governador. Adentramos 2026 e, até hoje, a resposta tem sido o silêncio, um silêncio que incomoda. Por isso faço publicamente um apelo às nossas autoridades, instituições acadêmicas e setor empresarial para não deixarmos que esse pedaço da nossa memória vire poeira.

O que se tornou antigo não pode continuar sendo traduzido equivocadamente como obsoleto, sem valor, isso é história que forma a identidade de uma cidade e de um povo.

(*) Médico ortopedista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/01/2026. Opinião. p.15.


 

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