Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie
- A gente é um bando de miseráveis.
- As coisas podem ser caras, mas há quem as
compre; a gente é que é miserável mesmo.
- Ah! Vida do inferno. Não estou mais me
aguentando.
Estas queixas não são tão incomuns de se
ouvir.
Nas minhas palestras e cursos, tenho ouvido
semelhantes depoimentos, que margeiam o abismo da depressão.
Muitas vezes, são almas pequenas com
grandes dons. Almas que se fazem pequenas pela inércia de sair do casulo, em
busca de seus sonhos, que permanecem, no universo dos possíveis.
Eles não apodrecem, mas são chutados para
debaixo do tapete, em cima do qual assentam-se lamúrias de uma inteligência
arguta, de uma visão míope, de um arrazoado ideologizado, de uma negação de si.
Tal atitude pode provir de frustração
sofrida, diante do fracasso em algum momento na vida, o que acontece com
qualquer um de nós. Pode provir ainda de discordâncias, conflitos e confrontos
internos, de ‘menos valia’ e de diversas outras causas, mesmo silenciosas. A
frustração provoca dor profunda e impacta toda a nossa dimensão
existencial. É o preço de nossas
fragilidades, no campo da realização de nossos sonhos, de nossas pretensões, de
nossas expectativas. Para umas pessoas, exercita o caráter e treina a
resiliência – no grego άσκηση (áskese): o conflito pode ajudar a clarear ideias
e convicções que a pessoa acalenta. Para outras, cria um lamaçal, uma areia
movediça, que vai consumindo quaisquer expectativas, quaisquer sonhos, na
impotência assumida de qualidades e conhecimentos adquiridos.
As habilidades anulam-se, seja pelo orgulho
ferido, pela decepção humilhante ou por outros arrazoados, que a própria
frustração legitima, criando seus levianos gatilhos. A alma apequena-se, o
mundo fica mau, as pessoas são inimigas e um auto ódio toma conta e aliena a
mente. A pessoa desconhece suas forças e desgasta suas energias com situações
dissinérgicas, quais sejam de irritabilidade, cansaço, insatisfação,
impaciência, protelação constante. Seu olhar volta-se, então, para o sucesso
dos outros e, incomodada, a pessoa passa a criticá-los, impulsivamente, na
inveja e vitimização da miserabilidade de sua alma, criando ao seu derredor uma
nuvem de mal-entendidos, de malquereres, num inferno que a pessoa cria para si
e tenta mergulhar seu entorno.
Em tudo isso, há que se questionar, como
escreve Victor Frank, o sentido da vida, no encontro consigo mesmo,
ressignificar seus valores e princípios, fortalecer a sua fé e reconquistar sua
autoestima. Rever seus ‘hábitos de vida’ e seu ‘padrão mental’.
E, antes que a frustração teime em
permanecer, com seus deletérios sintomas, é necessário a busca de profissional.
“A vida é luta renhida”, diz Gonçalves
Dias, em sua Canção dos Tamoios. Ela abre espaço aos corajosos e intrépidos,
enquanto simplesmente, passa pelos fracos, ironiza-os e apena-se dos dons
desperdiçados.
Uma boa quinta-feira, com as bênçãos de
Deus!!!
(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 30/07/26.

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