terça-feira, 6 de outubro de 2026

ONDE ESTÁ O PROBLEMA?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- A gente é um bando de miseráveis.

- As coisas podem ser caras, mas há quem as compre; a gente é que é miserável mesmo.

- Ah! Vida do inferno. Não estou mais me aguentando.

Estas queixas não são tão incomuns de se ouvir.

Nas minhas palestras e cursos, tenho ouvido semelhantes depoimentos, que margeiam o abismo da depressão.

Muitas vezes, são almas pequenas com grandes dons. Almas que se fazem pequenas pela inércia de sair do casulo, em busca de seus sonhos, que permanecem, no universo dos possíveis.

Eles não apodrecem, mas são chutados para debaixo do tapete, em cima do qual assentam-se lamúrias de uma inteligência arguta, de uma visão míope, de um arrazoado ideologizado, de uma negação de si.

Tal atitude pode provir de frustração sofrida, diante do fracasso em algum momento na vida, o que acontece com qualquer um de nós. Pode provir ainda de discordâncias, conflitos e confrontos internos, de ‘menos valia’ e de diversas outras causas, mesmo silenciosas. A frustração provoca dor profunda e impacta toda a nossa dimensão existencial.  É o preço de nossas fragilidades, no campo da realização de nossos sonhos, de nossas pretensões, de nossas expectativas. Para umas pessoas, exercita o caráter e treina a resiliência – no grego άσκηση (áskese): o conflito pode ajudar a clarear ideias e convicções que a pessoa acalenta. Para outras, cria um lamaçal, uma areia movediça, que vai consumindo quaisquer expectativas, quaisquer sonhos, na impotência assumida de qualidades e conhecimentos adquiridos.

As habilidades anulam-se, seja pelo orgulho ferido, pela decepção humilhante ou por outros arrazoados, que a própria frustração legitima, criando seus levianos gatilhos. A alma apequena-se, o mundo fica mau, as pessoas são inimigas e um auto ódio toma conta e aliena a mente. A pessoa desconhece suas forças e desgasta suas energias com situações dissinérgicas, quais sejam de irritabilidade, cansaço, insatisfação, impaciência, protelação constante. Seu olhar volta-se, então, para o sucesso dos outros e, incomodada, a pessoa passa a criticá-los, impulsivamente, na inveja e vitimização da miserabilidade de sua alma, criando ao seu derredor uma nuvem de mal-entendidos, de malquereres, num inferno que a pessoa cria para si e tenta mergulhar seu entorno.

Em tudo isso, há que se questionar, como escreve Victor Frank, o sentido da vida, no encontro consigo mesmo, ressignificar seus valores e princípios, fortalecer a sua fé e reconquistar sua autoestima. Rever seus ‘hábitos de vida’ e seu ‘padrão mental’.

E, antes que a frustração teime em permanecer, com seus deletérios sintomas, é necessário a busca de profissional.

“A vida é luta renhida”, diz Gonçalves Dias, em sua Canção dos Tamoios. Ela abre espaço aos corajosos e intrépidos, enquanto simplesmente, passa pelos fracos, ironiza-os e apena-se dos dons desperdiçados.

Uma boa quinta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 30/07/26.

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