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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

INFORMAÇÃO NÃO É SABEDORIA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Uma leitura recente do economista e escritor americano Thomas Sowell levou-me a uma reflexão que parece cada vez mais atual. Vivemos a era da inteligência artificial, da informação instantânea e da abundância de dados. Nunca foi tão fácil saber. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender.

Em Os Intelectuais e a Sociedade, Sowell distingue conhecimento de sabedoria. Os intelectuais - os chamados "ungidos" - acumulam informações, formulam teorias e influenciam o debate público. Mas isso não os torna, necessariamente, sábios. A sabedoria nasce quando o conhecimento é temperado pela experiência, pela humildade e pelo compromisso com o bem comum. Seu oposto não é a ignorância, mas a insensatez. Da mesma forma, a inteligência pode sucumbir à estupidez quando perde a capacidade de reconhecer os próprios limites.

A história é pródiga em teorias defendidas com fervor, muitas delas apresentadas como verdades definitivas que acabaram desmentidas pelo tempo. Ainda assim, seus formuladores permanecem reverenciados, como se a eloquência pudesse substituir a evidência. O progresso do conhecimento nunca foi linear; sempre dependeu da disposição de revisar certezas.

A questão que se impõe é outra: a revolução tecnológica tornará o debate público mais racional? Seremos mais capazes de ouvir, ponderar e mudar de opinião diante dos fatos? Ou caminharemos para uma sociedade dividida entre certezas absolutas, onde qualquer discordância é tratada como ameaça?

A informação é indispensável ao desenvolvimento humano. Contudo, isolada do contexto e da reflexão crítica, ela pode produzir exatamente o efeito contrário. Em vez de aproximar, separa; em vez de esclarecer, confunde. Narrativas simplificadas encontram terreno fértil quando oferecem respostas fáceis para problemas complexos. E, na velocidade das redes, emoções costumam viajar mais rápido que evidências.

Enquanto continuarmos a rotular pessoas antes de examinar argumentos, pouco avançaremos. Crenças não são artigos de fé imutáveis. Diferentemente dos gostos pessoais, elas devem estar abertas à revisão sempre que novas evidências surgirem, sobretudo quando dizem respeito aos fatos e às relações de causa e efeito.

Decidir bem exige mais do que informação. Exige método, espírito crítico, capacidade de verificar, responsabilidade intelectual e, sobretudo, humildade para admitir o erro.

Lembro-me, então, de uma frase de um antigo professor: "O céu é longe", assim como a caminhada rumo à sabedoria. Ainda habitamos um mundo de opiniões apressadas e certezas frágeis, frequentemente sustentadas mais pela convicção do que pela razão.

Talvez por isso permaneça tão atual a observação de Bertrand Russell: "O problema do mundo é que os estúpidos têm plena convicção, enquanto os inteligentes são cheios de dúvidas." Em tempos de excesso de informação, talvez a virtude esteja em cultivar a dúvida honesta, aquela que não enfraquece o pensamento, mas o torna mais livre e mais próximo da verdade.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/07/2026. Opinião. p.23.


terça-feira, 9 de abril de 2024

Sobre a "inércia cognitiva"

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O título faz alusão às possibilidades da ignorância e do ato de manter-se ignorando, ou seja desconhecer ou negar os fatos e a realidade, as contradições morais de nossa consciência.

Pois, uma coisa é fato. Ser ignorante pressupõe um desconhecimento da realidade, no aspecto intelectual. Já manter-se ignorando traduz não querer conhecer, ou, simplesmente, gozar do desconhecimento.

Noutro aspecto, Jacques Lacan, psicanalista francês, definiu o termo "a passion for ignorance" baseado em estudos budistas, para descrever como seus pacientes faziam de tudo para não saber a causa do sofrimento, mesmo quando expunham que gostariam de entendê-la. Na psicanálise a ignorância apresenta-se em formas distintas na neurose, na psicose e na perversão. Por Freud enquanto a psicose repudia a realidade, a neurose somente a ignora. Tal fato pude comprovar com uma experiência traumática quando ainda estudante, ao expor, por solicitação da própria família e de especialistas, o estado de um paciente com câncer terminal.

Por outro lado, muitas pessoas usam a negação e a ignorância como estratégia diante de verdades inconvenientes e que fogem das suas percepções de realidade, e ainda, como forma de criar cenários fantasiosos.

É fato que a distinção entre o ato de ignorar e o de manter-se ignorando remonta a aspectos morais que transitam entre responsabilidade e inocência. Sobre esse ponto de vista ouvi muitas vezes do meu pai; "quanto mais consciência e quanto mais conhecimento, maior sua responsabilidade social".

Num mundo instantâneo a informação é imediata, mas nem sempre respaldada de veracidade. Os algoritmos são, em si, uma nova forma de envolver, de aculturar e de transgredir valores.

Tudo isso gera ansiedade, e muitos optam por cerrar os olhos, não escutar ou silenciar diante de informações que causam desconforto.

Em tempos de crise, duvidar da verdade pode ser uma atitude cômoda para negar o sofrimento, ou ainda, uma estratégia de manipulação para impedir reações ao "status quo".

Enfim, o termo " inércia cognitiva", parece-nos adequado a um tempo de indiferença ao que é ou não verdade ou real. São os tempos da "post-truth", que, infelizmente, relaciona-se à inabilidade de aprender ou mesmo, a ausência da vontade de conhecer.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/02/2024. Opinião. p.19.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

ALMA. CONSCIÊNCIA. CONHECIMENTO.

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

… anunciam que neste novo ano de 2021 as neurociências testarão duas teorias para esclarecer quando e onde a consciência é gerada no encéfalo (que é o centro do sistema nervoso em todos os animais vertebrados e alguns invertebrados).

Alma é um dogma espiritual do Homem, que se opõe ao corpo, embora seja dele inseparável. Consciência já faz parte da atividade psíquica da pessoa e, sendo emoção intuitiva, é influenciada por todas as outras criaturas da cultura em que a pessoa esteja inserida. Conhecimento é aqui entendido como a maneira que o Homem adota para viver/sobreviver no seu considerado mundo.

Os avanços do conhecimento são modificados ou aumentados pelas descobertas científico-tecnológicas, daí derivando a capacidade de perceber e controlar o conteúdo mental das pessoas. No entanto, anunciam que neste novo ano de 2021 as neurociências testarão duas teorias para esclarecer quando e onde a consciência é gerada no encéfalo (que é o centro do sistema nervoso em todos os animais vertebrados e alguns invertebrados).

Argumenta-se que quanto mais os neurônios do cérebro de uma pessoa interagem entre si, mais o ser se sente consciente. Por outro lado, as partes do cérebro humano onde a conectividade neuronal é mais complexa são as áreas de processamento sensorial. Outra suposição é estar o centro gerador da consciência situado na parte posterior ou anterior do encéfalo, onde a consciência se situaria, enquanto outros afirmam que a consciência envolve uma rede de áreas cerebrais.

Até agora, só existem provas de que o córtex pré-frontal (anterior) é capaz de gerar sentimentos de consciência que – enfatizo – é o termo que significa conhecimento acumulado, percepção, honestidade.

Noticiam que esses experimentos mais aprofundados serão conduzidos em 500 voluntários utilizando as técnicas: 

1. Ressonância magnética;

2. Magnetoencefalografia (MEG), (que é um procedimento de mapeamento da atividade do cérebro por meio da detecção de campos magnéticos produzidos pela variação das correntes elétricas que existem naturalmente no cérebro).

Esse novo aparelho permitiu a identificação de áreas de maior ou menor atividade do cérebro e auxiliou na localização de regiões responsáveis pela epilepsia em alguns indivíduos, é usado também como teste para o diagnóstico do Alzheimer e desmentiu o mito do uso de apenas 10% do cérebro. Tenho certeza de que sua importância clínica fará com que a neurociência dê um grande passo à frente, muito embora deverá permanecer desconhecido o local onde o cérebro constrói os sentimentos e as emoções humanas.

Acredito que quando descobrimos que somos ignorantes em um determinado assunto, este fato passa a ser um grande incentivo para a ampliação do conhecimento. Porém, que o importante é o uso que se faz do conhecimento e não seu endeusamento. Aguardemos.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

 

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