Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Há um momento na vida em que passamos a
revisitar o passado.
Não se trata de saudosismo, tampouco de
arrependimento. É algo profundo e silencioso. O ato de reviver nossas memórias
parece fazer parte de uma preparação para a passagem. Inicia-se de uma forma
quase imperceptível, como um reencontro marcado desde sempre pela própria
condição humana.
Assim como as células carregam em si a
programação da morte, a memória parece organizar uma despedida previsível. Em
instantes, quando a vigilância da razão relaxa por um breve momento, imagens do
passado retornam com insistência. Surgem sem propósito aparente, afastando-nos
da realidade imediata para nos conduzir a uma espécie de lucidez superior.
Talvez nenhuma obra musical tenha traduzido
essa trajetória com tanta profundidade quanto a Sinfonia
"Ressurreição", de Mahler. Nela, o compositor percorre os caminhos da
existência humana desde o confronto inicial com a morte até a possibilidade de
uma transformação espiritual.
Nos movimentos iniciais, os "Ritos
Fúnebres" apresentam a inevitabilidade do fim. Em seguida, emergem
lembranças de um olhar nostálgico para os tempos de inocência, beleza e paz.
Depois, Mahler nos conduz a percepção da
futilidade de muitas das nossas inquietações. A vida aparece como um movimento
circular, onde os esforços frequentemente carecem de sentido duradouro. Mas a
obra se completa com a "Luz Primordial". É o instante em que a alma
aspira à redenção. Entre sonoridades quase apocalípticas e momentos de
delicadeza, a música aponta para uma transfiguração. A ressurreição de Mahler
não é apenas religiosa; é sobretudo a transformação espiritual do ser humano
diante do mistério da finitude.
Foi ouvindo essa obra, repetidamente, que
passei a resgatar reflexões que marcaram minha vida de médico e minhas próprias
contradições humanas. Aos poucos, percebi que as decepções perdiam importância.
Permaneciam apenas as lembranças da juventude, dos afetos e dos encontros que
moldaram quem sou.
Há algo semelhante a uma despedida
silenciosa daqueles que continuarão a caminhada. Uma sensação quase distônica,
na qual os acontecimentos do mundo parecem distanciar-se da tormenta cotidiana.
Como um movimento centrífugo, afastamo-nos do círculo das urgências para
observar a existência sob outra perspectiva.
Passei, então, a preparar o reencontro
comigo mesmo. Descobri que não temo a morte. Ao contrário, confesso guardar uma
certa fascinação por esse encontro inevitável. Não de forma apoteótica ou
narcísica, mas a aceitação serena de um retorno à matéria primordial.
Talvez seja essa a maior lição de Mahler:
compreender que a finitude não representa uma derrota, mas uma etapa da grande
metamorfose da existência.
Ao final, somos todos pó, poeira carregada
pelos ventos do tempo. E há uma estranha beleza nessa condição.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 13/06/2026.
Opinião. p.25.

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