quarta-feira, 15 de julho de 2026

MAHLER E A PAIXÃO PELA TRANSITORIEDADE

 Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Há um momento na vida em que passamos a revisitar o passado.

Não se trata de saudosismo, tampouco de arrependimento. É algo profundo e silencioso. O ato de reviver nossas memórias parece fazer parte de uma preparação para a passagem. Inicia-se de uma forma quase imperceptível, como um reencontro marcado desde sempre pela própria condição humana.

Assim como as células carregam em si a programação da morte, a memória parece organizar uma despedida previsível. Em instantes, quando a vigilância da razão relaxa por um breve momento, imagens do passado retornam com insistência. Surgem sem propósito aparente, afastando-nos da realidade imediata para nos conduzir a uma espécie de lucidez superior.

Talvez nenhuma obra musical tenha traduzido essa trajetória com tanta profundidade quanto a Sinfonia "Ressurreição", de Mahler. Nela, o compositor percorre os caminhos da existência humana desde o confronto inicial com a morte até a possibilidade de uma transformação espiritual.

Nos movimentos iniciais, os "Ritos Fúnebres" apresentam a inevitabilidade do fim. Em seguida, emergem lembranças de um olhar nostálgico para os tempos de inocência, beleza e paz.

Depois, Mahler nos conduz a percepção da futilidade de muitas das nossas inquietações. A vida aparece como um movimento circular, onde os esforços frequentemente carecem de sentido duradouro. Mas a obra se completa com a "Luz Primordial". É o instante em que a alma aspira à redenção. Entre sonoridades quase apocalípticas e momentos de delicadeza, a música aponta para uma transfiguração. A ressurreição de Mahler não é apenas religiosa; é sobretudo a transformação espiritual do ser humano diante do mistério da finitude.

Foi ouvindo essa obra, repetidamente, que passei a resgatar reflexões que marcaram minha vida de médico e minhas próprias contradições humanas. Aos poucos, percebi que as decepções perdiam importância. Permaneciam apenas as lembranças da juventude, dos afetos e dos encontros que moldaram quem sou.

Há algo semelhante a uma despedida silenciosa daqueles que continuarão a caminhada. Uma sensação quase distônica, na qual os acontecimentos do mundo parecem distanciar-se da tormenta cotidiana. Como um movimento centrífugo, afastamo-nos do círculo das urgências para observar a existência sob outra perspectiva.

Passei, então, a preparar o reencontro comigo mesmo. Descobri que não temo a morte. Ao contrário, confesso guardar uma certa fascinação por esse encontro inevitável. Não de forma apoteótica ou narcísica, mas a aceitação serena de um retorno à matéria primordial.

Talvez seja essa a maior lição de Mahler: compreender que a finitude não representa uma derrota, mas uma etapa da grande metamorfose da existência.

Ao final, somos todos pó, poeira carregada pelos ventos do tempo. E há uma estranha beleza nessa condição.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.25.

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