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sábado, 18 de abril de 2026

ENCONTROS COM BELCHIOR

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

1 Quando eu cursava medicina na UFC, ouvia falarem de um aluno na Faculdade de Medicina que se destacava por seu talento de compositor. Chamava-se Belchior, mas não foi por termos sido contemporâneos na Faculdade que nos conhecemos.

Fui conhecê-lo no dia em que um amigo, Osterne Brandão (irmão do poeta e letrista de música Antônio José Brandão) me convidou para um sarau. A casa do meu amigo ficava na Parquelândia e levei comigo o violonista Claudio Costa. Nesse dia, além de Antonio Carlos Belchior, conheci também o Miguel da Flauta.

Era manhã e fez-se tarde. Quando alguém sugeriu que continuássemos a reunião no Bar do Anísio, na Beira-Mar. E fomos todos a esse local no carro do anfitrião Osternes.

Além de nos apresentar as canções que vinha compondo, pelas tantas Belchior passou a mostrar outras versatilidades, tais como 1) fazer repente e 2) contar causos.

Um causo

Faziam os alunos da Medicina um semicírculo em torno do professor da disciplina de Proctologia. Interessados todos em acompanhar, da melhor forma possível, os ensinamentos do mestre naquela aula prática. E, também, em ver os detalhes da lesão que ele, com a ajuda da mão enluvada e lubrificada, estava a lhes apontar... no ânus de um paciente.

Num dado momento, em seu afã de descrever a patologia, o mestre empregou uma expressão de duplo sentido: "na entrada". No jargão proctológico, esta expressão tem um sentido próprio. Mas não para o paciente que, em posição de prece maometana, tomou por desfeita o que acabara de ouvir. A ponto de retrucar peremptoriamente:

- Alto lá, doutor, esse negócio aí nunca foi entrada. É só saída.

E saiu meio que ofendido.

[comentário]

Estimado Paulo,

Como a disciplina de Proctologia, com 4 créditos = 60 horas, foi por mim criada e implantada em 1965, para ser ofertada como "optativa", é bem provável, ou certamente (a bem da verdade, não recordo), esse causo aconteceu numa de minhas aulas. De qualquer maneira, categoricamente afirmo que, muita coisa jocosa e muitos "causos" patéticos por lá ocorreram.

José Maria Chaves

2 Em 6 de junho de 1969, botei umas cervejas para gelar e encomendei umas bandejas de salgadinhos. Reuni em minha casa Francisco Dário, Osternes Brandão, Claudio Costa e o compositor Belchior, entre outros amigos. Por volta da meia-noite, encerramos a parte doméstica da noitada e fomos ao Pombo Cheio, onde nos encontramos com o Miguel da Flauta em seu retorno de um compromisso profissional.

Naquela data, eu estava completando 21 anos. Uma fita-cassete registrou aquelas maravilhosas canções que foram tocadas e cantadas durante o encontro. Uma delas, por exemplo, era a canção "Paralelas", que Belchior originalmente cantava assim: "No Karmann-Ghia, sobre o trevo a cem por horas, meu amor". Adiante, foi que ele modificou a letra da canção para: "Dentro do carro..."

No entanto, algo aconteceu com a fita-cassete da festa. Meu irmão Marcelo usou-a para gravar a leitura das anotações que a nossa irmã Marta havia feito em caderno de uma aula de biologia do Prof. Hildemar. E, ao fazer o novo registro, o gravador (que era de fita única) apagou definitivamente o registro anterior.

3 Em 1972, com frequência eu me deslocava do centro do Rio para Copacabana, e vice-versa. Quando o ônibus passava por/sobre o viaduto do Botafogo, dava para ver que existia um pequeno teatro nas proximidades. Um belo dia, notei que aquele teatro estava com uma placa, onde se lia em letras garrafais: BELCHIOR. À noite, fui ver o show do conterrâneo. Pouca gente a prestigiá-lo. No repertório, Belchior incluía um clássico da "música de fossa" nacional, provavelmente do Lupicínio. Ao interpretá-la, foi que alguém acionou a estrondosa descarga de um vaso sanitário do teatro (risos, mas era tudo combinado). Findo o show, descemos ao aterro do Botafogo para conversar: Belchior, eu e uma terceira pessoa (Lauro Benevides? Pretestato Melo? Ah, não recordo). Quanto a Belchior, deduzi que a música o havia desencaminhado das lides acadêmicas. Como, em tempos mais remotos, aconteceu a Noel Rosa, um "monstro sagrado" da música popular brasileira.

4 Voltando a residir em Fortaleza, numa noite fui a um show do Gonzaguinha no teatro da Emcetur. Belchior chegou acompanhado do jornalista Odosvaldo Portugal Neiva, que cobria a pauta de música no Diário do Nordeste. E tivemos uma conversa rápida.

5 Em minhas andanças boêmias, uma vez resolvi baixar num restaurante novo (com algumas indicações a point). Não me recordo do nome do estabelecimento, apenas de que ele ficava próximo à Praça Portugal. Numa boca de noite, sentei-me a uma mesa e comecei a beber. Algumas horas após, já meio sonolento, paguei a conta para me retirar. Na calçada, alguém que acabava de chegar com amigos, abraçou-me e disse: "Professor, já está indo?" Era Belchior. Mudei de ideia e voltei ao bar. Como eu havia lido um texto de Belchior no Pasquim e do qual muito gostara, convidei-o para prefaciar um livro que eu vinha escrevendo. Não posso acusá-lo de haver faltado comigo, pois eu nunca concluí aquele livro.

6 Show do Belchior no Siará Hall. Fui (com Elba) ao Siará Hall, uma casa de eventos localizada na av. Washington Soares, em Fortaleza. Inaugurada em 2005, contava com uma infraestrutura que comportava mega-shows. Considerada a maior casa de espetáculos da cidade até seu fechamento em 2017, trouxe shows e espetáculos de níveis nacionais e internacionais. Visitei-o no camarim, ora pois.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 23/02/2025.

https://gurgel-carlos.blogspot.com/2025/02/encontros-com-belchior.html


quinta-feira, 16 de abril de 2026

UM SABOR DE CANÇÃO E AMARGO DE VIDA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Você, por certo, conhece a música natalina “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel’, não é?

Pois bem, vamos também conhecer o seu autor, o brasileiro baiano José de Assis Valente, nascido em 19 de março de 1911, no seio de uma família humilde. Aos 6 anos de idade, um senhor Laurindo, também baiano, percebeu certo dom no garoto, roubou-o da família, com o pretexto de levá-lo para outra família com melhores condições, em Alagoínhas, no interior do mesmo estado, onde recebeu educação, massa custo de trabalho servil. Quando adolescente, esta família abandonou-o, mudando-se para o Rio de Janeiro. Para sobreviver, foi lavador de pratos e aprendeu a profissão de protético e conseguiu frequentar o Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, tornando-se exímio desenhista e escultor.

Em 1927, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde compôs seus primeiros sambas em 1932, gravados por Carmen Miranda, Orlando Silva, Carlos Galhardo e muitos outros.

Com muitos traumas existenciais e descontrole financeiro, tentou várias vezes o suicídio, cortando os pulsos, uma segunda vez pulando do Corcovado, sendo sua queda mitigada por uma árvore, mas, infelizmente, com excesso de dívidas, ingere, mortalmente, formicida, tirando sua vida.

Casado, em 13 de maio de 1941, com Nadyli da Silva Santos, separa-se no ano seguinte, quando lhe nasceu uma filha Nara Nadyli.

Assis Valente é considerado um pioneiro na música popular do Brasil, havendo composto músicas típicas, tanto juninas como Cai, cai balão, quanto natalinas, como Boas Festas), estas em 1933 e muitas outras.

Sabe-se que, no natal de 1932, na solidão de uma pensão em Niterói, sentindo a carência da felicidade, que, segundo ele, nunca lhe visitara, compôs esta belíssima canção natalina, que todos cantamos, mas não lhe degustamos o teor da dor e da decepção de José de Assis Valente.

Eis a canção:   Anoiteceu, o sino gemeu / A gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar. / Eu pensei que todo mundo / Fosse filho de Papai Noel / Bem assim felicidade / Eu pensei que fosse uma / Brincadeira de papel.  / Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem.

Fontes: Raulrufo, e https://pt.wikipedia.org/wiki/Assis_Valente

Tenhamos um bom domingo, com as bênçãos de Deus.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 15/03/26.

terça-feira, 7 de abril de 2026

99 TOMS EM 99 TONS

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Estava eu sem Mindlin, mas entre livros, numa das poucas livrarias de hoje e "garimpei" notável dueto. A biografia de Tom Jobim por Ruy Castro, o mesmo que, na Folha, considerou que, se escrita pela própria pessoa, não é biografia, pois só o seria se fossem usadas as armas do biógrafo, entre elas ouvir um mínimo de 200 fontes. Para o escritor, a autobiografia é mais uma memória, em que o autor ouve apenas a si mesmo.

O livro era "O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim", considerado o melhor de 2025 no Prêmio Jabuti, onde o numeral do subtítulo explicita quantas são as crônicas ali reunidas. A descrever melodias, compositores, letristas, cantores e até filmes, o escritor revela: Jobim dizia que "acordar cedo, ver o sol, respirar fundo e achar que a vida é bonita era o que o estimulava a sentar e escrever música". E que "numa época que não se falava em ecologia, já denunciava a destruição das matas, a especulação imobiliária e a poluição das águas".

Segundo o autor, sempre que Jobim abria o piano, o mundo melhorava. E o músico afirmou: "o Japão é um país paupérrimo, com vocação para a riqueza. Nós somos um país riquíssimo com vocação para a pobreza".

Reza a lenda que linda garota, com o charme da carioca, a caminho da praia, passava em frente ao Bar Veloso, onde ficavam Tom e Vinicius a admirá-la pela "beleza que passa sozinha", sem saber que "o mundo inteirinho se enche de graça e fica mais lindo por causa do amor". A lenda também diz que Vinicius e Tom criaram "Garota de Ipanema" no próprio bar, que, por sinal, passou a ter o nome da canção.

O livro nos ensina que Tom compôs a música num apartamento e Vinicius escreveu a letra noutro. Para o autor, Tom Jobim compunha e Vinicius vestia com letras aquelas canções. Digo eu: que corpo, o do cliente! Que alfaiate! E que prova viva! O literato aponta no livro: "Tom não morreu. E, a qualquer hora dessas, vamos cruzar com ele, à sombra de alguma árvore que já não está mais lá". Indica o seu epitáfio como: "tu foste a única culpada". E indaga se era Ligia, Luiza, Gabriela ou Teresa da praia, de quem, a meu juízo, nem a praia conseguia ser sua dona...

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/03/26. Opinião, p.18.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Palestra da ACEMES: “Médicos e Estudantes de Medicina Compositores”

 

O Presidente da Academia Cearense de Médicos Escritores (ACEMES), o médico e professor Luiz Gonzaga de Moura Jr., convida para a Palestra “Médicos e estudantes de medicina compositores”, a ser proferida pelo médico pneumologista e escritor Paulo Gurgel Carlos da Silva.

Paulo Gurgel é administrador de vários Blos e autor de livros, destacano-se como cronista e memorialista. Foi um dos fundadores e ex-presidente da Sobrames/CE.

Data: 26 de fevereiro de 2026 (quinda-feira).

Horário: 19h30min.

Local: Auditório do Núcleo do Obeso do Ceará – Avenida Antônio Sales, 1.540, em frente ao antigo Carrefour, em Fortaleza-CE.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

ERA UMA VEZ UM VIOLINO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Era uma vez um violino que viajou por muitos lugares devido às constantes mudanças da família de um oficial do Exército. Quando menino, o Pai havia estudado o instrumento que, então, fazia parte da educação musical de crianças. Aos nove anos, as aulas cessaram. O aspirante a violinista foi matriculado no Colégio Militar de Fortaleza, onde a instrução militar prevalecia. Adulto, vez por outra, ele evocava com certa melancolia suas lembranças de tocar: "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim" ... O violino silencioso permaneceu na família.

Nenhum dos filhos expressou qualquer vocação musical. A mãe até que tentou, introduzindo as crianças a sessões de piano e acordeom. Apesar do esforço, não funcionou.

Para encurtar uma história longa, o violino bolou por aí uma vida. Quando o Pai faleceu aos 101 anos e sua casa foi desfeita, o violino foi achado quebrado, sem cordas e com o arco em pedaços. Os filhos decidiram que quem herdaria o instrumento seria a filha caçula por ter uma neta que começou a aprender violino muito pequena. Entre optar por fazer do violino um enfeite ou devolver-lhe vida, a decisão dela foi por tentar restaurar.

Depois de muito perguntar por Fortaleza e muita gente se envolver na procura, foi localizado um luthier, em Aquiraz, segundo as indicações, o único capaz de restaurar o violino sem vida. Depois de idas e vindas, a opinião predominante era de que o esforço financeiro e de tempo de restauro (4-5 meses) talvez não compensasse. Mas, convencida do contrário, a filha mais nova optou por um ato de preservação da memória do Pai e de aposta no futuro.

O processo de restauro é lento e meticuloso. O luthier se revelou a pessoa certa na hora certa. Passados meses de trabalho incansável, eis que o violino foi transmutado em presente de Natal para a neta aprendiz de violino, hoje com oito anos. Se ela vai, ou não, praticar no instrumento do bisavô, ainda é cedo para afirmar. Certo é que recuperar o velho violino comoveu a família. Se nossos amores se vão, de algum modo, o legado das coisas que ficam é um talismã para os dias que virão. Feliz Ano Novo!

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/12/25. Opinião. p.16.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

LIVRE PARA DRIBLAR

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

De 1964 até meados da década de 1980, havia censura, e as letras das músicas eram vetadas se consideradas "subversivas", "perigosas" ou por ferirem a "moral" e os "bons costumes". "Acorda Amor", "Milagre Brasileiro" e "Jorge Maravilha", com autoria de Julinho da Adelaide, foram aprovadas, tocadas e cantadas. Um de seus trechos era: "E nada como um tempo após um contratempo / Pro meu coração / E não vale a pena ficar, apenas ficar / Chorando, resmungando / Até quando, não, não / [...] Você não gosta de mim, / Mas sua filha gosta".

O Pasquim, um divertido e inteligente jornal da época, "fabricou" uma entrevista com Julinho da Adelaide, que declarou "ser apolítico", mas suas músicas eram, exatamente, sátiras políticas. Em 1975, o Jornal do Brasil revelou que, por ser muito visado, Chico Buarque usara o pseudônimo Julinho da Adelaide para driblar a censura. No passado, muitos jornalistas, artistas e escritores também usaram. Sérgio Porto (criador do Febeapá, Festival de Besteira que Assola o País) era Stanislaw Ponte Preta.

Júlio Cesar de Melo foi Malba Tahan até em documentos oficiais. Dom Pedro I era Piolho Viajante. Clarice Lispector já foi Tereza Quadros. Apparício Torelly era o Barão de Itararé. Nelson Rodrigues assinou como Suzana Flag; Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, como Dr. Semana. Marilyn Monroe era Norma Jeane Mortenson. Stefani Joanne Angelina Germanotta é Lady Gaga. Farrokh Bulsara era Freddie Mercury. Agenor de Miranda Araújo Neto era Cazuza. Voltaire era François-Marie Arouet. Lênin era na realidade Vladimir Ilyich, e Stálin ("homem de ferro", em português) era o pseudônimo de Iosif Dzhugashvili.

Meu pai, Ari de Sá Cavalcante, registrou-me como Ivo. Saiu do cartório, foi a uma livraria e um livro de Matemática levou-o à lembrança de Tales, seu pseudônimo no jornal O Estado, onde criou frases memoráveis.

No dia seguinte, foi ao cartório e trocou Ivo por Tales, que acoplado a Montano, pseudônimo de meu bisavô materno, formou o nome composto Tales Montano. Sem a passagem pela livraria, provavelmente o autor desta crônica seria Ivo Brasil de Sá Cavalcante.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/12/25. Opinião, p.16.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

TREM AZUL

Por Romeu Duarte Junior (*)

À memória de Lô Borges

1982, Projeto Pixinguinha, Theatro José de Alencar. Um cara com cara de garoto (que sempre preservou), maçãs do rosto salientes, entra no palco com a sua guitarra e uma timidez impressionante. Banda afiada de apoio, desfia ante a numerosa plateia um a um dos seus clássicos, por ele compostos com seu irmão no final da sua adolescência e cantados por seu grande amigo, o tênis encardido no clube da esquina. Completa o set com canções que havia lançado no álbum "A Via Láctea", de 1979, um vento de maio equatorial. A casa de espetáculos veio abaixo quando o show terminou. Acho que o músico nunca havia tocado para tanta gente e nunca imaginou ter fãs numa cidade tão longe da sua BH natal. "Todos ao Estoril! Alguém leva o cara!", gritou alguém. O artista sumiu na noite...

Já conhecia bem o trabalho dele. Mescla de rock, jazz, psicodelia, MPB e outros baratos afins. Direto do cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, coração musical pulsante da capital mineira, tudo o que você podia ser. Que tal um girassol da cor do seu cabelo, Lennon e McCartney? O disco de estreia que dividiu com seus camaradas das Alterosas ouvi quase até furar. As melodias complexas, os acordes dissonantes, os arranjos ousados, as letras que falavam de viagens para fora e para dentro, tudo isso me encantava. Ah, quantas horas não passei apurando o ouvido e os olhos para decifrar um verso, apreender uma escala, degustar um solo, devorar a ficha técnica dos discos e saber quem tocava em cada faixa. Canções potentes, belas, sublimes...

Por aquela época, pré, durante e pós Massafeira, tinha deixado o rock'n'roll meio de lado e passei a estudar a música brasileira. Fazia parte de um grupo que se reunia amiúde para escutar, tocar e compor música e que tinha nos mineiros alguns dos seus heróis musicais. Participamos de festivais e fizemos shows, mas a vida, com o seu próprio curso, nos levou para outras paragens. Só sei que o matulão da mineirada foi a nossa trilha sonora por muito tempo. Aliás, pelo menos para mim, continua sendo e certamente será. Além disso, a imensa e sincera amizade e o pétreo respeito que até hoje une aquele povo, tão difícil de encontrar aqui, nos fascinava. O certo é que Fortaleza se tornou uma praça simpática aos musicais da terra de Drummond. Certeza de casa cheia e aplauso.

Passei a semana atrasada com uma grande preocupação na cabeça e uma dor no peito. As notícias que me chegavam do cara com cara de garoto não eram boas. Hospitalizado, sedado, traqueostomizado, dependente de hemodiálise. Após hiatos criativos, desde 2019 fazia um disco por ano com parceiros os mais diversos. Todavia, o tal do streaming, que rege cruelmente o meio fonográfico e refém do jabaculê, virou-lhe as costas. Nunca mais escutei qualquer canção sua. Súbito, no domingo à noite, entre uma e outra novidade ruim que a televisão adora divulgar, a pior de todas. Se eu morrer, não chore não, é só a lua na paisagem da janela, quem sabe isso quer dizer amor. Arrasado, tentei dormir e não consegui. Vento solar e estrela do mar. Vá em paz, Lô, muito grato por tudo.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/11/25. Vida & Arte. p.2.


domingo, 30 de novembro de 2025

ESTUDANTES DE MEDICINA COMPOSITORES DO BRASIL

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

1 Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa (1910 - 1937). Nascido no bairro carioca de Vila Isabel, foi um dos mais importantes artistas da música no Brasil. Morto prematuramente aos 26 anos em decorrência de tuberculose, deixou um conjunto de canções que se tornaram clássicas dentro do cancioneiro popular brasileiro ("Último desejo", "Com que roupa?", "Feitiço da Vila", "Pierrô apaixonado", "Conversa de botequim", "O orvalho vem caindo" e outras).

Noel Rosa também compôs um samba e escreveu um soneto nos quais fez referências ao corpo humano e a uma enfermidade: "Coração (Samba anatômico)" e "Ao meu amigo Edgar", respectivamente.

"Coração"

"De sambista brasileiro / Quando bate no pulmão / Traz a batida do pandeiro."

http://www.youtube.com/watch?v=dZg-yexpGVw

Gravado por Noel na Odeon, em 1932, disco 10931-B, matriz 4473, foi feito um ano antes, quando ele estudava Medicina, com um erro crasso. Ao afirmar: "Coração, grande órgão propulsor / Transformador do sangue venoso em arterial". Em 1955, Nélson Gonçalves o regravaria com a letra corrigida para: "distribuidor do sangue venoso e arterial".

http://youtu.be/9-HT_JXHUVk (regravação)

"Ao meu amigo Edgar"

Em 27 de janeiro de 1935, Noel Rosa, doente (com tuberculose) em Belo Horizonte, enviou uma carta em versos a seu médico e amigo Edgar Graça Mello. Uma carta bem-humorada em que ele brincava e dizia que já estava melhor de saúde, mas que continuava com muito medo de tomar injeção. O original desta carta está nos arquivos que pertenceram ao pesquisador Almirante. Muito tempo após a morte de Noel, o sambista João Nogueira musicou-a, incluindo-a em seu LP "Vida boêmia" (EMI-Odeon, 1978).

Fonte: Songbook NOEL ROSA - Vol. 1, produzido por Almir Chediak.

 

"Já apresento melhoras pois levanto muito cedo
E deitar às nove horas pra mim já é um brinquedo
A injeção me tortura e muito medo me mete
Mas minha temperatura não passa de 37.

Nessas balanças mineiras de variados estilos
Trepei de várias maneiras e pesei 50 quilos
Deu resultado comum o meu exame de urina
Meu sangue noventa e um por cento de hemoglobina.

Creio que fiz muito mal em desprezar o cigarro
Pois não há material pro meu exame de escarro.
Até agora só isto para o bem dos meus pulmões

E nem brincando desisto de seguir as instruções.
Que o meu amigo Edgard arranque desse papel
O abraço que vai mandar o seu amigo Noel."

http://blogdopg.blogspot.com/2017/08/ao-meu-amigo-edgar.html

N. do E. "Cordiais saudações", de 1931, é outro samba-epistolar de Noel Rosa.

2 Belchior

Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (1946 - 2017), nascido em Sobral, no Ceará, foi compositor, cantor, escritor e artista plástico. Estudou Medicina na Universidade Federal do Ceará, mas abandonou o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se à carreira artística. Entre seus maiores sucessos estão "Apenas um rapaz latino-Americano", "Como nossos pais", "Paralelas", "Mucuripe" (com Fagner), "Galos, noites e quintais" e "Divina Comédia Humana".

http://gurgel-carlos.blogspot.com/2025/02/encontros-com-belchior.html

3 Zé Ramalho

José Ramalho Neto (1949 -), cantor e compositor. Nascido em Brejo da Cruz, na Paraíba, estudou Medicina na Universidade Federal da Paraíba, mas abandonou o curso no segundo ano, atraído pela carreira artística. É autor de "Avôhai", "Sinônimos", "Chão de giz", "Frevo Mulher" e outros sucessos musicais.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog EntreMentes em 23/02/2025.

https://blogdopg.blogspot.com/2025/02/medicos-compositores-do-brasil.html


MÉDICOS COMPOSITORES DO BRASIL

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

1 Zé Dantas

José de Sousa Dantas Filho (1921 - 1962), pernambucano de Carnaíba, médico obstetra e folclorista. Parceiro de Luiz Gonzaga em "Acauã", "Forró de Mané Vito", "Cintura fina", "Riacho do Navio", "A Volta da Asa Branca", "Xote das meninas", "Sabiá", entre outras canções.

2 Alberto Ribeiro

Alberto Ribeiro da Vinha (1902 - 1971), nascido no Rio de Janeiro. Compôs, em parceria com João de Barro, o "Braguinha", algumas das mais famosas marchas carnavalescas e juninas do Brasil. São de sua autoria: "Copacabana, princesinha do mar", "Yes, nós temos bananas", "Touradas em Madrid" e "Chiquita Bacana". Ele é nome de rua no Jardim Botânico, RJ.

3 Joubert de Carvalho

Joubert Gontijo de Carvalho (1900 - 1977), mineiro de Uberaba. Seu primeiro grande sucesso foi a marchinha "Taí (Pra você gostar de mim)", gravada pela jovem Carmen Miranda, em 1930. Compôs também "Minha casa", "Pierrot", com Paschoal Carlos Magno, e "Maringá", que inspirou o nome da cidade paranaense.

4 Paulo Vanzolini

Paulo Emílio Vanzolini (1924 - 2013) nasceu em São Paulo. Formado pela USP, com doutorado em Zoologia pela Universidade de Harvard, tornou-se médico em 1947. Seu primeiro LP: "11 Sambas e uma Capoeira". Foi com "Ronda", "Volta por cima", "Samba erudito e "Praça Clóvis" que este descendente de italianos firmou seu nome na MPB.

5 Aldir Blanc

Aldir Blanc Mendes (1946 - 2020), carioca do Estácio, médico psiquiatra. Com João Bosco, seu principal parceiro, compôs "O Bêbado e A Equilibrista", "Dois pra lá, dois pra cá", "Transversal do tempo", "Mestre-Sala dos Mares" etc. Foi colaborador de "O Pasquim", do jornal carioca "O Dia" e de "O Estado de São Paulo". Publicou alguns livros, dentre eles "Rua dos Artistas e arredores", “Brasil passado a sujo", "Vila Isabel" e "Inventário da infância".

6 Janduhy Finizola

Janduhy Finizola da Cunha (1931 - 2024), natural de Jardim do Seridó-RN. Publicou livros de poesia e compôs canções para grandes nomes do forró. Seu trabalho musical mais famoso é a trilha da "Missa do vaqueiro", solicitada por Luiz Gonzaga, que o apelidou de "Doutor do baião"

7 Capinan

José Carlos Capinan (1941 -) baiano de Entre Rios, é formado em artes cênicas, direito e medicina. Ligado ao Movimento Tropicalista, Capinan, escreveu as letras de "Soy louco por ti América", de Gilberto Gil, "Clarice", de Caetano Veloso, e "Gotham City", de Jards Macalé. Também compôs "Ponteio", com Edu Lobo, "Coração Imprudente", com Paulinho da Viola, "Moça Bonita", com Geraldo Azevedo, "Papel Marchê", com João Bosco e "Cidadão", com Moraes Moreira. É imortal da Academia de Letras da Bahia.

8 Geraldo Bezerra

Geraldo Bezerra da Silva (1949 -), cearense de Jaguaribe, médico obstetra, escritor e pesquisador. Foi presidente da Sobrames, regional Ceará, sucedendo-me neste cargo. Autor de "Volta, Luiz" (com José Carlos e Zé de Manu) e "Verdade absoluta" (com José Carlos), título de um LP de José Carlos Albuquerque.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog EntreMentes em 23/02/2025.

https://blogdopg.blogspot.com/2025/02/medicos-compositores-do-brasil.html


terça-feira, 29 de abril de 2025

O MAR E A BRISA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Sentei ao piano para tocar "Eu e a Brisa", de Jony Alf.  Ao olhar minha partitura, uma cópia da partitura de minha professora datada de 1984, observei o recadinho de um amigo dela: "Para não se esquecer de mim". Sorri. Sempre que ouço essa música, fico emocionada. Já me sensibilizava ao ouvir minha irmã Paula tocá-la, numa época em que era familiarizada apenas com sua melodia.

Hoje, além da melodia, guardo intimamente sua letra comigo. "Ah, se a juventude que essa brisa canta... ficasse aqui comigo mais um pouco... eu poderia esquecer a dor... de ser tão só... pra ser um sonho..."

Comecei a cantarolar e fiquei com essa frase na cabeça: "a dor de ser tão só..." Então, pensei no inverso, na solidão da dor de cada um de nós.

O sofrimento é algo profundamente íntimo e solitário. O início célebre de "Anna Kariênina", de Tolstói, diz o seguinte: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". Portanto, cada um de nós sofre à sua maneira.

No último final de semana, assistindo a uma entrevista do Chico Anysio, com meus pais, no antigo programa "Roda Viva", fiquei surpresa ao saber que ele também era pintor. Suas pinturas geralmente continham imagens do mar.

Ele não retratava a figura humana. Um dos entrevistadores perguntou-lhe se ele não tinha receio de que o público o criticasse, afirmando que todos os seus quadros eram semelhantes. Ele, inteligentemente, respondeu: "Nunca é igual." E complementou: "As duas coisas de que mais tenho medo são o mar e a solidão."

Ele expressava, através do que pintava, o que mais o assustava. E fiquei pensando que a solidão dele era imensa, assim como o mar, portanto, seus quadros jamais seriam iguais; e, se outro artista expressasse sua solidão através da imagem do mar, teríamos outras infinitas representações.

Voltando à música, o verso que mais me toca é o seguinte: "Fica... oh brisa fica, pois talvez, quem sabe... o inesperado traga uma surpresa..." O "fica" é uma oitava decrescente. O som é tão belo, soa quase como uma súplica.

Aqui estamos nós, cada um com seu mar à espera de uma brisa, desejo que, quando ela surja, seja suave e leve.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/03/2025. Opinião. p.20.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

UMA REVOLUÇÃO QUE PRECISAMOS CONSTRUIR

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Ao acordar repito, como alguém maduro, os hábitos do dia anterior. É como se fosse um direito a curtir devagar, e, ao mesmo tempo, refletir sobre o planejamento do dia. Leio as mensagens esquecidas no dia anterior, revejo as falhas e as ausências, e em seguida tento me perdoar.

Mas, nessa manhã foi diferente. Lembrei das conversas com amigos, que assim como eu, dividem a frustração com os dias atuais. Chego a pensar que é irreal, pois como é possível repetir comportamentos tão destrutivos após séculos de aprendizado.

Pois bem, esse amigo, num surto de revolta, escreveu-me um desabafo. E em alguns segundos, entendi que não era simplesmente lamentação, e sim alguém que sofre no viver.

O texto falava sobre o desespero de assistir as inúmeras demonstrações de falta de espírito público, sobre trair o estado, sobre ser fiel aos governos e aos interesses individuais.

Adaptando a frase de um líder local, em pensar que a república atual faz corar as monarquias mais perversas. Basta lembrar da apropriação indevida dos bens do Estado, da malversação dos recursos públicos, quer sejam por esperteza, quer sejam por desvios morais, ou mesmo incompetência cognitiva.

Lembrei-me, também, de uma frase a mim dirigida, “Cabeto, é assim mesmo, a política é assim. “Soou-me mal, ou como mau. Deixou-me arrasado, pois nesse momento, essa pessoa, acabara de desesperançar a minha crença no futuro, a crença em ver tudo diferente.

Enfim o tempo se encarregou...E gostaria de dizer que recuperei minhas forças, resgatei um espírito inquebrantável.

Resolvi a partir de agora falar para mudar, sem permitir que destruam a possibilidade de crer, e nos manter, assim, tristes e encabulados.

Ao lembrar da música do Chico, “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, optei por lutar, usando palavras e não manipulações, falar claro para quem quiser ouvir, para fazer a multidão andar.

Eis que acordei de um sonho bom. Acho que não foi uma reflexão e sim uma anunciação de uma revolução inteligente e evoluída.

Vamos exercer um pacto pela Ética, pela delicadeza, pela capacidade de constranger os espertos de sempre.

Vamos mudar em silêncio. Prometo na próxima escrita publicar um código, um movimento para alcançar a todos, e enfim sedar a sensação de passividade que tanto nos atormenta.

Vamos juntos?

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/01/2025. Opinião. p.17.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

POR QUEM OS SINOS DOBRAM?

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Apagaram-se as luzes. Minha expectativa era ver Vanessa da Mata interpretar Clara Nunes. Vozes encantadoras, dança, macramê e o "azul que não era do céu, nem era do mar" brilharam diante de mim. Os artistas subiram ao palco pelos corredores do teatro, criando uma conexão imediata com o público. Olhei para meu vizinho, um recém-conhecido na plateia, e questionei: "O microfone da Vanessa está baixo?" Na realidade, a voz de Vanessa da Mata é muito aguda, enquanto a de Clara Nunes era mais grave, o que, a meu ver, deixou-a mais contida na apresentação. Sua voz soava bela entre tantas outras magníficas, mas não havia destaque.

Chamou minha atenção uma das integrantes do espetáculo, visivelmente emocionada durante uma canção e, logo depois, dançando com grande alegria. Quanta entrega em sua interpretação!

A cena me trouxe à memória uma carta que viralizou na internet há alguns anos, escrita pela mãe de uma violinista e endereçada à direção da escola onde sua filha estudava. O início da carta dizia: "Minha filha deseja ser o segundo violino. Não a primeira, nem solista; o que ela quer é tocar suavemente ao fundo, pois isso a faz feliz." Essa moça deve ser, sem dúvida, uma exímia violinista que entende que o seu papel é fundamental na harmonia da orquestra.

Afinal, o que caracteriza a excelência na prática de algo? Ser o melhor dentro de um grupo? E, como definir quem é o melhor? Podemos ser excepcionais no que fazemos, mas isso não significa que sejamos considerados os mais importantes, de acordo com nosso sistema de valores e crenças. Não estou advogando a favor da mediocridade; entretanto, a procura incessante por ser superior alimenta um espírito de competição, e o desejo de competir jamais deve sobrepujar o desejo de pertencimento. Segundo John Donne, "nenhum homem é uma ilha completa em si mesma. Todo homem é um pedaço de continente, uma parte da terra firme".

Naquela noite, o grupo inteiro, afinado, brilhou e celebrou com alegria. E, aquela jovem de nome desconhecido, imagino que saudosa de alguém, "guerreira que não é de brincadeira, molhou o pano da cuíca com suas lágrimas e sambou a noite inteira."

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/12/2024. Opinião. p.18.


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

SOBRE UM FAMOSO MENINO NEGRO ÍDICHE

About one famous black yiddishe ingale

Um menino negro nasceu, neto de escravos, em um bairro pobre de Nova Orleans conhecido como o "Back of Town".

Seu pai abandonou a família quando o pequeno ainda era uma criança. Sua mãe se tornou uma prostituta e o menino e sua irmã tiveram que viver com a sua avó. Cedo na vida ele provou ter talento para a música, tentando a sorte cantando nas ruas de Nova Orleans. Seus primeiros ganhos foram as moedas jogadas para ele.

A família judia Karnofsky, que havia imigrado da Lituânia para os EUA teve pena do menino de 7 anos de idade, e trouxe-o para sua casa. Inicialmente ele fazia pequenos trabalhos da casa, em troca lhe forneciam, uma cama, comida e abrigo e ainda incluiam-o em seus jantares de Shabbat. Neste lar judaico ele permaneceu e, pela primeira vez em sua vida, foi tratado com gentileza e ternura.

Quando ia para a cama, a Sra. Karnovsky costumava cantar-lhe canções de ninar russas. Com o tempo, esse menino tornou-se o filho "adotivo" da família.

Certo dia, enquanto ajudava o Sr. Karnofsky com seu cavalo e carroça na entrega de carvão, passaram por uma loja e o rapaz apontou para um velho trompete na vitrine. Passado alguns dias, o Sr. Karnofsky, entrou e saiu com o instrumento, dando-lhe de presente. Mais tarde, ele aprendeu a cantar e tocar várias canções russas e judaicas.

Já um músico profissional e compositor, usou estas melodias judaicas em composições, tais como "St. James Infermary" e "Go Down Moses".

O menino negro cresceu e escreveu um livro sobre esta família judaica que o havia adotado em 1907.

Quem é esse menino? Você o conhece como LOUIS "SATCHMO" ARMSTRONG.

Em memória desta família e até o fim de sua vida, ele usou uma estrela de David e disse que nesta família ele tinha aprendido "como viver a vida real e a ter determinação."

Louis Armstrong orgulhosamente falava ídiche fluente! Você sabia?

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria explícita.

domingo, 22 de setembro de 2024

LUIZ GONZAGA – 130 ANOS DO NASCIMENTO

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

Livro e exposição

O RioMar Fortaleza está oferecendo uma experiência imperdível para os fãs de Luiz Gonzaga e da cultura nordestina. Até o dia 13 de outubro, a Praça de Eventos do shopping recebe a exposição interativa "Luiz Gonzaga: 110 anos do Nascimento", baseada no livro homônimo do pesquisador Paulo Vanderley, detentor do acervo e também curador da exposição.

Este livro (vendido no local por 350 reais), com quase 500 páginas, é fruto de quase três décadas de pesquisa de Paulo Vanderley. Ilustrado pelo Mestre Espedito Seleiro, a obra permite que o próprio Gonzaga conte suas histórias, com trechos extraídos de mais de 100 entrevistas e depoimentos, além de oferecer uma experiência multimídia, com QR codes que direcionam os leitores para materiais adicionais.

A mostra com cerca de 100 artigos originais, como fotos pessoais, documentos históricos e objetos marcantes da vida e obra do Rei do Baião, proporciona uma verdadeira imersão sensorial, em que o público pode ouvir entrevistas com o próprio Luiz Gonzaga e com outros artistas que tiveram o privilégio de conviver com ele. Em sete estações interativas, os visitantes têm acesso a vídeos, áudios e outros conteúdos.
A entrada é grátis.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 22/09/2024.

http://gurgel-carlos.blogspot.com/2024/09/luiz-gonzaga-110-anos-do-nascimento.html


sábado, 10 de agosto de 2024

Não dá para viver sem Chico, sem Jobim

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Tenho conversado com amigos, aqueles que pensam, que são livres no pensamento e não me reprimem nos meus sonhos.

Falam-me sobre seu dia, sobre seus medos, sobre suas dúvidas de um tempo que não insistimos em entender. Sobre um governo anacrônico, a ausência de lideranças, o mundo cada vez mais fechado, agravando os conflitos.

Foi assim que amanheci, sem pudor e sem desvios. Eis que surgi em poesia-onde foi o tempo que eu esperava a noite, quando escrevia fantasias? As emoções ainda reverberam em cada letra, em cada palavra escrita. Era uma eternidade, paixão, afeto, música e poesia.

Era um tempo criança que cria no futuro, sem determinismos e manipulações. A economia vinha depois da música e da sedução, do simplesmente crer.

Não me acostumei a viver assim, sem melodia, sem samba, sem bossa, sem Chico, sem Noel, sem Jobim, sem carinho e sem ideais. Não há nem mesmo as falsas baianas, resta-nos os sem ginga, sem morro e sem alegria.

E assistir os pseudo futuros, as previsões de quem nem canta, nem nada. Quando não encantam, é que não contam que desatinam sem rumo, sem charme.

Assim, sem jeito, presto-me a descrever o passado por pura fantasia e por ainda ver ideologia. Por andar pelas ruas e lembrar dos detalhes, de cada marca da cidade que assiste a negação do seu passado.

Aliás, esquecer as memórias em nada contribui, faz-nos somente sentir tudo sozinho.

Que se faça verdade a letra e, então, a música leve-me a lua, em outras palavras encha-me de melodia e de primaveras.

Quando eu já não tolerar as ausências, que venham as lembranças, para ficar pertinho, bem junto da harmonia, do samba, da nossa identidade.

Quando vier novamente quero estar por perto, mas sem tirar os olhos da sintonia...para nascer sempre, de qualquer forma, em qualquer lugar, com charme e melodia.

Não pode mais passar um tempo assim, sem um só momento de ternura. Como é triste quem não tem razão para chorar.

Mesmo assim é melhor ser inocente que ser triste. É melhor perder do que desconfiar e é melhor ceder do que ganhar.

Então, " Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar quando eu já não puder pisar mais na avenida"

E assim o inverno já se foi....

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/2024. Opinião. p.17.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Solenidade dos 130 Anos da Academia Cearense de Letras

Participei na tarde de ontem, 6 de agosto de 2024, no Palácio da Luz, pela terceira vez como acadêmico, da solenidade comemorativa dos 130 anos de criação da Academia Cearense de Letras (ACL), sabidamente a primeira do gênero no Brasil, que continua em funcionamento, dado que foi inaugurada três anos antes da criaação da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A sessão solene foi liderada pelo Presidente da Arcádia do sodalício, Acad. Tales de Sá Cavalcante, tendo a Sra. Regina Cláudia Fiúza, diretora administrativa da ACL, conduzido o cerimonial.

A saudação de aniversário aos presentes foi pronunciada pelo Acad. Tales de Sá Cavalcante, que, ato contínuo, passou a palavra ao Acad.  Lúcio Gonçalo de Alcântara para especificar as credenciais e os títulos do expositor convidado, no caso o historiador e musicólogo português Rui Vieira Nery, ex-professor da Universidade Nova de Lisboa, portador do diploma de PhD pela Universidade do Texas.

O principal orador da tarde foi o escritor e inpelectual Rui Vieira Nery, que proferiu a conferência Camões e a Música, que prendeu a atenção da audiência, mercê da competência e do domínio da temática pelo palestrante.

A solenidade foi consagrada pelo enorme público assistente composto, sobretudo, de pessoas participantes de academias e sociedades literárias cearenses, bem como formadores de opinião da sociedade local.

Ao final da efeméride, acadêmicos e seus convidados se confraternizaram em um coquetel ofertado pela ACL.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Academia Cearense de Letras


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

CAMINHOS DO CEARÁ: as aves que aqui gorjeiam

Por Izabel Gurgel (*)

Andando na mata me dei conta: as palmeiras nos ensinaram sobre portas e janelas com persianas, venezianas. Ali, o ar a passar, a luz desenhando, as palmeiras fizeram com que intuíssemos sobre as vantagens dos vazios e cheios, da passagem de um ao outro, do movimento passível de manejo, materializando-se no cotidiano, tornando-se tão comum que até esquecemos que são da ordem da invenção. O mundo todo todo inventadinho. A cadeira, a colher, a cama, qualquer caixa, cofre, cumeeira.

A mata é uma orquestra. Uma orquestração de milênios.

Tão grande era a fila que haveria tempo para aguardar, fora dela, a entrada para o concerto. Estamos no pátio do Theatro José de Alencar e a fila pode se estender em direção ao jardim, um jardim com vários tipos de palmeiras. Projeto de um jardineiro doido por música. Vamos, fora da fila, falando com quem não conhecemos, conversando com gente conhecida que vai aparecendo para os bons encontros não marcados, efêmeros e, feito brisa, inscritos na gente tão logo ocorram.

Um músico nos conta duas, três histórias tão bem-vindas quanto ele próprio em cena, tocando. Temos chão comum nós três: o amigo produtor também é de cortejar fila para ver algo que nos toca. Vamos dizendo banalidades. Do bonito que é o palco cheio: hoje tem mais de sessenta instrumentistas, e uma legião de bastidores acionada. Desde o transporte dos instrumentos de grande porte à engrenagem inteira da montagem, cadeira por cadeira, cada uma das partituras apoiada em cada estante, lâmpada por lâmpada, o ir e vir do trabalho a bem dizer invisível de mulheres e homens para tornar possível o que vamos ver, viver.

Tem criança por perto. Achamos bom. Elas nos lembram que podemos nos interessar pelo que não conhecemos. Passa uma menina (8 anos?) com o violino feito mochila e o músico nos diz do campo fértil que uma semente encontra ali. As crianças no modo bússola. Pergunto se ele foi iniciado criança. Não foi. Violão na adolescência e depois a faculdade de música na Uece. É da Uece a Banda Sinfônica que vamos ouvir.

Comento que adoraria saborear uma orquestra como um músico do naipe dele pode apreciar. Ele conta da primeira vez que tocou em orquestra. Participava de um festival na Paraíba: estudou, ensaiou dias e dias. Quando a orquestra começou a tocar, tomado pelo impacto, ele não tocou junto. Era todo ouvidos, imagino. Vivendo, de dentro, imerso como na mata. A vibrar. Somos passagens, talvez. Somos, passando.

Lembrei d'As Intermitências da morte. A morte para de matar no livro de Saramago. No seu ofício de colher as criaturas vivas, ela vem um dia buscar uma delas que, aplicada ao que está fazendo, não percebe a passagem da danada da morte. É um músico. Vou levar o livro para passear. Quem sabe a gente encontra de novo o Elismário Pereira, não é, Fabinho? E tomara que a Uece cuide bem de nossas formações que nascem lá. Precisamos de florestas e orquestras.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/11/23. Vida & Arte, p.2.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

A BELEZA DE RITA DE CÁSSIA

Por Poty Fontenelle (*)

Nas gravações de vocais que fizemos para as bandas do Somzoom estúdio, conheci inúmeros compositores novos de forró, grandes compositores, dentre tantos, uma chamava-me a atenção: Rita de Cássia. Sua capacidade de criação melódica sobre sequências harmônicas conhecidas prenunciava em suas músicas sucesso indiscutível. Uma fórmula simples mais de difícil domínio. Simples por ter seu acompanhamento facilmente executado por qualquer iniciado em violão, com acordes básicos (o que também já era uma grande porta para o sucesso), mas, com um diferencial enorme: Melodias envolventes e letras reveladores das emoções comuns dos apaixonados.

Emanuel Gurgel, nas vezes em que tínhamos sua presença no estúdio e estávamos gravando alguma composição dela, com sua sensibilidade de midas, alertava para o grande potencial de Rita já a colocando como um sucesso futuro. A cada banda gravada, na audição inicial que fazíamos do repertório, íamos identificando suas letras, melodias e harmonias. Quase invariavelmente, as músicas cujas melodias tinham detalhes diferenciais e eram facilmente fixadas na memória iam sempre para "conta" da Rita de Cassia.

Seu estilo serviu de modelo e inspiração para outros compositores. Sua temática evidenciava a beleza, a força e o amor entre as pessoas. Em "Meu vaqueiro, meu peão", isso fica bem claro. A ideia do homem nordestino sofrido, calejado, tão repetida nas composições, era deixada de lado e ela os transformava em príncipes montados em alazões com beleza reluzente, havia a ideia subliminar que o sertão estaria sempre verde e decorado como cenário de tantas paixões e amor. Asas da imaginação com Banda Aquários; Tatuagem, com Mastruz com Leite, Bichinho de estimação, com a Banda Cavalo de Pau e centenas de outras.

Rita romantizou o forró dando-lhe um grande impulso para sua consolidação final, popularizando a música regional também no perímetro urbano e em todas as classes, compondo a galeria com Luiz Gonzaga, Marinês e muitos outros. Creio que a música que eu comporia em sua homenagem poderia ter o título de "Encantamento".

(*) Maestro. Professor da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/1/23. Opinião, p.20.

sábado, 20 de agosto de 2022

O RÁDIO INTELIGENTE

Uma senhora comprou um Mercedes último tipo e orgulhosamente saiu da concessionária dirigindo-o. No meio do caminho, ela tentou mudar as estações do rádio do carro, mas não conseguiu de jeito nenhum. Furiosa, ela deu meia volta e retornou à concessionária. Chegando lá, foi reclamar com o vendedor que havia lhe atendido, o qual imediatamente se desculpou:

— Calma, minha senhora! É que esqueci de lhe dar às instruções a respeito deste Rádio Inteligente, importado do Japão. Para ativá-lo, é só usar o tom de voz pedindo o gênero musical. Por exemplo: Música sacra!

E o rádio imediatamente emendou "Erguei as mãos e dai glória a Deus"...

O vendedor prosseguiu:

— Outro exemplo: Axé music!

E o rádio tocou "Segura o tchan, amarra o tchan..."

— E mais um exemplo: Sertanejo!

E o rádio soltou a pérola "Entre tapas e beijos, é ódio, é desejo..."

— Está bem, já entendi! — Interviu a senhora, que ficou maravilhada com a tecnologia, pediu desculpas pelo mal-entendido e saiu dirigindo satisfeita. No meio do caminho, ela disse, cheia de empolgação:

— Rock and Roll!

E o rádio imediatamente começou a tocar uma música dos Rolling Stones, enquanto a velhinha cantava, e afundava o pé no acelerador.

De repente, um carro vem a toda velocidade na contramão e quase bate no Mercedes novinho da madame, que em um ato de reflexo tira o carro do caminho salvando-se de um grave acidente. Passado o susto, ela se vira pra trás e grita:

— Quanta safadeza!

No mesmo instante a música do rádio é interrompida pela seguinte mensagem:

"Interrompemos nossa programação para ouvir as últimas notícias políticas de Brasília..."

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

 

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