domingo, 1 de março de 2026

Mais vagas, menos estrutura: o risco da proliferação de cursos de Medicina

Por Daniel Pinheiro (*)

Os resultados mais recentes do Enade, divulgados pelo Ministério da Educação, trouxeram um dado que não pode ser ignorado: um número expressivo de cursos de Medicina (32%) obteve desempenho insatisfatório, levando o próprio governo federal a anunciar medidas de supervisão, redução de vagas e suspensão de novos ingressos.

Mais do que um ranking acadêmico, o Enade funciona como um termômetro da qualidade da formação médica no país - e o diagnóstico é preocupante. Ele expõe, de forma objetiva, os efeitos de uma expansão acelerada e pouco criteriosa das escolas médicas no Brasil.

Apresentada como solução para a escassez e a má distribuição de médicos, a abertura indiscriminada de cursos tem sido conduzida, em muitos casos, sem o planejamento necessário para garantir formação adequada. A Medicina é uma profissão de alta complexidade, cuja aprendizagem depende menos da sala de aula e mais do contato supervisionado com pacientes reais.

Hospitais, unidades básicas, emergências e equipes de preceptores experientes são o verdadeiro núcleo da formação médica. Esses cenários, contudo, não se multiplicam no mesmo ritmo das autorizações de novos cursos.

Criam-se faculdades, mas não se criam hospitais-escola, leitos, centros cirúrgicos, UTIs e preceptores qualificados em quantidade suficiente. Quando o campo de prática é insuficiente, o estudante torna-se observador passivo ou executa atividades sem a supervisão adequada. Isso compromete a formação e coloca o paciente em situação de risco. O problema deixa de ser apenas educacional e passa a ser um problema concreto de segurança do paciente, com potencial aumento de erros, retrabalho, judicialização e custos para o sistema de saúde.

Há ainda um equívoco estrutural que o próprio Enade ajuda a revelar: formar mais médicos não significa, automaticamente, garantir médicos onde a população precisa. A experiência brasileira demonstra que a simples ampliação do número de diplomas não corrige a concentração de profissionais nos grandes centros.

Fixação depende de carreira, remuneração, infraestrutura, suporte diagnóstico e condições de trabalho - fatores que não se resolvem simplesmente com a abertura de faculdades. Países com bons indicadores de saúde não alcançaram esse patamar multiplicando escolas sem critério, mas investindo em planejamento, avaliação rigorosa e forte integração entre ensino e sistema assistencial.

Persistir na expansão descontrolada da formação médica é assumir um risco coletivo. Em Medicina, os custos do improviso não são abstratos nem estatísticos: recaem diretamente sobre vidas humanas. E esse é um preço alto demais para qualquer sociedade responsável.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/02/2026. Opinião. p.11.


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