Por Daniel
Pinheiro (*)
Os resultados mais recentes do Enade,
divulgados pelo Ministério da Educação, trouxeram um dado que não pode ser
ignorado: um número expressivo de cursos de Medicina (32%) obteve desempenho
insatisfatório, levando o próprio governo federal a anunciar medidas de
supervisão, redução de vagas e suspensão de novos ingressos.
Mais do que um ranking acadêmico, o Enade
funciona como um termômetro da qualidade da formação médica no país - e o
diagnóstico é preocupante. Ele expõe, de forma objetiva, os efeitos de uma
expansão acelerada e pouco criteriosa das escolas médicas no Brasil.
Apresentada como solução para a escassez e
a má distribuição de médicos, a abertura indiscriminada de cursos tem sido
conduzida, em muitos casos, sem o planejamento necessário para garantir
formação adequada. A Medicina é uma profissão de alta complexidade, cuja
aprendizagem depende menos da sala de aula e mais do contato supervisionado com
pacientes reais.
Hospitais, unidades básicas, emergências e
equipes de preceptores experientes são o verdadeiro núcleo da formação médica.
Esses cenários, contudo, não se multiplicam no mesmo ritmo das autorizações de
novos cursos.
Criam-se faculdades, mas não se criam
hospitais-escola, leitos, centros cirúrgicos, UTIs e preceptores qualificados
em quantidade suficiente. Quando o campo de prática é insuficiente, o estudante
torna-se observador passivo ou executa atividades sem a supervisão adequada.
Isso compromete a formação e coloca o paciente em situação de risco. O problema
deixa de ser apenas educacional e passa a ser um problema concreto de segurança
do paciente, com potencial aumento de erros, retrabalho, judicialização e custos
para o sistema de saúde.
Há ainda um equívoco estrutural que o
próprio Enade ajuda a revelar: formar mais médicos não significa,
automaticamente, garantir médicos onde a população precisa. A experiência
brasileira demonstra que a simples ampliação do número de diplomas não corrige
a concentração de profissionais nos grandes centros.
Fixação depende de carreira, remuneração,
infraestrutura, suporte diagnóstico e condições de trabalho - fatores que não
se resolvem simplesmente com a abertura de faculdades. Países com bons
indicadores de saúde não alcançaram esse patamar multiplicando escolas sem
critério, mas investindo em planejamento, avaliação rigorosa e forte integração
entre ensino e sistema assistencial.
Persistir na expansão descontrolada da
formação médica é assumir um risco coletivo. Em Medicina, os custos do
improviso não são abstratos nem estatísticos: recaem diretamente sobre vidas
humanas. E esse é um preço alto demais para qualquer sociedade responsável.
(*) Médico
otorrinolaringologista.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 19/02/2026.
Opinião. p.11.

Nenhum comentário:
Postar um comentário