Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Tenho pensado o quanto é difícil aos jovens
médicos crer no sacerdócio do exercício de nossa profissão.
De um passado marcado pela observação, pela
intuição e pela dedicação extrema para sedar a angústia e o sofrimento,
passamos a vítimas da padronização — da castração daquela insuperável sensação
de servir — substituída por um sistema extenuante de repetições burocráticas.
Onde fica a paz de espírito necessária para
lidar com relações humanas complexas? Onde repousa o tempo indispensável à
reflexão clínica, à revisão de conceitos, à humildade diante dos próprios
limites?
Ser médico, sem desconsiderar outras
atividades profissionais, não tem preço. Não há como quantificar a intimidade e
a cumplicidade ao enfrentar essa passagem inevitável, de geração a geração.
Mas como fazê-lo diante de uma realidade histérica,
de uma crise ética fruto do medo de não sobreviver?
O sistema nos permite acumular mais
trabalho — não necessariamente riqueza, em seu aspecto mais amplo. Refiro-me à
arte de esmiuçar o adoecimento, de revisitar conceitos nessa busca incessante
por apaziguar a angústia.
É preciso, urgentemente, elevar o tom. É
preciso ser médico, assumir posições claras e contemporâneas. Ou seja: proteger
a arte. E, para tal, não nos é permitida a passividade.
Precisamos romper as amarras que nos
impuseram. Não devemos ser reproduções absolutas de estruturas burocráticas.
Não aceitamos a cumplicidade dos poderosos, pois representam a antítese do que
pensamos.
Cremos fielmente na ciência humanista, que
estabelece virtude ao focar exclusivamente nas pessoas. A ciência nos ensina a
humildade de rever conceitos e tradições, pois nos expõe diariamente a
questionamentos, pela obrigação de lidar com fracassos e mudanças de algumas
vezes imperceptíveis, em cada cerimônia, em cada ritual.
A política que defendemos não mente, não
perverte resultados; confessa os fracassos para transformar o futuro.
A política dos médicos obedece à crença
inabalável no tripé: espírito, físico e social. É atemporal, pois nasceu no
caudal do sofrimento humano. Transita entre todas as artes, da matemática à
biologia, da história à filosofia. Não pode, portanto, submeter-se
exclusivamente a modelos econômicos; rompe estigmas e preconceitos. A arte se
rebela ao compreender o ser humano e suas contradições.
Assim, àquele que a exerce exige-se
dedicação, capacidade de doação e, sobretudo, sensatez. E também rebeldia
diante das tentativas de vulgarização.
Na busca pelo resgate do exercício digno
dessa arte, obrigamo-nos a preservar o fulcro de sua existência: a relação
médico-paciente. A ciência somente se justifica quando pautada nesses
princípios.
Que assim seja!
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/02/2026. Opinião. p.17.

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