segunda-feira, 23 de março de 2026

Medicina, enfim, nada mudou…

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Tenho pensado o quanto é difícil aos jovens médicos crer no sacerdócio do exercício de nossa profissão.

De um passado marcado pela observação, pela intuição e pela dedicação extrema para sedar a angústia e o sofrimento, passamos a vítimas da padronização — da castração daquela insuperável sensação de servir — substituída por um sistema extenuante de repetições burocráticas.

Onde fica a paz de espírito necessária para lidar com relações humanas complexas? Onde repousa o tempo indispensável à reflexão clínica, à revisão de conceitos, à humildade diante dos próprios limites?

Ser médico, sem desconsiderar outras atividades profissionais, não tem preço. Não há como quantificar a intimidade e a cumplicidade ao enfrentar essa passagem inevitável, de geração a geração.

Mas como fazê-lo diante de uma realidade histérica, de uma crise ética fruto do medo de não sobreviver?

O sistema nos permite acumular mais trabalho — não necessariamente riqueza, em seu aspecto mais amplo. Refiro-me à arte de esmiuçar o adoecimento, de revisitar conceitos nessa busca incessante por apaziguar a angústia.

É preciso, urgentemente, elevar o tom. É preciso ser médico, assumir posições claras e contemporâneas. Ou seja: proteger a arte. E, para tal, não nos é permitida a passividade.

Precisamos romper as amarras que nos impuseram. Não devemos ser reproduções absolutas de estruturas burocráticas. Não aceitamos a cumplicidade dos poderosos, pois representam a antítese do que pensamos.

Cremos fielmente na ciência humanista, que estabelece virtude ao focar exclusivamente nas pessoas. A ciência nos ensina a humildade de rever conceitos e tradições, pois nos expõe diariamente a questionamentos, pela obrigação de lidar com fracassos e mudanças de algumas vezes imperceptíveis, em cada cerimônia, em cada ritual.

A política que defendemos não mente, não perverte resultados; confessa os fracassos para transformar o futuro.

A política dos médicos obedece à crença inabalável no tripé: espírito, físico e social. É atemporal, pois nasceu no caudal do sofrimento humano. Transita entre todas as artes, da matemática à biologia, da história à filosofia. Não pode, portanto, submeter-se exclusivamente a modelos econômicos; rompe estigmas e preconceitos. A arte se rebela ao compreender o ser humano e suas contradições.

Assim, àquele que a exerce exige-se dedicação, capacidade de doação e, sobretudo, sensatez. E também rebeldia diante das tentativas de vulgarização.

Na busca pelo resgate do exercício digno dessa arte, obrigamo-nos a preservar o fulcro de sua existência: a relação médico-paciente. A ciência somente se justifica quando pautada nesses princípios.

Que assim seja!

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/02/2026. Opinião. p.17.

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