Por volta de 1965, uma determinada escola de
Medicina estava sediando um evento comemorativo e decidiu oferecer uma pequena
recepção aos participantes. Como não havia recursos para contratar um “buffet”
completo, e sequer garçons, para os serviços pertinentes, a direção dessa
faculdade decidiu improvisar, colocando o pessoal de limpeza para servir os
acepipes aos comensais.
Um dos recrutados para a tarefa foi o
faxineiro do bloco didático, bastante conhecido por suas estripulias e pela
absoluta falta de “simancol”. Ele estava ali, para o que desse e viesse, sem se
mancar com as “ratas” que certamente acabaria por provocar. Foi aí que,
portando uma bandeja com salgadinhos, dirigiu-se a um grupo de professores,
composto, notadamente, por cirurgiões de nomeada, oferecendo a variedade dos
canapés àquela roda de mestres.
Discretamente, o Prof. Aroldo Ferreira (nome
fictício) pegou um salgadinho, no que foi surpreendido pelo serviçal, com essa
provocação:
– Num se acanhe não, Dr. Aroldo. Pode pegar
mais e até “butar” nos “bolso” do paletó, pra levar pros bichinhos da sua casa.
Polidamente, o Prof. Ferreira recusou a
oferta, esboçando um sorriso para o colega Prof. Nelson Gonçalo (nome fictício),
que estava ao seu lado, ambos tomados por um certo constrangimento, diante da
falta de lhaneza do improvisado garçom.
O faxineiro não perdeu a oportunidade para
insistir:
– Dr. Nelson, deixe de “encabulação” e
“atraque” suas mãos aqui pra pegar um bocado pra levar pra família. Tem muito
lá dentro. Acho qui vai sobrá muito desse troço – arrematou o servidor, garçom
de araque.
Os dois afamados cirurgiões, como autênticos
gentis-homens, decidiram ignorar as tantas tentações do momento e puxaram um
assunto médico para seguir a conversa, dispensando os préstimos do pseudogarçom,
que ficou a procurar outros mestres dispostos a ouvir suas baboseiras, quiçá a
fazer uso da velha tática de juntar pasteis e canudinhos para o “jantar” do
cãozinho de estimação, quando, na verdade, eles próprios é que estavam
inclinados a fartar o bandulho com os deliciosos salgadinhos da festa.
Marcelo Gurgel
Carlos da Silva
Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos
Escritores
Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza:
Edição do Autor, 2022. 144p. p.73-74.
* Republicado In: SILVA,
M.G.C. da. Causo médico: salgados, muitos. Simancol zero. Revista AMC
(Associação Médica Cearense). Julho de 2024 - Edição n.34.
p. 27-27 (online).

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