Por Raymundo Netto (*)
Escrever sobre Miguel Ângelo de Azevedo, o
nosso Nirez, é tarefa das mais complexas.
Aos 92 anos, é acervista, possuidor da
maior coleção de discos de cera do Brasil e da mais completa coleção
fotográfica do estado do Ceará. Pesquisador, é autor de obras de importância
fundamental, como: "Fortaleza de Ontem e de Hoje", "A História
Cantada no Brasil em 78 Rotações" - no tema, uma das maiores do País - e
"Cronologia Ilustrada de Fortaleza", todas esgotadas.
Nirez é uma biblioteca viva, o maior
guardião da história cearense, cumprindo o papel de um "mestre da
cultura", transferindo amavelmente seus saberes, seus achados, fomentando
e possibilitando pesquisas, ensaios, produções literárias e audiovisuais.
Acessível e acolhedor, recebe em sua casa, sede do singular Arquivo Nirez,
centenas de historiadores, pesquisadores, jornalistas, artistas, editores,
produtores, políticos e curiosos que sabem encontrar ali não apenas o acervo
raríssimo, mas o seu curador, que muitas vezes se dá entusiasmadamente como
consultor.
É impossível, ao ouvir os seus relatos, não
se encantar num vórtice temporal e encontrar-se com personagens de nossa
história "transformados em gente" e/ou se ver em locais da Cidade que
não existem mais - o que é bem do nosso desleixado desapego. E, claro, ao
final, esperar o momento daquela piada guardada como troça de menino travesso.
A sua obsessão pela coleta, guarda,
catalogação e manutenção de todo esse conteúdo - LPs, fotografias, filmes,
livros, revistas, jornais, gravuras e máquinas, instrumentos, peças das mais
diversas naturezas - já nos revela uma fortaleza extraordinária, imagine saber
que todo esse legado está sendo construído e mantido bem debaixo de nosso nariz
sem qualquer apoio do poder público.
Recursos financeiros o Ceará tem demais,
basta acompanhar o seu desaguar na leitura de jornais ou assistir aos
noticiários de rádio e TV. Mas, em todos esses anos de existência, nunca de
alguma iniciativa por meio do governo estadual nem municipal. Houve, sim, por
atitude de amigos do arquivo, proposições a gestores do poder executivo ou
diretores de instituições. Porém, nada se realizou, mesmo quando aqueles que
ocupam tais cadeiras sabem quem ele é e reconhecem a importância do seu acervo.
Talvez entendam ser a cultura um território de pouco valor eleitoral, o que
justifica a caquexia eterna dos equipamentos culturais mais tradicionais,
sempre colocados em segundo plano diante do "elefante branco" do
momento. Não raro sabemos de acervos desfeitos, perdidos ou roubados pela falta
de atenção desses representantes e da população sempre distraída ao que lhe é
usurpado todos os dias pela falta de pertencimento. É inadmissível fechar os
olhos para a relevância desse legado a ser preservado, um patrimônio que, embora
particular, é de extremo interesse público, o que por si já justificaria a
mobilização e articulação dos órgãos e entidades de poder: Secretaria da
Cultura do Governo do Estado e do município, Museu da Imagem e do Som do Ceará
(MIS), Assembleia Legislativa, Câmara Municipal, Universidade Federal do Ceará
(UFC), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan),
Organizações Sociais (Instituto Mirante e Dragão do Mar), entre tantos outros.
Um dia, na sua agudeza de espírito, Nirez
me disse: "Eu me sinto como se estivesse no futuro. O hoje é o meu
futuro". Sim, ele atravessou o tempo e cabe a nós apresentar para ele um
futuro melhor, sem celebrações vazias e pirotécnicas de 300 anos de uma cidade
desmemoriada, que insiste em debochar da perda contínua de sua história e
patrimônio.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/01/26. Vida & Arte, p.2.

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