Texto de Nélia Fontenele, jornalista
Em
entrevista exclusiva, o médico, gerontólogo e escritor Alexandre Kalache — que
celebra 80 anos de vida e 50 de carreira — desafia o "idadismo" e
alerta: o país que não valorizar seus velhos ficará para trás.
Você já pensou na sua velhice? Pensou que,
dependendo de sua atual idade, você será o velho de amanhã? O médico,
gerontólogo e escritor Alexandre Kalache nos ajuda a refletir sobre o tema a
partir de sua trajetória de oito décadas de vida e meio século dedicado à
Gerontologia. Em entrevista ao O POVO, ele apresenta reflexões contidas em seu
novo livro, "A Revolução da Longevidade", que será lançado em Fortaleza em
março.
Quando Kalache nasceu, em 1945, a expectativa
de vida no Brasil era de 46 anos. Hoje, avançamos para a casa dos 78 anos — uma
transformação imensa ocorrida em pouco tempo. "Em apenas uma vida,
conquistamos mais de 30 anos extra. Mas é preciso fazer uma correção urgente no
imaginário: não ganhamos 30 anos de velhice; ganhamos 30 anos de vida", alerta.
A longevidade conquistada é, em sua
avaliação, algo a se comemorar, mas exige um reenquadramento da visão e da
posição ocupada pelos idosos na sociedade. "Vivemos um fenômeno sem precedentes: o
único grupo etário que continua aumentando no país é o de pessoas com mais de
60 anos, que já representa cerca de 16% da nossa população. As projeções para
2050 são contundentes: daremos um salto de 33 milhões para 68 milhões de idosos,
compondo 31% do país. Enquanto isso, os demais grupos — crianças, jovens e
adultos — diminuirão".
Diante desse cenário, a mensagem é clara: os
idosos são essenciais para que o Brasil dê certo. No entanto, há um inimigo
silencioso e onipresente, aponta Kalache: o idadismo, o preconceito baseado na
idade, uma ideologia supremacista que tenta "tirar do caminho" quem
já não se encaixa em um padrão produtivo arcaico - algo amplamente aplicado
durante a pandemia.
Ele aponta quatro pilares desse preconceito
a ser combatido: 1) ideológico (o decreto antecipado de que o idoso não serve,
não produz e não tem vez); 2) institucionalizado a negação de oportunidades no
mercado de trabalho); 3) interpessoal (silenciamento através de frases como
"Você é velho, não tem opinião"); e 4) internalizado (o próprio idoso
passa a acreditar que é um fardo). "Eu sou bem claro: sou velho e não sou um fardo", enfatiza ele.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/02/2026. Ciência & Saúde. p.14.

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