Por
Romeu Duarte Junior (*)
À memória do Prof. Eng. Francisco de Assis
Souza Filho
Dizia o grande cearense Virgílio Távora que
o maior governador do Ceará é o inverno. "Tendo água, doutorzinho, o povo,
que já é inventivo e trabalhador, constrói a sua vida", falava ele com seu
tom de voz peculiar. Minha mãe ia pela mesma linha, só que mandando um recado
certeiro: duas coisas não podem faltar no Ceará: chuva e mão nos beiços de
menino respondão (adivinhem quem era o peralta). A cultura alencarina elaborou
em torno da água e da chuva um verdadeiro rito, quase uma religião. Lembro-me
de uma senhora minha vizinha lá na Base que, toda vez que chovia, botava um
maiô, punha três dedos de cana num copo e ficava debaixo da bica, chorando. Era
o trauma dos anos de seca no sertão. Esses momentos não se perderão no tempo
como lágrimas na chuva.
Como choveu neste torrão neste abril que se
despede... Tenho amigos atentos que monitoram nossos açudes. "Está
faltando apenas 11 centímetros para o Orós sangrar! Deve ser de hoje para
amanhã! Vamos para lá agora", gritam uns para os outros, como garotos à
volta de um brinquedo novo. Param tudo o que estão fazendo, catam suas coisas e
caem na estrada embalados. Chegando lá, sob o céu plúmbeo, aguardam a chuva
instalados em barraquinhas, tomando umas e outras e tirando o gosto com cará
frito. Quando o pé-d'água cai, é uma alegria só: homens e mulheres abraçados,
celebrando o milagre do dilúvio. De repente, um, aos berros, avisa: "Vai
sangrar! É agora que o bicho sangra! Muito obrigado, meu Deus!". A
torrente lambendo os tornozelos é uma ansiada benção.
Todavia, o mais importante é pensar no que
o aguaceiro dará de retorno às pessoas. Curimatã ovada, tilápia, traíra
pau-de-negro, tucunaré, as opções de pescado de água doce (que o cearense ainda
não valoriza devidamente) são muitas. As hortas e pomares irrigados produzindo
o legume, verduras e frutos variados. O de beber ao dispor do gado e das
criações e para garantir o pasto esmeraldino. O precioso líquido guardado nos
potes, cacimbas e cisternas para dele precisar se e quando faltar. A fartura
que se enxerga nos olhos rasos d'água de quem vê o temporal cair. Muita gente
que mora na capital se vale desses benefícios, mas não imagina o que isso
representa para a população rural. Só quer saber da comida chegando à mesa e
nada mais. Alienados bichos urbanos.
Ligo a TV e vejo dois jovens escalando a
parede de concreto do sangradouro do Açude Orós. Não imaginam o perigo que
correm, talvez estejam impondo a si um ritual de passagem da adolescência para
a idade adulta, uma prova de fogo em meio a veloz corrente d'água ou
simplesmente a afirmação de macheza. Rio da arrumação que vejo, uma temerária
brincadeira, mas meu pensamento me leva à contribuição de um já saudoso amigo,
alguém que dedicou a vida a estudar a água e as secas, a compreender o
semiárido e a elaborar alternativas técnicas para a plena superação dos nossos
problemas de desenvolvimento socioeconômico. Como professor da UFC, era
idolatrado pelos seus alunos. É por tudo isso, Assis, que essa crônica lhe é
dedicada. Chovendo, penso em você.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/04/26. Vida & Arte. p.2.

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