Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.
OP - Nesse período, também se acentuou a questão que o discurso de
alguns profissionais se misturava com questões políticas e ficou muito evidente
o caráter bem conservador da categoria médica. Como é que foi isso pra senhora?
Como é que a senhora observa os impactos negativos disso durante esse período de
crise?
Margareth
- Olha,
eu não acredito em inocência, digamos assim, como um princípio. Tudo tem um, o que
eu chamaria um dolo. No sentido de que você tem que ter um propósito. Nada é inocente.
Dizer que a ciência não pode ser politizada é uma ingenuidade. Ela pode ser para
o mal, mas ela também pode ser para o bem. Houve uma coisa muito curiosa. Em 2020,
nós não tínhamos vacina, nós tínhamos uma pandemia que crescia e se alastrava pelo
Brasil de maneira muito dramática. E nós começamos a vacina sazonal pra gripe, pra
influenza no meio do outono, no mês de abril, nós nunca vacinamos tanta gente porque
as pessoas acorriam aos centros de saúde achando que vacinar para a gripe protegia
contra Covid. Olha que coisa incrível. Isso, naquele momento, começou a ser contaminado,
a partir daquele momento, por um discurso e por essa retórica nociva a qual eu me
referi de que vacina não protegia. Desde as minhas primeiras entrevistas, eu disse
uma frase… Qual é a arma mais preciosa que nós temos para viroses agudas de transmissão
respiratória? Não é remédio. Remédio é para virose crônica. Então, hoje nós tratamos
viroses crônicas como aids, infecção pelo HIV, hepatite C, para isso tem remédio.
São viroses crônicas de outra evolução. Viroses de transmissão aguda respiratória,
a grande arma é vacina. E nós sabíamos disso, aprendido há décadas pelo sarampo.
Como é que nós conseguimos eliminar o sarampo? Porque é a virose que mais rapidamente
se transmite, uma pessoa transmite para 15 outras. Nós sabíamos que a arma era essa.
Mas, desde o início, médicos não necessariamente são conservadores por natureza.
Mas existia naquele momento uma polarização no País que já era óbvia. Porque havia
uma fratura, digamos assim, social que já se havia demarcado pelo processo eleitoral.
E isso contamina. Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertence
a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito
conservadora, sem se abrir para uma crítica, digamos assim, mais ampla ou para o
que eu chamo de uma consciência social mais ampla, baseada em fatos. Quando houve
a questão que eu considero uma tragédia, que foi a questão da cloroquina, foi o
pior exemplo. E não nasceu no Brasil. Na verdade, aquilo nasceu na França através
de um pesquisador que hoje está no ostracismo. O seu CRM cassado, inclusive. O professor
Didier Raoult que inventou isso. Naquele momento, junho, julho de 2020, estimadamente,
havia no planeta mais de 3 bilhões de pessoas usando cloroquina. Não foi só no Brasil,
houve uma contaminação feita pela irracionalidade. Alguém disse, todo mundo tinha
medo. A Covid-19 gerava um temor imenso nas pessoas. Pessoas morriam, famílias perdiam,
a dor estava estabelecida, ritos sociais estavam rompidos pelo isolamento. O isolamento
social é algo que, digamos, corrompe toda a nossa cultura. Ainda mais nós, que somos
latinos, somos gregários por natureza. Então, o isolamento era algo que violava
muito a nossa cultura. Tudo isso gera medo e o medo nos torna muito frágeis. O medo
pode nos encorajar em algumas situações muito particulares, mas o medo nos faz mais
fáceis de sermos contaminados por uma informação. O exemplo da cloroquina é isso.
Rapidamente alguém oportunista criou isso. Na verdade, todos os estudos, hoje, mais
do que nunca, mostram que nunca houve nada que mostrasse que a cloroquina melhorasse,
curasse ou impedisse alguém de morrer por Covid-19. Então, o exemplo mais paradigmático
que eu acho é esse. Isso se juntou quando naquele momento todo mundo, o mundo desenvolvido
todo, investia, as casas farmacêuticas investiam na produção rápida de uma vacina.
Eu considero as plataformas vacinais, as novas e as recuperadas durante aquele período
de 2020, 2021, talvez a descoberta mais sensacional das últimas décadas da saúde,
que foi a elaboração das vacinas para Covid-19 que geraram essa coisa linda, que
foi a plataforma de RNA mensageiro que deu o prêmio Nobel ao casal, a dra. Karikó.
E que hoje gera a plataforma que vai fazer não apenas as novas vacinas para várias
doenças, como remédios. Então, hoje na área da oncologia, por exemplo, são muitos
fármacos que estão sendo fabricados sobre a plataforma de RNA mensageiro, que é
algo espetacular pela sua plasticidade, pela maneira como ela permite ser adaptada
para diversas produções numa mesma situação, no mesmo local. Então, eu acho que
a Covid-19, a despeito desse excesso de luto, que nós não precisávamos… Eu quero
deixar claro, o Brasil não precisaria ter tido esse excesso de mortes que comprovadamente
teve, bem como esse excesso de cicatrizes e de luto que nós temos com 718 ou 720.000
mortes. E isso gerou uma consequência que eu considero muito grave. A Covid-19,
o SARS COV 2 é um vírus que ele virou endêmico, ele vive entre nós, ele não vai
nunca mais desaparecer, isso vai exigir que nós sejamos vacinados anualmente como
fomos vacinados para a gripe. Hoje, o nosso desejo é que nós consigamos nos próximos
anos ter uma vacina conjugada para a influenza e para Covid juntas. Isso já tem
muitos locais de pesquisa nesse objetivo. Isso é o que nós desejamos nos próximos
anos. Mas nós precisamos nos preparar para as próximas epidemias e esclarecer com
esse propósito. Dizer a verdade, dar as boas notícias, mas, sobretudo, dar as más
notícias quando necessário.
OP - Ainda falando sobre a categoria médica, a senhora é muito incisiva
quando fala sobre os problemas da formação médica atual. O que mais preocupa a senhora
quando a gente fala desse médico que tá se formando e tá chegando ali ao paciente?
Margareth
- Eu
sou membro titular da Academia Nacional de Medicina, uma das nossas grandes preocupações
nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil. Eu acho que nós
vivemos algo muito grave que foi a liberação desse excesso de escolas médicas de
péssima qualidade. E o resultado do Enamed que nós vimos recentemente prova isso
que eu tô dizendo. O rendimento muito sofrível de muitas dessas escolas, ou seja,
um país da complexidade do Brasil, da diversidade do Brasil, do tamanho continental
do Brasil, exige que tenha um sistema de saúde com o SUS, exige a formação de médicos
que efetivamente estejam preparados para tratar pessoas numa população, sobretudo,
que envelhece. (...)
Tudo isso exige uma formação médica. O médico hoje formado exige uma qualificação
técnica muito alta, os desafios são muito grandes. Então, eu não admito formar um
médico hoje que não esteja qualificado para diagnosticar um caso de sarampo numa
UPA, num centro municipal de saúde. E que também esteja qualificado para tratar
uma pneumonia grave numa terapia intensiva num hospital público ou privado. Nós
temos que saber isso. O médico tem que ter necessariamente esta formação. E para
que ele possa tê-la, é preciso que ele receba uma formação adequada. É preciso que
ele tenha instrutores, tutores, professores, que sejam devidamente qualificados
para tal e que ele tenha vivência prática. Não pode ter aula online, não pode ter
aula por EAD de Medicina. Isso não existe. Essas faculdades que não obtiveram nota,
a meu juízo, tinham que ser fechadas, mas essa é uma posição individual minha. Elas
tinham que ser impedidas de formar mais médicos. E hoje temos um drama estabelecido
no Brasil. O que é que nós vamos fazer com esses médicos que não têm diploma? Isso
se soma ainda a gravidade dos que são formados fora do Brasil também em péssimas
faculdades na zona de fronteira ou países aqui vizinhos e que não passam no Revalida.
A taxa de aprovação do Revalida não passa de 20%. E o que nós faremos com esses
80% de jovens que não vão ter CRM, não vão ter licença? Onde eles estão? Então,
a minha posição é que não se pode punir esses jovens. Nós temos que dar uma chance
a eles. E eu me dei o trabalho de fazer uma verificação e essas pessoas nunca tiveram
nenhuma aula sobre tuberculose ao longo de 6 anos de formação. Talvez tenham visto
caso e não tenham sabido diagnosticar, entende? Uma doença que é tão prevalente
no Brasil para dar apenas um exemplo, poderia dar N outros. Como cânceres e doenças
cardiovasculares, mas não pode formar um médico que não seja capaz pelo menos de
pensar na hipótese diagnóstica atendendo alguém, que aquela pessoa esteja tendo
um infarto agudo do miocárdio. Isso não é inadmissível. Ou fazer um diagnóstico
de uma apendicite aguda e tomar as providências para mandar operar, que é uma coisa
simples, mas alguém tem que ensinar isso durante o curso médico. Então, eu considero
que é muito grave o que aconteceu no Brasil. Considero imperdoável a liberação dessas
escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que
o MEC esteja conseguindo corrigir. Mas nós ainda não resolvemos o que que nós vamos
fazer. Nós apenas resolvemos como nós vamos avaliar as escolas. A Academia Nacional
de Medicina tem essa posição também, que o aluno tem que ser… Primeiro ele entra
na escola, ao final do ciclo básico ele faz a primeira avaliação e, depois, antes
de chegar ao final do curso, uma nova avaliação para saber se se ele tem condições
de progredir ou se ele tem que repetir, como se repete ano na escola. (...)
Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.

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