Por José Nelson Bessa Maia (*)
O mundo vive uma
completa desordem e um clima de hostilidade e descaso pela soberania das nações
e os direitos humanos. O declínio acelerado do império dos EUA não pode mais
conter a ascensão do sul global. Por conta disso, sucedem-se as ameaças
protecionistas e de agressões armadas justificadas pela atual elite dirigente
norte-americana como necessárias para preservar sua segurança e seus interesses
nacionais. Velhos chavões como a "Doutrina Monroe" e o "Destino
Manifesto" voltam à cena para reafirmar os supostos direitos dos EUA de
intervir em seus vizinhos das Américas.
Os EUA têm hoje
quase 10% de toda a sua imensa frota naval em operação no mar do Caribe e um
grupo de ataque de porta-aviões norte-americano chegou próximo à costa da
Venezuela e da Colômbia, nossos vizinhos.
Dado que os EUA
já bombardearam pelo menos 20 pequenas embarcações acusadas sem provas de
tráfico de droga, matando pelo menos 80 pessoas (a chamada Operação "Lança
do Sul"), prevê-se que ataquem agora alvos terrestres na Venezuela, num
claro objetivo de promover uma mudança de regime no país (eufemismo para
deposição violenta de seu presidente), tema de um debate acalorado em curso na
mídia internacional apontando para os riscos de uma escalada militar em um
continente que tem sido há quase um século uma zona de paz como é a América do
Sul.
Mesmo deixando de
lado a questão da identidade das pessoas eliminadas nos barcos abatidos pela
Marinha de Guerra dos EUA, não há qualquer fundamento para estes ataques, nem
na legislação norte-americana nem no Direito Internacional. Mesmo assim, isso
não impediu a administração Donald Trump de tentar criar uma justificação legal
para os mesmos, referindo-se aos alegados traficantes como "combatentes
inimigos ilegais". O termo foi agora ressuscitado para justificar a
execução extrajudicial de suspeitos de tráfico de droga, comparando-os a
terroristas.
O que é mais
estranho nessa estória é que muita gente no Brasil apoia e parece vibrar com
essa agressão naval contra os pretensos narcotraficantes no Caribe. Alguns
políticos chegaram até a defender de forma venal e impatriótica uma ação
semelhante na baía da Guanabara. O que muitos não entendem é que tudo isso é
uma cortina de fumaça e desinformação para ocultar os reais desígnios da elite
dos EUA de intervir toda vez que achar necessário em algum país da região para
mudar governos incômodos a seus interesses econômicos e colocar no poder
títeres e sequazes locais que lhes sejam favoráveis e funcionais.
A América do Sul
não é quintal de ninguém e seus países são independentes e soberanos. Seus
povos merecem respeito e esperam a condenação mundial a tais tentativas de
intervenção e rapina em seus territórios.
(*)
Ex-secretário de Assuntos Internacionais do
Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.
Fonte: O Povo, de 23/11/25. Opinião. p.22.

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