Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Era novembro quando saí em busca da
metáfora a céu aberto. O projeto Poesia em Cartaz, idealizado pelo publicitário
Paulo Fraga, vem fazendo a cidade respirar arte. Meu verso estava no bairro de
Messejana. Que grata surpresa: vivi parte da minha infância lá, no sítio da
minha avó. Antes de sairmos de casa, disse: "Mãe, vamos passar um
batonzinho... a poesia é para a senhora.
Quero tirar uma foto ao lado do outdoor."
No caminho, meu pai disse: "Guidinha, acho que o outdoor está bem próximo
de onde a gente começou a namorar." Em seguida, lembrou: "Ela
encostou a cabeça no meu ombro, então pensei: estamos namorando."
Brinquei: as coisas eram bem mais simples naquela época! A conversa estava boa;
víamos as mudanças no bairro ao longo dos anos enquanto relembrávamos o
passado.
De repente, avistei a igreja. Ela
permanecia lá, a igreja onde meus pais se casaram, numa pequena cerimônia pela
manhã. O sol se punha. Seguimos mais um pouco. "É aqui, pai. Vira à
direita..." Fiquei sem acreditar. O outdoor já não estava mais lá.
Demorei, perdi, não consegui ver. Um silêncio me encontrou.
Segui procurando poesia. Desta vez em outro
céu: O Céu da Língua, peça de Gregório Duvivier. Enquanto o ouvia, fui tomada
por uma sensação de pertencimento, que só acontece quando alguém nomeia algo do
nosso jeito. "A despedida é uma palavra nossa. Em muitas línguas, se
despedir é apenas dizer tchau. A despedida não é só dizer adeus, mas é a
cerimônia do adeus. Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado
a despedida."
Há palavras que só nos encontram quando
deixamos de procurá-las. Lembrei-me do que havia me acontecido. Depois do
silêncio, ela surgiu: Messejana. Uma metáfora da minha infância, da memória dos
meus pais e, sobretudo, da minha avó, que amava demais aquele lugar.
Estava ao lado dela quando se foi. Ela já
tinha perdido a capacidade de nomear as pessoas, as coisas e o que sentia.
Confiava em mim, mas já não sabia meu nome. Segurei sua mão. A expressão era de
dor. Chamou por Messejana. Despediu-se. Saudade.
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/12/2025. Opinião. p.18.

Nenhum comentário:
Postar um comentário