Por Márcia Alcântara Holanda (*)
Aos 80 anos, depois de cinquenta dedicados
à pneumologia, minha velhice não chegou de mansinho: revelou-se de supetão.
Atendia um paciente quando a palavra "dipirona", companheira por meio
século, fugiu vertiginosamente da minha memória. Não era falha grave; era um
sinal íntimo, uma fresta por onde entrou a consciência da finitude. De súbito,
vi a linha reta do mar da Beira Mar — horizonte antigo, mas nunca tão nítido
quanto naquele instante, quando se revelou, para mim, como a própria finitude.
Foi aí que compreendi, sem dor, que meu
périplo médico se encerrara. Minha amada pneumologia tinha cumprido sua estada
em mim. Ficaram as lembranças luminosas do ser médica responsável por vidas que
confiaram nos meus cuidados. Mas o que me surpreendeu foi descobrir que a
finitude não me encolheu; ela me ampliou. Pela primeira vez senti que podia
tomar posse da minha própria vida, sem as pressas, obrigações e tolhimentos que
me acompanharam desde a infância.
Ao contrário do que imaginaram Sartre e
Beauvoir, ao tratarem a velhice como inviável, percebi que o corpo velho não
sela interditos. Apesar das impossibilidades próprias da idade, ele revela
contornos: mostra limites, sim, mas também indica por onde ainda posso
caminhar, reinventar-me e desejar. Descobri que as limitações não são prisões —
são molduras que tornam mais nítida a obra que ainda posso ser. O que se torna
inviável pelas limitações da idade cede lugar a novos caminhos possíveis. Como
disse Drauzio Varela, ao comentar a interrupção de uma maratona que corria na
Alemanha: "Não vou parar de correr. Se não der para fazer todo o percurso,
correrei poucos quilômetros — ou até alguns metros. É o poder do querer e do
gostar."
Mas a exuberância da velhice não nasce só
do indivíduo. Como lembra Beauvoir, ninguém envelhece sozinho: é a sociedade
que pode fazer da velhice um tempo digno ou miserável. Para que a liberdade dos
velhos floresça, o mundo precisa reconhecer sua presença, acolher seus ritmos e
valorizar suas contribuições. Nietzsche dizia que a vida deve ser vivida como
obra de arte; mas, para que essa obra exista, é preciso um espaço social que a
veja e a escute.
Quando a sociedade nos empurra para a
invisibilidade, a velhice se apequena. Quando nos integra ao cotidiano, ela se
expande. A velhice exuberante depende, portanto, de cidades, Estados e países
que ofereçam programas de assistência à saúde dos velhos, que viabilizem
participação, cuidados, circulação segura e afeto. Que criem um ambiente que
permita ao velho ser um ser-em-projeto, como quis Sartre, ainda que com outros
tempos e formas.
A finitude, para mim, foi acontecimento
inaugural. Descortinou não só um fim, mas um novo modo de começar. E é nele que
sigo: limitada, sim — mas inteira na lucidez e na consciência de que meu
envelhecer só se cumprirá plenamente quando a sociedade reconhecer que a
velhice não é resto: é potência.
(*) Médica pneumologista; coordenadora do
Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense
de Medicina.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/12/2025. Ciência & Saúde. p.16.

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