Por
Izabel Gurgel (*)
"Sequilho é um segundo. Assa tão
rápido. Não dá tempo fechar o forno". Silvanir conta pela idade do filho
mais velho o tempo que faz sequilho para venda. Vinte e seis anos. No sítio
Peixotos, distrito de Dom Leme, em Santana do Cariri, mantém o forno a lenha.
"Faz uma diferença enorme" no "sequilho de três gerações".
Aprendeu "só olhando a mãe
fazer". Zuila Josefa de Araújo (1939-2024) tinha restaurante. Um saber
ancorado na avó Glória Alves de Araújo (1904-1989), parteira do lugar. O
trabalho das mulheres, chão e céu do mundo nosso de cada dia. Silvanir criou
assim Jeferson Pablo e Daniel. O filho mais novo tem vinte anos. Sabores da
Serra é o nome dos doces e bolos feitos em casa. A antiga Serra do Rogério se
chama Dom Leme há quarenta anos.
De batismo Cícera Alves de Araújo, Silvanir
apresenta Dom Leme pela fartura. Diz das casas de farinha e apiários, da safra
recente, do trabalho de abelhas e apicultores, de mais mulheres que vivem de
fazer sequilho e pão-de-ló. Além dela própria, uma vizinha contemplada no
projeto São José melhorou as condições do beneficiamento da puba e derivados.
Cita a feitura de balaios e cestas de cipó-uva.
O mel de cipó-uva é das transparências
douradas de histórias do Oriente. Conheci primeiro o mel. Depois vi a floração,
o exalar do cheiro na mata, fazendo da caminhada um modo de acolher o espanto
com tudo o que nasce. Por maior que seja o tempo de duração, é curta qualquer
existência comparada à dança da vida se tornando outra coisa para seguir.
Mandioca, goma, sequilho, céu da boca.
No Cariri, o sequilho faz parte dos comes e
bebes da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Faz-se a entronização do sagrado
coração, ou dos sagrados corações, do filho e da mãe, dando-lhes um lugar fixo
na casa. Na mesma data, a cada ano, faz-se a Renovação do ato. Falei com
Silvanir um dia depois da Renovação na casa dela. "Tinha umas setenta
pessoas aqui ontem". Reza esperada, festejada.
Silvanir não pila a goma no pilão de
madeira, outrora incontornável. Usa processador. "A goma seca tem uns
carocinhos." Peneira. Bate as claras à parte. Tira a pele da gema antes de
misturá-la à goma, à gordura derretida, ao açúcar. Amassa bem antes de cortar.
Usa untadas formas de pizza, mais finas que as de tabuleiro. Faz sequilhos
também de sabor amendoim, castanha, gergelim, laranja e maracujá. No calor das
brasas, cheiram logo. "Não tem fumaça. A lenha já queimou toda."
Fui à serra por meio do presépio que Sandro
Cidrão monta no museu por ele criado, o Museu da Memória Histórica Santanaense,
no centro de Santana. Perguntei sobre a cesta em miniatura com sementinhas,
ouvi "é de cipó de croapé". Ficamos sem saber que planta era aquela.
Um ano depois, de volta da feira da agricultura familiar em Dom Leme, uma das
feiras onde Silvanir expõe, o professor me diz "é o mesmo cipó-uva".
Prestar atenção às pequenas coisas com as quais se compõe um presépio nos
instala em uma conversa infinita. Rendilhado cipoal.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/12/25. Vida & Arte, p.2.

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