Por Emanuel
Freitas da Silva (*)
Depois da pomposa inauguração da imagem
de Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Crato, no mês passado (que contou com
ampla divulgação da Prefeitura Municipal), seguida da inauguração, no entorno,
de uma capela que funciona como réplica daquela que existe em Portugal, outras
cidades cearenses parecem ter corrido, com a ajuda do governo estadual, para
também inscreverem seus nomes na rota do turismo religioso no Ceará.
A cidade de Jucás, por exemplo,
inaugurou um santuário à Nossa Senhora do Carmo, com uma imagem que repete as
dimensões da do Crato - anunciada como "maior que o Cristo Redentor"
-, em meio a um complexo com lojas, restaurante, lanchonetes e banheiros, além
de uma capela e outros espaços para receber romeiros e visitantes. Num convênio
entre a prefeitura e o governo estadual, o acesso ao local custou quase R$ 4
milhões aos cofres públicos.
Na região, existem ainda imagens de
Nossa Senhora da Purificação (em Saboeiro) e de Nossa Senhora da Penha (em
Campos Sales). Em Santana do Cariri, “novas imagens” da estátua de Benigna também
foram divulgadas em dezembro, criando expectativa acerca de sua entrega, bem
como do complexo religioso que deverá cercar o local.
Por sua vez, Caridade também correu
para, depois de quase 40 anos, encabeçar o corpo de Santo Antônio. E tudo,
reitere-se, com pretensões de construção de complexos que ponham as cidades na
rota do turismo religioso.
Para não falar de Santo Antônio
(Barbalha), Padre Cicero (Juazeiro e Maracanaú), São Francisco (Canindé),
Menino Jesus de Praga (Chorozinho), Santa Edwiges (Caucaia) e tantas outras
imagens espalhadas pela cidade de Fortaleza.
Expressão de fé do segundo maior estado
católico do país (somos 70% de católicos)? Também. Mas, sobretudo, expressão da
aliança, histórica e permanente, do poder público com o credo que nos
constituiu como nação e que, por isso mesmo, ainda acumula, de modo legitimado,
privilégios que outros credos buscam também usufruir.
Ao que parece, instaurou-se uma disputa
acirrada pela monumentalização da fé em diversas cidades, que passam a ter seus
territórios, do chão ao alto do firmamento, fincados e atravessados pelas
representações do universo sagrado do catolicismo.
(*) Professor adjunto de teoria política da
Uece/Facedi.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/12/25.
Opinião. p.16.

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