Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Tenho acumulado ao longo do tempo, uma
coletânea de eventos que ilustram a minha vida como profissional de saúde.
Numa conversa, era um amigo de muita
identidade em relação as desavenças do viver, das experiências passadas, cada
um a sua forma, quer representassem as concepções de vida de cada um de nós,
quer divergíssemos sobre conceitos.
São eles tão frágeis a ponto de nos
aproximar. Cada qual em cada espaço, mas o que nos unia era o bem querer.
Em alguns momentos nossa conversa foi algo
áspera. Mas, terminou com ternura, tipo eu gosto muito de você.
Enfim, o que me ficou claro; cada um
defende sua experiência e seu arcabouço de regras, conceitos e preconceitos.
Num dado momento ele perguntou-me: Cabeto o
que é ser de esquerda ou de direita?
Não hesitei em dizer que cria na ciência
com certo comedimento, com a capacidade de atualizar a realidade, ou mesmo,
traduzir os fatos baseados em conceitos epistemológicos, de acordo com as
circunstâncias de cada época.
Em síntese, entendo que tais denominações,
com alguma frequência, relacionam-se a nossa insistente necessidade de dar
nomes, de batizar padrões.
Então, falei-lhe da minha percepção, da
nossa incapacidade de conviver com o não palpável.
Enfatizei que prefiro crer na efetividade
das ações, que se traduzem em mudanças, e não nomeá-las como forma de acalentar
as nossas inseguranças.
Em seguida ele argumentou: Cabeto, para
mim, de esquerda é quem deseja a mudança.
Fiquei imediatamente surpreso, quando
percebi que na minha experiência não havia conhecido ninguém que realmente
desejasse mudança, excluo desse contexto, os desvalidos. Embora, esses sejam
presas fáceis da manipulação.
Instantaneamente, busquei na psicanálise
alguma explicação, na ambivalência entre o querer e o não querer ao mesmo
tempo, pelo temor de perder o que lhe é familiar. Nesse prisma, o inconsciente
boicota o consciente.
No campo político, o desejo de mudança é
substituído por indignação, idealização, ódio ao inimigo e consequentemente
pela esperança de redenção por um líder. A meu ver características semelhantes
aos de “esquerda “e aos de “direita”.
Assim, entendo o desejo intrínseco de mudar
e não mudar, e, às vezes, “mudar” para não mudar.
Ao menos enquanto chega a natureza e sua
maturidade.
Que assim seja!
Ps: “Cara mesmo é a ignorância“
A frase é do Brizola, respondendo às
críticas do presidente Fernando Henrique sobre os gastos da educação no Rio de
Janeiro.
Na minha interpretação ambos estavam
certos, a educação é uma prioridade, mas é preciso analisar os resultados e
corrigir rumos. Não se trata de ser esquerda ou direita, e sim de honestidade,
transparência e humildade diante dos fatos.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 24/01/2026.
Opinião. p.19.

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