sábado, 28 de fevereiro de 2026

Proliferação de escolas médicas - a compaixão como solução

Por Fernando Barroso (*)

Nos dias de hoje um dos temas mais debatidos, é sem dúvida a grande proliferação de escolas médicas, essa profissão nobilíssima, desde os primórdios da humanidade. Há relatos que temos no Brasil aproximadamente 500 escolas médicas na atualidade e este número é mesmo inexato, e somente de janeiro de 2024 até setembro deste ano, mais 77 escolas médicas foram criadas e estima-se que mais de 50000 médicos se formam por ano, e só perdemos para Índia, que tem 600 escolas médicas, porém tem 1,4 bilhões de habitantes.

Podemos dizer que na busca de resolver o problema, criamos um maior. Existe uma plêiade de questões envolvidas: Não temos professores suficientes para o ensino, estas faculdades em sua maioria não têm um Hospital escola para treinamento destes estudantes, e esse trinômio professor, hospital e paciente, é essencial para a formação adequada. Infelizmente corremos o risco de formar profissionais despreparadas para o exercício e as vagas de residência médica, um campo de prática necessário, não são suficientes.

A medicina é uma das profissões mais nobres que alguém pode escolher, aprendemos desde cedo que a saúde é o bem maior que temos e precisa ser preservado. O curso de medicina exige muita dedicação nos estudos, nos plantões, nas noites mal dormidas, na angústia de ter que dar um diagnóstico correto ou mesmo decidir qual a melhor conduta, fazendo que muitas vezes nos deparemos com a vida e a morte, e esta então temos que aprender a lidar, sem jamais perdermos a esperança ou o sentimento de compaixão com a dor do paciente ou seus familiares.

Inevitavelmente me questiono o que pode ser feito para atenuar essa situação, pois nos últimos anos vimos a criação de programas de governo, como Mais médicos ou o mesmo o Mais Especialistas, mas lamentavelmente não acompanham em termos proporcionais os milhares de novos médicos e novas escolas que pululam do mar ao sertão.

Talvez nossa missão no momento, seja alertar e até mesmo apelar para o sentimento de compaixão para com os pacientes, de se ter empatia, tentar entender a dor e o desespero do outro, preservando a sua privacidade e se desvencilhando de qualquer preconceito ou vaidade pessoal, e tudo isso precisa ser exercitado, para minimizar as deficiências de uma formação médica sob riscos claros de degeneração.

Se espera dos médicos a santidade, a bondade, a resiliência, a caridade, o acolhimento, as boas virtudes, a compreensão e talvez atitudes sobre-humanas mesmo, mas eu ouso afirmar que o principal requisito é gostar de gente, do contrário jamais deveria abraçar essa profissão.

Que possamos seguir e que essa discussão não seja esquecida, pois toda a sociedade paga o preço por essa situação.

(*) Professor da UFC e chefe da Hematologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital Universitário Walter Cantídio. Membro titular da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/01/2026. Opinião. p.17.


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