quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

DECEPÇÃO, QUEM NUNCA TEVE?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

A vida inteira nos proporciona, vez por outra, algumas decepções. E decepção é um sentimento, que nos ocorre, provindo de um acontecimento, de uma situação, de um relacionamento, de um fato que vem de onde menos esperamos e sempre nos surpreende.

Toma-nos de assalto.

É o reverso de uma surpresa agradável.

Decepção origina-se do latim ‘deceptio’, proveniente do verbo ‘decípere (de + cápere)’, com o significado de "engano, dolo – enganar, prejudicar”. No grego antigo, há indicações assemelhadas com a divindade Apate (ἀπάτη), deusa da fraude e do falso julgamento, bem como da caixa de Pandora e do cavalo de Tróia.

E donde provém a decepção?

Em geral, quando iniciamos relacionamento ou contato com alguém ou com alguma coisa, aos poucos, vamos formando expectativas e, quanto mais o tempo passa, mais as fortalecemos. É claro que a ‘antecipação social’ já nos arremete para a criação de tais sentimentos, que se tornam consentimentos.

Quando, porém, a expectativa ‘exacerbada ou não’ de algo ou de alguém não acontece, isso afeta-nos, profundamente, com intensidade, proporcional ao sentimento que alimentamos e nos deixamos penetrar, de valor, consideração, respeito e importância.

A decepção surge ainda de um egoísmo de afeto e de um excesso de admiração, às vezes, com um zelo ‘desproporcional e pegajoso’: queremos que a pessoa seja como nós e esta espera sai pela culatra ou cultivamos excesso de confiança. Mas, o mundo não gira em torno de nossos gostos e desejos, nem a vida, em torno de nosso umbigo.

Daí, a um passo, podem surgir o estresse, a depressão, a tristeza e a frustração, o que altera nosso equilíbrio vital e, inclusive, ‘futrica’ o sistema imunológico.

Por que acontece nalgumas pessoas, de maneira tão intensa a deixá-las desconcertantes?

Primeiramente, porque não nos habilitamos, antecipadamente, a trabalhar com a decepção, bem como com outros sentimentos danosos à nossa integridade. Fabricamos expectativas falsas de relacionamentos e contatos perfeitos, refere-nos Ian Crab, assessorado pelas teorias de Melanie Klein e Sigmund Freud.

Precisamos preparar-nos para o ‘efeito decepção’, para termos melhores condições de suportá-la e superá-la, pois, ela também proporciona-nos momentos de grandes lições: lições de caráter, lições de moral, lições de sabedoria e prudência, lições de espiritualidade. O seu enfrentamento de frente diminui a carga de frustração, de estresse e de tristeza.

A perda da confiança em alguém tão querido e admirado, não pode nos mergulhar em atitudes de ódio e de rejeição; no máximo, indiferença, pois, nós também fazemos parte daquela decepção.

Devemos lembrar-nos de nossas imperfeições e fragilidades e de que também poderíamos ou podemos ocasionar decepção noutras pessoas. A maior de todas, porém, não é a decepção amorosa ou social, é a decepção de nossa fé, bem como a decepção com nós mesmos, o que baixa nossa autoestima, exigindo uma tomada de posição determinada e enérgica para evitar sequelas e situações irreversíveis.

E se detonar uma raiva ou um ódio, deixemo-los sair pela urina ou joguemo-lo no ralo para que nos deixemos continuar a viver.

E, enquanto isso, eu no meu bandolim, sigo cantando:

Há decepções que matam,

Há decepções que ferem,

Há decepções que despertam

O falso do verdadeiro,

O certo do errado.

Desilusão da ilusão,

Que me ensina outra canção,

Que me tira da contramão

E faz-me subir a montanha,

com mais ardor e galhardia no coração

Afinal, afinal, somos cristãos.

Tenhamos uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 4/02/26.


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