Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)
A vida inteira nos proporciona, vez por
outra, algumas decepções. E decepção é um sentimento, que nos ocorre, provindo
de um acontecimento, de uma situação, de um relacionamento, de um fato que vem
de onde menos esperamos e sempre nos surpreende.
Toma-nos de assalto.
É o reverso de uma surpresa agradável.
Decepção origina-se do latim ‘deceptio’,
proveniente do verbo ‘decípere (de + cápere)’, com o significado de
"engano, dolo – enganar, prejudicar”. No grego antigo, há indicações
assemelhadas com a divindade Apate (ἀπάτη), deusa da fraude e do falso
julgamento, bem como da caixa de Pandora e do cavalo de Tróia.
E donde provém a decepção?
Em geral, quando iniciamos relacionamento
ou contato com alguém ou com alguma coisa, aos poucos, vamos formando
expectativas e, quanto mais o tempo passa, mais as fortalecemos. É claro que a
‘antecipação social’ já nos arremete para a criação de tais sentimentos, que se
tornam consentimentos.
Quando, porém, a expectativa ‘exacerbada ou
não’ de algo ou de alguém não acontece, isso afeta-nos, profundamente, com
intensidade, proporcional ao sentimento que alimentamos e nos deixamos
penetrar, de valor, consideração, respeito e importância.
A decepção surge ainda de um egoísmo de
afeto e de um excesso de admiração, às vezes, com um zelo ‘desproporcional e
pegajoso’: queremos que a pessoa seja como nós e esta espera sai pela culatra
ou cultivamos excesso de confiança. Mas, o mundo não gira em torno de nossos
gostos e desejos, nem a vida, em torno de nosso umbigo.
Daí, a um passo, podem surgir o estresse, a
depressão, a tristeza e a frustração, o que altera nosso equilíbrio vital e,
inclusive, ‘futrica’ o sistema imunológico.
Por que acontece nalgumas pessoas, de
maneira tão intensa a deixá-las desconcertantes?
Primeiramente, porque não nos habilitamos,
antecipadamente, a trabalhar com a decepção, bem como com outros sentimentos
danosos à nossa integridade. Fabricamos expectativas falsas de relacionamentos
e contatos perfeitos, refere-nos Ian Crab, assessorado pelas teorias de Melanie
Klein e Sigmund Freud.
Precisamos preparar-nos para o ‘efeito
decepção’, para termos melhores condições de suportá-la e superá-la, pois, ela
também proporciona-nos momentos de grandes lições: lições de caráter, lições de
moral, lições de sabedoria e prudência, lições de espiritualidade. O seu
enfrentamento de frente diminui a carga de frustração, de estresse e de
tristeza.
A perda da confiança em alguém tão querido
e admirado, não pode nos mergulhar em atitudes de ódio e de rejeição; no
máximo, indiferença, pois, nós também fazemos parte daquela decepção.
Devemos lembrar-nos de nossas imperfeições
e fragilidades e de que também poderíamos ou podemos ocasionar decepção noutras
pessoas. A maior de todas, porém, não é a decepção amorosa ou social, é a
decepção de nossa fé, bem como a decepção com nós mesmos, o que baixa nossa
autoestima, exigindo uma tomada de posição determinada e enérgica para evitar
sequelas e situações irreversíveis.
E se detonar uma raiva ou um ódio,
deixemo-los sair pela urina ou joguemo-lo no ralo para que nos deixemos
continuar a viver.
E, enquanto isso, eu no meu bandolim, sigo
cantando:
Há decepções que matam,
Há decepções que ferem,
Há decepções que despertam
O falso do verdadeiro,
O certo do errado.
Desilusão da ilusão,
Que me ensina outra canção,
Que me tira da contramão
E faz-me subir a montanha,
com mais ardor e galhardia no coração
Afinal, afinal, somos cristãos.
Tenhamos uma boa quarta-feira, com as
bênçãos de Deus!!!
(*) Pediatra e professor
da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 4/02/26.

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