Por José Nelson Bessa Maia (*)
Após 26 anos de
negociações, o Conselho da União Europeia finalmente aprovou há pouco o Acordo
de Parceria Mercosul-União Europeia cuja assinatura ocorrerá em breve. Após
aprovação parlamentar pelos membros da Comunidade Europeia e do Mercosul, o
Acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de
720 milhões de habitantes, um território de 16,8 milhões de km2 e um PIB
conjunto superior a US$ 22 trilhões, sendo 13,4% do total referentes ao
Mercosul. Trata-se do maior acordo de livre comércio do mundo, partindo de um
intercâmbio bilateral de US$ 130 bilhões em 2024.
Embora celebrado
por governos, o acordo ainda enfrenta reações de agricultores europeus e
ecologistas, que criticam possíveis repercussões sobre o clima e a suposta
concorrência desleal em produtos agrícolas. A implantação de seus dispositivos
será gradual e os efeitos práticos só serão sentidos nos próximos anos. Mesmo
assim, em um ambiente internacional assolado pelo protecionismo americano e sua
truculência diplomática, esse Acordo indica que o multilateralismo ainda não
acabou e que os países e blocos de nações podem negociar de forma civilizada
seus interesses na busca de remover entraves ao comércio internacional e
facilitar transações econômicas entre países.
O recém-anunciado
acordo tem imperfeições e deixa de contemplar adequadamente as vantagens
comparativas e competitivas associadas aos recursos naturais da região
sul-americana. Mesmo assim, é o acordo possível nas circunstâncias que se
impuseram ao longo de um quarto de século de negociação. Sua eventual aprovação
final pelos parlamentos será uma vitória estratégica para ambas os lados. Os
principais ganhos, contudo, não residem apenas nos dispositivos comerciais do
acordo, mas especialmente em seus impactos positivos esperados sobre o ambiente
econômico, os fluxos interblocos de investimento estrangeiro e o estreitamento
das relações produtivas entre Mercosul e União Europeia.
Acuada pela
suposta e temida ameaça da Rússia na frente oriental, a agressiva política
comercial dos EUA e pela forte concorrência dos produtos chineses em seus
mercados, as lideranças da União Europeia não tiveram senão a opção de buscar
agilizar os trâmites para a aprovação do acordo e mostrar aos seus dois grandes
concorrentes que a União Europeia tem condições de ganhar novos mercados na
América do Sul e reduzir sua crônica dependência dos parceiros americanos e
chineses. Uma forma de atestar sua capacidade competitiva e a relevância e
atratividade de suas economias em um mundo imerso na desordem e crescentemente
fragmentado, mas ainda assim marcado por cadeias globais de valor integradas e
sujeito a intensas transformações tecnológicas e geopolíticas.
(*)
Ex-secretário de Assuntos Internacionais do
Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.
Fonte:
O Povo,
de 18/01/26. Opinião. p.22.

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