Por
Tales de Sá Cavalcante (*)
Nas corridas de cavalos na Inglaterra,
quando havia apenas um competidor apto a disputar a prova, bastava caminhar (to
walk) até o ponto de chegada para ser considerado vencedor, sem precisar
competir de fato.
Neste caso, para indicar uma vitória por
ausência do adversário, ou sem competição, passou-se a usar a expressão inglesa
"Walkover" - depois abreviada para W.O., a designar vencedor sem
contenda.
A Espanha ganhou, com disputa, a
tradicional Copa, mas, se tivéssemos criado a Copa do Meio Ambiente, o Japão
teria ganho todos os jogos por W.O., porque sua torcida deu exemplo ao
recolher, sempre, o lixo nas arquibancadas, após os jogos nipônicos.
Como um dos coordenadores do Programa de
Escolas Associadas à Unesco, fui um dos visitantes a colégios japoneses quando,
entre outras atividades, assistimos a aulas juntamente com as crianças. No
final da manhã, os estudantes formam várias equipes. Uma delas transforma as
carteiras escolares em mesas para o almoço, que se dá na própria sala de aula.
Alguns vão à cozinha e trazem os alimentos. Um grupo deles serve-os. Outros
recolhem a louça e as sobras. Após a refeição, uns limpam a sala e removem as
cestas de lixo.
O que os japoneses fizeram na Copa do Mundo
não foi sacrifício algum. Faz parte de sua cultura. Para quem viu tudo isso,
não foi surpresa observar que, no metrô, em atenção aos vizinhos, as pessoas
não usam o telemóvel por voz e se comunicam apenas com mensagens, para evitar o
incômodo a terceiros. No aeroporto, há cabines telefônicas sem telefone
exclusivamente para o uso de celulares.
O garçom não aceita gorjeta e se ofende se
você deseja concedê-la. Para eles, o bom serviço independe de gratificação.
Objetos e dinheiro são recebidos com as duas mãos. Cumprimentos não são feitos
com mãos a trocar bactérias senão por mesuras; e, quanto maior o respeito,
maior a curvatura do corpo.
Valorizam os mais velhos, as hierarquias,
as autoridades, o próximo, a disciplina, os valores coletivos, o bem comum, a
harmonia entre tradição e modernidade, a educação e a priorização do social
sobre o individual. Chegaremos lá?
(*) Reitor do FB UNI e
Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia
Cearense de Letras.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/07/26. Opinião, p.18.

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