segunda-feira, 13 de abril de 2026

Os impedimentos institucionais ao desenvolvimento

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Em 1981, quando da defesa de minha Tese de Professor Catedrático, na UFC, defendi que quatro são os fatores determinantes do nível de desenvolvimento econômico em qualquer época e em qualquer país. São eles, os fatores institucionais, os fatores históricos, os fatores naturais e os fatores aleatórios. E que o mais importante deles, em qualquer situação, é o fator institucional.

Em 2024 os economistas que defenderam essa tese receberam o Nobel de Economia.

Em muitos trabalhos em que analisei o sistema econômico brasileiro e nordestino, utilizei essa tese.

Hoje volto ao tema. O "leit motiv" foi uma reportagem publicada no O POVO em 6/1/2026, sobre a logística de transporte no Estado, um dos fatores mais importantes para explicar o péssimo desenvolvimento econômico do Brasil.

Apenas para tratar dos aspectos mais recentes, cito como o primeiro grande erro, no Brasil, em termos de desenvolvimento econômico, a decisão do presidente do Brasil em estabelecer, nos anos 1950 um modelo de crescimento baseado no transporte rodoviário, o tipo de transporte terrestre mais caro que existe.

O transporte marítimo é o tipo de transporte mais barato que existe, e como temos uma costa medindo entre 7.491 km a 10.900 km, dependendo da estimativa, não se compreende como até hoje essa dádiva não é bem aproveitada.

Mas poderíamos ter escolhido o transporte ferroviário, o segundo mais barato. E também não o fizemos. Por isso estamos pagando até hoje.

Dado este quadro, o que nos cabe discutir no que diz respeito à situação atual do Ceará?

O trabalho publicado no O POVO, acima citado, mostra que o desenvolvimento do Ceará é prejudicado pela falta de equipamentos adequados para o escoamento de produtos.

Os eixos, dentro deste contexto, mais importantes são: a) as rodovias federais: BR 116, 222 e 020, estradas que não são duplicadas (a BR 116 apresenta, apenas, pouca quilometragem de duplicação); elas também apresentam índices apenas razoáveis de adequação para o transporte o que é seguido pelas CEs que apresentam um percentual de 62,5% como condição regular, ruim ou péssima; b) o Anel Viário, que deveria ligar as três rodovias federais (110, 222 e 020) e as rodovias estaduais (CEs 010, 040, 060 e 065), cujo projeto começou em 2010 e com extensão prevista de 32km. Estamos em 2026 e não sabemos quando ele estará pronto; c) a Ferrovia Transnordestina.

Sobre esta já escrevi um pouco neste mesmo Jornal. Não vale aqui repetir minhas críticas.

Para terminar, lembro o trabalho do Dr. Marcos Holanda "Qualidade x Quantidade", publicado no Blog do Eliomar, no dia 6/1/2026. Ali, o autor escreve textualmente que o Estado investiu R$ 121,0 milhões para gerar um acréscimo de R$ 1,00 na renda das famílias cearenses. E para mostrar o descalabro desses investimentos, ele assegura que o VLT que vai ser expandido até o Castelão transportará em um mês apenas 60% dos passageiros que o sistema de ônibus transporta em um dia.

Será possível se imaginar investimentos mais dispendiosos, em termos per capita, do que esses?

Tendo em vista que é a ação do homem o fator que mais influencia a trajetória do desenvolvimento econômico de uma sociedade, não é de se admirar o atual estágio de subdesenvolvimento do Ceará.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 8/03/26. Opinião. p.18.


domingo, 12 de abril de 2026

TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM III: Luciano Silveira Pinheiro

            Luciano Silveira Pinheiro nasceu em Fortaleza-CE, em 12 de setembro de 1940.

Ingressou na Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1963, concluindo o seu curso médico em 1968. Cumpriu Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia (GO) na Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC) da UFC.

Realizou, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, o Mestrado em Tocoginecologia concluído em 1979, e o Doutorado em Tocoginecologia, concluso em 1985.

Pertenceu ao staff do quadro de fundadores da Clínica Obstétrica do Hospital Geral de Fortaleza.

Foi professor colaborador de Ginecologia e Obstetrícia da UFC, de 1974 a 1976. Em 1981, foi admitido por concurso como professor assistente, assumindo suas funções docentes e prestando serviços assistenciais na MEAC.

Foi promovido a professor adjunto e coroou sua carreira como professor titular concursado em 1998. Em seu vínculo funcional com a UFC (1981-2010), se ocupou de muitos encargos, sendo dignificado como professor emérito em 2013.

Publicou o livro “Displasia mamária: abordagem atual” e foi coeditor de três livros. Sua produção científica se destaca ainda pela publicação de muitos artigos em periódicos médicos estrangeiros e em revistas brasileiras de Ginecologia e Obstetrícia.

Atualmente, mantém-se proativo no ensino e na pesquisa médica, passando também a incursionar no campo literário, como cronista e contista.

Foi empossado na ACM em 22/07/2022, assumindo a Cadeira 48, patroneada por Newton Teófilo Gonçalves.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.


TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM II: Ormando Rodrigues Campos

Ormando Rodrigues Campos nasceu em Camocim-CE, em 27/01/1937.

Ingressou na a Universidade Federal do Ceará (UFC)em 1958, formando-se médico em 1963. Fez Residência Médica em Clínica Obstétrica na UFC.

Em 1965, foi trabalhar no Hospital Regional de Quixeramobim, onde permaneceu por dois anos, lidando com a gente interiorana. De volta à Fortaleza, ainda conservando suas atividades em Obstetrícia, começou a atuar em Hemoterapia.

Em 1977, quando da criação do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce), foi para o Centre de Transfusion Sanguine Institut D'Hematologie, CTSIH, em Montpellier, na França, fazer Aperfeiçoamento em Transfusion Sanguine et Immuno-Hematologie.

Com a sua nova formação especializada, e lastreado nos conhecimentos auferidos no exterior, ele concorreu, efetivamente, para a implantação e consolidação da Hemoterapia no Hemoce.

Em 1987, retornou à França, para efetuar Aperfeiçoamento em Immuno-Hematologie Erythrocytaire, no Centre Regional de Transfusion Sanguine, de Lille.

Ormando Campos foi Diretor Geral do Hemocentro de Fortaleza de 1995 a 2002, um período pautado por sua proficiente gestão.

Do elenco de atividades de hemoterapeuta, no seu currículo figuram mais de trinta participações em cursos de atualização, no Brasil e no exterior, e 25 publicações técnicas e mais de uma centena de participações em seminários e congressos.

Foi empossado na Cad. 10 da ACM em 5/08/2016, patroneada por Carlos da Costa Ribeiro.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.


TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM I: Francisco José Costa Eleutério

 

Francisco José Costa Eleutério, nascido em Fortaleza, em 5/01/1949.

Graduado em medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1973. Foi médico residente de Ginecologia e Obstetrícia (GO), no Hospital Geral Dr. César Cals.

Especialista em Ginecologia e Obstetrícia, ministra cursos preparatórios aos candidatos do Ceará ao Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia.

Exerceu medicina por mais de 40 anos, na condição de funcionário público federal concursado e professor universitário, tendo se aposentado do serviço público, após 35 anos de trabalho.

Como obstetra, foi chefe de Serviço de Obstetrícia do Hospital Geral de Fortaleza e preceptor da Residência Médica em GO desse hospital, de onde se afastou, em 2015, mercê da sua aposentadoria.

Ex-professor e coordenador da disciplina de Gineco-Obstetrícia e preceptor de Internato do Curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará, comportando salientar que diversas turmas de concluintes, sistematicamente, o homenageiam.

No campo técnico-científico, publicou os livros: “Dez Temas Básicos de Obstetrícia”, “Temas em Obstetrícia”, “Manual de Intercorrências Clínicas em Obstetrícia” e “Protocolos de Obstetrícia da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará”.

Ingressou na Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional Ceará, em 2013, tendo participação nas 13 últimas antologias. Eleutério faz incursões literárias na tessitura de ensaios e crônicas em diversas publicações literárias.

Em 31/07/2015, foi empossado na ACM, como ocupante da cadeira 16, patroneada pelo Dr. João Otávio Lobo.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.



sábado, 11 de abril de 2026

TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

A Academia Cearense de Medicina (ACM) foi construída segundo os moldes da vetusta Academia Nacional de Medicina (ANM), a mais antiga academia em funcionamento ininterrupto no Brasil, posto que fundada, sob o reinado do imperador D. Pedro I, em 30 de junho de 1829.

Para fins de ingresso na ACM, espelhando-se na sua congênere nacional, os novos acadêmicos são alocados, conforme a prevalência de seus campos de atuação, em três grupos: Medicina (Clínica), Cirurgia e Ciência Aplicada à Medicina.

Das especialidades Cirúrgicas, a Tocoginecologia sempre se fez presente na ACM, pois o Acad. José Carlos da Costa Ribeiro, um dos notáveis médicos dessa especialidade no Ceará, foi um dos 26 Membros Titulares (MT) Fundadores da ACM. Também exerceram a especialidade de Ginecologia e Obstetrícia (GO) o ex-presidente Francisco das Chagas Oliveira, Galba Araújo e Anastácio Magalhães, já falecidos, e o Acad. José Iran dos Santos, atualmente MT Honorável.

A GO, presentemente, participa da arcádia médica cearense com três MT em efetivo exercício. São eles, a biografar, sinteticamente, por ordem de posse na ACM: Francisco José Costa Eleutério, Ormando Rodrigues Campos e Luciano Silveira Pinheiro.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.

Postado no Blog do Marcelo Gurgel em 12/04/2026.


AUTOBIOGRAFIA MÉDICA DE SARA LÚCIA FERREIRA CAVALCANTE

 

Sara Lúcia Ferreira Cavalcante pintada por Lúcio Flávio Gonzaga Silva

Após a graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1977, segui para o Rio de Janeiro, onde cumpri a Residência Médica (RM) em Anestesiologia, no IASERJ, e a Especialização em Anestesiologia, na PUC-Rio.

Completei a minha formação acadêmica com o Mestrado em Farmacologia da UFC e o doutorado em Bases Gerais da Cirurgia e Cirurgia Experimental da Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho, em Botucatu-SP.

Admitida por concurso na UFC em 1983, para lecionar Bases da Técnica Cirúrgica e da Anestesia e prestar meus serviços técnicos no Hospital Universitário Walter Cantídio, aposentei-me por tempo de serviço em 2012, como Professora Associada, mas prossegui nas atividades laborais como anestesiologista do Hospital São Carlos e do Hospital Geral de Fortaleza (HGF).

Da minha produção científica, composta por artigos, capítulos e outras publicações, colhi várias premiações concedidas pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) e pelo Laboratório Abbot.

Participei de mais de sessenta congressos e eventos científicos da minha especialidade, muitos deles como expositora convidada, tendo apresentado mais de duzentos trabalhos.

Tive participação em diversas bancas examinadoras de concursos e processos seletivos públicos, valendo a salientar a intensa atuação nos exames para a obtenção de títulos de especialista da SBA.

Possuo o Título de Especialista em Anestesiologia e o Título Superior em Anestesiologia da SBA. Pertenço à SBA, como sócia e membro de comissões ligadas ao Ensino da Anestesiologia no Brasil; fui da Comissão de Ensino e Treinamento em Anestesiologia (SBA) por três anos consecutivos, tendo sido Presidente da Comissão em 2018.

Atualmente, sou membro da Comissão de Educação Continuada em Anestesiologia (SBA) participando como revisora de temas enviados pela World Federation of Anesthesia, com a finalidade de atualizar anestesiologistas em países de língua portuguesa, e elaboradora de provas em Anestesiologia para certificação de anestesiologistas junto ao MEC/SBA. Membro efetivo (de 2022 a 2025) da Comissão de Certificação em Anestesiologia pela SBA.

Sou sócia honorária da Sociedade de Anestesiologia do Estado do Ceará, da qual fui Presidente em duas gestões; e sócia da Sociedade Europeia de Anestesiologia.

Ainda engajada na formação de médicos, função que exerço há mais de quatro décadas, contribuindo para o treinamento e a especialização de centenas de anestesiologistas, sigo corresponsável pela RM em Anestesiologia do HGF.

Ingressei na Academia Cearense de Medicina, em 25/10/2019, como ocupante da Cadeira 8, tendo sido diretora científica na gestão 2022-24 e II Secretária da Diretoria 2025-26.

Meu hobbie preferido é participar de entidades de caridades que visam o apoio e a saúde aos menos favorecidos. Como compromisso social e atividade voluntária, ocupo a vice-presidência do IPREDE.

Fui agraciada com três filhos Raquel (otorrinolaringologista), mãe de Rafael, Arthur e Esther; Deborah (juíza de Direito), mãe de Sarah e Cecilia; e Anibal (professor universitário, falecido abrupta e prematuramente); a ele nossa gratidão pela sua vida e história.

Sara Lúcia Ferreira Cavalcante


CONVITE - CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA (Páscoa de 2026)

“Cristo morreu, mas ressuscitou, e fez isso somente para nos ensinar a matar os nossos piores defeitos e ressuscitar as maiores virtudes sepultadas no íntimo de nossos corações. Que esta seja a verdade da nossa Páscoa.”

Celebrante: Pe. Nazareno.

Data: Sábado, 11 de abril de 2026, às 8h.

Local: Auditório do Edifício-sede da Unimed Fortaleza – Av. Santos Dumont, 949 - Fortaleza.

É com muita alegria que contamos com a presença dos médicos e suas famílias.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sessão Solene pelo Dia Mundial de Combate ao Câncer na Assembleia Legislativa

Flagrante da comemoração alusiva ao Dia Mundial de Combate ao Câncer, realizada pela Assembleia Legislativa do Ceará em 9/04/2026. Na foto, da esquerda para a direita, aparecem os Drs. Caio Juaçaba, Lúcia Alcântara, Marcelo Gurgel, Heládio Neto e Olívio Feitosa.

(Foto cedida pelo Serviço de Marketing do ICC). 

A Assembleia Legislativa do Ceará, atendendo ao requerimento do Dep. Heitor Ferrer Pessoa, realizou na tarde de 9 de abril de 2026 (quinta-feira), a Sessão Solene em comemoração ao Dia Mundial de Combate ao Câncer, que teve como principal entidade homenageada o Instituto do Câncer do Ceará (ICC), que há mais de oitenta anos, desde a sua fundação em 1944, tem prestado relevantes serviços oncológicos no Ceará.

Na oportunidade, foram entregues certificados de reconhecimento a cerca de vinte profissionais atuantes em Cancerologia em nosso estado. Dentre os homenageados do ICC, figuraram os médicos Sérgio Juaçaba, Lúcia Alcântara, Ricardo Lincoln, Olívio Feitosa e Heládio Neto, e a física médica Rebeca Mourão.

Em nome do poder legislativo estadual falou o deputado Heitor Férrer, que presidiu a solenidade, e pelos agraciados, o médico e professor Arruda Bastos.

Integrando a mesa diretora dos trabalhos, o ICC foi representado pelo seu CEO Caio Juaçaba.

Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Médico epidemiologista do ICC


Crônica: “Feiúra aumenta com o tempo, é pega...” ... e outros causos

Feiúra aumenta com o tempo, é pega...

No café da manhã com Maria, regulava 8h da segunda-feira chuvosa, e o celular da mulher toca. É a sobrinha Donana, pra tirar dúvida:

- Mulher, tu lembra do nome daquele primo bem distante da gente, que um dia apareceu lá em casa - eu era menina ainda - e tomei um susto medonho?

- Que botou a cara na janela e tu sem querer viu ele e lascou o grito de medo?

- Sim! Chorando, falei apavorada: - Mãe, tem um bicho aqui!!! Tira!!!

- É Rosmildo Neto! Por causa disso, tu passou um mês sem dormir, lembrando da cena...

- Isso, isso, isso!

- Lembro dele, bicho véi magro que era ver uma vara de virar tripa, boca murcha, urêa de abano, corcunda... Morreu?

- Não, vi ele ontem no aniversário de 99 anos de seu Nozinho!

- Continua feio, ele?

- Feio, o Rosmildo?!? Bota fêi nisso! Tá muito pior! 20 vezes mais!

- Donana, num foi ele que fugiu com uma sobrinha nossa?

- Dizem que ela fugiu, mas foi com medo dele!

- Bem o fato é que tiveram cinco filhas, e a melhorzinha era Dinete, bem desabonitada!

- Mas eu tô invocada é com Rosmildo mais feio que antes!

- E eu? Às vezes acontece de a pessoa feia ficar menos feia com o tempo...

- Com Rosmildo, não, pelo visto...

- A versão que tu viu ontem vai a cemitério e espanta visagem brincando!

- Mas tem uma coisa boa nisso tudo...

- Sei, onde ele mora - e na redondeza toda, não fica uma muriçoca!

- Só se tu num quiser!

Caixão e vela preta

O amigo Dr. Manel conta que, nos tempos de juiz de simpática do Centro-Sul do estado, foi convidado por um ilustre morador da zona rural a pegar uma merendar em sua humilde residência. Juiz na casa de homem simples, algo revestido de um acontecimento. Barraco simples, miúdo, mas bem arrumado. Na mesa de tudo em quanto: café, lei natural, pão, inhame, cuscuz, ovos estrelados, banana e mamão. Juiz admirado com o banquete. Lá fora, a vizinhança admirada.

Começa o desjejum matinal, só os dois na casa. Súbito, a conversa animada é estacada. O homem da lei está horrorizado com o que vê pregado na parede da sala...

- Que faz esse caixão de defunto aí, amigo?!?

- Pra eu lembrar que cada dia é um dia a menos!

- E precisa disso?

- Veja bem: se eu já pago plano funerário, se tenho por vizinhas quatro carpideiras de alta qualidade, por que não um caixãozinho de leve?

- Mas, na parede?!?

- Melhor que uma televisão, que só passa morte!

Sabedoria de seu Dedé Gordim

1 - Teste para saber se o leite é puro: botar uma gota do leite (de vaca) na unha do dedo fura-bolo; se o pingo cair, não está apto a ser bebido.

2 - Saber se tem bom "inverno": fazer uma coivara - tocar fogo no mato. Se saírem dali de dentro 158 preás - e três punarés, o ano é de pouca chuva.

3 - Ainda sobre quadra chuvosa: se a vaca urinar e não pingar no chão, o inverno é bom!

Fonte: O POVO, de 13/03/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

A cidadania não se acaba aos 70...

Por Heitor Férrer (*)

É muito comum, no meu consultório, ouvir de muitos de meus pacientes que não podem mais votar. Imediatamente, pergunto "por que?". A resposta é automática: "não posso mais votar, doutor, porque completei 70 anos". Isso revela um equívoco disseminado entre a nossa população, principalmente, nos que atingem a terceira idade. Acham que perderam o direito ao voto, como se fossem anulados do processo eleitoral, quando, na verdade, deveria ser o contrário, com mais experiência, melhores escolhas.

Nunca é demais explicar e faço isso com todas as pessoas que dizem não mais poder votar porque completaram70 anos, que o voto apenas deixa de ser obrigatório, mas continua sendo voluntário, permitido e importante. O mais grave desse sentimento comum é que muitos cidadãos e cidadãs simplesmente deixam de votar, abrindo mão de um item importantíssimo de sua cidadania, que é a de participar das decisões eleitorais de sua cidade, do seu estado e do seu país.

Para fortalecer os meus argumentos e convencimento, digo a eles que quem não pode votar são apenas os menores de 16 anos. Completados os 16 anos, até a morte, o direito ao voto é garantido pela Constituição brasileira.

Abraço a iniciativa do Ministério Público, em parceria com o Tribunal Regional Eleitoral, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Prefeitura de Fortaleza, que tem intensificado campanhas de cidadania para divulgar que o direito ao voto não se acaba aos 70 anos e que essas pessoas garantam a sua atividade plena nos processos de eleição em todas as esferas de poder. O objetivo, ressaltam os órgãos, é reinserir a população da terceira idade no processo eleitoral de escolha democrática dos seus governantes.

Do ponto de vista psicológico e social, quando o cidadão encarna a ideia de que não pode mais votar, ele acaba se afastando ainda mais da vida pública, do destino de onde mora, caindo numa marginalização cômoda, porque, para muitos, ir às constitui sacrifício. Não sabem eles que estão se anulando em vida.

Devemos ser pedagógicos nesse tema, fazendo todo o esforço de convencimento para que as pessoas a partir dos 70 anos não deixem de votar por desinformação, diminuindo a sua cidadania. O voto continua sendo a mais legitima, importante e poderosa ferramenta para defender posições e influenciar os rumos da política local, regional e nacional.

Em um país que envelhece rapidamente e que, muito em breve, terá mais idosos do que jovens em sua população, é urgente estimular a participação das pessoas com mais de 70 anos no processo eleitoral para que políticas públicas sejam construídas de forma a atender às suas reais necessidades. Garantir essa participação é essencial para a efetivação dos direitos da pessoa idosa.

A cidadania não se acaba aos 70 anos.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/03/26. Opinião. p.19.

DAS CARNAÚBAS....

Por Mário Mamede (*)

Em primeiro de julho de 2025 foi publicado no jornal O POVO matéria com bastante destaque acerca da morte de 50 Palmeiras na Beira Mar de Fortaleza, numa extensão de aproximadamente 1,6 km. Várias opiniões foram manifestadas por curiosos leigos, turistas, moradores próximos e de administradores da Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza - Urbfor.

Dentre os vários palpites e pitacos alguns apontaram que isso ocorreu porque não foram cuidadas adequadamente; faltou adubação e aguação; o sol é muito intenso; a estiagem foi prolongada...

Um botânico da Semace comentou que as mortes pudessem estar relacionadas a Doença do Bronzeamento Letal, causada por um inseto que se alimenta de sua seiva e ocasiona uma contaminação letal para a planta. Outros ainda comentaram dificuldades de transplantar uma planta já de médio porte ou mesmo mudas cultivadas fora do seu habitat em terrenos de baixios no semiárido nordestino.

Devo dizer que já viajei muito pelo Ceará e vi muitas carnaubeiras em convívio coletivo e mesmo, aqui e acolá, isoladamente, mas sempre na região do nosso sertão. Por outro lado, nunca vi uma carnaúba nascida ou plantada por praianos nas franjas do litoral cearense. E não fazem isso simplesmente porque sabem que essas plantas não são praieiras.

Outra reportagem nesse mesmo jornal, em 13 de janeiro recente, com manchete de chamada em primeira página dizia que as finadas carnaubeiras (aquelas da reportagem de Julho do ano passado, lembram?), ainda não tiveram os seus restos mortais retirados e estão à espera do órgão de paisagismo da PMF ou da empresa contratada para que tal faça a limpeza e providencie o plantio de outras carnaúbas logo que as chuvas começarem.

A questão não é chuva de mais ou de menos nem a culpa é do calor do sol. Se assim fosse não teríamos a riqueza de exuberantes coqueirais em nossas praias e nem das colônias de carnaubeiras enfeitando nossos baixios na paisagem do semiárido cearense. A questão é que devemos respeitar a natureza das plantas e as características dos seus lugares de moradia, seus habitats. Repetir o mesmo procedimento errado para chegar a um resultado desejável não é uma boa prática.

Seguramente é mais coerente fazer acertadas escolhas de plantas com copas frondosas, exuberantes, para nos beneficiarem com suas sombras acolhedoras, dos belos ipês e mesmo de árvores frutíferas para enfeitar nossa cidade e deixar que num futuro próximo a moçada se delicie com seus saborosos frutos.

(*) Médico ortopedista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/03/2026. Opinião. p.18.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

EROS, QUEM ÉS TU?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Eros surge com Hesíodo, como Procriação, a força de atração que viria a unir imortais e mortais entre si e uns com os outros. Mais tarde, no período Alexandrino, assume um garoto com asas que dispara flechas amorosas. Cupido é ele denominado.

Platão descreve-o com duas características: a pobreza e a carência da mãe Pênia e a sagacidade, audácia e coragem do pai Poros, à espreita dos belos de corpo e de alma. Da contemplação da beleza física chega-se à contemplação de todo o belo.

Para Hesíodo, porém, Eros era filho de Afrodite, formada pelos testículos de Urano, e com seus irmãos eram chamados de Erotes, com as suas diversas faces do amor.

Eros, com sua flecha sempre pronta a disparar, é assumido 'correio' do amor.

Platão apresenta este amor ‘como uma doença mental grave’ e, ao mesmo tempo, como caminho para a sabedoria, através do que ele denomina ascese.

Mais tarde, no Romantismo, surge um amor melancólico e nostálgico, com a paixão sobrepondo-se à razão, quando Eros aproxima-se de Tanatos. Os sentimentos explodem no prazer sexual, gerando tristeza e sofrimento na sua carência.

Em nossos dias, o amor tende a ceder a instâncias genitais, com seu efêmero prazer, como se fora mera paixão. “Amor é apenas instinto de sobrevivência da espécie.” – Arthur Schopenhauer. Erich From assim fala do amor: "O amor é uma força ativa no homem; uma força que irrompe pelas paredes, que separam o homem de seus semelhantes, que o une aos outros; o amor leva-o a superar o sentimento de isolamento e de separação, permitindo-lhe, porém, ser ele mesmo, reter sua integridade. No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um e, contudo, permaneçam dois."

O historiador Will Durant conta que "o amor romântico existia entre os gregos, mas raramente determinava os casamentos".

Pra Zygmunt Bauman, vive-se hoje o ‘amor líquido’: o simples apertar de uma tecla rompe laços e os relacionamentos tornam-se irrelevantes e efêmeros, com ainda mais riscos num encontro físico.

O amor jamais será uma invenção ou uma criação. O amor é expressão do próprio ser humano, cujo ônus é encontrá-lo no seu recôndito para amá-lo ou assumir penúrias de sórdida contradição ou traumática rejeição.

Tenhamos uma boa segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 23/02/26.


A ORIGEM DA CIÊNCIA ECONÔMICA

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Há 250 anos, exatamente em 9 de março de 1776, o escocês Adam Smith publicava a obra A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas. O livro marcou o nascimento da economia como ciência. Nele, Smith argumenta que a verdadeira riqueza de um país não é o ouro acumulado – como sustentava a doutrina mercantilista –, mas sim a capacidade produtiva de seu trabalho, ou seja, sua produtividade.

O crescimento econômico é impulsionado pela divisão do trabalho, pelo livre mercado, pela livre concorrência e pelo interesse próprio, que, por meio da chamada “mão invisível”, pode gerar benefícios para toda a sociedade.

O autor elaborou uma teoria sobre o funcionamento do sistema econômico, que reformulou completamente o paradigma vigente à época, quando a riqueza nacional era medida pelas reservas de ouro e prata de um país. Importar mercadorias do exterior era considerado prejudicial, pois significava abrir mão dessa riqueza para pagá-las. Exportar, por sua vez, era visto como benéfico, já que os metais preciosos retornavam à nação.

Assim, os países mantinham uma vasta rede de controles para impedir que essa riqueza metálica se dissipasse, por meio de impostos sobre importações, subsídios a exportadores e proteção às indústrias nacionais.

Esse mesmo protecionismo vigorava também internamente. As cidades impediam que artesãos de outras localidades se estabelecessem em seus territórios para exercer suas atividades. Fabricantes e comerciantes solicitavam ao rei monopólios protecionistas, e dispositivos que economizavam mão de obra eram proibidos por representarem uma ameaça aos produtores existentes.

O pensador escocês demonstrou que A Riqueza das Nações não constitui um endosso à ganância econômica, como às vezes ainda é caricaturada. O interesse próprio pode impulsionar a economia, mas essa força só gera benefícios quando há competição genuinamente aberta e livre de coerção. Ele destaca que o crescimento econômico não pode ser avaliado apenas pelo aumento da riqueza total de um país.

Uma sociedade só pode ser considerada verdadeiramente próspera quando a maioria da população tem acesso a condições dignas de vida, como renda suficiente, emprego de qualidade, educação e saúde.

O clássico do filósofo escocês sintetiza os princípios centrais de seu pensamento econômico: a defesa do livre comércio, da divisão do trabalho, da livre concorrência, da eficiência produtiva e da cooperação entre as nações, sempre baseada na liberdade econômica – base do comércio internacional. O trabalho busca apresentar ao mundo uma ciência econômica descritiva, baseada em evidências, sem deixar de lado as questões morais fundamentais para o ser humano.

Em 1759, muito antes de A Riqueza das Nações, Smith havia publicado a obra que o consagrou no campo da filosofia: A Teoria dos Sentimentos Morais. Em síntese, a natureza humana é complexa. Somos egoístas, mas também gostamos de ajudar os outros.

Os dois livros são, portanto, complementares: mostram como indivíduos podem conviver pacificamente na esfera moral e, ao mesmo tempo, cooperar de forma produtiva no plano econômico. Como afirmou o próprio autor: “Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a grande maioria de seus membros for pobre e miserável”.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 5/03/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 7 de abril de 2026

ÁRVORES FALAM?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Hoje, ao levantar-me, corria uma suave brisa com um leve sereno dos céus, pingos miúdos a perpassarem um véu.

Abri a janela e ouvi a voz de uma árvore. Era uma velha mangueira, baloiçando seus galhos, num vai-e-vem rítmico de uma bela valsa portuguesa.

Velha, não decrépita.

E ouvi sua voz. Das pontas de seus galhos brotavam renovos, que saracoteavam alegres, ao toque da brisa. Seus rebentos, brotos tenros, delicados, tez de um verde-claro, irrepreensivelmente, charmoso, caiam uns sobre os outros, com peraltices de impúberes crianças. E os galhos, muitos gastos no tempo, com suas folhas verde-pardacentas de tantas refregas, acolhiam, calmamente, essa nova geração, acenando-lhe um bem-vindo aliviado e letante.

Quedei-me a sorver aqueles momentos, que, de tão alegres, saltaram dentro de mim, fizeram-me tanto bem, que minh’alma sorriu, extasiada com tamanha singela maravilha. Levantei os olhos e balbuciei uma prece de agradecimento e louvor ao Criador.

Dei-me conta de que idades podem se renovar, de que envelhecer pode rejuvenescer, basta deixar um renovo surgir para o velho voltar a sorrir dos cansaços de sua marcha irretornável, porém, sempre pronta ao renovável.

Lembrei-me também da máxima de Lavoisier. Nada de fato se perde, mas se não acontece transformação, ela se transforma em perda.

Nossas células renovam-se. Nossos princípios renovam nossos valores, nossas crenças remoçam nossa fé.

Como aquela mangueira, para caminhar com esbeltez e pujança, que venham novos rebentos, que a alma alenta e a vida alimenta.

Árvore fala, sim, senhor.

Não dá apenas flores ou frutos ou sombra, ela nos proporciona também lições de ‘ser’.

Tenhamos um nome sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 21/03/26.


99 TOMS EM 99 TONS

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Estava eu sem Mindlin, mas entre livros, numa das poucas livrarias de hoje e "garimpei" notável dueto. A biografia de Tom Jobim por Ruy Castro, o mesmo que, na Folha, considerou que, se escrita pela própria pessoa, não é biografia, pois só o seria se fossem usadas as armas do biógrafo, entre elas ouvir um mínimo de 200 fontes. Para o escritor, a autobiografia é mais uma memória, em que o autor ouve apenas a si mesmo.

O livro era "O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim", considerado o melhor de 2025 no Prêmio Jabuti, onde o numeral do subtítulo explicita quantas são as crônicas ali reunidas. A descrever melodias, compositores, letristas, cantores e até filmes, o escritor revela: Jobim dizia que "acordar cedo, ver o sol, respirar fundo e achar que a vida é bonita era o que o estimulava a sentar e escrever música". E que "numa época que não se falava em ecologia, já denunciava a destruição das matas, a especulação imobiliária e a poluição das águas".

Segundo o autor, sempre que Jobim abria o piano, o mundo melhorava. E o músico afirmou: "o Japão é um país paupérrimo, com vocação para a riqueza. Nós somos um país riquíssimo com vocação para a pobreza".

Reza a lenda que linda garota, com o charme da carioca, a caminho da praia, passava em frente ao Bar Veloso, onde ficavam Tom e Vinicius a admirá-la pela "beleza que passa sozinha", sem saber que "o mundo inteirinho se enche de graça e fica mais lindo por causa do amor". A lenda também diz que Vinicius e Tom criaram "Garota de Ipanema" no próprio bar, que, por sinal, passou a ter o nome da canção.

O livro nos ensina que Tom compôs a música num apartamento e Vinicius escreveu a letra noutro. Para o autor, Tom Jobim compunha e Vinicius vestia com letras aquelas canções. Digo eu: que corpo, o do cliente! Que alfaiate! E que prova viva! O literato aponta no livro: "Tom não morreu. E, a qualquer hora dessas, vamos cruzar com ele, à sombra de alguma árvore que já não está mais lá". Indica o seu epitáfio como: "tu foste a única culpada". E indaga se era Ligia, Luiza, Gabriela ou Teresa da praia, de quem, a meu juízo, nem a praia conseguia ser sua dona...

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/03/26. Opinião, p.18.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

A EQUAÇÃO DA CASA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Em muito boa hora, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dedicou a Campanha da Fraternidade de 2026 ao debate sobre a habitação. Com o lema "Fraternidade e moradia" e com um cartaz que traz, além de um sem-teto dormindo num banco de praça, um trecho do evangelho de João ("Ele veio morar entre nós"), a instituição lança luz sobre um tema complexo que mexe com a minha categoria profissional desde que o mundo é mundo. Estima-se que o déficit habitacional brasileiro é da ordem de 6 milhões de residências, o que alcança, em média, entre 24 a 30 milhões de pessoas, isso sem que se fale no gasto excessivo com o aluguel urbano e as inadequações habitacionais fruto do improviso na construção das moradas. Como se vê, é um assunto oportuno e adequado a ser tratado num ano eleitoral.

Contudo, a questão habitacional não se restringe à casa, mas a um universo mais ampliado, que envolve as regiões e as cidades. Tomemos a nossa Fortaleza como estudo de caso: com mais de 2,7 milhões de habitantes, é a quarta capital do País em população e a mais populosa do semiárido no mundo. Caucaia é o município cearense que vem logo atrás, com quase 380 mil almas. Por esses números vê-se que a disparidade é flagrante. Por sua vez, a Região Metropolitana de Fortaleza conta hoje com 19 municípios e concentra 44% da população do Ceará. A isso se chama metropolização descapitalizada, um corpo com uma cabeça grande demais e membros atrofiados. Nosso grande desafio é trabalhar para reforçar as cidades médias e evitar o êxodo que nos constrange.

Fortaleza tem hoje algo em torno de 700 mil pessoas em favelas ou comunidades urbanas, sendo a terceira no Brasil, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, sem que seja preciso dizer da ação de facções e milícias nessas áreas. Projetos de urbanização para esses setores da Cidade fazem-se mais que necessários, elaborados, contudo, com índices apropriados que não aqueles produzidos para a arquitetura convencional. Aliás, é fundamental compreender que, neste tema, se o número é importante, mais ainda é a qualidade do morar. Não podemos cair novamente na esparrela do Minha Casa Minha Vida (MCMV) priorizando a quantidade e esquecendo os valores e atributos espaciais. De outra parte, a casa carece de funções correlatas para ter sentido. Como fazer mil moradas no meio do nada?

Todo domingo, no caminho para o Raimundo do Queijo, encontro uma multidão de miseráveis na fila da sopa da Praça do Ferreira. Reflito de mim para comigo: Essas pessoas querem um lugar para morar ou desejam ter um espaço para guardar suas coisas, tomar banho e fazer as suas necessidades, dormir quando cansadas? Terão elas condições de bancar a moradia, pagar água, luz, IPTU? Lembro-me da experiência do Conjunto Santa Terezinha, no Vicente Pinzón, final dos anos de 1970. Cinco favelas foram eliminadas para a construção do tal conjunto. Pouco tempo depois, inadimplentes, as famílias voltaram para os seus barracos e as casas foram ocupadas por uma classe média empobrecida. É, pois, difícil a equação da casa, algo que envolve, além da casca, a gema do ovo.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/26. Vida & Arte. p.2.


ESSES ERROS DE TODOS NÓS

Por Luiz Gonzaga Porto Pinheiro (*)

No nosso genoma estão os seres que cruzamos na evolução. Predadores carniceiros e rapineiros estão em alguns dos nossos genes. A expressão de uma ou a repressão de outra proteína pode se manifestar como ganância, inveja, preconceito, soberba ou crueldade. Uma paixão, uma frustração, álcool, alucinógenos ou uma injustiça explícita podem liberar formas bizarras de comportamento no homem. Veja-se a atitude de dois jovens ditos normais, no metrô de São Paulo: embriagados, espancaram até a morte um morador de rua que defendia um homossexual.

Acho que uma parte destes comportamentos atípicos se explica pela frustradora sociedade de consumo. Todos querem ter tudo que lhes agrada. Coletivamente também surgem comportamentos predatórios: países fortes se apropriam do poder, corrompem ou são corrompidos, perseguem minorias e expoliam Estados fracos.

Nações promovem guerras por interesses geopolíticos, religiosos, comerciais ou ideológicos. Impérios dominam extensas áreas do planeta e usam artefatos nucleares e químicos para manter seus privilégios. Nem o meio ambiente escapa dos homens. Espécies extintas, a natureza degradada, mostra a insensibilidade coletiva. Necessário que se exercite a ética, centrada na vida, embasada em coletivo justo, identifique desvios, controlando-os e punindo os culpados.

O Estado deve dar chances iguais a todos, corrigir as desigualdades e facilitar o crescimento dos cidadãos. Enquanto as respostas não chegam, evite-se soluções violentas, a criação de um estado policialesco, onde a ação policial é distorcida com mortes evitáveis pela ação violenta desnecessária.

O controle da criminalidade não pode ser usado como estímulo ao armamento da população que levara ao aumento da violência. Que em cada um de nós prevaleça o bom senso, o autoconhecimento, a observação dos modelos de honestidade, solidariedade e de generosidade; que a esperança vença o niilismo forjando o equilíbrio interior entre o Dionisíaco e o Apolíneo, sonho humanista do nosso animal interior com a sabedoria criada pelo córtex evoluído.

(*) Médico. Professor aposentado da UFC. Presidente da Sociedade Cearense de Cancerologia, presidente do GEEON e pesquisador CNPq.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/02/2026. Opinião. p.16.


domingo, 5 de abril de 2026

PÁSCOA: Esperança que ressuscita

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A Páscoa é o grande coração da fé cristã. Mais do que recordar um acontecimento do passado, ela nos convida a atravessar, com Cristo, o caminho da morte para a vida, da escuridão para a luz, da desesperança para a esperança renovada.

A Ressurreição inaugura uma nova possibilidade para a existência humana: a certeza de que Deus continua agindo na história e conduzindo a vida para além de toda derrota, de toda dor e de toda aparente perda.

Na pedagogia espiritual de Santo Inácio de Loyola, aprendemos que Deus fala na trama concreta da vida. Ele se manifesta nos acontecimentos, nos movimentos do coração, nas alegrias e também nas dores que atravessamos. A espiritualidade inaciana nos ensina a contemplar a realidade com profundidade, percebendo que Deus trabalha silenciosamente em todas as coisas e conduz a história com uma sabedoria que muitas vezes só compreendemos com o passar do tempo.

A Páscoa, portanto, não é apenas uma celebração litúrgica; é uma experiência espiritual que nos transforma por dentro. É o convite a reconhecer que o Cristo ressuscitado continua caminhando ao nosso lado, mesmo quando os olhos da fé parecem obscurecidos pelas preocupações e pelas cruzes da vida. Assim como os discípulos de Emaús descobriram a presença de Jesus ao partir do pão, também nós somos chamados a abrir o coração para perceber sua presença no cotidiano.

A pedagogia inaciana também nos convida a olhar a Ressurreição como um movimento interior de libertação. Libertar-se do medo que paralisa, das culpas que aprisionam e das tristezas que roubam o sentido da caminhada. Cristo ressuscitado rompe as pedras dos nossos sepulcros interiores e nos devolve a coragem de viver, de recomeçar e de confiar novamente na força da graça.

Viver a Páscoa é permitir que a vida nova de Cristo transforme nosso olhar, nossas escolhas e nossa maneira de estar no mundo. Como recordava Santo Inácio, somos chamados a buscar e encontrar Deus em todas as coisas, reconhecendo sua presença também nos pequenos sinais da vida cotidiana.

Porque, para quem caminha com o Ressuscitado, nenhuma noite é definitiva. Sempre haverá uma aurora anunciando que a vida venceu.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 4/04/2026. Opinião. p.16.

 

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