segunda-feira, 2 de março de 2026

O MERGULHO

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Sentada na escadaria, sentia o sol esquentar a pele e olhava o mar ao longe. Fixava o horizonte e imaginava o outro lado do mundo. Sem a menor noção de geografia, passava horas pensando aonde chegaria se o atravessasse.

Tomava banho no raso, aprendendo o momento certo do mergulho. O caldo era inevitável. Vinha forte, agressivo. Ao cair, eu me assustava, mas depois o prazer predominava. Avançava um pouco em direção ao fundo. Apenas o pescoço de fora. De vez em quando, a onda cobria meu corpo inteiro. Ficava sem dar pé por alguns segundos, mas logo sentia os pés tocarem a areia.

Terra firme. Precisava de terra firme. Tinha que saber onde pisava. O outro lado era um país imaginário, estrangeiro. O desconhecido era areia movediça.

Havia, ainda, a transparência da água. Via o que não queria ver. Dava muito medo. Era bonita, límpida, mas assustava. Preferia a turva - ali, conseguia esquecer os riscos, ou ao menos não pensar neles. Na água turva, permitia-me boiar.

Aquele mar avançou e levou a escada. Perdi o acesso, mas ele não me deixou. Voltava nos meus sonhos. Ficava no alto, observando se conseguiria entrar. Na maré baixa, talvez.

Aventurei-me em outros mares. Pulei em alto-mar. Qual seria a profundidade ali? O que teria embaixo? As pernas agitavam demais. Fui controlando o ritmo e comecei a nadar. Estava tranquila entre o fundo e a superfície. Flutuava na água transparente. A água cintilava.

Mergulhei. A descida foi lenta, muito lenta. O fundo do mar é imenso. A luz do sol penetra na água e abre um feixe luminoso. Meus olhos se arregalaram. Os peixes eram menores do que eu imaginara. Vi um naufrágio. Aproximei-me. Que vestígios guardava? O casco estava coberto de algas e conchas. Não tinha nada de tão assustador. Carregava histórias. Sustentava vida. Descansava no fundo. Também tinha encontrado a terra. Continuei descendo, completamente absorta.

Pisei.

No fundo do mar, a terra é firme.

Voltei a flutuar suavemente. A claridade foi aumentando. Senti o sol sobre a pele. Emergi.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/2026. Opinião. p.16.

Um alerta aos homens de todas as idades

Por Diego Capibaribe (*)

Quando falamos em câncer masculino, a maioria das pessoas se lembra do câncer de próstata. No entanto, existe outro tumor, menos frequente, mas potencialmente grave, que afeta principalmente homens jovens: o câncer de testículo. Apesar de raro, representa o tumor sólido mais comum em homens de 15 a 35 anos, uma faixa etária que, por se considerar saudável, muitas vezes negligencia a própria saúde.

Um ponto animador é o câncer de testículo ser altamente curável na maioria dos casos, mesmo quando diagnosticado em estágios avançados. Mas, para isso, é preciso que o homem esteja atento aos sinais. O sintoma mais frequente é o aparecimento de um nódulo endurecido ou aumento do volume em um dos testículos, geralmente indolor. Para nós, urologistas, a ausência de dor é traiçoeira, pois leva muitos pacientes a retardarem a procura por atendimento.

Embora não exista uma causa única, sabemos que fatores como o histórico de criptorquidia (testículo que não desceu para a bolsa escrotal na infância), antecedentes familiares e algumas condições genéticas aumentam o risco. Por este motivo, sempre reforço a importância do autoexame testicular mensal (que pode ser feito durante o banho, quando a pele do escroto está mais relaxada), um gesto simples, que leva menos de um minuto e pode salvar vidas.

O tratamento da doença depende do tipo e do estágio do tumor, mas normalmente começa com a remoção cirúrgica do testículo afetado. Em seguida, podem ser indicadas quimioterapia ou radioterapia, com excelentes índices de sucesso. E aqui está a mensagem fundamental aos leitores: perder um testículo não afeta necessariamente a fertilidade nem a produção hormonal de forma significativa, e hoje há próteses testiculares que restauram a estética e a autoestima do homem.

Como médico, penso que precisamos quebrar o tabu em torno da saúde masculina. A vergonha e a desinformação ainda são barreiras perigosas, que podem custar caro. O diagnóstico precoce é nossa arma mais poderosa, e começa com a atenção do próprio homem ao seu corpo. Cuidar de si não é sinal de fragilidade, mas de responsabilidade.

(*) Médico urologista. Especialista em cirurgia robótica.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/01/2026. Opinião. p.22.


domingo, 1 de março de 2026

Causo Médico: SALGADOS, MUITOS. SIMANCOL, ZERO

Por volta de 1965, uma determinada escola de Medicina estava sediando um evento comemorativo e decidiu oferecer uma pequena recepção aos participantes. Como não havia recursos para contratar um “buffet” completo, e sequer garçons, para os serviços pertinentes, a direção dessa faculdade decidiu improvisar, colocando o pessoal de limpeza para servir os acepipes aos comensais.

Um dos recrutados para a tarefa foi o faxineiro do bloco didático, bastante conhecido por suas estripulias e pela absoluta falta de “simancol”. Ele estava ali, para o que desse e viesse, sem se mancar com as “ratas” que certamente acabaria por provocar. Foi aí que, portando uma bandeja com salgadinhos, dirigiu-se a um grupo de professores, composto, notadamente, por cirurgiões de nomeada, oferecendo a variedade dos canapés àquela roda de mestres.

Discretamente, o Prof. Aroldo Ferreira (nome fictício) pegou um salgadinho, no que foi surpreendido pelo serviçal, com essa provocação:

– Num se acanhe não, Dr. Aroldo. Pode pegar mais e até “butar” nos “bolso” do paletó, pra levar pros bichinhos da sua casa.

Polidamente, o Prof. Ferreira recusou a oferta, esboçando um sorriso para o colega Prof. Nelson Gonçalo (nome fictício), que estava ao seu lado, ambos tomados por um certo constrangimento, diante da falta de lhaneza do improvisado garçom.

O faxineiro não perdeu a oportunidade para insistir:

– Dr. Nelson, deixe de “encabulação” e “atraque” suas mãos aqui pra pegar um bocado pra levar pra família. Tem muito lá dentro. Acho qui vai sobrá muito desse troço – arrematou o servidor, garçom de araque.

Os dois afamados cirurgiões, como autênticos gentis-homens, decidiram ignorar as tantas tentações do momento e puxaram um assunto médico para seguir a conversa, dispensando os préstimos do pseudogarçom, que ficou a procurar outros mestres dispostos a ouvir suas baboseiras, quiçá a fazer uso da velha tática de juntar pasteis e canudinhos para o “jantar” do cãozinho de estimação, quando, na verdade, eles próprios é que estavam inclinados a fartar o bandulho com os deliciosos salgadinhos da festa.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.73-74.

* Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: salgados, muitos. Simancol zero. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Julho de 2024 - Edição n.34. p. 27-27 (online).


Mais vagas, menos estrutura: o risco da proliferação de cursos de Medicina

Por Daniel Pinheiro (*)

Os resultados mais recentes do Enade, divulgados pelo Ministério da Educação, trouxeram um dado que não pode ser ignorado: um número expressivo de cursos de Medicina (32%) obteve desempenho insatisfatório, levando o próprio governo federal a anunciar medidas de supervisão, redução de vagas e suspensão de novos ingressos.

Mais do que um ranking acadêmico, o Enade funciona como um termômetro da qualidade da formação médica no país - e o diagnóstico é preocupante. Ele expõe, de forma objetiva, os efeitos de uma expansão acelerada e pouco criteriosa das escolas médicas no Brasil.

Apresentada como solução para a escassez e a má distribuição de médicos, a abertura indiscriminada de cursos tem sido conduzida, em muitos casos, sem o planejamento necessário para garantir formação adequada. A Medicina é uma profissão de alta complexidade, cuja aprendizagem depende menos da sala de aula e mais do contato supervisionado com pacientes reais.

Hospitais, unidades básicas, emergências e equipes de preceptores experientes são o verdadeiro núcleo da formação médica. Esses cenários, contudo, não se multiplicam no mesmo ritmo das autorizações de novos cursos.

Criam-se faculdades, mas não se criam hospitais-escola, leitos, centros cirúrgicos, UTIs e preceptores qualificados em quantidade suficiente. Quando o campo de prática é insuficiente, o estudante torna-se observador passivo ou executa atividades sem a supervisão adequada. Isso compromete a formação e coloca o paciente em situação de risco. O problema deixa de ser apenas educacional e passa a ser um problema concreto de segurança do paciente, com potencial aumento de erros, retrabalho, judicialização e custos para o sistema de saúde.

Há ainda um equívoco estrutural que o próprio Enade ajuda a revelar: formar mais médicos não significa, automaticamente, garantir médicos onde a população precisa. A experiência brasileira demonstra que a simples ampliação do número de diplomas não corrige a concentração de profissionais nos grandes centros.

Fixação depende de carreira, remuneração, infraestrutura, suporte diagnóstico e condições de trabalho - fatores que não se resolvem simplesmente com a abertura de faculdades. Países com bons indicadores de saúde não alcançaram esse patamar multiplicando escolas sem critério, mas investindo em planejamento, avaliação rigorosa e forte integração entre ensino e sistema assistencial.

Persistir na expansão descontrolada da formação médica é assumir um risco coletivo. Em Medicina, os custos do improviso não são abstratos nem estatísticos: recaem diretamente sobre vidas humanas. E esse é um preço alto demais para qualquer sociedade responsável.

(*) Médico otorrinolaringologista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/02/2026. Opinião. p.11.


A formação médica não pode ser laboratório político

Por Heitor Férrer (*)

Ser atendido por um médico mal formado corre-se mais risco do que não ser atendido. Essa afirmação, dura, resume o momento crítico que atravessa a formação médica no Brasil. Não se trata de debate acadêmico nem de disputa ideológica. Estamos falando de vidas humanas, de saúde pública e do futuro do sistema de atenção à saúde no Brasil.

Os dados recentes do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina são um alerta inequívoco. Cerca de 32% das faculdades avaliadas apresentaram desempenho catastrófico. Na prática, mais de 100 instituições com desempenho abaixo do mínimo aceitável, sujeitas a sanções e até à suspensão de vagas, ainda que a maioria tenha alcançado proficiência. É um contingente elevado demais para ser tratado com indiferença.

Há um risco direto à sua pública. Cada médico mal formado representa um risco concreto a cada um de nós. Não é apenas um dado estatístico, mas alguém exposto a erros de diagnóstico, condutas inseguras e equivocadas. Durante a pandemia, isso ficou evidente quando profissionais recém-formados demonstraram dificuldades em procedimentos básicos, como a correta intubação de pacientes graves. Falhas como essa se transformam em tragédia. Elas custam vidas.

Minha crítica não é de agora. Desde o ano passado, venho alertando, na Assembleia Legislativa, para a proliferação irresponsável de cursos de medicina sem estrutura adequada. Formar médicos exige mais do que autorização administrativa. Exige professores qualificados, hospitais de ensino, leitos disponíveis, preceptores experientes e uma rede pública preparada para receber estudantes com supervisão rigorosa.

No Ceará, diante da quantidade de cursos autorizados, pergunta-se: onde estão os hospitais de ensino? Onde estão os campos de prática? Onde estão os mestres?

Ao se permitir faculdades sem condições reais de formação, estamos comprometendo a formação médica e quem pagará essa conta será o cidadão.

A expansão sem critérios transforma a medicina em laboratório político, como a atual política do MEC, dirigido pelo ex-governador Camilo Santana insiste em fazer. A formação médica exige planejamento, responsabilidade e compromisso com a qualidade. Reduzi-la ao aumento do número de vagas é erro grave. Vidas estão em jogo.

(*) Médico e deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/02/2026. Opinião. p.17.


sábado, 28 de fevereiro de 2026

Proliferação de escolas médicas - a compaixão como solução

Por Fernando Barroso (*)

Nos dias de hoje um dos temas mais debatidos, é sem dúvida a grande proliferação de escolas médicas, essa profissão nobilíssima, desde os primórdios da humanidade. Há relatos que temos no Brasil aproximadamente 500 escolas médicas na atualidade e este número é mesmo inexato, e somente de janeiro de 2024 até setembro deste ano, mais 77 escolas médicas foram criadas e estima-se que mais de 50000 médicos se formam por ano, e só perdemos para Índia, que tem 600 escolas médicas, porém tem 1,4 bilhões de habitantes.

Podemos dizer que na busca de resolver o problema, criamos um maior. Existe uma plêiade de questões envolvidas: Não temos professores suficientes para o ensino, estas faculdades em sua maioria não têm um Hospital escola para treinamento destes estudantes, e esse trinômio professor, hospital e paciente, é essencial para a formação adequada. Infelizmente corremos o risco de formar profissionais despreparadas para o exercício e as vagas de residência médica, um campo de prática necessário, não são suficientes.

A medicina é uma das profissões mais nobres que alguém pode escolher, aprendemos desde cedo que a saúde é o bem maior que temos e precisa ser preservado. O curso de medicina exige muita dedicação nos estudos, nos plantões, nas noites mal dormidas, na angústia de ter que dar um diagnóstico correto ou mesmo decidir qual a melhor conduta, fazendo que muitas vezes nos deparemos com a vida e a morte, e esta então temos que aprender a lidar, sem jamais perdermos a esperança ou o sentimento de compaixão com a dor do paciente ou seus familiares.

Inevitavelmente me questiono o que pode ser feito para atenuar essa situação, pois nos últimos anos vimos a criação de programas de governo, como Mais médicos ou o mesmo o Mais Especialistas, mas lamentavelmente não acompanham em termos proporcionais os milhares de novos médicos e novas escolas que pululam do mar ao sertão.

Talvez nossa missão no momento, seja alertar e até mesmo apelar para o sentimento de compaixão para com os pacientes, de se ter empatia, tentar entender a dor e o desespero do outro, preservando a sua privacidade e se desvencilhando de qualquer preconceito ou vaidade pessoal, e tudo isso precisa ser exercitado, para minimizar as deficiências de uma formação médica sob riscos claros de degeneração.

Se espera dos médicos a santidade, a bondade, a resiliência, a caridade, o acolhimento, as boas virtudes, a compreensão e talvez atitudes sobre-humanas mesmo, mas eu ouso afirmar que o principal requisito é gostar de gente, do contrário jamais deveria abraçar essa profissão.

Que possamos seguir e que essa discussão não seja esquecida, pois toda a sociedade paga o preço por essa situação.

(*) Professor da UFC e chefe da Hematologia e Transplante de Medula Óssea do Hospital Universitário Walter Cantídio. Membro titular da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/01/2026. Opinião. p.17.


O desafio da formação médica com qualidade

Por João Macêdo Coelho Filho (*)

A abertura de novas escolas médicas, que possibilitou o acesso de milhares de jovens ao curso de Medicina, não se deu por mecanismos uniformes de planejamento, aprovação, acompanhamento e supervisão. Concentrada majoritariamente na iniciativa privada, esteve, em diversos contextos, associada a interesses políticos e econômicos, frequentemente dissociados de critérios técnicos, das reais necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS) e da capacidade instalada para garantir formação de qualidade. Esses fatores passaram a suscitar questionamentos quanto à qualidade da formação médica atualmente em curso no país.

O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), instituído pelo Ministério da Educação (MEC), trouxe resultados relevantes e preocupantes. Entre os 351 cursos avaliados, mais de um terço dos estudantes concluintes situou-se nas faixas insatisfatórias (conceitos 1 e 2, em uma escala de 1 a 5).

Quase 60% das instituições privadas com fins lucrativos permaneceram nessas faixas. Em contrapartida, entre as instituições públicas federais e estaduais, 87% alcançaram conceitos elevados, dados que evidenciam a centralidade dessas instituições na formação médica de qualidade no Brasil e a importância de investimento contínuo e estruturante nesse setor.

Enquanto alguns cursos atingiram, nessa avaliação, patamares de excelência - como o curso de Medicina da UFC Fortaleza -, outros revelaram fragilidades que colocam em dúvida sua capacidade de formar profissionais alinhados às necessidades do SUS e às exigências contemporâneas da prática médica. Esses resultados deverão servir de referência para ações regulatórias do MEC, que se mostram urgentes e imprescindíveis.

A implementação sistemática do Enamed representa um avanço importante, mas persistem desafios para o seu aperfeiçoamento. Trata-se de uma prova objetiva de múltipla escolha, focada predominantemente no conhecimento técnico-teórico, que deixa à margem competências práticas e habilidades relacionadas à ética, à comunicação e à empatia - todas essenciais e previstas como obrigatórias nas Diretrizes Curriculares Nacionais. Ademais, os processos avaliativos deveriam contemplar de forma mais direta as próprias instituições e seus cursos, e não apenas o desempenho individual dos estudantes.

Espera-se, portanto, que a formação médica no país seja qualitativamente rigorosa e assumida como uma responsabilidade estratégica, afinal trata-se da preparação de profissionais que cuidarão de bens insubstituíveis: a saúde e a vida de toda a sociedade.

(*) Médico geriatra e diretor da Faculdade de Medicina da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/01/2026. Opinião. p.15.


CONVITE: Celebração Eucarística da SMSL - Fevereiro/2026

A Diretoria da SOCIEDADE MÉDICA SÃO LUCAS (SMSL) convida a todos para participarem da Celebração Eucarística do mês de fevereiro/2026, que será realizada HOJE (28/02/2026), às 19h, na Igreja de N. Sra. das Graças, do Hospital Geral do Exército, situado na Av. Des. Moreira, 1.500 – Aldeota, Fortaleza-CE.

CONTAMOS COM A PRESENÇA DE TODOS!

MUITO OBRIGADO!

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Defesa de Dissertação de Mestrado em Oncologia (ICC) de Matheus Renyer Queiroz Vitor

Aconteceu na tarde de quinta-feira (26/02/26), de forma presencial, na Sala Empatia do Anexo II do Hospital Haroldo Juaçaba, mais uma Defesa de Dissertação do Mestrado Acadêmico em Oncologia (MAOn) do Instituto do Câncer do Ceará.

A banca examinadora, composta pelos Profs. Drs. Marcelo Gurgel Carlos da Silva (Orientador), Miren Maite Uribe Arregi (Membro Externo) e Paulo Goberlânio Barros da Silva (Membro Interno), aprovou a DissertaçãoCÂNCER DE COLO DE ÚTERO NO CEARÁ E REGIÕES DO BRASIL: comparação da mortalidade e da morbidade nos triênios 2011-13 e 2021-23 no contexto das políticas públicas de saúde, apresentada pelo mestrando Matheus Renyer Queiroz Vitor.

Participei da defesa na condição de orientador do mestrando, que foi o meu quinto orientado desse programa.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do MAOn/ICC


Crônica: “Sequestrou a imagem do Menino Jesus e ameaçou a Fifa” ... e outro causo

“Na minha época era só um lesado” ... e outros causos

Ele até batia bem do juízo por volta dos 30 anos, mas, findou mental por uma "fatal fatalidade" - a mãe, dona Côca, era crente que a motivação do súbito desequilíbrio fora o coco seco "de quilo e duzentos" caído na "crôa" da cabeça de João Filó. Tinha ele 35 anos quando, correndo pra pegar um bode na floresta de coqueiros que era o quintal de casa, na praia, bufo! Chibatada tão medonha que o póbi passou seis horas amortecido.

Depois do acidente, nunca mais a mesma pessoa. Iogurte com sabão era a merenda favorita. Ficou noivo duma juriti, assistia ao Jornal Nacional nu de cabeça pra baixo, dizia que era genro de Getúlio Vargas, escrevia no bucho que Jesus ia voltar de moto Uber. E, quem diria, justo ele, morto e vivo da igreja, o protagonista de um enredo ainda mais singular, conforme descrição da própria genitora, a lamentar.

- Inacreditavelmente inacreditável esse ocorrido com meu bebê, doutor! Ouça-me!

É dona Côca, no 5 DP, prestando esclarecimentos ao delegado, que a ouve a defesa da genitora e boceja e pisca o olho pra escrivã.

- Meu Filó é um santo menino, acredite! Sabe os cânticos todos: 'Sempre fica um pouco de perfume nas mãos que..." Confessa e comunga toda semana! Toda!

- Ocorre que ele foi à igreja, sequestrou a imagem do Menino Jesus e fez ameaça grave, tipificado no artigo 148 do Código Penal.

- Delegado, a bendita imagem foi devolvida!!!

- Devolvida, vírgula! A polícia desmantelou o cativeiro onde a imagem do Menino Jesus era mantida em cárcere por ele.

- Mas, graças a Deus, a imagem tá sã e salva!

- Com um probleminha, dona Maria do Socorro: o Menino Jesus voltou pra igreja sem a orelha esquerda, confirmando a ameaça de João Filó de que...

Só aí entendemos o X do imbróglio. Nas palavras da mãe, enfim, o porquê do sequestro.

- Dr. Delegado, João chegou a dar um ultimato ao padre Calixto: se ele não parasse de se pabular na homilia que o Ceará era o melhor time daqui, ia aprontar uma boa!
E aprontou!

- Motivo fútil (besta, sem futuro) esse sequestro da imagem, senhora!

- Doutor, o senhor diz isso porque não torce pelo Fortaleza!!! A Fifa foi informada, viu?

As 10 descobertas de João Lulu

Estudo de Harvard revela: Mulheres que não cozinham para seus maridos têm casamentos mais felizes. Pesquisadores acompanharam 12.000 casais, por 15 anos, e chegaram a essa conclusão. Que fez o colega de academia João Lulu ao ler a descoberta sem ventura - coisa de quem não tem mais o que descobrir? Mandou-me a foto da matéria e, "assim sendo", uma lista robusta de descobertas dele em casa, só pra fazer o mal.

- Se é pra frescar, fresquemos!!!

"Primeiro: só precisei de mim e de Beta Caboré (minha esposa) pra chegar à conclusões que, imagino, tenham muito mais serventia que essa das mulheres que não sabem fritar um ovo, desarmar uma ratoeira, esquentar uma janta. Segundo, por óbvio, o estudo de Harvard remete à música do Falcão - "Mulheres modernas". E terceiro: confira os resultados a que cheguei com Betinha em apenas uma semana de estudos práticos:

- Homens que penteiam o cabelo de lá pra cá apresentam mais disposição a comer paçoca com quissuco na passagem de ano;

- Jovens de 17 anos completados no dia 17 de abril vivem 17 dias menos que os primos;

- Noivos que chegam à igreja já sem cueca nunca serão os mesmos um século depois;

- Casais que se beijam na cozinha, perto da geladeira, detestam dia de chuva bem cedo;

- Idosos que fazem xixi sem acender a luz da garagem nunca ficaram de recuperação na escola."

Fonte: O POVO, de 30/01/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: um anteparo ao protecionismo americano e à concorrência chinesa

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Após 26 anos de negociações, o Conselho da União Europeia finalmente aprovou há pouco o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia cuja assinatura ocorrerá em breve. Após aprovação parlamentar pelos membros da Comunidade Europeia e do Mercosul, o Acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de habitantes, um território de 16,8 milhões de km2 e um PIB conjunto superior a US$ 22 trilhões, sendo 13,4% do total referentes ao Mercosul. Trata-se do maior acordo de livre comércio do mundo, partindo de um intercâmbio bilateral de US$ 130 bilhões em 2024.

Embora celebrado por governos, o acordo ainda enfrenta reações de agricultores europeus e ecologistas, que criticam possíveis repercussões sobre o clima e a suposta concorrência desleal em produtos agrícolas. A implantação de seus dispositivos será gradual e os efeitos práticos só serão sentidos nos próximos anos. Mesmo assim, em um ambiente internacional assolado pelo protecionismo americano e sua truculência diplomática, esse Acordo indica que o multilateralismo ainda não acabou e que os países e blocos de nações podem negociar de forma civilizada seus interesses na busca de remover entraves ao comércio internacional e facilitar transações econômicas entre países.

O recém-anunciado acordo tem imperfeições e deixa de contemplar adequadamente as vantagens comparativas e competitivas associadas aos recursos naturais da região sul-americana. Mesmo assim, é o acordo possível nas circunstâncias que se impuseram ao longo de um quarto de século de negociação. Sua eventual aprovação final pelos parlamentos será uma vitória estratégica para ambas os lados. Os principais ganhos, contudo, não residem apenas nos dispositivos comerciais do acordo, mas especialmente em seus impactos positivos esperados sobre o ambiente econômico, os fluxos interblocos de investimento estrangeiro e o estreitamento das relações produtivas entre Mercosul e União Europeia.

Acuada pela suposta e temida ameaça da Rússia na frente oriental, a agressiva política comercial dos EUA e pela forte concorrência dos produtos chineses em seus mercados, as lideranças da União Europeia não tiveram senão a opção de buscar agilizar os trâmites para a aprovação do acordo e mostrar aos seus dois grandes concorrentes que a União Europeia tem condições de ganhar novos mercados na América do Sul e reduzir sua crônica dependência dos parceiros americanos e chineses. Uma forma de atestar sua capacidade competitiva e a relevância e atratividade de suas economias em um mundo imerso na desordem e crescentemente fragmentado, mas ainda assim marcado por cadeias globais de valor integradas e sujeito a intensas transformações tecnológicas e geopolíticas.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 18/01/26. Opinião. p.22.


DECEPÇÃO, QUEM NUNCA TEVE?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

A vida inteira nos proporciona, vez por outra, algumas decepções. E decepção é um sentimento, que nos ocorre, provindo de um acontecimento, de uma situação, de um relacionamento, de um fato que vem de onde menos esperamos e sempre nos surpreende.

Toma-nos de assalto.

É o reverso de uma surpresa agradável.

Decepção origina-se do latim ‘deceptio’, proveniente do verbo ‘decípere (de + cápere)’, com o significado de "engano, dolo – enganar, prejudicar”. No grego antigo, há indicações assemelhadas com a divindade Apate (ἀπάτη), deusa da fraude e do falso julgamento, bem como da caixa de Pandora e do cavalo de Tróia.

E donde provém a decepção?

Em geral, quando iniciamos relacionamento ou contato com alguém ou com alguma coisa, aos poucos, vamos formando expectativas e, quanto mais o tempo passa, mais as fortalecemos. É claro que a ‘antecipação social’ já nos arremete para a criação de tais sentimentos, que se tornam consentimentos.

Quando, porém, a expectativa ‘exacerbada ou não’ de algo ou de alguém não acontece, isso afeta-nos, profundamente, com intensidade, proporcional ao sentimento que alimentamos e nos deixamos penetrar, de valor, consideração, respeito e importância.

A decepção surge ainda de um egoísmo de afeto e de um excesso de admiração, às vezes, com um zelo ‘desproporcional e pegajoso’: queremos que a pessoa seja como nós e esta espera sai pela culatra ou cultivamos excesso de confiança. Mas, o mundo não gira em torno de nossos gostos e desejos, nem a vida, em torno de nosso umbigo.

Daí, a um passo, podem surgir o estresse, a depressão, a tristeza e a frustração, o que altera nosso equilíbrio vital e, inclusive, ‘futrica’ o sistema imunológico.

Por que acontece nalgumas pessoas, de maneira tão intensa a deixá-las desconcertantes?

Primeiramente, porque não nos habilitamos, antecipadamente, a trabalhar com a decepção, bem como com outros sentimentos danosos à nossa integridade. Fabricamos expectativas falsas de relacionamentos e contatos perfeitos, refere-nos Ian Crab, assessorado pelas teorias de Melanie Klein e Sigmund Freud.

Precisamos preparar-nos para o ‘efeito decepção’, para termos melhores condições de suportá-la e superá-la, pois, ela também proporciona-nos momentos de grandes lições: lições de caráter, lições de moral, lições de sabedoria e prudência, lições de espiritualidade. O seu enfrentamento de frente diminui a carga de frustração, de estresse e de tristeza.

A perda da confiança em alguém tão querido e admirado, não pode nos mergulhar em atitudes de ódio e de rejeição; no máximo, indiferença, pois, nós também fazemos parte daquela decepção.

Devemos lembrar-nos de nossas imperfeições e fragilidades e de que também poderíamos ou podemos ocasionar decepção noutras pessoas. A maior de todas, porém, não é a decepção amorosa ou social, é a decepção de nossa fé, bem como a decepção com nós mesmos, o que baixa nossa autoestima, exigindo uma tomada de posição determinada e enérgica para evitar sequelas e situações irreversíveis.

E se detonar uma raiva ou um ódio, deixemo-los sair pela urina ou joguemo-lo no ralo para que nos deixemos continuar a viver.

E, enquanto isso, eu no meu bandolim, sigo cantando:

Há decepções que matam,

Há decepções que ferem,

Há decepções que despertam

O falso do verdadeiro,

O certo do errado.

Desilusão da ilusão,

Que me ensina outra canção,

Que me tira da contramão

E faz-me subir a montanha,

com mais ardor e galhardia no coração

Afinal, afinal, somos cristãos.

Tenhamos uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 4/02/26.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Defesa de Dissertação de Mestrado em Oncologia (ICC) de Ana Cláudia Cordeiro

Ocorreu na manhã de terça-feira (24/02/26), de forma presencial, na Sala Empatia do Anexo II do Hospital Haroldo Juaçaba, mais uma Defesa de Dissertação do Mestrado Acadêmico em Oncologia (MAOn) do Instituto do Câncer do Ceará.

A banca examinadora, composta pelos Profs. Drs. Marcelo Gurgel Carlos da Silva (Orientador), Helvécio Neves Feitosa (Membro Externo) e José Fernando Bastos de Moura (Membro Interno), aprovou a DissertaçãoINCIDÊNCIA E FATORES DE RISCO PARA ESTENOSE VAGINAL EM MULHERES COM CÂNCER DE COLO DE ÚTERO SUBMETIDAS A BRAQUITERAPIA, apresentada pela mestranda Ana Cláudia Cordeiro Ferreira Campos.

Participei da defesa na condição de orientador da mestranda, que foi a minha quarta orientada desse programa.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do MAOn/ICC


Da indignação e do vazio da transformação

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Tenho acumulado ao longo do tempo, uma coletânea de eventos que ilustram a minha vida como profissional de saúde.

Numa conversa, era um amigo de muita identidade em relação as desavenças do viver, das experiências passadas, cada um a sua forma, quer representassem as concepções de vida de cada um de nós, quer divergíssemos sobre conceitos.

São eles tão frágeis a ponto de nos aproximar. Cada qual em cada espaço, mas o que nos unia era o bem querer.

Em alguns momentos nossa conversa foi algo áspera. Mas, terminou com ternura, tipo eu gosto muito de você.

Enfim, o que me ficou claro; cada um defende sua experiência e seu arcabouço de regras, conceitos e preconceitos.

Num dado momento ele perguntou-me: Cabeto o que é ser de esquerda ou de direita?

Não hesitei em dizer que cria na ciência com certo comedimento, com a capacidade de atualizar a realidade, ou mesmo, traduzir os fatos baseados em conceitos epistemológicos, de acordo com as circunstâncias de cada época.

Em síntese, entendo que tais denominações, com alguma frequência, relacionam-se a nossa insistente necessidade de dar nomes, de batizar padrões.

Então, falei-lhe da minha percepção, da nossa incapacidade de conviver com o não palpável.

Enfatizei que prefiro crer na efetividade das ações, que se traduzem em mudanças, e não nomeá-las como forma de acalentar as nossas inseguranças.

Em seguida ele argumentou: Cabeto, para mim, de esquerda é quem deseja a mudança.

Fiquei imediatamente surpreso, quando percebi que na minha experiência não havia conhecido ninguém que realmente desejasse mudança, excluo desse contexto, os desvalidos. Embora, esses sejam presas fáceis da manipulação.

Instantaneamente, busquei na psicanálise alguma explicação, na ambivalência entre o querer e o não querer ao mesmo tempo, pelo temor de perder o que lhe é familiar. Nesse prisma, o inconsciente boicota o consciente.

No campo político, o desejo de mudança é substituído por indignação, idealização, ódio ao inimigo e consequentemente pela esperança de redenção por um líder. A meu ver características semelhantes aos de “esquerda “e aos de “direita”.

Assim, entendo o desejo intrínseco de mudar e não mudar, e, às vezes, “mudar” para não mudar.

Ao menos enquanto chega a natureza e sua maturidade.

Que assim seja!

Ps: “Cara mesmo é a ignorância“

A frase é do Brizola, respondendo às críticas do presidente Fernando Henrique sobre os gastos da educação no Rio de Janeiro.

Na minha interpretação ambos estavam certos, a educação é uma prioridade, mas é preciso analisar os resultados e corrigir rumos. Não se trata de ser esquerda ou direita, e sim de honestidade, transparência e humildade diante dos fatos.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/01/2026. Opinião. p.19.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

JANEIRO BRANCO: quem cuida da mente, cuida da vida

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 2014, o psicólogo mineiro Leonardo Abrahão iniciou um movimento com outros colegas da região de Uberlândia (MG), convidando-os a irem às ruas e espaços públicos conversar com as pessoas sobre a importância dos cuidados com a mente e as emoções.

Inspirada em outras campanhas já consolidadas, como o Outubro Rosa e o Novembro Azul, que tratam dos temas do câncer de mama e da saúde do homem, a ideia tomou corpo, sendo o branco e o início do ano simbólicos para a recriação das próprias histórias pessoais.

O engajamento dos pares do psicólogo e a acolhida pela população levou o movimento a experimentar um crescimento cada vez mais acentuado, a ponto de, em abril de 2023, através da lei federal 14.556, ter sido acolhido como política de Estado, com a instituição oficial da Campanha Nacional Janeiro Branco.

A associação da saúde mental ao bem-estar vem quebrando tabus e estigmas, criados a partir da história de negligências e preconceitos com o tema, com as campanhas destacando a ajuda profissional como alicerce para a redução do sofrimento emocional, parte intrínseca da condição humana.

Outro ponto importante é que as campanhas chamam a atenção para a prevenção de transtornos mentais, como ansiedade, depressão e burnout, cada vez mais relatados e que podem ser cuidados antecipadamente, da mesma forma como as pessoas têm acorrido às academias e aos check-ups médicos para cuidar do corpo físico.

Assim, as campanhas trabalham também no sentido do que vem sendo chamado de alfabetização emocional, disseminando junto à sociedade conceitos fundamentais para o autoconhecimento, melhorando o entendimento das próprias emoções, as definições dos necessários limites sempre que a saúde mental possa ser afetada, além da priorização da qualidade de vida, com o equilíbrio entre trabalho, lazer e descanso.

Em Fortaleza, o Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo — pioneiro no cuidado planejado à saúde mental — abraça a causa mais uma vez. A instituição abriu o Janeiro Branco com palestras motivacionais como um convite à reflexão e à valorização da vida. Afinal, quem cuida da mente, cuida da vida.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/01/26. Opinião. p.22.

Desafios da educação na Região Metropolitana de Fortaleza

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) é um todo complexo, multifacetado e desigual. Agrega 19 municípios marcados por grandes disparidades econômicas e educacionais. Se de um lado, está a cidade com maior renda per capita do estado (São Gonçalo do Amarante), que abriga um pujante distrito industrial e o Porto do Pecém; de outro, localiza-se o território de maior população carcerária do estado (Itaitinga), situação responsável pelo aumento do fluxo de mobilidade de familiares desta população.

Compreender a realidade educacional desse território requer cuidadoso exercício de reflexão. A isto se propõe o projeto Política Educacional no Ceará: Igualdade de Condições para o Acesso e Permanência na Escola" (nov./2023-abr./2026).

Desenvolvido com apoio financeiro da Funcap, por equipe da Uece, sob nossa coordenação, a iniciativa tem foco na formação de novos pesquisadores e envolve mestrandos e doutorandos do PPGE da referida universidade.

A pesquisa aborda as interfaces entre o território, a diversificação da oferta e a desigualdade, procurando desvendar as estratégias de gestão educacional e escolar na região e em cada um desses municípios.

Os primeiros achados da pesquisa indicam que não há uma relação direta entre a capacidade econômica dos municípios e o desempenho de suas redes de ensino. Nesta perspectiva, é oportuno considerar o caráter estratégico da gestão educacional e da gestão escolar.

O bom desempenho das redes não significa apenas ostentar melhores indicadores, mas, contribuir para a melhoria efetiva da qualidade de vida da população e a ascensão socioeconômica dos egressos da escola pública.

Num contexto de diversificação da oferta na região, a expansão da escola de tempo integral cria novas desigualdades, uma vez que os alunos das escolas regulares são privados dos benefícios que esta modalidade traz. O território, por sua vez, é o espaço por excelência onde tudo acontece, inclusive e sobretudo, a vida sob o signo da onipresença das facções. Mudar tal realidade é desafio para o Poder Público. Essas outras questões serão tratadas em artigos próximos.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 26/01/26. Opinião. p.22.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Palestra da ACEMES: “Médicos e Estudantes de Medicina Compositores”

 

O Presidente da Academia Cearense de Médicos Escritores (ACEMES), o médico e professor Luiz Gonzaga de Moura Jr., convida para a Palestra “Médicos e estudantes de medicina compositores”, a ser proferida pelo médico pneumologista e escritor Paulo Gurgel Carlos da Silva.

Paulo Gurgel é administrador de vários Blos e autor de livros, destacano-se como cronista e memorialista. Foi um dos fundadores e ex-presidente da Sobrames/CE.

Data: 26 de fevereiro de 2026 (quinda-feira).

Horário: 19h30min.

Local: Auditório do Núcleo do Obeso do Ceará – Avenida Antônio Sales, 1.540, em frente ao antigo Carrefour, em Fortaleza-CE.

A VIDA E O SEU TROPEL

Por Romeu Duarte Junior (*)

Tenho refletido muito sobre as transformações do cotidiano. A vida tem se alterado numa velocidade estonteante e, neste tropel, também os modos de se lidar com ela. O que até bem pouco tempo era algo de uso corriqueiro, banal, até fundamental, já faz parte do rol de detritos depositados na lata de lixo da existência. Incrível como é célere essa substituição de coisas e procedimentos considerados superados por outros novos e assim por diante. O celular recém-adquirido, mega-super-hiper potente, já, já será trocado por outro mais danado, tal como estabelece a cruel lei capitalista da obsolescência programada, a qual se estende até às relações humanas. Novas formas de convívio social, novos costumes, novas modas entram e saem do radar a todo instante. E agora, José?

Todo mundo hoje sabe cozinhar e é expert em vinhos. O macharal, antes fora da cozinha e adepto da cachaça, hoje, de dólmã, prepara e troca receitas finas e fala de tons de frutas cítricas e notas de tabaco para colocar no Instagram. De outra parte, ninguém quer saber mais de atender telefone. Sofro com o meu peba para me comunicar com alguém, já que o zap solicito apenas à corriola listada e os muitos golpes telefônicos impedem o contato. Como a sensibilidade hoje é muito mais imagética do que literária, ninguém lê mais e tome o adjetivo "textão" para todo e qualquer escrito que ultrapasse dez linhas. Se há o tal streaming, por que ir ao cinema, cujo ingresso é caro e suas comidinhas idem? Há quem ainda redija cartas, use cartão de apresentação, telefone fixo? Escreva à mão?

Atônito, analógico e cada vez mais paranoico, sinto-me como a próxima vítima desse complô cibernético. A informática e a sua filha mais nova, a impiedosa IA, já assassinaram muitas coisas e agora se organizam para dar conta do gênero humano. Nada contra um sistema digital realizar tarefas repetitivas e por isso cansativas para liberar o homem de tais chatos afazeres. O problema reside no fato de estarmos sendo gradativamente substituídos por máquinas que tomam o nosso trabalho e o bendito sistema não ter qualquer responsabilidade quanto ao nosso reposicionamento no mercado e na vida. Somos tão somente eliminados por esse algoritmo ideal do capitalismo, que só deseja lucro máximo e zero pagamento. Isso se dá desde os luditas do século XIX aos trocadores de ônibus.

E o romance em tempos de aplicativo, por quais mudanças tem passado? Lembro do Gil dizendo em sua canção "Lunik 9" "poetas, seresteiros, namorados, correi; É chegada a hora de escrever e cantar; talvez as derradeiras noites de luar", quiçá temeroso de que o satélite soviético atrapalhasse as escaramuças dos amantes. Também foi o mesmo Gil que compôs "Parabolicamará": "Antes o mundo era pequeno; porque a Terra era grande; Hoje o mundo é muito grande; porque a Terra é pequena; do tamanho da antena". Não, não sou saudosista nem refém do passado, apenas alguém preocupado com o veloz andamento do tempo, que não espera por ninguém, e sabedor, sem qualquer deslumbre, de que a ciência e a tecnologia não são neutras nem redentoras. Apenas observo...

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/01/26. Vida & Arte. p.2.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Causo Médico: A NOTA 12

Conta-se que em uma determinada escola de Medicina, nos anos sessenta do século XX, havia uma bela aluna, que estava muito mal nas provas parciais de uma dada cadeira, e que, mesmo obtendo a nota máxima, um dez, na última avaliação, ficaria reprovada, já que ela necessitava de doze para ser aprovada.

Na véspera dessa tal prova, a jovem fez uma demorada e privada visita ao catedrático e regente da cadeira, em seu gabinete de trabalho. Esse velho professor tinha a fama de galanteador do belo sexo e gostava de lançar olhares fulminantes direcionados aos decotes e às pernas das acadêmicas.

Aplicada a prova, e passados os dois dias previstos da correção, os alunos que aguardavam os resultados da correção estavam não apenas preocupados com as próprias notas, mas igualmente curiosos quanto ao desfecho reservado à colega previamente reprovada.

O catedrático convocou os discentes ao anfiteatro, para anunciar as notas e comentar as respostas às questões discursivas. Apesar de observar a ordem alfabética da lista de chamada, o magister, propositadamente, saltou o nome da aluna em questão, o que deixou a turma muito intrigada.

Praticamente conclusa a entrega das notas, o professor, portando uma pasta de couro, finalmente, dirige-se à turma ali reunida:

– Meus diletos discípulos, gostaria de dar conhecimento a todos, de uma situação muito especial.

Nisso, retirou da pasta a prova remanescente, exibindo-a, à distância, lá do púlpito, onde se encontrava.

– Como eu ia dizendo, ao corrigir as provas de vocês, deparei-me com esta preciosidade – falou, elevando o caderno de papel almaço rabiscado.

– Era uma perfeição! O seu conteúdo reproduzia, com absoluta integridade, o teor dos melhores livros-textos, inclusive, com a indicação das várias obras consultadas, patenteando o vasto domínio da matéria, próprio de quem se dedica com afinco ao estudo.

Os alunos observavam o entusiasmado mestre, na expectativa de logo ver aflorar o veredicto.

O professor prosseguiu com suas explicações:

– Essa prova, na tentativa de identificar alguma falha, porque eu não acreditava no que viam esses cansados olhos, que a terra um dia haverá de comer, foi lida e revista. Até a busca de erros gramaticais foi perpetrada e nada achei. Em vista disso, com incontido júbilo, concedi-lhe dez, com louvor.

Os discentes se entreolhavam, e alguns até piscavam os olhos, enquanto o docente seguia com a sua narrativa:

– Ao fazer a média de vocês, notei, contudo, que a única acadêmica que tirara a nota máxima ficara entre os poucos reprovados.

Ele fez uma longa pausa, espalma a mão direita na cabeça, abrindo os dedos por seus cabelos. Depois, deu sequência à sua locução:

– Então, eu comecei a cogitar. Essa prova mereceu nota máxima “cum laude”, e não é um mero dez. Daí, não titubeei e lancei um doze, o que permitiu à aluna alcançar a média de aprovação.

Os alunos estavam pasmos, pareciam não crer no que ouviam, face à estranheza do fato, e começaram a cochichar no anfiteatro. O lente não perdeu a esportiva e continuou:

– Pois bem! Eu lancei o doze na caderneta; porém, o secretário do departamento me alertou que a universidade não aceita nota superior a dez em nenhuma condição.

Um dos estudantes, ressabiado com o comportamento anômalo do catedrático, apressa-o, provocando:

– E aí, professor! Como o senhor resolveu esse “imbróglio”?

– Como era uma perfeição de prova, jamais por mim vista na minha longa carreira de magistério, digna do doze ou até mais do que isso, alterei para dez, mas atribuí os dois pontos que sobraram ao exame anterior, adicionando-os, naturalmente, à nota passada.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.70-72.

 Republicado In: SILVA, M.G.C. da. Causo médico: a nota 12. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Maio de 2024 - Edição n.33. p. 32-33 (online). (Doc. Nº 8.2.728).


 

Free Blog Counter
Poker Blog