quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cursos de medicina mal avaliados serão punidos

O Povo, Editorial.

O resultado da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) mostrou uma situação preocupante dos cursos de medicina no Brasil. Foram avaliadas 351 instituições públicas e privadas. Dos cursos participantes em todo o Brasil, 30% tiveram desempenho considerado insatisfatório pelo Ministério da Educação (MEC), a maioria de faculdades particulares. É preciso dar destaque a esse dado, pois o maior número de formandos atualmente é oriundo de faculdades privadas.

Segundo estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado na página da Associação Paulista de Medicina, das 494 escolas médicas do País (2025), com 50.974 vagas anuais de graduação, 80% dos estudantes estão em instituições privadas.

O levantamento também mostrou uma nova fase de expansão do ensino médico. De acordo com a FMUSP, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o MEC autorizou 77 novos cursos de Medicina. O estudo avalia que o Enamed é parte do esforço para assegurar a qualidade dos cursos de formação de futuros médicos.

É preciso ressaltar que não se trata de desconsiderar o papel importante desempenhado pelas faculdades privadas, mas de preservar aquelas que oferecem ensino de qualidade e obrigar a evoluir aquelas que tiraram notas baixas. São muitas as instituições privadas que conseguem administrar o empreendimento educacional, sem descuidar da preparação de seus alunos e dos interesses da sociedade, que precisa de profissionais bem formados, em área tão sensível, que cuida da saúde e da vida das pessoas.

No Ceará, nove cursos participaram do exame, sendo que três deles obtiveram nota 5 (máxima); três (nota 4); duas (nota 3) e uma (nota 2).

Existe outra proposta, de iniciativa do Senado, já aprovada na Comissão de Assuntos Sociais, que visa criar o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), que ficou conhecido como "OAB da Medicina". Seria exigência de uma prova obrigatória para médicos recém-formados receberem o registro profissional. Para o ministro Camilo Santana, o Enamed já cumpre esse papel, juntamente com mais rigor no monitoramento dos cursos, inclusive com visitas presenciais.

As sanções, conforme as notas obtidas, podem incluir redução de vagas de ingresso (nota 2), chegando à suspensão do curso (nota 1). Os conceitos 1 e 2 ainda terão suspendidos os contratos de financiamento estudantil (Fies) e o de bolsas (Prouni). Caso não haja melhora ou as medidas exigidas pelo MEC não forem cumpridas, os cursos poderão ser extintos.

O relevante é que o tema está sendo debatido e o MEC tem implementado medidas positivas, como maior fiscalização e punições aos cursos que obtiverem notas insuficientes.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/01/2026. Editorial. p.18.


NOTA DA AMB ENAMED 2025

Nota da Associação Médica Brasileira (AMB) sobre os resultados do Enamed 2025 e a qualidade da formação médica no Brasil

Após a divulgação dos resultados do Enamed 2025 (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), a Associação Médica Brasileira (AMB) vem a público demonstrar sua extrema preocupação com os números que foram apresentados, que revelam uma realidade gravíssima na formação médica do país.

O exame, que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina no país, revela um cenário alarmante, que exige respostas firmes e responsáveis por parte das instituições de ensino e das autoridades regulatórias.

Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (19/01/2026) pelo Ministério da Educação (MEC), da Saúde e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).  Acreditamos que esta avaliação vem em bom tempo para nos mostrar objetivamente a realidade do ensino de graduação médica em nosso país.

Foram avaliados 351 cursos de Medicina. Desse total, 99 cursos sob regulação federal obtiveram conceitos 1 ou 2, faixas consideradas insatisfatórias pelo Inep. Embora 67,1% dos cursos estejam entre conceitos 3 e 5, a presença de 32,6% de cursos com desempenho abaixo do mínimo aceitável segue preocupante. Entre os 39.258 estudantes concluintes avaliados, apenas 67% demonstraram proficiência adequada, enquanto cerca de 13 mil alunos não atingiram o nível esperado para o exercício seguro da Medicina.

 Os cursos de medicina no Brasil são terminais. Ou seja, quando o aluno conclui o curso de graduação, ele recebe o diploma de formado em medicina. Com base neste certificado, vai ao Conselho Regional de Medicina (CRM) do seu estado, obtém o seu registro profissional e o seu número de inscrição no CRM. Uma vez portador desta documentação, está legalmente habilitado para atender pacientes e exercer a medicina em nosso país.

Nestas circunstâncias, equivale dizer que esses 13.000 médicos apontados pelo Enamed como não proficientes podem, de acordo com a legislação atual, atender pacientes em nosso país. Isso nos permite afirmar, sem sombra de dúvidas, que a nossa população atendida por esse contingente de médicos não proficientes ficará exposta há um risco incalculável de má prática médica.

Esses números apontam claramente para a necessidade de instituirmos o mais breve possível exame de proficiência médica como um pré-requisito para o exercício da medicina. Sendo mais claro, não comprovada a proficiência médica pelos egressos dos cursos de medicina, não lhes seria concedido o registro profissional pelos CRM, impedindo-os, desta forma, de atender pacientes.

Esta seria uma ação muito bem-vinda em direção a proteção e segurança dos pacientes. Esta não é uma medida contra o egresso de medicina. É uma medida com finalidade voltada única e exclusivamente à boa prática da medicina e a segurança dos pacientes.

Os dados do Enamed também evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil. Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos.

Estes achados reforçam alertas históricos da AMB sobre os riscos da expansão desordenada de escolas médicas, muitas vezes abertas sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica.

O Ministério da Educação anunciou, na direção correta, sanções para as instituições avaliadas com desempenho insuficiente, incluindo suspensão total de ingresso, redução do número de vagas e restrição de acesso a programas federais como o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies). As instituições terão 30 dias para apresentar defesa e as penalidades permanecerão em vigor até o próximo Enamed, previsto para outubro de 2026.

Consideramos essas medidas necessárias para proteger a população e garantir padrões mínimos de qualidade no ensino médico e reforça que o Enamed representa um avanço importante para o país ao oferecer um diagnóstico objetivo da formação médica e ao fortalecer a transparência na avaliação das instituições.

Porém alertamos que a questão central não é ampliar indiscriminadamente o número de vagas, mas assegurar que cada futuro médico tenha formação adequada, sólida e compatível com as demandas reais do sistema de saúde. Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira.

A Associação Médica Brasileira reitera seu compromisso permanente com a educação médica de qualidade e com a proteção da sociedade.

Continuaremos trabalhando junto ao MEC, ao Ministério da Saúde, ao Conselho Federal de Medicina, ao Conselho Nacional de Educação e aos órgãos reguladores para aprimorar as diretrizes curriculares, fortalecer os estágios e o internato e estabelecer critérios rigorosos para abertura de novos cursos e ampliação de vagas.

O país precisa de uma política nacional de formação médica pautada pelo rigor acadêmico, pela responsabilidade social e pelo compromisso com a segurança do paciente.

Associação Médica Brasileira (AMB)

20 de janeiro de 2026


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Curso de Medicina da Uece atinge nota máxima na primeira edição do Enamed

O curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece) recebeu nota máxima (5) na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), realizado em 2025. Ao todo, foram avaliados 351 cursos de Medicina em todo o país, dos quais apenas 49 alcançaram a nota máxima. O Enamed é uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC) e tem como principal objetivo avaliar a formação médica brasileira.

O reitor em exercício da Uece, professor Dárcio Texeira, ressaltou que o desempenho alcançado no Enamed reflete a maturidade acadêmica da Universidade e o trabalho contínuo desenvolvido ao longo dos anos. “A nota máxima obtida pelo curso de medicina da Uece confirma a consolidação do curso da Universidade Estadual do Ceará como referência na formação médica, resultado do investimento em qualificação docente, infraestrutura, integração com os serviços de saúde e compromisso com a sociedade cearense”.

O Enamed é organizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) e será aplicado anualmente, como uma adaptação do Exame Nacional de Avaliação dos Estudantes (Enade) para os concluintes do curso de Medicina no Brasil. O desempenho dos estudantes no Enamed poderá ser utilizado para o ingresso em programas de residência médica, por meio do Exame Nacional de Residência (Enare).

Além de avaliar a formação médica, o Exame tem como objetivos apoiar a melhoria dos cursos, aprimorar os processos de seleção para a residência médica, fortalecer o SUS e promover maior unificação e transparência, a partir de um modelo padronizado de avaliação em âmbito nacional.

Fonte: Assessoria de Comunicação da Uece em 19/01/26.


Roberto Proença de Macedo. Este é o cara

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Escrevo este artigo para homenagear um grande homem. O verbo está no presente e não no passado, por que o que ele deixou como ensinamento para nós não se apagará. Eu tive a honra, enquanto era economista do INDI (Instituto de Desenvolvimento da Indústria (Fiec), de trabalhar com o Senhor Roberto Macedo como Assessor de Economia.

Este cargo me permitiu, muitas vezes, discutir com ele sobre os aspectos econômicos do Estado do Ceará, do Nordeste e do Brasil. E, naturalmente, sobre os aspectos da política econômica que afetavam a indústria cearense.

O primeiro aspecto que me chamou a atenção foi seu interesse em conhecer os meandros da ciência econômica para melhor compreender os fatos pertinentes à política econômica dos governos, seja federal, estadual ou municipal. Isso me chamou a atenção para um outro aspecto relevante de sua personalidade: a simplicidade.

Aqui eu relembro o fato de ele ter pedido, publicamente, desculpas a uma funcionária da FIEC por ter julgado mal um ato daquela funcionária. Este foi um exemplo cabal de sua simplicidade. Me lembro que na oportunidade o parabenizei pela sua coragem.

O Senhor Roberto Macedo jamais usou da empáfia (fato comum dentre aqueles que ocupam cargos relevantes) para justiçar suas posições. Quando havia alguma conferência ou palestra de algum técnico e ele não entendia o ponto defendido pelo expositor, sempre nos encontrávamos para discutir o que foi apresentado pelo conferencista.

O fato de ele ter dado apoio ao INDI para que nossas análises fossem cada vez melhores é um exemplo da sua preocupação com o saber. Outro aspecto que me chamou a atenção sobre sua personalidade foi o primar pela bem querência, pela amizade, pela harmonia no trabalho.

Aqui me vem à memória um fato muito importante em sua vida de empresário. Estavam em seu gabinete algumas pessoas da Fiec e conversávamos sobre as dificuldades das indústrias cearenses, em termos gerais, inclusive do problema de administração. Ele, então, contou como resolveu um problema que ocorreu em sua empresa.

Em reunião da Diretoria e examinando os dados financeiros ele concluiu que a empresa estava indo para a falência. E ele disse: "Vou chamar o japonês". Ele não deu o nome do "japonês". Mas era um especialista em administração empresarial. E o problema da empresa foi resolvido.

O que isso demonstra? Primeiro sua capacidade de pensar, primeiro, no sucesso da empresa; segundo, a sua capacidade em admitir erros. Se o caminho da empresa não estava indo para o sucesso, que algo fosse mudado.

Hoje sua empresa é uma das maiores empresas do Ceará, empregando milhares de pessoas. Termino este trabalho com uma frase do Amarílio Macedo "Era gostoso gostar dele"!

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 14/12/25. Opinião. p.18.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

ZÉ TARCÍSIO: o regador de pedras

Por Raymundo Netto (*)

Quando fevereiro chegou, o mundo estava no rebuliço de guerra. A cegonha amalucada de vida pousou o bebê Zé Tarcísio na casa nº 12 da Vila Diogo, sendo acolhido por dona Chiquinha, matriarca de uma casa de mulheres operárias. O menino de olhos e sonhos azuis era pequeno e assim o seria por toda a vida, se não se tornasse tão grande.

Um dia, recebeu um quarto só para ele, devido à morte de Estelita, aos 17 anos, neta de Chiquinha, que ensinara àquele menino os segredos da voz. Aquele quarto seria o seu infante ateliê de traquinagens e descobertas. Daí, ainda criança, faltava as aulas para ser calouro em programas de auditório nas rádios. Num deles, na PRE-9, sobre um caixote - para alcançar o microfone - e cantando marchinha de Carnaval, ganhou o prêmio maior: uma barra de sabão "Pavão"! Tornou-se locutor mirim na Rádio Iracema - guarda com orgulho sua faixa até hoje - e em outro programa ganharia máquina de costura, oferecida a Marieta, sua mãe biológica, para que pudesse trabalhar em casa.

Não era muito chegado à escola. Tinha bolsa no Ginásio 7 de Setembro, mas dizia que gostava de ir apenas para brincar, jogar e se relacionar com os outros, além de integrar o grêmio. Atuava no palco do catecismo, "Entre a Cruz e o Pecado", assim como nas atividades do Clube dos Sezinhos - iniciativa do Sesi e da Casa de Juvenal Galeno. Nos Carnavais, desenhava e produzia as fantasias. E, nos festejos juninos, era ele a dar vida às ruas espalhando em cordões bandeirinhas coloridas de papel.

Na inauguração do Mauc, Antônio Bandeira conheceu os seus desenhos e o aconselhou a tentar carreira no Rio. Assim ele fez. Em Santa Tereza, chegou a morar na mesma casa onde respirava Manuel Bandeira. E lá, atuou em tudo o quanto, bebendo de todas as fontes e explorando diversas linguagens, exercitando a sua criatividade de sonhador, sempre levando ao mundo a sua percepção nordestina, o seu rico imaginário. No cinema, no teatro e na TV, fosse como ator, figurinista/aderecista, cenógrafo, produtor, roteirista e diretor ou mesmo como humorista na TV Tupi em "A, E, I, O... Urca". Como fotógrafo, que surgiu na ABA-Film cearense, assumiu posto na renomada revista "Manchete". Nas artes visuais, durante perverso olhar da ditadura, em pinturas, protestou contra a morte do estudante Edson Luís. Passou três anos na Escola Nacional de Belas Artes, mas não se adequou ao seu academicismo e a abandonou. Como "diabanjo", para escandalizar, correu de bicicleta na contramão em Copacabana sem camisa, usando asas de anjo e sutiã com seios postiços. Foi levado pela Polícia para depor por uma de suas instalações. Autoexilou-se pela Europa, estudando pintura e pintando em calçadas. Voltando ao Brasil, devotado a gravuras, pinturas, colagens, serigrafias, xilogravuras, esculturas e instalações, o jovem múltiplo vanguardista participou e foi premiado em diversos salões e bienais do País.

Até aqui, o leitor já percebeu não ser possível definir esse artista pela sua vida, pois ele mal cabe nela. O que dirá nos limites de uma crônica? Sim, o Zé é de uma beleza gigante, como gigante o era enquanto artista e ser humano. Generoso e alegre, ainda trazia a doçura de menino no olhar miúdo de emoções e no sorriso repleto de esperanças. No museu do tempo dos seus olhos, por aqui permanece a passarela de sua "Ilusão" e, nós, seus colegas, aprendendo a jogar pedras ou a regá-las para extrair flores ou um tiquinho de liberdade. Sem mais blás-blás-blás, vai, Zé Tarcísio, ilumina nosso céu de estrelas, instala por lá o seu novo ateliê e recebe essa ruma de anjos desejosos de seu abraço.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/01/25. Vida & Arte, p.2.


Planejar para reformar: a necessária metagovernança da gestão interfederativa entre municípios e Estado

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O conceito de metagovernança surgiu a partir das discussões acadêmicas sobre governança na ciência política e na administração pública, sendo amplamente associado aos teóricos Eva Sørensen e Jacob Torfing. Segundo eles, os estudiosos negligenciaram o tempo como uma dimensão fundamental na formulação e na gestão das políticas públicas contemporâneas.

Ao defenderem uma “virada longitudinal” no campo da Administração Pública, Sørensen e Torfing ressaltam que é preciso levar mais a sério as dinâmicas temporal e territorial. O conceito e a prática da metagovernança trazem a necessidade de um tripé: o setor público, na dimensão interfederativa; as redes relacionais; e a estrutura hierárquica.

É exatamente nesse contexto de metagovernança, baseada na articulação interfederativa, que se inserem os desafios atuais dos municípios cearenses — especialmente a implementação de um novo modelo de tributação, a reestruturação da previdência municipal e os avanços necessários na governança digital. Esses temas orientam as ações da Caravana Ceará um Só 2026, iniciativa liderada pela Secretaria do Planejamento e Gestão (Seplag), em parceria com a Escola de Gestão Pública.

Da reconfiguração cadastral à construção de um novo modelo de desenvolvimento econômico, a organização da gestão municipal é função precípua do planejamento. Pensar e estruturar as bases para a metagovernança, por sua vez, é atribuição da Seplag, conforme previsto na Lei nº 18.709, de 27 de março de 2024.

De modo resumido, a Caravana articula um conjunto de ações convergentes voltadas ao fortalecimento das capacidades institucionais municipais, com ênfase na modernização cadastral e tributária — como a adesão ao Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB) e o aprimoramento da fiscalização do Imposto Sobre Serviços (ISS) —, no avanço da governança digital, incluindo planos municipais alinhados à Estratégia Nacional de Governo Digital, portais integrados e a digitalização de serviços, bem como na qualificação dos servidores, na gestão previdenciária e financeira, na valorização dos ativos públicos, no apoio às compras institucionais e no estímulo à cidadania orçamentária.

Mesmo diante de ações concretas, os desafios estruturais da metagovernança podem não admitir solução definitiva. Exigem abordagens coordenadas, aprendizado contínuo e novos arranjos de governança capazes de integrar diferentes esferas da Administração Pública e promover a resolução conjunta de problemas para além das fronteiras organizacionais, territoriais e setoriais.

A confiança e a credibilidade construídas junto aos municípios constituem a maior demonstração desse processo, reforçando a importância de um modelo fundamentado na cooperação e no compartilhamento de conhecimentos.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 11/12/25. Opinião. p.17.

domingo, 18 de janeiro de 2026

CASIMIRO MONTENEGRO FILHO: doutor honoris causa in memoriam da Uece

A Universidade Estadual do Ceará (Uece) opera, com especial cuidado e parcimônia, a aprovação de suas outorgas honoríficas, notadamente as do título de doutor Honoris Causa, que já foi outorgado a personalidades de relevo, como o Cardeal Lorscheider, o Prof. Melquíades Pinto Paiva, o Prof. Manassés Claudino Fonteles, o Dr. Adib Domingos Jatene etc.

O Conselho Universitário da Uece, em reunião realizada em 8/01/2026, aprovou, por unanimidade, a proposta de concessão do título de doutor Honoris Causa in memoriam ao Marechal Casimiro Montenegro Filho, oriunda do Centro de Ciências da Saúde, e apresentada pelos professores Marcelo Gurgel Carlos da Silva e Maria Lúcia Duarte Pereira.

Essa entrega faz jus a um ilustre cearense que, por seus feitos extraordinários, tem o seu nome inserido no livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, conforme a Lei nº 15.135, de 21 de maio de 2025.

Trata-se de uma auspiciosa deliberação que receberá entusiástica acolhida no cenário institucional cearense, envolvendo diversas entidades educacionais, científicas, empresariais e culturais.

Dignas de encômios, sem dúvidas, foram a presente aprovação da parte dos conselheiros presentes e o trato dado pela Reitoria da Uece, sob a condução do Magnífico Reitor Prof. Hildebrando Soares, na tramitação do processo que deverá culminar em sessão solene de entrega do diploma honorífico que poderá contar com a participação de múltiplas representações institucionais sediadas no Ceará.

O minudente e preciso parecer exposto pela Cons. Jaqueline Rabelo de Lima, que se debruçou na pesquisa de variadas fontes, resultou em alentado documento sobre Casimiro Montenegro Filho, o responsável maior da criação do Correio Aéreo Nacional, e protagonista principal de três acontecimentos marcantes para o Brasil: a fundação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); a implantação do Centro Técnico Aeroespacial; e o surgimento do grande parque industrial aeronáutico brasileiro, espelhado na Embraer.

Vale salientar os tantos atributos que ornamentam a trajetória de vida desse grande cearense, cujo reconhecimento, em sua terra natal, chegou tardiamente, mas que, no entanto, vem se consolidando, mediante significativas homenagens que a ele têm sido prestadas, nos últimos anos, resgatando uma dívida que a Terra da Luz detinha com esse varão benemérito da pátria.

Parabéns, Uece!

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor titular de Saúde Pública-Uece

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/01/2026. Opinião. p.20.


Pequenas Estórias de Inspiração III

5. A moça cega

Havia uma menina cega que se odiava todos os dias pelo fato de não poder enxergar. A única pessoa que ela amava era seu namorado, pois estava sempre com ela. Certa vez ela disse que se pudesse ver o mundo, então se casaria com ele.

Um dia, uma pessoa doou um par de olhos para ela - agora ela podia ver tudo, inclusive seu namorado. Seu namorado amoroso perguntou a ela, "agora que você pode ver o mundo, você se casará comigo?"

A mulher ficou chocada ao ver que seu namorado também estava cego e se recusou a casar com ele. Seu namorado se afastou em lágrimas e escreveu uma pequena nota para ela dizendo: "Cuide bem dos meus olhos, querida".

Moral da história: Quando as circunstâncias ao nosso redor mudam, também muda a nossa mente. Algumas pessoas podem não ser capazes de ver o que eram antes, e podem ser até mesmo ingratas.

6. A caixa dourada

Algum tempo atrás, um homem puniu sua filha por desperdiçar um rolo de papel de presentes dourado. O dinheiro estava curto e ele ficou bravo quando a criança tentou decorar uma caixa para colocar sob a árvore de Natal.

No entanto, a menina trouxe o presente para o pai no dia de Natal e disse: "Isto é para você, papai".

O homem ficou envergonhado por sua reação exagerada alguns dias antes, mas sua raiva continuou quando viu que a caixa estava vazia. Ele gritou para ela, "Será que você não sabe que quando você dá a alguém um presente, precisa ter algo dentro?"

A menina olhou para o pai com lágrimas nos olhos e chorou; "Oh, papai, não está vazio. Soprei beijos na caixa. Eles são todos para você, papai".

O pai ficou devastado. Ele colocou seus braços em torno de sua filha, e implorou seu perdão.

Pouco tempo depois, a menina morreu em um acidente. Seu pai manteve a caixa dourada em sua cama por muitos anos e, sempre que ele se sentia mal, ele tiraria um beijo imaginário e lembrava o amor da criança que perdera.

Moral da história: Não é ouro nem prata. O amor é o presente mais precioso do mundo.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


Pequenas Estórias de Inspiração II

3. O obstáculo no caminho

Nos tempos antigos, um rei fazia com que seus homens colocassem uma rocha em uma estrada. Ele então se escondeu nos arbustos e observou para ver se alguém iria mover a rocha para fora do caminho.

Alguns dos mais ricos comerciantes e cortesãos passaram e simplesmente desviaram da pedra. Muitas pessoas culparam o rei por não terem mantido as estradas livres, mas nenhum deles fez nada para remover a pedra.

Um dia, um camponês vinha carregando vegetais. Ao aproximar-se da rocha, o camponês colocou seu fardo de lado e tentou remover a pedra do caminho. Depois de empurrar e esforçar-se, ele finalmente conseguiu.

Depois que o camponês voltou para pegar seus legumes, ele notou uma bolsa debaixo de onde a pedra tinha sido posta. A bolsa continha muitas moedas de ouro e uma mensagem do rei, que explicava que o ouro era para a pessoa que havia tirado a rocha da estrada.

Moral da história: Todo obstáculo que encontramos é uma oportunidade para melhorar nossas circunstâncias, e enquanto os preguiçosos se queixam, outros criam oportunidades através de seus corações, generosidade e vontade de fazer tudo.

4. A borboleta

Era uma vez um homem que encontrou uma borboleta que estava começando a sair de seu casulo. Ele se sentou e observou a borboleta por horas, enquanto lutava para sair através de um pequeno buraco. Então, de repente, a borboleta parou de fazer força e parecia que estava presa.

Com isso, o homem decidiu ajudar a borboleta a sair. Ele pegou uma tesoura e cortou o pedaço restante do casulo. A borboleta então emergiu facilmente, embora tivesse o corpo inchado e pequenas asas murchas.

O homem se sentou lá esperando as asas se ampliarem para suportar a borboleta. No entanto, isso nunca aconteceu. A borboleta passou o resto de sua vida incapaz de voar, rastejando com pequenas asas e um corpo inchado.

Apesar do coração amável do homem, ele não entendia que o casulo restritivo e a luta que a borboleta precisava enfrentar para sair do pequeno buraco eram o modo que Deus tinha de forçar o fluido do corpo da borboleta em suas asas para que pudesse voar, uma vez que estivesse fora do casulo.

Moral da história: Nossas lutas nos ajudam a desenvolver nossos pontos fortes. Não há vitórias sem lutas, por isso é importante que enfrentemos desafios por conta própria e não depender da ajuda dos outros o tempo todo.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Pequenas Estórias de Inspiração I

1. O grupo de sapos

Um grupo de sapos estava viajando pela floresta, quando dois deles caíram em um poço profundo. Quando os outros sapos viram o quão profundo era o poço, eles disseram aos dois sapos que não havia mais esperança para eles.

No entanto, os dois sapos ignoraram seus camaradas e tentaram saltar do poço. Mesmo assim, apesar de seus esforços, o grupo de sapos no topo do poço ainda dizia que eles deveriam simplesmente desistir, pois nunca o conseguiriam.

Eventualmente, um dos sapos prestou atenção ao que os outros estavam dizendo e desistiu, saltando ainda mais para sua morte. O outro sapo, entretanto, continuou a pular o mais alto que podia. Mais uma vez, o grupo de sapos gritou para ele evitar a dor da tentativa e desistir. Ele os ignorou e saltou ainda mais e finalmente conseguiu sair. Quando ele saiu, os outros sapos disseram: "Você não nos ouviu?" O sapo explicou-lhes que era surdo, e que achava que o estavam encorajando o tempo todo. Moral da história: As palavras das pessoas podem ter um enorme efeito sobre a vida dos outros. Portanto, pense bem antes de liberar palavras da sua boca – pois pode ser a diferença entre a vida e a morte.

2. Meio quilo de manteiga

Havia um fazendeiro que vendia manteiga regularmente para um padeiro. Um dia, o padeiro decidiu pesar a manteiga para ver se ele estava recebendo o montante exato que ele pedia. Ele descobriu que não estava, então ele levou o fazendeiro ao tribunal.

O juiz perguntou ao agricultor se ele usava alguma medida para pesar a manteiga. O fazendeiro respondeu: "É verdade, sou primitivo. Não tenho uma medida adequada, mas eu tenho uma escala".

O juiz respondeu: "Então como você pesa a manteiga?"

O fazendeiro respondeu: "Meritíssimo, muito antes de o padeiro começar a comprar manteiga comigo, eu já comprava pão com ele. Todos os dias, quando o padeiro traz o pão, coloco-o na balança e dou-lhe o mesmo peso na manteiga. Se alguém é culpado aqui, é o padeiro".

Moral da história: Na vida, você colhe somente aquilo que planta. Não tente enganar os outros.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

Seis Pequenas Estórias de Inspiração

As pequenas histórias e estórias de inspiração me encantam, pois são fáceis de acompanhar e ler, e sempre têm uma moral para aprender no final. Sejam elas verdadeiras ou não, lendas de centenas de anos atrás ou algo real, sempre tenho algo a repensar. Confira agora seis curtas estórias inspiradoras que te farão pensar...

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

LIVRE PARA DRIBLAR

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

De 1964 até meados da década de 1980, havia censura, e as letras das músicas eram vetadas se consideradas "subversivas", "perigosas" ou por ferirem a "moral" e os "bons costumes". "Acorda Amor", "Milagre Brasileiro" e "Jorge Maravilha", com autoria de Julinho da Adelaide, foram aprovadas, tocadas e cantadas. Um de seus trechos era: "E nada como um tempo após um contratempo / Pro meu coração / E não vale a pena ficar, apenas ficar / Chorando, resmungando / Até quando, não, não / [...] Você não gosta de mim, / Mas sua filha gosta".

O Pasquim, um divertido e inteligente jornal da época, "fabricou" uma entrevista com Julinho da Adelaide, que declarou "ser apolítico", mas suas músicas eram, exatamente, sátiras políticas. Em 1975, o Jornal do Brasil revelou que, por ser muito visado, Chico Buarque usara o pseudônimo Julinho da Adelaide para driblar a censura. No passado, muitos jornalistas, artistas e escritores também usaram. Sérgio Porto (criador do Febeapá, Festival de Besteira que Assola o País) era Stanislaw Ponte Preta.

Júlio Cesar de Melo foi Malba Tahan até em documentos oficiais. Dom Pedro I era Piolho Viajante. Clarice Lispector já foi Tereza Quadros. Apparício Torelly era o Barão de Itararé. Nelson Rodrigues assinou como Suzana Flag; Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, como Dr. Semana. Marilyn Monroe era Norma Jeane Mortenson. Stefani Joanne Angelina Germanotta é Lady Gaga. Farrokh Bulsara era Freddie Mercury. Agenor de Miranda Araújo Neto era Cazuza. Voltaire era François-Marie Arouet. Lênin era na realidade Vladimir Ilyich, e Stálin ("homem de ferro", em português) era o pseudônimo de Iosif Dzhugashvili.

Meu pai, Ari de Sá Cavalcante, registrou-me como Ivo. Saiu do cartório, foi a uma livraria e um livro de Matemática levou-o à lembrança de Tales, seu pseudônimo no jornal O Estado, onde criou frases memoráveis.

No dia seguinte, foi ao cartório e trocou Ivo por Tales, que acoplado a Montano, pseudônimo de meu bisavô materno, formou o nome composto Tales Montano. Sem a passagem pela livraria, provavelmente o autor desta crônica seria Ivo Brasil de Sá Cavalcante.

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/12/25. Opinião, p.16.

Crônica: “Uma fábrica de ovos chamada galinha” ... e outros causos

Uma fábrica de ovos chamada galinha

Passava da meia noite e o zap dispara chegada de mensagem. Era Jair Moraes, pra contar do sonho sem pé nem cabeça que tivera. Em três capítulos. "Não sei se era eu ficando doido, ou se era meu normal se amostrando". O Poeta dos Cachorros deixou áudio gravado. Tão inusitado que fui levado pela curiosidade a ouvi-lo, não sei se por estar igualmente ficando doido, ou se era...

1º - A tortura de um chiclete na boca do cristão

De repente, eu era um Ping-Pong sofrendo mastigadas incessantemente de um rapazote. Chicleticamente, via-me rebolado de um lado pro outro, hora num molar, hora num canino. Sentia meu doce desaparecer. Pior: endurecia enquanto goma de mascar sensível. Pra lascar ainda mais, virei bolinhas, fazendo aquele ploc! Prestes a ser descartado, pensei em meu tio Manezinho, com quem tanto fresquei por ser banguela. Até que fui arremessado ao chão, descartado como um bagulho. Sem contar que fui substituído por um chiclete da marca Adams. Preferia ser aquela peinha de fumo na boca de vó Doquinha.

2º - Uma formiga perdida no banheiro

Ainda um chiclete, agora "apregado" no solado duma Havaiana, acordei para, em seguida redormi. No novo sonho, vejo-me sentado no sanitário. Olhar fixo no chão, vejo passear - frente ao box do banheiro - uma formiguinha, sozinha. Cadê as amigas e os amigos de formigamento? O que fazia ali àquela hora? Estaria "ariada"? Perguntei-lhe se podia ser útil, mas era do tipo que não falava com estranhos. E se minha mulher Zuleica me visse falando com uma formiga à meia noite, que pensaria? Tentei uma comunicação pela linguagem de sinais, mas a inseta se mandou pro quarto de hóspedes. Tentei segui-la, mas era já claro, e vi que dormia.

3º - Ovos S/A

Passadas as experiências do chiclete e da formiga, me deparo, na sala, com uma galinha aninhada em 30 ovos. Ovos de um mês, e nenhuma disposição de chocá-los. Desovara pela alegria natural de por. "Trabalho pros outros, e não será previdente dar à luz 90 pintinhos duma lapada só. Quer um?", ofereceu-me. Respondi que só trabalho com ovo pela manhã, e assim mesmo na gemada. Pra não dar cabimento, preferindo-lhe a cabidela, encerrei o papo. E fiquei a pensar na penosa fábrica de botar ovos chamada galinha. Era já 5 da manhã e saí em busca de ganhar meu suado dinheiro na Rodoviária! Sonhar demais só me faz acordar sem mim...

Histórias da Claudinha - parte 3

Dessa vez, o time do companheiro da nossa amiga - determinado lateral Potengi, foi em um caminhão fretado à comunidade de Barra dos Guaxinins para a final da Liga de Futebol Lá Deles, precisando só do empate para sagrar-se campeão. Treinado pelo estrategista Gonçalves, a onzena de Potengi sapecou 4 a 1 no adversário. Só teve um probleminha: a torcida local, ao final, cismou de se vingar, e dar um cacete na equipe visitante. Que, ainda fardada, correu pro caminhão e fugiu.

A um quilômetro, o caminhão atolou. Delegação desceu pra empurrar. Mas, era lama demais e nada de o transporte sair do lamaçal. A notícia chega à Barra dos Guaxinins e a torcida corre ao encalço da esquadra de Pontengi, armada de pau e facão. Era já de noite. Que fez a equipe vencedora de há pouco? Embrenhou-se no mato. De onde estavam, escuridão medonha, ouviu-se algo como uma festa. Pra lá se dirigiram os jogadores, ainda paramentados. Era um circo. Palhaços e trapezistas, vendo a arrumação, gritaram por socorro, acreditando fossem ladrões. Time dispara em busca do caminhão, que, por milagre, desatola e sai em desabalada carreira...

- Teve a menor graça esses 4 a 1! - desabafou Gonçalves, que virou pastor...

Fonte: O POVO, de 19/12/2025. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

MAGISTRA VITAE? (Mestra da vida?)

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Ainda na minha infância, aprendi que ‘a história é mestra da vida’. Claro que, na minha meninice, não cheguei a compreender bem a dimensão e a profundidade desta asserção de Cícero: “A história é testemunha dos séculos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado”.

“Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis, qua voce alia nisi oratoris immortalitati commendatur?” (Cicero, De Oratore, II, 36).

Imaginava que havia uma grande mestra a nos mostrar a excelência da história. Mais tarde, porém, compreendi.

Na verdade, um olhar pelo retrovisor, tanto da vida pessoal como da história, é um alerta para tudo o que ocorreu, merecendo uma avaliação crítica de causas e consequências, com o objetivo de correção, ajustes e, mesmo, de não repetição das mesmas atitudes e atos que levaram a efeitos desastrosos e/ou danosos.

Muitas revoluções têm surgido, porém, não se tem notícias de muitas ‘revolições’, no sentido de mudar e aplainar os ínvios caminhos, que diversas nações vêm palmilhando, sobretudo, em detrimento de seu povo e de sua nação.

É imperativo que causas e efeitos sejam vistos e analisados com ‘criticidade imparcial’ e isso exige conhecimento das fontes e honestidade de caráter, uma vez que o passado não pode ser objeto de narrativas ideológicas ou de qualquer outro tipo de matiz. A análise dos fatos também não pode ocorrer sob olhar adrede direcionado, em pseudo-interpretação, para justificar desatinos de mentes doentias, autoritárias e obcecadas pelo poder e pela tirania.

A história põe-se uma fala e os que a ouvem e com ela dialogam, à luz do bem-estar de povos e nações, encontrarão subsídios para fortalecer suas convicções, afastando-se de malsãs opiniões dominadoras, que um vislumbre do passado desnuda.

O desconhecimento da realidade dos fatos ilude qualquer idiota, pela empolgação, pela doutrinação e pela manipulação bem conduzida por seus cultores. E um idiota útil segue, indefectivelmente, qualquer falastrão, mesmo sem fundamentações, mas justificativas falaciosas; tem olhos vendados que nem a miséria consegue abrir e suas mentes recusam-se a raciocinar.

Ao historiador não cabe um juízo de valor, nem juízo conforme suas crenças, mas, simplesmente, descrever os fatos, já acontecidos e que não podem ser mudados. O historiador, na dignidade de seu caráter, na sua faina historiográfica, não  conta, tampouco se dá a narrativas. Ele, simplesmente, relata fatos.

A história é fonte não apenas de conhecimentos, de avanços culturais, de processos tecnológicos e sociológicos, de títeres desastrosos, mas, sobretudo, de sabedoria. Erros, injustiças, perseguições, genocídios, guerras, e demais conteúdos, que a história nos apresenta, são um despertar para a liberdade de ser, de fazer e de conviver.

A palavra história deriva do latim historia, originalmente, do grego historía (ἱστορία), associado a historein (ιστορειν), que significa tanto testemunhar, quanto relatar, inquirir e investigar.

A história é, portanto, o olho do passado a nos propiciar relatos, que se nos apresentam também como lições experienciais.

Afinal, somos todos herdeiros de um passado e, também, as ciências tiveram a sua evolução histórica.

Tenhamos uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 13/01/26.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A finitude descortina a exuberância da velhice

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

Aos 80 anos, depois de cinquenta dedicados à pneumologia, minha velhice não chegou de mansinho: revelou-se de supetão. Atendia um paciente quando a palavra "dipirona", companheira por meio século, fugiu vertiginosamente da minha memória. Não era falha grave; era um sinal íntimo, uma fresta por onde entrou a consciência da finitude. De súbito, vi a linha reta do mar da Beira Mar — horizonte antigo, mas nunca tão nítido quanto naquele instante, quando se revelou, para mim, como a própria finitude.

Foi aí que compreendi, sem dor, que meu périplo médico se encerrara. Minha amada pneumologia tinha cumprido sua estada em mim. Ficaram as lembranças luminosas do ser médica responsável por vidas que confiaram nos meus cuidados. Mas o que me surpreendeu foi descobrir que a finitude não me encolheu; ela me ampliou. Pela primeira vez senti que podia tomar posse da minha própria vida, sem as pressas, obrigações e tolhimentos que me acompanharam desde a infância.

Ao contrário do que imaginaram Sartre e Beauvoir, ao tratarem a velhice como inviável, percebi que o corpo velho não sela interditos. Apesar das impossibilidades próprias da idade, ele revela contornos: mostra limites, sim, mas também indica por onde ainda posso caminhar, reinventar-me e desejar. Descobri que as limitações não são prisões — são molduras que tornam mais nítida a obra que ainda posso ser. O que se torna inviável pelas limitações da idade cede lugar a novos caminhos possíveis. Como disse Drauzio Varela, ao comentar a interrupção de uma maratona que corria na Alemanha: "Não vou parar de correr. Se não der para fazer todo o percurso, correrei poucos quilômetros — ou até alguns metros. É o poder do querer e do gostar."

Mas a exuberância da velhice não nasce só do indivíduo. Como lembra Beauvoir, ninguém envelhece sozinho: é a sociedade que pode fazer da velhice um tempo digno ou miserável. Para que a liberdade dos velhos floresça, o mundo precisa reconhecer sua presença, acolher seus ritmos e valorizar suas contribuições. Nietzsche dizia que a vida deve ser vivida como obra de arte; mas, para que essa obra exista, é preciso um espaço social que a veja e a escute.

Quando a sociedade nos empurra para a invisibilidade, a velhice se apequena. Quando nos integra ao cotidiano, ela se expande. A velhice exuberante depende, portanto, de cidades, Estados e países que ofereçam programas de assistência à saúde dos velhos, que viabilizem participação, cuidados, circulação segura e afeto. Que criem um ambiente que permita ao velho ser um ser-em-projeto, como quis Sartre, ainda que com outros tempos e formas.

A finitude, para mim, foi acontecimento inaugural. Descortinou não só um fim, mas um novo modo de começar. E é nele que sigo: limitada, sim — mas inteira na lucidez e na consciência de que meu envelhecer só se cumprirá plenamente quando a sociedade reconhecer que a velhice não é resto: é potência.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/12/2025. Ciência & Saúde. p.16.

TURISMO DE NEGÓCIOS

Por Raimundo Padilha (*)

Quando da existência do Pacto de Cooperação, o empresário Amarílio Macedo, seu criador, promoveu um evento na sua casa de veraneio em Paracuru, convidando técnicos e lideranças empresariais do Ceará para um encontro de final de semana prolongado, com o consultor Cláudio Fristchak da INTER B - Consultoria Internacional, para discutir alternativas de desenvolvimento do Estado.

As discussões foram prolongadas e dentre as prioridades sugeridas como a educação, o Cláudio propôs a criação de um Entreposto Internacional de Exportação. A ideia se apoiava basicamente na localização do Ceará na esquina do continente, além da vocação comercial da população cearense.

O projeto de Alargamento do Canal do Panamá, a privatização do Aeroporto Internacional Pinto Martins e o projeto de criação do Porto do Pecém, constituíam elementos infraestruturais decisivos para o desenvolvimento do projeto.

Além destas vantagens a criação do Centro de Eventos do Ceará, poderia abrigar um Polo de Feiras Internacionais, com lançamentos de produtos mundialmente comercializados dos mais diversos segmentos, como veículos, eletro-eletrônicos, moda, perfumaria, calçados, maquinaria, dentre outros, criando no Ceará um Centro Internacional de Turismo de Negócios. A frequência das feiras poderia ser quinzenal, atraindo para o Ceará potenciais compradores dos produtos expostos.

A ideia foi unanimamente aceita e, no momento quando se fala em Economia do mar, se poderia priorizá-la, como mais um projeto para o desenvolvimento do Estado.

Enfim, o mundo exportador traria os seus produtos para expor no Ceará e o mundo comprador viria para Fortaleza para realizar as suas compras em mais esta esquina de um grande continente. O turismo de negócio seria alavancado, com reflexo em toda a sua cadeia de operações, como hotelaria, bares e restaurantes, transportes, shoppings, etc. E o Ceará se transformaria numa grande vitrine internacional.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 12/12/25. Opinião. p.18.


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Nota de Pesar por Dr. Francisco Holanda Júnior

 

Lamento informar o falecimento do Dr. Francisco Holanda Júnior, médico e servidor da Secretaria de Estado da Saúde do Ceará (SESA).

Durante os quatro anos em que estivemos à frente da Secretaria — Jurandi Frutuoso, Galba Gomes e Alexandre Moreira — contamos com sua orientação técnica qualificada e o apoio de um dedicado colaborador, em especial no fortalecimento do programa Saúde Mais Perto de Você e na gestão da política hospitalar do Estado, dentre outras contribuições relevantes.

Registro meu reconhecimento e agradecimento ao Dr. Holanda por sua dedicação ao serviço público e à saúde do povo cearense.

À Ana Célia e aos filhos, Zélia e eu manifestamos nossos sentimentos, desejando-lhes conforto, serenidade e força neste momento de profunda dor.

Att.

Jurandi Frutuoso

Ex-Secretário de Saúde do Estado do Ceará

Nota do Blog: Francisco Holanda Júnior era um competente ginecologista e dedicado gestor público, além de colega muito distinto e cordial. Fui orientador de mestrado da sua esposa Ana Célia e com eles publicamos três artigos científico.

O corpo do Dr. Francisco Holanda Júnior está sendo velado no Complexo Velatório Aethernus à Rua Pe. Valdivino, Nº 1.688, em Fortaleza. A missa de corpo presente será celebrada às 14 horas de hoje (13/01/26) e o cortejo fúnebre sairá às 15 horas para o sepultamento no Parque da Paz, marcado para as 16h.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Editor do Blog


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Mortalidade infantil cai 17,6% no Ceará, mas 62,5% são evitáveis

Por Penélope Menezes (*)

A taxa de mortalidade infantil (TMI) em território cearense registrou um declínio de 17,6% entre 2011 — quando 13,6 óbitos de crianças menores de um ano por mil nascidos vivos foram apontados — e 2024 (11,2 óbitos). A informação é do boletim epidemiológico de dezembro/2025 da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa).

De 2011 a 2024, o levantamento notifica que 21.221 mortes de crianças menores de um ano foram registradas no Estado. O número total corresponde a uma média de 1.542 óbitos/ano.

Já a proporção de óbitos infantis evitáveis variou de 71,2% em 2011 para 62,5% no ano de 2024. A porcentagem representa uma redução de 12,2%, com discretas flutuações no período.

"Mortes infantis evitáveis" são "aquelas consideradas preveníveis por ações efetivas dos serviços de saúde". Incluem "adequada e oportuna atenção à mulher na gestação e no parto; atenção ao recém-nascido; ações de imunoprevenção; ações adequadas de diagnóstico e tratamento e ações de promoção".

"A primeira questão é entender o que é morte evitável e morte inevitável", diz a ginecologista e obstetra Liduína Rocha." A morte inevitável é a que, mesmo que se faça diagnóstico, não existe tratamento. Principais causas: malformações fetais e as doenças genéticas". 

Já uma parte significativa das mortes infantis evitáveis acontece durante o período do perinatal, ou seja, a partir da 28ª semana até o final do primeiro mês e, especialmente, nos primeiros dias após o nascimento.

Entre as causas, predominaram no ano de 2024 as reduzíveis por ações de atenção à mulher na gestação e por adequada atenção ao recém-nascido. Ambas alcançaram 44%.

A terceira posição foi ocupada pelas evitáveis por adequada atenção à mulher no parto, com variação entre 11,4% (2011) e 8,3% (2024), registrando redução de 26,9%.

"Essas mortes neonatais precoces, que acontecem no momento do nascimento até o sétimo dia, uma parte significativa delas acontece na maternidade, mas por condições que poderiam ter sido prevenidas ou tratadas adequadamente no pré-natal. Um dos exemplos significativos é a prematuridade, que se associa muito à infecção", explica a profissional.

Para Liduína Rocha, durante o pré-natal, fazer cultura de urina de maneira sistematizada é uma prevenção efetiva.

"Outras condições maternas são responsáveis por prematuridade, causada por uma necessidade de intervir ou por descompensações que podem levar à morte ainda na gravidez ou logo após o nascimento. Duas condições são diabetes gestacional e uma condição da pressão alta induzida pela gravidez, que a gente chama pré-eclampsia", completa.

A ginecologista e chefe da Divisão Médica da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand, Zenilda Vieira Bruno, aponta que, diante do cenário, a qualidade do pré-natal deve melhorar. As mudanças devem incindir na realização de exames laboratoriais e nas medicações.

"No momento do parto, é importante maior disponibilidade de leitos, para não ter atraso na resolução do parto, com maior disponibilidade de leitos de UTI neonatal para os bebês prematuros", relata Zenilda.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/01/2026. Cidades. p.17.


 

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