sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

PASSADO PRESENTE

Pedro Henrique Saraiva Leão (*)
Em 30 de junho de 1829 nascia no Rio de Janeiro – pelas mãos do doutor Joaquim Cândido Soares de Medeiros – a primeira sociedade de médicos no Brasil, depois Academia Imperial e logo Academia Nacional de Medicina. Esta sempre foi mais carioca, paulista, gaúcha e mineira do que dos outros brasileiros, especialmente destas bandas setentrionais do Norte/Nordeste. Apenas três cearenses são ali membros titulares, os doutores Ernane Aboim, Mário Correia Lima, e Manassés Claudino. Como sócio honorário foi recentemente aceito nosso conterrâneo Djacir Figueiredo.
No Ceará, 149 anos após, surgiu a Academia Cearense de Medicina, patronada por Antônio Justa, em 12 de maio de 1978, à qual tenho a honra de pertencer desde janeiro de 2001. Esta teria sido concebida como outro palco para a pioneira Faculdade de Medicina do Ceará, criada ao lado do Theatro José de Alencar, em 12 de maio de 1948. Realizava-se assim o sonho do doutor Jurandir Picanço, acolitado por José Carlos Ribeiro, Newton Gonçalves, Waldemar Alcântara e Walter Cantídio, seus fundadores, historicamente reunidos em conhecida fotografia. A Comissão Organizadora da novel instituição ostentava Haroldo Juaçaba, um dos ícones da cirurgia no Ceará. (In Newton Gonçalves “Prosa Dispersa”. Editora da Universidade Federal do Ceará, 1995, e “Medicina na Terra da Luz – AMC 100 anos”, de Garcia, A.K., Neves, F.C., e Sales T. C. Fortaleza, 2014).
As academias datam da Idade Média, como grêmios de indivíduos instruídos, zelosos do progresso nas artes, na literatura, ciência, música e/ou outras atividades intelectuais. Uma das mais antigas é a de Florença (Itália, 1442) e famosíssima ficou a Academia dela Crusca, ali, em 1582. “Crusca” significa “farelo”, ou aquele joio, daninho que contamina o trigo. A missão desse colegiado era purificar o toscano, a língua literária da Renascença. Tais congregações literárias têm como meta precípua (principal) cultivar sua respectiva linguagem, e divulgar a escritura dos seus membros, assim tornando-a imortal, posto serem terrenos próprios, transitórios.
Por original índole primam sobremaneira na preservação da sua memória, mercê de um compromisso de solidariedade com seus mortos. Exercendo tão louvável, cristã deferência, o atual presidente da Academia Cearense de Medicina – doutor Vladimir Távora Fontoura Cruz – costuma abrir suas reuniões lendo atas de sessões de décadas passadas, em reverência a atores já ausentes daquele palco. Comporta-se atanasicamente, i.e., do grego “a” = sem, e “tanatos” = morte. Por inspiração sua prestou-lhes enaltecedora homenagem em dezembro último, em solenidade denominada “1ª Sessão Remêmora”, recordando seis colegas desaparecidos esse ano ou então centenários.
Foram estes os doutores “encantados”, como chamou o também médico Guimarães Rosa, e os seguintes aqueles que lhes fizeram o merecido panegírico (elogio público): João Barbosa Pires de Paula Pessoa (dr. Sérgio Pessoa), Artur Enéas V. Filho (dr. Flávio Leitão), Edilson Gurgel Santos (dr. Evangelista B. Filho), Alber F. Vasconcelos (dr. Vladimir Távora), Aluysio Soriano Aderaldo (dr. George Magalhães), e F. Aluísio Pinheiro (dr. Ronaldo Mont’Alverne). Na plateia, como diria o/a romancista inglês/a George Eliot (+ 1880), ouvia-se ao longe o coro invisível daqueles imortais que viviam de novo.
(*) Médico, ex-presidente e atual secretário geral da Academia Cearense de Letras.
Fonte: O Povo, Opinião, de 27/1/2015. p.8.

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