Por Izabel Gurgel (*)
Melhor do que Carnaval é Carnaval com
chuva.
Vale, claro, para quem, como eu, gosta das
duas coisas.
Escrevo fora de hora e ouvindo trovões.
Chove lá fora e me vem à lembrança um
Carnaval que passou, o primeiro trio elétrico da vida passando e parando justo
onde estávamos. Salve Salvador. "Chove lá fora..." começou tão
santinho, santinho e eu não sabia que era só a largada para o demo solto (e ele
é legião). Só eu não sabia.
Não lembro das cordas e dos cordeiros, como
se diz dos homens que seguram as cordas, fronteira que separa quem brinca
dentro e quem pula fora. Conheci a nomeação 'cordeiros' anos depois e só hoje,
trovejando lá fora, percebo que talvez venha da corda o batismo deles e não do
bicho associado ao sacrifício e invocado na missa. Aquele que tira o pecado do
mundo.
É preciso saber ler os sinais. Estamos
pessoas exauridas... As redes que uma querida professora farejou anos atrás
como antissociais estão cheias de lições extraviadas de interpretação de texto.
Diz-se isso nas redes em várias línguas. Com sotaque dos quatro cantos do
mundo, que não são aquela encruza benta por tudo de bom que é brincar. O
chamado Quatro Cantos de Olinda, os da canção "Me segura que senão eu
caio", de Alceu Valença.
Anoto Olinda outra vez e volto ao título do
texto, Bonito pra chover, o lindo trio que Leonardo Mota (1891-1947) anotou pra
gente de ouvir dizer em suas andanças pelos sertões do mundo.
Bonito pra chover, que o querido professor
Gilmar de Carvalho (1949-2021) tornou título e tutano de livro de ensaios sobre
a cultura cearense (o subtítulo). Publicação da Fundação Demócrito Rocha, 2003.
Vou citar Leota. O livro é "No tempo de Lampião", primeira edição no
começo da década de 1930. Lampião vivinho da silva.
Cito o Leota: "À noitinha, no pátio da
fazenda, um silêncio de angústia imobilizava os sertanejos, de ouvidos atentos
a algum trovão longínquo. Há três meses, uma preocupação indisfarçável chumbava
os espíritos à expectativa do inverno daquele ano. Seria possível que, mais uma
vez, o anjo mau do extermínio adejasse sobre a terra mártir? (...) Pleno março
e nenhuma esperança de inverno. Pela madrugada, ao filho varão que saíra ao
terreiro, a fim de ver se estava relampeando pro lado do Piauí ou se o céu estava
promisso de chuvas, o velho sertanejo pergunta, da rede em que está deitado na
sala da frente:
- Manoé, meu filho, está bonito pra
chover?".
É domingo de Carnaval. Em Fortaleza, vai
ter Rei de Paus na Domingos Olímpio. Cada vez que passa o maracatu do seu
Geraldo (Barbosa), fica bonito pra chover. Tem mais maracatu na rua. "Me
chama" é o título da canção que me fez ir atrás do trio elétrico. Ainda
estamos aqui.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/25. Vida & Arte, p.2.
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