Por José Nelson Bessa Maia (*)
O debate
internacional sobre inteligência artificial (IA) entrou em nova fase. A
discussão se concentra agora não apenas no potencial da nova tecnologia, mas em
regulá-la e utilizá-la para aumentar a produtividade e potencializar o
desenvolvimento de todos os países. Há divergências entre o Ocidente e a China
quanto aos objetivos estratégicos, ao papel do Estado, à governança, ao
tratamento dos dados e à forma de equilibrar inovação, segurança e direitos
individuais.
A divergência
entre as abordagens ocidental e chinesa não decorre de avaliação diferente
sobre a importância da IA - ambas a consideram uma tecnologia decisiva para o
futuro. A principal diferença está no modelo de governança. Em linhas gerais, o
Ocidente baseado no Liberalismo tende a privilegiar a inovação liderada pelo
mercado, com dispositivos de proteção a direitos individuais e de regulação de
riscos.
A China, por sua
vez, adota a estratégia de coordenação pública em que a IA é tratada como ativo
estratégico para impulsionar o desenvolvimento, modernização industrial,
prestação de serviços públicos e segurança nacional.
Na Conferência
Mundial de IA 2026 e em Xangai em 17-20 de julho, a China fez quatro
observações importantes sobre a IA: primeiro, a necessidade de cooperação
mutuamente benéfica e o estímulo à inovação. Para tal o código aberto, o
compartilhamento para facilitar a inovação, o desenvolvimento industrial e a
aplicação seriam essenciais para o avanço da IA.
Segundo, a
percepção dos riscos e a garantia de que a IA seja segura e controlável,
devendo estar sempre sob o controle humano e evitar a ênfase excessiva do
conceito de segurança nacional no campo da IA.
Em terceiro, foi
destacado o incentivo à inclusão e promoção do aprendizado mútuo entre as
nações, uma vez que o avanço da IA e sua aplicação não devem minar a
diversidade entre os países. Por último, a China defende a solidariedade e o
aprimoramento da governança global, cabendo à ONU um papel nessa mediação, de
modo a dar alinhamento e coordenação às estratégias de desenvolvimento, as
regras de governança e os padrões técnicos da IA.
A posição chinesa
tem méritos já que o debate sobre IA deixou de ser só tecnológico para se
tornar uma questão de estratégia econômica, competitividade industrial e
política pública. Passou a ser sobre uma ferramenta essencial para o
crescimento no século XXI, comparável ao papel que as ferrovias, a eletricidade
e a própria internet desempenharam no passado. Portanto, para os países do Sul
Global a cooperação internacional será essencial para transformar a IA em
aumento da sua competitividade e modernização, contribuindo para a
transferência efetiva das novas tecnologias digitais e colocá-las a favor de
seu genuíno desenvolvimento e soberania.
(*)
Ex-secretário de Assuntos Internacionais do
Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.
Fonte:
O Povo,
de 25/07/26. Opinião. p.23.

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