Por Leda Maria, jornalista e escritora
Havia em Flávio Leitão uma maneira singular de
caminhar pela vida: com sabedoria, simplicidade e um profundo reconhecimento de
tudo aquilo que verdadeiramente importa. A solidariedade, o bem-querer, a delicadeza
nas relações e a capacidade de acolher o outro eram valores que
cultivava com naturalidade. Preferia sempre a paz à disputa, a essência às
aparências, a suavidade à vaidade e a firmeza do coração às palavras vazias.
Inteligente, culto e profundamente humanista, Flávio transformava conhecimento em serviço.
Foi assim que construiu uma trajetória admirável como professor e líder docente
da Faculdade de Medicina da UFC, contribuindo decisivamente para a
formação de gerações de médicos. Na medicina, exerceu com competência e
generosidade a arte de cuidar.
Em seu consultório e nos muitos hospitais de Fortaleza
onde atuou, acolheu pacientes que, muitas vezes, além do tratamento, buscavam
nele uma palavra de conforto. Não por acaso, alguns dos mais necessitados
chegaram a chamá-lo de "santo", reconhecendo naquele médico
uma presença que ultrapassa os limites da profissão.
Mas foi na família que sua missão encontrou uma de suas
expressões mais profundas. Ao lado de Marimilia, companheira de toda uma
vida, construiu um lar onde o amor, a ternura e o aconchego se tornaram
fundamentos. Foi nesse espaço de afetos que os filhos aprendem, por
exemplo, a força da generosidade e a responsabilidade de fazer o bem.
Entre os amigos que conquistou, os alunos que formou, os
colegas de profissão, os escritores e acadêmicos com quem conviveu e os tantos
grupos dos quais participou, Flávio deixou uma marca luminosa. Sua
presença tinha a rara capacidade de aproximar pessoas, suavizar diferenças
e transformar encontros em vínculos duradouros.
Partiu em 1º de setembro, sob o brilho de uma lua cheia que parecia
acompanhar, silenciosamente, sua nova trajetória. Ficou, para todos nós, a
lembrança de um homem que fez da vida uma permanente lição de
solidariedade, paz, conhecimento e alegria. Um homem cuja luz não se apaga
com a partida: permanece na memória, nos ensinamentos e, sobretudo, no
coração de quem teve o privilégio de conhecê-lo.
A VOZ DO FILHO
"Chorarás teus mortos por três dias." Papai sempre dizia isso para nós. Agora, eu digo: é
impossível, papai, chorarmos a sua partida por apenas três dias, mesmo
amparados pela fé e pelas palavras de Cristo: "Não perturbe o
vosso coração, porque eu preparei um lugar para vocês".
Ainda assim, é muito difícil, neste momento, manter os
olhos secos e conter a emoção. Mas o senhor sempre nos ensinou que o
espírito deve prevalecer, amparado pela razão e pela sensibilidade
de ouvir e atender os aflitos.
Nós vamos seguir a vida fazendo aquilo que o senhor
sempre nos ensinou: praticar a caridade, fazer o bem sem olhar a quem,
acolher quem nos procura, oferecer atenção aos pacientes, cercá-los de carinho
e compreender a dor do próximo — a dor de um familiar, a dor de um amigo.
Ouvindo, escutando e mantendo o bom senso para compreender... É difícil falar. O
senhor sempre foi o melhor orientador. Por isso, é impossível, neste
instante, explicar o amor mergulhado em uma profunda saudade."
E, entre soluços, encerrou-se o depoimento de Flavinho,
o filho amado, que traduziu em palavras aquilo que todos sentiam: a
dimensão imensa da perda e a permanência de um amor que o tempo jamais será
capaz de apagar.
O RECONHECIMENTO DOS AMIGOS
JOÃO MACEDO, MÉDICO E DIRETOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA
UFC
"Doutor Flávio Leitão foi uma referência da
medicina cearense. Ajudou a desenvolver a neurocirurgia em nosso
meio, foi um exímio cirurgião e deu uma contribuição muito grande à
universidade, tendo-se destacado como chefe do Departamento de Cirurgia da
Faculdade de Medicina da UFC. Com a aposentadoria, dedicou-se às letras,
tornando-se membro extremamente ativo da Academia Cearense de Médicos e
Escritores, da Academia Cearense de Letras e da Academia
Metropolitana de Letras."
JUAREZ LEITÃO, ESCRITOR
"Flávio Leitão foi o cidadão querido por todos:
afável, sorridente, educado, fino. Era uma das grandes unanimidades afetivas de
Fortaleza. Cronista e contista de estilo leve, membro e secretário da
Academia Cearense de Letras, deixa uma cidade inteira mergulhada na saudade.
Sua figura cativante permanecerá perene na memória de Fortaleza, onde
desenvolveu, com dignidade, competência e bem-querência, sua trajetória vital.
Flávio Leitão está vivo em nós."
HENRY CAMPOS, MÉDICO E PROFESSOR
"Flávio Leitão foi um homem extraordinário:
inteligência fulgurante, humanista profundamente culto, mestre como poucos do
conhecimento científico vigoroso e da arte médica. Pontificava pela doçura,
elegância, generosidade e solidariedade. Inabalável em sua ética,
associada a um grande espírito público e conciliador, deixa um exemplo de
cidadania e de defesa intransigente da democracia."
JOSÉ MARIA BONFIM, MÉDICO E ESCRITOR
"Professor Francisco Flávio Leitão (1939-2026),
uma eterna saudade. Pouco a pouco, a vida vai nos levando aqueles que nos
alegram e encantam, negando-nos o abraço, o sorriso, o encontro que é a
vitalidade do nosso viver. Flávio Leitão sintetizava toda essa face admirável
de passear pela vida. Era uma referência para toda a comunidade médica.
Sabia manter um convívio leve, amigo e jocoso."
FERNANDO PONTE, PADRE E MÉDICO
"Ele foi seminarista no Seminário da
Praínha. Por toda sua história atendeu muitos pobres que não podiam
pagar um médico. Eramos amigos há mais de 60 anos, e estive com ele
durante o período de sua enfermidade. Na segunda-feira, fiz a última visita,
acompanhando de pertinho a assistência da família. Ele foi um pai e marido,
exemplar".
ERNANDO SOUZA, MÉDICO
"A Medicina cearense perdeu ontem um de seus grandes
nomes. Flávio Leitão, neurocirurgião, professor e sensível escritor, deixa um
legado que vai muito além da técnica: o compromisso com o conhecimento, com o
ensino e com as gerações seguintes. Para nós, médicos mais jovens, fica o
exemplo de que uma grande carreira não se mede apenas pelos títulos
conquistados, mas pelo conhecimento compartilhado, pelas pessoas
que ajudamos a formar e pela mão que estendemos aos mais
necessitados."
SULIVAN MOTA, MÉDICO
"Um grande médico. Um grande professor. Um grande
ser humano. Hoje, uma grande saudade."
RAFAELA CORTEZ, VIZINHA E AMIGA
"Havia nele uma leveza rara, uma leveza
d'alma de quem já estava ancorado em um plano maior. Não precisava de muitos
discursos; sabia falar apenas com o olhar. E que olhar! Olhos grandes,
luminosos e profundamente expressivos, capazes de acolher, advertir ou acalmar
sem que um único som fosse emitido. Mas também era um grande apreciador
de uma boa prosa. A porta do céu é bem pequenininha, mas ele passou foi
sobrando. Já está com Deus e Nossa Senhora."
Fonte: O Povo, de 5/09/2026.
Leda Maria V&A. p.3

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