Por Márcia Alcântara Holanda (*)
— Até que enfim! — disse minha amiga Rita
ao ler este título. — Agora você vai falar da solidão sem romantizá-la.
Ela tinha razão. Enquanto liamos o texto,
acompanhava cada frase com o dedo na testa, cenho franzido, caras e bocas, mas,
desta vez, parecia solidária às minhas ideias.
— É isso mesmo, Rita. Existe a solidão
cruel: a do abandono, da invisibilidade e do idadismo. Essa fere, aniquila
vidas e precisa ser combatida. A boa notícia é que hoje já conhecemos a
dimensão do problema. Os números mostram que o Brasil envelhece rapidamente e
precisa aprender, com urgência, a cuidar de seus velhos. É tempo de inovar na
forma de acolher idosos com suas limitações da idade e das doenças crônicas,
prevenindo sofrimentos que tantas vezes decorrem do descuido "Quem vai
cuidar de você? Brasil envelhece sem se preparar para a conta da longevidade
(Folha, 12-07-2026) desvenda essa grande questão sugerindo rotas possíveis de
controle das mazelas de nós, os velhos brasileiros.
Mas existe outra solidão. É dela que falo
agora.
Fernanda Montenegro disse, em entrevista ao
Canal Brasil: "Por mais que você seja amado, por mais que seja cuidado, a
velhice é solidão. É saber viver na solidão."
Concordei.
Não pela falta dos outros, mas porque chega
um tempo em que ninguém pode ocupar o lugar da nossa própria consciência. É
você diante de si mesmo, do que ainda é e do que já não é mais.
Foi isso que aconteceu comigo quando, aos
79 anos, a velhice me sacudiu inteira.
Assustou-me, mas trouxe uma paz que eu
nunca conhecera.
Passei grande parte da vida correspondendo
às expectativas da sociedade: ser produtiva, bonita, jovem, disponível, mãe e
profissional competente. Como tantas mulheres, deixei que aparassem meus
desejos para caber nos moldes do tempo.
Hoje percebo que meu livre-arbítrio era
menos livre do que imaginava.
A velhice devolveu-me algo precioso: a
liberdade de escolher por mim, sem culpa, sem disputas e sem a necessidade de
provar meu valor.
Rita interrompeu meu entusiasmo:
— Mas nem toda velhice vive isso.
— Sim! — respondi. — Estás com razão.
A Organização Mundial da Saúde afirma que o
idadismo atinge metade da população mundial. É ele que invisibiliza,
infantiliza e afasta pessoas idosas, produzindo a mais dolorosa das solidões.
Clarice Lispector mostrou isso
magistralmente em "Feliz Aniversário". Cercada pela família, Dona
Anita chega aos 89 anos profundamente só.
Percebo, então, que existem algumas
solidões na velhice.
A que nos é imposta pelo preconceito.
E a que nasce quando aprendemos a fazer boa
companhia a nós mesmos.
A primeira precisa desaparecer.
A segunda pode ser uma das maiores
conquistas da velhice.
— Então você continua gostando da palavra
solidão? — insiste Rita.
Continuo.
Porque já não a confundo com abandono
acabamos de discernir as duas.
Passei boa parte da vida tentando não ficar
só.
A velhice ensinou-me que era justamente
ali, no encontro comigo mesma, que morava a liberdade que procurei durante toda
a vida.
(*) Médica pneumologista; coordenadora do
Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense
de Medicina.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/2026. Ciência &
Saúde. p.16.

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