Por Raymundo Netto (*)
Conheci o contista e cronista Pedro
Salgueiro em uma van rumo ao Aracati, em 2005, quando lancei meu primeiro
livro: "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada".
O Pedro é funcionário público. Na época,
tinha parte das tardes livres e eu estava terrivelmente desempregado. Assim,
passei a encontrá-lo muito frequentemente, fosse em sua casa - e até
participando das festas de sua família, pois ele ama a sua família -, em
livrarias, sebos e bares ou em lançamentos, onde ele me apresentava a
escritores cearenses e aos escritores do mundo, em horas e horas de conversas
sem pressa em alguma calçada de bar. Além de ter uma biblioteca imensa, ele
compra livros para distribuir aos amigos e chegados. Sensível, inteligente e
generoso, ele lê as obras desses amigos, percebe-lhes as tendências, estilos e
afinidades e oferece a eles livros que crê serem indispensáveis à sua formação
literária. Acompanhado de copos de cerveja e de tripa assada, em seus grupos -
é muito gregário - ele é apenas um leitor, mas um grande leitor. Sem
pedantismo, analisa as obras, destrincha narrativas, discorre sobre a biografia
e particularidades daqueles autores, quase como se fossem vizinhos ou amigos,
numa naturalidade de quem vive o que diz e o que faz.
Na época que o conheci, ele estava com a
coletânea de contos "Dos Valores do Inimigo" no Vestibular da
Universidade Federal do Ceará (UFC). Diversas vezes, pude assistir ao brilho do
olhar dos jovens estudantes que se reuniam em grupos para conversar com ele.
Eram rodas alegres, e não havia ali uma estrela, um escritor sobre pedestal,
mas um homem simples que ama a literatura que lê - e como lê - e que produz,
mas em um ritmo descansado, pois sempre preferiu viver do que cultuar a viciosa
sede da fama. Com seu boné sobre a cabeça, o copinho americano de cerveja em
uma mão e pendendo na ponta do indicador da outra um saco plástico com mais
livros adquiridos de sebos da região, Pedro desmitificava a figura do escritor.
Expunha sobre sua escrita, suas influências e seus mestres em uma conversa tão
despretensiosa a deixar claro para aqueles jovens que a leitura e a escrita são
manifestações e expressões humanas, e é nisso que reside a sua arte e magia.
Ensimesmado em meu canto, podia imaginar o
menino que acordava no fundo encardido da rede, despertando o olhar para os
caibros tortos com ripas de marmeleiro de sua casinha humilde no Alto das
Pedrinhas de Tamboril, sob as bênçãos do Serrote do Feiticeiro. Aquele que
trazia no peito em lágrimas a grande admiração pelo pai, o seu Arimateia, que
fora agricultor, comerciante, prático de farmácia e que, na experiência de ser
candango em Brasília, aprendeu a "arte das solas, vaquetas, pregos e
virolas", vivendo e morrendo sapateiro, ainda jovem, aos 58 anos. Um
menino grande e ainda malino cujo sangue do braço esquerdo corria "pelas
veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o sangue das tristes Oliveiras,
dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha". Sua escrita é
atraída pelos "minúsculos seres que sobrevivem nas sombras", e seu
tema predileto é a morte e os "assassinatos verbais", assombrado que
é pelo som de badalos e chocalhos tinindo no escuro.
É provável que sua escrita, principalmente
das crônicas, se dê tomando o cafezinho coado da vó Candinha e comendo as
bruacas assadas de dona Geny em cadeiras de balanço à sombra de castanholeiras,
ao lado do avô Chico Inácio, a prosear sobre seus livrinhos de caubói e
assistindo ao "diabo que, rosianamente, redemoinha no terreiro".
Eu tive muita sorte de ingressar no meio
literário com a colaboração, incentivo e a amizade desse "sertanejo
exilado no litoral". Aprendi e sempre aprendo muito com ele. É uma grande
figura, inegavelmente escritor dos melhores já nascidos no Ceará. E aqui
carimbo essa homenagem sincera de gratidão e respeito para esse meu grande
amigo.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/07/26. Vida & Arte, p.2.

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