terça-feira, 29 de agosto de 2017

MEDICINA DO GENOMA


Pedro Henrique Saraiva Leão (*)
A contemplação das percucientes (penetrantes) descobertas científicas lembram-me o dramaturgo (teatrólogo) Shakespeare (+1616), considerado o poeta nacional da Inglaterra, o “Bardo (poeta) de Avon” (rio de sua cidade Natal), e o maior dramatista de todos os tempos. Em “Hamlet”, das mais famosas tragédias (1600 ou 1601) ele sentenciou: “Há mais coisas no céu e na terra, Horatio / Do que sonhadas na tua filosofia” (“There are more things in heaven and earth, Horatio/ Than are dreamt of in your philosophy”). Realmente, em Ciência há mais do que veem os olhos. O século XXI deve representar 20 mil anos de progresso científico na Iatrologia (Medicina. Do grego “iatrós” – médico).
Tudo começou com o monge austríaco, também botânico e meteorologista Gregor Johann Mendel (1822-1884). Estudando ervilhas e outras plantas, no seu mosteiro da República Tcheca, descobriu os genes, ou gens, os verdadeiros arquitetos da nossa hereditariedade, do nosso destino. Mendel morreu aos 62 anos como o Pai da Genética. A palavra “gene” foi criada por outro botânico, dinamarquês, Wilhem Ludwig Johansen. Para o leitor curiosíssimo (pois os há) registre-se um sinônimo de gene: “cístron”.
A estrutura genética se apresenta como sequências de ácidos nucleicos, especificamente o DNA - ácido desoxirribonucleico -, e o RNA, ou ribonucleicacid. O primeiro – aquele de dupla hélice – aloja nosso código genético, enquanto as proteínas são sintetizadas pelo RNA. A descoberta dessas hélices por Francis Creek (1953), valeu-lhe o prêmio Nobel em 1962, como salientamos em “Crack, Crik, Krok”, de 24/6/2015. Ali recordamos tal achado ter sido oniricamente induzido (concebido em sonhos), após o uso de LSD, alucinógeno apreciado por vários escritores e cientistas daquele tempo. Os genes controlam nosso metabolismo, e nas mutações em células germinativas (óvulos e espermatozoides) “vazam” informações para ge(ne)rações futuras.
Denomina-se “genoma” o conjunto de + 35/40 mil genes que possuímos, em cada célula do corpo.
Em 1950, Roger Williams criara o conceito de individualidade genética, comprovando sermos bioquimicamente distintos, portando tipos de genes (genótipos) particulares e individuais como as impressões digitais. Explica-se assim a eventual diferença de resultados entre tratamentos idênticos de pessoas díspares. Parece não haver doenças, mas doentes. Ratificada fica a adoção de terapêuticas “sob medida”, “tailorizadas” (do inglês “tailor” = alfaiate), personalizadas, como salientamos em “Medicina sartorial”, em 26/11/2014. Aludidos conceitos alimentaram o transcendental Projeto Genoma Humano, criado em 1990 nos EUA, por James D. Watson, envolvendo mais de 5000 cientistas (inclusive no Brasil), e concluído em 2003.
Esse magno empreendimento respaldou as primeiras tentativas de terapia genética humana (1990), sendo hoje empregada em bactérias, plantas e animais. Conquistou-se uma das últimas fronteiras da Medicina, agora querendo-se mais eficaz. Saravá! Barak Obama, pelos 100 milhões de dólares para pesquisa em 2014 (revista IstoÉ, 10/4/2013). Tornaram-se exequíveis os painéis genéticos laboratoriais.
Os cientistas já debatem a imunoprofilaxia por transferência de gens, e a inversão do envelhecimento, por reprogramação de células senis (vide “Nanomedicina”, de 17/5/2017).
Já se disse que o futuro não é mais como antigamente! E entre nós, no “Brasilgate”? Consoante o dr. Carlos Vital (!), presidente do Conselho Federal de Medicina, “a saúde não é prioridade no Brasil” dos anos recentes (Jornal Medicina, 9/2014). Aliás, naquele ano eleitoral nossos governos aplicaram apenas R$ 3,89/dia para a saúde de cada brasileiro. Pasmem!
(*) Professor Emérito da UFC. Titular das Academias Cearense de Letras, de Medicina e de Médicos Escritores.
Fonte: O Povo, 26/07/2017. Opinião, p.10.

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